A. Faturanın İspat Vasıtası Olma Özelliği
3. Faturanın Delil Olma Niteliği
Abordar os vazios a partir da função social significa analisar a falta de usos, de construções ou de funcionalidade de um determinado espaço dentro de uma perspectiva de interesses da coletividade. Dessa forma, é um vazio urbano o prédio público abandonado em áreas centrais que poderia ser utilizado como habitação de interesse social118, mas que se encontra desocupado. Igualmente não cumprem sua função social e portanto, configuram vazios urbanos, os terrenos particulares que se mantêm desocupados ou subutilizados, à espera de um aumento do valor do terreno que proporcione aos seus proprietários benefícios individuais no futuro, num processo contínuo de especulação imobiliária, como já abordamos anteriormente. Ao ponderar os vazios-heterotopias a partir do interesse coletivo, define-se que eles são espaços para os quais novos usos e apropriações são desejáveis ou até mesmo necessários (se assim prevê a legislação).
A concepção de função social, que “foi introduzida no discurso jurídico no início do século XX pelo francês Léon Duguit119 sob influência do pensamento de Saint-Simon e de Auguste Comte120” (IPEA, 2015, p. 35) se entende como a prevalência de uma função coletiva acima do direito absoluto da propriedade privada. Essa concepção incube aos terrenos (nesse caso tanto os rurais quanto os urbanos, de acordo com a legislação) o cumprimento de alguns requisitos determinados por lei para garantir o aproveitamento racional e adequado de recursos, tanto dos recursos naturais quanto dos recursos de infraestruturas providos pelo espaço urbano.
118
O exemplo da habitação social é usado por ser um dos usos que permitem flexibilização dos parâmetros de ocupação em algumas legislações municipais, apresentando condições favoráveis e desejáveis para implementação em áreas centrais.
119
León Duguit foi um filósofo do direito e jurista francês, autor de livros importantes para a área do direito como “Fundamentos do Direito”(1911), “Transformações Gerais do Direito Privado” (1912, tradução nossa) e “Transformações Gerais do Direito Público”(1913, tradução nossa) . Seu trabalho se embasa na crítica às ideias jurídicas tradicionais, com grande repercussão no campo do direito público.
120
Saint-Simon foi um economista francês e um dos principais precursores do socialismo moderno, considerado por muitos como o pai da sociologia juntamente à Auguste Comte, filósofo francês e idealizador da filosofia positivista, uma concepção de mundo não-teológica a partir do qual se desenvolveu a ciência moderna.
No contexto brasileiro, o Estatuto da Cidade já prevê instrumentos que abordam o vazio sob a perspectiva da função social, denominando tais espaços como solo urbano não edificado, subutilizado ou não utilizado (Brasil, 2001). Na legislação brasileira a aplicação de parcelamento, edificação ou utilização compulsórios, bem como o IPTU progressivo no tempo e desapropriação com pagamento mediante títulos da dívida pública, são procedimentos de prevenção de vazios urbanos, à medida que induzem o cumprimento da função social da propriedade.
A ausência de função social auxilia além disso, na distinção entre áreas vazias e áreas verdes. Áreas de parques, praças e espaços verdes em geral, embora muitas vezes se configurem vazios (por falta de usos, por falta de construção ou por falta de usuários) cumprem uma função social, seja como espaço de lazer e convívio, ou como espaço de preservação ambiental, e por isso não podem ser considerados vazios urbanos. Contudo, ainda que o recorte metodológico seja extremamente objetivo, sua delimitação ainda esbarra em algumas contradições. A começar pela própria diversidade na determinação do cumprimento da função social, já que de acordo com o artigo 182 da Constituição Federal “a propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor” (Brasil, 1988).
Isso significa que cabe à cada município a definição do que seria ou não um vazio urbano no seu território, podendo este ser determinado por diferentes parâmetros. O relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA (2015) que avalia a regulamentação e a aplicação dos instrumentos compulsórios e do IPTU progressivo nos municípios brasileiros, demonstra que os dispositivos presentes nos planos diretores se diferem muito, tanto porque partem de diferentes diretrizes ou objetivos de política urbana, quanto porque os critérios para delimitação das áreas de incidência dos instrumentos compulsórios ocorrem de maneira um tanto aleatória, sem nenhum tipo de estratégia comum (IPEA, 2015, p.50).
Uma outra discussão acerca da função social se faz pertinente, ao abordar áreas de estacionamento como vazios urbanos, o que também já comentamos anteriormente.
5.3.1.
V
AZIO HETEROTOPIA01
Em meio às comemorações do Dia Internacional da Mulher, integrantes do Movimento de Mulheres Olga Benário ocuparam, junto de outras apoiadoras, o Edifício Cássio Pinto, antiga propriedade da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e atualmente em posse do Tribunal Regional do Trabalho (TRT-MG), uma edificação de apenas dois andares na esquina com a Rua Espírito Santo e bem no Centro de Belo Horizonte, que se encontrava há quase vinte anos desocupada.
Figura 28 - Ocupação Tina Martins, segundo andar antes da limpeza das benárias
A ocupação foi planejada para dar destaque à pauta das mulheres trabalhadoras na data que marca a luta pelo direito das mulheres mundialmente e recebeu o nome de Tina Martins121, reivindicando inicialmente mais casas abrigos, delegacias 24 horas e creches em tempo integral. O ato estava vinculado à uma série de outras ações realizadas nacionalmente pelo Movimento de Mulheres Olga Benário, movimento feminista classista que luta pelo direito e pela segurança das mulheres e que em Minas Gerais está fortemente articulado ao Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e às ocupações urbanas.
O que seria originalmente um ato político temporário, se transformou em ocupação permanente muito rapidamente, já que de acordo com algumas benárias122 já era possível perceber naquelas primeiras vinte e quatro horas, a força da pauta e a urgência das reinvindicações feitas. Era também notável que a localização geográfica do espaço se traduzia em visibilidade à causa, quase como se fosse preciso realmente “ver com os próprios olhos” para apreciar a luta coletiva que ali se estabelecia.
Já no primeiro dia de ocupação ocorre a primeira reunião na Secretaria Estadual de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania (SEDPAC) que abriga o Conselho Estadual da Mulher (Girundi, 2016) e a partir de então, transcorreram-se 87 dias de ocupação na Guaicurus, dos quais 67 foram acompanhados por mesas de negociação que envolviam instâncias de governo federal, estadual e municipal.
Desde o início da ocupação e das negociações com o Estado parece ter ficado claro a impossibilidade de transformar aquele vazio-heterotopia (que aos olhos do estado ainda era vazio mesmo quando estava ocupado) em casa abrigo, principalmente pelas restrições mandatórias à um espaço de abrigamento que garantam a segurança e a privacidade da abrigada. Assim a Ocupação Tina Martins
121
O nome é uma homenagem à Esperitina Martins, jovem anarquista e militante feminista que aos 15 anos se transformou em uma referência na luta da mulher operária quando, durante os confrontos entre grevistas e militares conhecido como a Batalha da Várzea em Porto Alegre, jogou na cavalaria da Brigada Militar uma bomba escondida em um buquê de flores, causando sérios danos à tropa e culminando na vitória dos trabalhadores. (Informações retiradas do sítio: http://mulheres- incriveis.blogspot.com.br/2014/06/espertirina-martins.html, acessado em 24 de agosto de 2016)
122
Em Belo Horizonte, as integrantes do Movimento de Mulheres Olga Benário se tratam pelo nome de benárias, termo que pego emprestado aqui.
foi aos poucos se transformando em um espaço destinado ao acolhimento e ao fortalecimento das mulheres, construindo uma pauta de luta feminista através da experiência vivida durante os quase três meses no imóvel.
Durante esse tempo, uma intensa programação foi proposta para a casa, e várias das atividades abordavam direta ou indiretamente a construção de uma pauta feminista na cidade. Surge daí uma função social que o espaço vazio nunca abrigou. Foram realizados aulões, rodas de conversa, oficinas de canto, de violão, cine-debates e vários eventos culturais e todas as atividades propostas tentavam seguir o mote “feito por mulheres, para mulheres”. As discussões giravam em torno da emancipação financeira, emocional e material da mulher, discutindo a disparidade no mercado de trabalho, a violência doméstica e vários outros tipos de violência institucionalizada, as obrigações familiares e a falta de representatividade política.
Figura 29 - Casa de Referência da Mulher Tina Martins
Fonte: Adaptado de fotos disponíveis na página da Tina.
Além das vivências diretas com as abrigadas e da contribuição de uma rede ampla de apoiadoras feministas e apoiadores diversos, foi também a partir das próprias mesas de negociação que as atividades propostas pela Tina iam tomando
forma, que as pautas defendidas iam se transformando e se consolidando, e que um projeto de Casa de Referência começava a nascer. É portanto, fundamental entender de quem era o vazio ocupado, já que esses proprietários, talvez mais do que os outros, foram atores importantes nas negociações.
No caso da Ocupação Tina Martins compunham as mesas de negociação o Tribunal Regional do Trabalho (TRT-MG) e a Superintendência de Patrimônio da União (SPU) juntamente com outros representantes de instâncias estaduais e municipais, além, é claro, das representantes do Movimento de Mulheres Olga Benário e dos advogados da Tina Martins. Foi a partir dessas negociações que surgiram todas as resoluções para a desocupação do edifício, e a transferência da Tina Martins para outro vazio localizado no bairro Savassi.
Figura 30 - Ocupação Tina Martins no "prediozinho" à Rua Guaicurus
Fonte: Google Maps
Após um intenso processo de negociação com o Estado, ficou definido que a Tina desocuparia o prédio à rua Guaicurus, e passariam a ocupar um outro vazio na região da Savassi, que antes abrigava o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e se encontrava desocupado desde sua saída, em 2011123. No dia 02 de
123
Essa data foi informada por uma das integrantes da Tina Martins mas ainda não foi possível confirmar a informação.
Junho de 2016, após 87 dias de ocupação e ações que se constituíam através de vivencias comuns, as benárias se despediram do prédio no centro, e deram boas vindas à nova Casa de Referência da Mulher Tina Martins, localizada em uma das áreas mais nobres da cidade de Belo Horizonte.
A mudança para um novo vazio de certo transformou o cotidiano da casa, principalmente ao deixar de ser uma ocupação para se tornar um espaço com a tutela do Estado. A primeira das mudanças veio com o próprio nome. De acordo com integrantes do Olga Benário, o novo nome para a Tina Martins é uma junção das duas funções que o espaço da casa pretende abrigar: de um lado, permanece o desejo a de ser casa abrigo, ainda que com algumas limitações e adaptações; do outro lado, surge a ideia de se tornar um centro de referência, ideia essa que foi crescendo e se consolidando junto com a ocupação. A Tina renasce então como Casa de Referência da Mulher, um espaço autogestionado que se propõe a funcionar a partir de quatro eixos.
Figura 31 - Nova sede da Tina Martins
Fonte: Acervo pessoal
O primeiro eixo é o de assistência emergencial, que trabalha junto à rede de enfrentamento do estado para receber e encaminhar mulheres vitimas de violências ou em situações de vulnerabilidade. O segundo eixo promove a informação permanente, trabalhando em direção à conscientização das mulheres de seus direitos, e dos locais existentes e procedimentos necessários para que elas lutem por ele. O terceiro eixo é o