2. KURAMSAL BİLGİLER VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
2.2. Fıkra Kavramı Üzerine
2.2.1. Fıkra Türünün Tanımı ve Fıkra Kavramı
Desses anos destinados a presente investigação, de 2009 a 2017, foi possível perceber que esse espaço tão particular chamado blog de fotografia conjurou em um só tempo uma série de qualidades que os tornou sítios heterotópicos, na acepção foucaultiana do termo: espaço de escoamento da produção fotojornalística; espaço de contato com o internauta; espaço de criação autoral e poética, espaço de comentário das técnicas e das rotinas produtivas; espaço de reflexão e conceitualização do saber e das práticas fotojornalísticas; e, enfim, espaços de memória biográfica e construção de si.
Como espaços capazes de justapor vários elementos que seriam incompatíveis entre si, pensar os blo- gs de fotografia dos jornais impressos de maior circulação do Brasil como heterotopias é entendê-los como “utopias possíveis” (Foucault, 2013), ou seja, apesar do acesso à plataforma ser real, os ideais de liberdade criativa; imersão documental; extinção do deadline; e fim das barreiras entre arte e informa- ção, produção e recepção, profissionais e amadores dentro do jornalismo; permanecem como horizonte utópico os fotojornalistas. Por ora, os repórteres fotográficos praticam nos blogs algumas experiências
neste sentido; ainda que, muitas vezes, elas fiquem aquém das expectativas dos mesmos e das potencia- lidades da ferramenta. Em outras palavras, mesmo com todos os esforços por parte dos fotojornalistas em ampliar as linguagens e apresentar outras faces dos acontecimentos fotografados, o que em geral se percebeu foram os blogs de fotografia sendo utilizados como escoamento da produção rechaçada pela edição impressa e pela versão online dos jornais aos quais estão ligados institucionalmente.
Ao escoar a produção fotojornalistica diária foi possível inferir que, dentro do campo jornalístico, o impresso ainda é considerado local nobre para a publicação do material fotográfico, privilegiando o uso de imagens únicas e de flagrantes, ou seja, capazes de capturar o cerne do acontecimento noticiado. Já nos blogs, entravam outras imagens realizadas durante a cobertura das pautas ou mesmo ensaios extra pautas, porém, com ênfase em imagens plasticamente mais interessantes, com menos elementos huma- nos em ação e que eram capazes de compor uma narrativa visual essencialmente poética, alçando o fo- tojornalista à categoria de autor. Também, nestes espaços heterotópicos fica evidente o distanciamento dos conteúdos postados com os que ganham as páginas dos impressos, afastando-se do agendamento midiático e dos valores-notícias convencionais. Raras vezes uma mesma notícia é veiculada em mais de um blog no mesmo dia.
Entendido pelos realizadores como mais um canal de contato com o público, ficou evidente, ainda, que o espaço dos blogs era estruturado de forma a delimitar a atuação dos internautas como simples admiradores do trabalho dos profissionais mais do que uma plataforma de troca de informações e de relações igualitárias entre os participantes. Aos aficionados ou entusiastas do tema, os blogs de foto- grafia disponibilizavam apenas o box do comentário ou o e-mail dos editores para que pudessem expor opiniões, tecer elogios ou críticas e sanar eventuais dúvidas, ainda que a curiosidade dos leitores fosse tida como uma oportunidade para os repórteres fotográficos estabelecerem uma espécie de propedêu- tica das práticas fotojornalísticas. O mesmo procedimento apareceu quando os fotógrafos passaram a detalhar nos blogs as técnicas/tecnologias empregadas na captação das imagens. Também percebemos que a adversidade para a captação das imagens e a relevância social do fato noticiado agregava valor à obra. Isto é, todos os fotógrafos que contribuíram com os blogs de fotografia apontaram como suas “melhores fotos” as que reuniam ambas qualidades ou que receberam prêmio da categoria e reconhe- cimento dos pares. Nos blogs, imagens que mostravam os bastidores de uma cobertura difícil - como guerras, catástrofes ambientais, ou simplesmente as que retratavam os fotógrafos sob “mau-tempo” - eram utilizadas para valorar o trabalho de toda uma categoria e para dar visibilidade a quem “sempre está atrás das câmeras”, conforme as palavras do próprio editor do FocoBlog. Ainda, dilemas éticos apareceram nas falas destes fotojornalistas, que aproveitavam a ocasião para realizar uma crítica pro- funda à atividade e para discutir as bases deontológicas da profissão, chegando ao que Giddens (2003) definiu como “consciência discursiva”.
Quando consideramos, por exemplo, as construções biográficas de si nos blogs vimos que as memórias pessoais dos fotógrafos eram atreladas aos momentos mais significativos da profissão, tecendo uma aparente uniformidade entre vida e obra; ou quando se referiam às técnicas utilizadas para captação das imagens ao mesmo tempo era possível compreender os impactos das mudanças tecnológicas nas rotinas produtivas da fotografia jornalística, uma vez que aos fotojornalistas foram solicitadas perfor- mances cada vez mais multimidiáticas.
Desde a descrição da atividade até a teorização do campo, vimos enunciados e experiências movimen- tarem uma vontade de verdade sobre a vida e a obra dos repórteres fotográficos, numa clara aproxima- ção entre os fatos relevantes do mundo e a missão social de mostrá-los. Nesse sentido, ficou claro que o
conceito de fotografia jornalística e de prática profissional não são determinados pelo objeto analisado, mas são construídos por discursos que se interpenetram e se reforçam dentro de uma arena simbólica. É preciso, para ser fotojornalista e fazer fotojornalismo, entrar na ordem do discurso, que não é natural e que deseja, em última instância, o poder legítimo de narrar os acontecimentos; de alçá-los à catego- ria de arte, de ter o dom para realizar tal feito. Assim, os fotojornalistas forjam uma verdade que seria intrínseca à prática, a partir de um conjunto de qualidades reservadas aos melhores: acuidade visual, perspicácia, senso estético, instante decisivo.
Diante disso, não bastava, então, pontuar e agrupar os discursos de acordo com a ocorrência de certos elementos isolados, mas sim, sublinhar as relações que efetivavam as reflexões sobre o campo, o reco- nhecimento dos colegas de profissão e dos leitores, enquanto peças imprescindíveis para a garantia da legitimidade do papel do repórter fotográfico tanto dentro da cadeia produtiva do jornalismo quanto perante à sociedade.
As alterações sofridas de 2009 a 2015 nos blogs de fotografia dos jornais impressos de maior circulação do Brasil, além de revelarem seus ciclos de vida, ajudam a entender a ampliação do regime visual fo- tojornalístico na contemporaneidade. Tais plataformas despontam, sobretudo, como espaços onde os fotojornalistas associam as atividades desenvolvidas aos eventos que cobrem no dia-a-dia, elaborando saberes sobre suas atividades profissionais. Podemos dizer que os blogs de fotografias dos jornais O Estado de S. Paulo, O Globo, Zero Hora, Diário Gaúcho e Correio do Povo tiveram seu apogeu em 2010 e 2011, período em que registraram maior número de postagens: ao todo 822. Obviamente, o número de postagem não sustenta a argumentação de que a “época de ouro” dos blogs de fotografia destes jornais passou. A afirmação se baseia, igualmente, noutras séries de dados. Uma delas é a queda no número de visitas anuais contabilizadas pelo FocoBlog: de 151.669 mil em 2010 para 42.035 mil em 2011, chegando a 33.837 em 20144. Também consideramos sintomático o fato do blog Olhar sobre o Mundo não ter publicado nenhum material no ano de 2013, sendo precedido apenas por sete postagens em 2012. Já em 2014 foi realizada uma única postagem nesse blog, não sendo mais abaste- cido desde então. Outro ponto considerado foi a retirada do ar do FotoGobo em 2014, mesmo que, segundo seu criador Marcelo Carnaval, 30 mil e- mails de internautas tenham sido recebidos nos cinco anos de existência do blog. Soma- se a isso a estratégia de entrar de vez no universo dos blogs estimu- lada pelo O Globo Online em 2003, que passou a ser rechaçada em 2009: o portal contava com mais de 150 blogs, cuja data de criação variava de 2005 a 2009 (Foletto, 2009: 49); já em 2015, o número baixou para 108 e novos blogs não foram lançados.
Efetivamente, muitos blogs revelaram-se produtos pouco lucrativos para as empresas de comunicação; apesar de que, com os anos, elas entenderam que o potencial da plataforma consistia em mobilizar audiências, muito mais do que gerar receita. Assim, mesmo apresentando baixo retorno financeiro, os blogs podiam ser considerados produtos de alto valor agregado5.
Traçando um paralelo com o pensamento de Kotler (2006) sobre marketing, os produtos já nascem com data prevista para serem retirados do mercado. É o conceito de obsolescência planejada, poden- do o ciclo de vida ser dividido em quatro fases: introdução, crescimento, maturidade e declínio. Na primeira, o produto é lançado no mercado; na segunda, ele começa a firmar-se e surgem os “concor-