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— As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma!

— Meu pai, por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minh’alma! ... — Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa: «Não mate a árvore, pai, para que eu viva!» E quando a árvore, olhando a pátria ser ra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

(ANJOS, 1998)

A relação existente entre literatura e natureza é muito antiga, remonta ao período clássico. O primeiro texto literário documentado que retrata a natureza recebeu o título de

Os trabalhos e os dias e foi escrito pelo grego Hesíodo (século VIII a.C.). Seus poemas

possuíam um caráter coloquial e eram impregnados de preceitos morais. O poeta, durante sua juventude, cuidou de um rebanho de ovelhas, além de realizar outras tarefas próprias da vida camponesa. Sua obra é uma combinação de suas experiências com o trabalho no campo somadas à influência de alegorias encontradas em fábulas conhecidas na época.

No século III a.C., surgem os poetas bucólicos gregos: Mosco de Siracusa, autor do poema épico Europa e de composições pastoris; Bión, que compôs o poema Lamento

por Adonis eTeócrito, um importante poeta de sua geração e um dos maiores alexandrinos.

A poesia bucólica ou pastoril tem início com Teócrito, que nomeou sua criação de

“idílios”14

. Foi o poeta do amor e da beleza do campo, além de um amplo observador da tradição de sua época e um renovador de lendas antigas. Assim, os poetas bucólicos gregos

14 Poema lírico de tema bucólico, pastoril. Originalmente, entre os antigos gregos, idílio era qualquer poema curto.

tinham a predileção por exaltar e louvar os elementos vinculados à natureza, pois suas inspirações vinham do ambiente pastoril.

Virgílio (70-19 a.C.), autor de Eneida, obra-prima da literatura latina, recebeu influências dos “idílios” de Teócrito. O poeta romano terminou no ano de 37 a.C seu primeiro grande trabalho que recebeu o título de Bucólicas, também conhecida como as

dez Églogas, obra na qual desenvolveu temas da tradição pastoril. Nas Bucólicas, além da

natureza, há também registros dos problemas da vida rural como o temor dos pequenos agricultores de perderem suas terras e, consequentemente, privarem-se dos prazeres da vida campestre.

Séculos depois, no Iluminismo, há um resgate da cultura e dos valores clássicos greco-romanos, pois tanto na Grécia Antiga quanto no Império Romano a Arte tinha como

finalidade “imitar” a natureza. Dessa maneira, os iluministas procuraram reaproximar a

literatura e o espaço natural, já que o ideal estético neoclássico era tentar representar o homem e a natureza existentes em seu entorno.

Dentre as principais características da poesia neoclássica que remetem à natureza encontram-se o princípio de verossimilhança, no qual as obras artísticas e literárias deveriam imitar a natureza; a idealização da mulher e da vida pastoril, em que o poeta finge ser um pastor e sua musa uma pastora; os valores propagados como fugere urbem, (fugir da cidade): repúdio aos ambientes urbanos e a vida luxuosa da cidade, opção por paisagens campestres e pela simplicidade do campo; o bucolismo como ideal de vida:

locus amoenus (refúgio ameno) e sequi naturam (seguir a natureza), pois somente através

do contato com a natureza o ser humano poderia encontrar a verdadeira felicidade; carpe diem (gozar o dia), o homem deveria desfrutar o presente e os prazeres que a vida

vinculada à natureza lhe poderia proporcionar e tinha de aproveitar cada momento com grande intensidade, mas de forma sadia, regrada e equilibrada.

Essas características estão presentes em grande parte das poesias que exaltavam a vida campestre na segunda metade do século XVIII, porém a natureza ainda se apresenta como estática, pois o Neoclassicismo tinha a predileção pelo equilíbrio e pela lógica. Uma de suas principais teses propagava que o homem somente seria livre se vivesse em contato com o mundo natural, cujo ambiente serviria como fonte de sabedoria e de lugar onde se encontrariam a verdadeira beleza e a paz espiritual. Jozef (2005) aponta que:

...os princípios estéticos do Neoclassicismo originam-se da fusão dos preceitos aristotélicos aos horacianos, que consideram que a qualidade fundamental do homem é a razão, que tudo subordina ao marco da moral e da verdade. A verdade é o ideal de beleza, é o natural (p.33-4).

Sendo assim, a contemplação da natureza, além de proporcionar prazer ao homem, era também fonte de instrução e conhecimentos, como enfatiza Williams (1990):

...podemos ter certeza de que muitos outros homens além dos escritores contemplaram com intenso interesse todas as características e movimentos do mundo natural: morros, rios, árvores, céu e estrela. Muitos tipos de significados filosóficos e práticos foram extraídos dessas observações praticadas por muitas gerações (p.168).

No Romantismo europeu, a natureza é representada com força e vigor. As paisagens são descritas com sentimentalismo exagerado; além disso, os escritores tentaram retratar as belezas naturais de seus países da forma mais exuberante possível, exaltando principalmente a cor local – elementos específicos e representativos de suas regiões.

A natureza sempre esteve presente na literatura desde os primeiros registros literários encontrados. Esse fenômeno não poderia ocorrer diferentemente na América

Hispânica, onde desde antes do início da conquista se descreviam a sua geografia e seu

chegaram ao continente americano. Nesses textos, a terra, juntamente com sua vasta e exuberante natureza, exercia uma fascinação naqueles homens.

Séculos mais tarde surgiu o Neoclassicismo hispano-americano paralelamente ao momento em que ecoava por terras americanas o desejo de emancipação política da Metrópole. Jozef (2005) destaca que, nessa época, “a natureza [era] minuciosamente

observada” e também que “o tema ideal desta literatura (...) vai gerar a valorização da

natureza americana com a exaltação da vida rural e a presença do bucolismo” (p.35). Por conta dessa aspiração, tal estética priorizou a relação do homem americano com a natureza de seu entorno, valorizando o espaço como elemento de identidade da região, originando uma poética que antecipa alguns traços do movimento literário posterior, o Romantismo.

O Romantismo hispano-americano recebeu influência do Romantismo europeu, embora os contextos histórico, político e social da América Hispânica e da Europa fossem totalmente distintos. Nesse período várias regiões hispano-americanas haviam declarado sua independência da Espanha e algumas outras estavam em via de fazê-lo. Para Jozef

(2005), foi o Romantismo que suscitou “novas formas de expressão e pensamento,

[acelerando] a criação de uma literatura autóctone, que buscava inspiração na própria terra (...)” (p.44).

O Romantismo auxiliou na formação identitária das recém-formadas nações e, devido a isso, os românticos exploraram os problemas da América, ao mesmo tempo em que retratavam e exaltavam suas belezas naturais. Nesse sentido, a natureza aqui serviu de refúgio e de inspiração para a alma romântica hispano-americana, como descrevem Miliani e Sambrano Urdaneta (1999):

A corrente romântica encontra aqui uns povos feridos pela anarquia política submergido no caos social. As formas de vida colonialista quase não sofreram alteração. Subsiste o latifúndio. Os privilégios de classe são conservados. A escravidão é mantida. Os

sentimentos patrióticos da emancipação são substituídos pelo desejo de poder e riqueza. Ferozes caudilhos se arrebatam em nome do sangue e fogo, e destituem do governo os cidadãos cultos e progressistas15 (p.164).

Dentre as tendências românticas que existiram na América Hispânica destacamos o Costumbrismo – uma vertente literária surgida na Europa por volta de 1830 – cuja finalidade era valorizar os indivíduos constitutivos da sociedade de referida região, interpretar e retratar seus costumes e retratar seu entorno natural. Desse modo, segundo Miliani e Sambrano Urdaneta (1999), “das derivações românticas nenhuma tem a

importância do Costumbrismo na abertura de uma via em direção ao autóctone”16

(p.381).

O Costumbrismo não apenas descrevia os problemas políticos, como também a atuação social de algumas personalidades. Dessa forma, em determinados momentos, alguns elementos culturais hispano-americanos são retratados com o emprego da crítica social e, em outras ocasiões, com intenções moralizadoras, apresentadas por via da sátira.

Os escritores costumbristas tentaram retratar com fidelidade a linguagem

coloquial e seus respectivos regionalismos, pois eles “descobrem novos tipos

característicos e os colocam para conversar numa linguagem que não desdenha as formas

populares e regionais da fala”17

(MILIANI; SAMBRANO URDANETA, 1999, p.381). Por isso é muito comum na narrativa costumbrista a presença de várias notas explicativas, cuja função era possibilitar o entendimento do texto aos leitores distantes.

15“La corriente romántica se encuentra aquí con unos pueblos heridos por la anarquía política, sumidos en el caos social. Las formas de vida colonialista apenas han sido tocadas. Subsiste el latifundio. Se conservan los privilegios de clase. La esclavitud se mantiene. Los sentimientos patrióticos de la emancipación se ven sustituidos por apetencias de poder y riqueza. Feroces caudillos se arrebatan el mando a sangre y fuego, y desalojan del gobierno a ciudadanos cultos y progresistas”15 (MILIANI; SAMBRANO URDANETA, 1999, p.164).

16“de las derivaciones románticas ninguna tiene la importancia del Costumbrismo en la apertura de una vía hacia lo autóctono” (MILIANI; SAMBRANO URDANETA, 1999, p.381).

17“descubren nuevos tipos característicos y los ponen a conversar en un lenguaje que no desdeña las formas populares y regionales del habla” (MILIANI; SAMBRANO URDANETA, 1999, p.381).

Na Europa, o Realismo e o Naturalismo retrataram as cidades e seus problemas como urbanização e industrialização, já na América Hispânica, esses movimentos que surgiram por volta de 1880, tiveram como tema as controvérsias sociais e étnicas existentes nesta região. Entendemos que assim tenha sido, pois na América Hispânica o processo de industrialização dava ainda seus primeiros passos. Tanto na Europa quanto na América os escritores realistas e naturalistas procuraram destacar em suas obras aspectos da cultura regional e sua natureza. Nas palavras de Belinni (1997): “O romance realista e o naturalista levou em conta além do homem, o entorno social e a natureza que constituíam seu âmbito

vital”18

(p.450).

O princípio do século XX foi o momento de apogeu do romance regionalista. Uma de suas principais características era retratar a relação do homem com seu ambiente. Os romances regionalistas foram os primeiros a chegar aos países europeus e também aos Estados Unidos, além de difundirem-se amplamente entre os próprios países da América Hispânica. Embora essas obras priorizassem os valores locais em detrimento dos universais, projetaram uma importante difusão da literatura hispano-americana.

Entretanto, um dos aspectos mais importantes do romance regionalista foi tentar romper com a tradição de reproduzir modelos artísticos e literários europeus, o que levou os autores a refletir a realidade hispano-americana a partir do olhar próprio, uma vez que a mera imitação de um modelo já estabelecido estava calcada em uma realidade distante da sua. Portanto, ainda que a forma da narrativa regionalista hispano-americana fosse inspirada no padrão europeu, seus livros se ambientavam na natureza americana.

Quanto à forma, procuraram incorporar em seus textos um vocabulário e uma sintaxe próximos à realidade linguística utilizada na América e priorizaram como tema os

18 “La novela realista y naturalista prestaran atención además del hombre, al entorno y la naturaleza que constituían su ámbito vital” (BELINNI, 1997, p.450).

conflitos existentes na região, como por exemplo, a luta dos homens dentro de seu ambiente/natureza e a denúncia dos problemas hispano-americanos (econômicos, políticos, sociais). Nesse sentido, o espaço geográfico passou a ter grande relevância, manifestada pela preocupação de retratar as raízes que uniam o homem a seu ambiente natural.

Na mesma medida em que o romance hispano-americano se aproximava do autóctone distanciava-se da literatura européia. Desse modo, os gauchos, os índios, os

llaneros, suas respectivas tradições, costumes e ambientes – o pampa, a selva, as savanas, a

serra e a llanura – passaram a figurar como protagonistas.

O Criollismo é uma vertente da literatura regionalista. Esse movimento tinha a finalidade de retratar a realidade hispano-americana a partir de seus mais diversos regionalismos e de suas mais variadas paisagens, e de valorizar as tradições, as expressões populares – como as lendas e o folclore –, as crenças, os costumes vinculados à terra, as histórias dos camponeses, do homem simples e de seu entorno e a língua coloquial e cotidiana dessas pessoas.

Para isso, o campo era privilegiado porque conservava os costumes primitivos, enquanto as cidades estavam repletas de influências da cultura européia. Sendo assim, o espaço geográfico passou a representar um grande valor, visto que contribuiu como

“matéria-prima” para a criação literária, pois a intenção dos criollistas era a de valorizar o

próprio, como uma forma de consolidar a tão desejada afirmação cultural para a América Hispânica.

Por tentar retratar minuciosamente cada região, as narrativas criollistas também ficaram conhecidas como literatura pitoresca, já que primavam pela riqueza de detalhes quando descreviam um ambiente ou uma ação que mais se assemelhavam aos recursos

utilizados pela pintura, o que permitiam – e ainda permitem – ao leitor uma construção de imagem muito próxima da narrada.

O colombiano José Eustasio Rivera, os argentinos Ricardo Güiraldes e Benito Lynch e o venezuelano Rómulo Gallegos foram os principais escritores criollistas hispano- americanos, porém, talvez o nome mais conhecido seja o do contista uruguaio Horacio Quiroga, que, em seus relatos, retratou a vida dura do ambiente rural argentino da região das Missões próxima à tríplice fronteira entre a Argentina, Paraguai e Brasil.

Esses autores apresentaram para seus leitores uma grande radiografia de várias regiões da América Hispânica e ainda procuraram utilizar em suas obras a linguagem cotidiana que poderia ser considerada como uma fonte documental para um estudo linguístico sobre o início do século XX. Nesse mesmo contexto literário surgiram outras vertentes que buscaram retratar a relação existente entre literatura e natureza.

Dentre vários movimentos destacamos o Indigenismo por representar uma importante interação conformada entre o homem e o seu entorno, já que o indígena tem um vínculo muito forte com a terra e a natureza. Traçaremos a seguir um breve panorama sobre a representação indígena na literatura.

Vale a pena ressaltarmos ainda que, seja qual for o papel da literatura, a natureza esteve presente, em menor ou maior grau, em quase todos os momentos da história literária, pois o espaço é um dos componentes da estrutura narrativa. Dessa forma, o mundo natural se apresenta, geralmente, como inspiração ou como base para a criação literária, sobretudo do romance.