Poucos temas são tão unanimemente apontados como característicos da era Malraux como o da fraternidade. Desde Janine Mossuz-Lavau (André Malraux et le Gaullisme), passando por Dominique Villemot (André Malraux et la politique) até Michaël de Saint-Chéron (Malraux, le ministre de la fraternité culturelle), que consagrou uma obra inteira ao tema, a fraternidade é uma questão que se faz marcante na obra malruciana e que deve ser abordada se quisermos
241 MALRAUX, Discurso proferido em Brasília (1959), 1998: 39.
242 MALRAUX, Discours prononcé par André Malraux à l’occasion de l’inauguration de la nouvelle Maison Française d’Oxford (1967), 1976:54.
compreender as motivações de Malraux, tanto no que diz respeito a sua ação, quanto a sua reflexão. Penso inclusive que a noção de fraternidade, ainda que não definida objetivamente – como, aliás, nenhuma outra de suas noções o foram, deveria ser tratada como mais um dos conceitos desenvolvidos no pensamento malruciano. Porém, sua presença se impõe, e sua importância se justifica na medida em que se mostra como um importante elo entre as diversas áreas que se entrecruzam nas palavras de Malraux: fraternidade, comunhão, cultura, patrimônio, nacionalismo, arte e diversidade.
Em primeiro lugar, deve-se dizer que a fraternidade243 em Malraux está profundamente próxima a outra noção, de que se apresenta quase como sinônimo: a de comunhão244. Ainda que não signifiquem a mesma coisa, a comunhão, na concepção de Malraux, se mostra como uma possível resposta à lacuna deixada pela religião, desde que esta foi substituída pelo racionalismo – ou humanismo trágico, como não se cansa de dizer Malraux - na civilização das máquinas. Para Malraux, a máquina mudou a relação entre o homem e o mundo; e o que antes era mediado pela fé passou a ser mediado pela angústia, pela incerteza quanto ao futuro.
(...) notre civilisation est la première qui se veuille héritière de toutes les autres : elle est la première qui ne se fonde pas sur une religion ; enfin, elle a inventé les machines. Notre civilisation, qui n'a su construire ni un temple ni un tombeau, et qui peut tout enseigner, sauf à devenir un homme, commence à connaître ses crises profondes, (...).245
Uma comunhão que não mais fosse religiosa: seria então esta a possibilidade de unir os homens em prol de um ideal, de um mito, de uma ideologia. Ainda que essa união não se concretize mais pela fé cristã, para Malraux ela poderia – e deveria – se construir a partir da crença em valores comuns, ou no que Janine Mossuz-Lavau chama de mitos reunificadores, como a revolução, o nacionalismo, e a cultura, nos interessando sobretudo os dois últimos. É dessa forma que Malraux, como brilhante orador, se colocava como uma espécie de “profeta”, cujo poder de sedução, através da palavra, era mais importante do que o de convencimento246. Interessante observar que André Holleaux, que foi seu chefe de gabinete e conselheiro de Estado, também se referia a ele como “profeta”, acrescentando o adjetivo “convivial” em seguida, para esclarecer que Malraux não apresentava nada de arrogante ou
243 De acordo com o Dicionário Houaiss, fraternidade significa: “a harmonia e a união entre aqueles que vivem em proximidade ou que lutam pela mesma causa etc.; fraternização.”
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De acordo com o Dicionário Houaiss, comunhão significa: “1. ação de fazer alguma coisa em comum ou o efeito dessa ação. 2. sintonia de sentimentos, de modo de pensar, agir ou sentir; identificação Ex.: <c. de idéias> <c. espiritual> 3. comparticipação, união, ligação.”
245 MALRAUX, Discours prononcé au Parc des Expositions à Paris (1968), 1996:346.
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professoral247. Para ele, utilizar um tom explicativo ou descritivo nas intervenções não era uma estratégia eficiente para atrair a audiência; para Malraux, o discurso deveria arrebatar a platéia, fazer uso do momento para emocionar, suscitar a vontade e a paixão dos homens, de modo que se unissem em função de uma causa. Malraux se mostrava muito mais passional do que racional em suas falas, sem intenção de guiar os ouvintes em um lento caminho em direção à verdade, mas sim de provocá-los em relação aos valores defendidos pelo escritor, como coragem, cultura e nação. O discurso, portanto, se mostrava como um instrumento para suscitar a comunhão, palavra-chave para compreender suas intenções. Somente o sentimento de comunhão poderia despertar nas multidões a consciência de sua própria grandeza, bem como dos valores propagados pela voz malruciana. Malraux enfatiza a importância da cultura e da arte como fatores de realização do indivíduo na sociedade que não mais se ampara pelo sagrado. Tal qual um profeta diplomata, ou mesmo um pregador, Malraux buscava a sedução pela palavra falada, a fim de formar não uma legião de seguidores, mas de “cavaleiros”248, armados com a lança da coragem e da consciência. Os discursos políticos eram espetaculares e suscitam um impulso coletivo. A comunhão, outrora religiosa, passava a ser utilizada eficazmente em favor da união das nações ou, ao menos, da nação francesa. O apelo, porém, é sempre à grandiosidade do coletivo, da civilização. A eloqüência, usada com esmero, provoca paixões mesmo nas mais indiferentes audiências, e Malraux sabia disso. François de Saint-Chéron chega a afirmar que, graças a essa incrível capacidade de provocar o sentimento instantâneo de comunhão, empregando o ritmo, o tom e a luz necessários nos discursos, Malraux produzia uma espécie de encantamento através das palavras, como um verdadeiro xamã:
É verdade que, em certas páginas de seus ensaios, Malraux tem alguma coisa de xamã, como quem recorre a fórmulas de encantamento para comunicar ao leitor o entusiasmo que lhe inspiram as obras ou os artistas sobre os quais ele fala, para fazer esse leitor entrar no mundo da arte, graças ao ritmo e às imagens de sua prosa.249
O que está aqui novamente em questão são os mitos reunificadores, a que já nos referimos, e que são necessários para que se formem as ‘fraternidades combatentes’ tão aspiradas por Malraux. Para Mossuz-Lavau, esses mitos, que são personificados essencialmente pelas religiões e pelas ideologias, são responsáveis pela mobilização de indivíduos que até então
247 HOLLEAUX, Malraux Ministre, au jour le jour: souvenirs d´André Holleaux. 2004:61. 248
MOSSUZ-LAVAU, 1982:151.
249 SAINT-CHÉRON, 2001:08. Tradução minha do original «Et il est vrai que dans certaines pages de ses essais, Malraux a quelque chose d’un chaman qui recourt à des formules d’incantation, pour communiquer à son lecteur l’enthousiasme que lui inspirent les oeuvres ou les artistes dont il parle, pour faire entrer ce lecteur dans le monde de l’art, grâce au rythme et aux images de sa prose ».
permaneciam sozinhos, oferecendo-lhes uma explicação de mundo, dando significado à inquietude fundamental do homem diante do universo. Os mitos reunificadores exercem uma fascinação tão profunda em Malraux que ele, por sua vez, procura fazer uso destes elementos como criadores de fraternidade. Um dos mais utilizados em seus discursos é o apelo ao nacionalismo, que ele traduz por um profundo sentimento de apropriação da pátria, bem como dos valores representados pela nação. Malraux leva a questão do nacionalismo de maneira tão intensa que, muitas vezes, seu papel no governo se mostra como o de uma espécie de representante diplomático, função que ele encarna com perfeição. Afinal, ele possui como poucos outros intelectuais franceses uma profunda cultura sobre arte e civilizações, aliado ao sentimento de nacionalismo quase exacerbado e ao indistinto apoio à figura do general De Gaulle. A sua originalidade reside, porém, no fato de que, aliado a todas as suas características, há também seu incansável processo de reflexão e de interrogação de mundo, presente em todos os seus discursos. Um claro exemplo do nacionalismo como mito reunificador e utilizado para inspirar a fraternidade entre as nações pode ser observado em um discurso realizado na Finlândia, em 1963:
Or, l'histoire de ce siècle est celle des prises de conscience nationales, depuis les nations d'Europe qui niaient cette conscience, jusqu'aux nations d'Asie qui l'avaient oubliée, jusqu'aux nations d'Afrique qui ne l'avaient jamais connue.
Mais ce qui s'opposait d'abord à l'Internationale, au début du siècle, c'était, dans chaque nation, l'idée de sa supériorité sur les autres: le nationalisme « über alles ». Impérialiste par sa nature même, et dont les dernières incarnations furent celles que nous savons. Alors que nous avons découvert dans la dernière guerre, non seulement depuis la France jusqu'à la Finlande, mais encore depuis les Pyrénées jusqu'au Pacifique, que toute vraie nation, la plus faible comme la plus puissante, est un des éléments irrationnels mais invincibles de l'Histoire moderne. La patrie n'est plus le premier objet de notre orgueil et elle devient le premier objet de notre étude.250
Assim, a questão da tomada de consciência do sentimento de nação é introduzida paralelamente à discussão sobre os desdobramentos desse processo. Malraux lembra que a noção de nação, em determinadas culturas, acabou por implicar também a crença de que determinados países seriam superiores a outros. No entanto, o que ele procura enfatizar é que esse nacionalismo ‘über alles’, como ele chama, imperialista em essência, já se encontra desgastado, e prova disso são as guerras ocorridas na primeira metade do século XX. Para Malraux, ainda que a guerra seja uma situação de confronto, paradoxalmente ela representa também a possibilidade de união entre os homens, através de ideais em comum. Nesse
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sentido, o confronto armado, tão ao gosto malruciano, se mostra conectado à noção de fraternidade e de nacionalismo como mitos reunificadores.
Como dito anteriormente, o declínio do cristianismo instaura uma crise de valores na civilização; e essa crise só pode ser suavizada pela consolidação de novos valores no homem. Para Malraux, esses novos valores são ligados essencialmente à cultura, à arte e ao patrimônio. Deve-se observar que, na língua francesa, o termo patrimônio também pode ser denominado por héritage, que em tradução livre significaria, sobretudo, uma ‘herança’. Embora patrimônio carregue em essência também o sentido de transmissão e de herança, o uso do termo héritage parece sublinhar o caráter temporal assumido pela questão do patrimônio cultural, cuja importância reside justamente no infinito movimento de transmissão – ou conquista, na acepção malruciana – e reapropriaçao da grandeza e dos valores humanos. A cultura se mostra então como uma forma de consciência do homem de sua revolta frente ao inevitável destino:
[La culture se construit] Par l´approfondissement de son accord avec le monde ou par la conscience lucide de sa révolte. Ce rôle d´établissement ou de rétablissement de l´homme dans l´univers a été joué jadis par les grandes religions. Mais aucune valeur sacrée n´informe plus fondamentalement notre civilisation. Et depuis que l´homme est seul en face du cosmos, la culture aspire à devenir l´héritage de la noblesse du monde.251
Assim, consciente do que Malraux chama de sua “solidão face ao cosmos”, a cultura aspira então a se tornar a herança da nobreza do mundo, através da coragem e da comunhão. Malraux seria então como um missionário, cuja função é reunir e suscitar nos homens a comunhão e a coragem como formas de concretizar essa revolta contra um deus que nem mesmo se faz presente. Na verdade, a revolta é contra a condição humana, limitante, inexplicável, e imposta por uma esfera que esta além do alcance. Em ultima instância, a revolta do homem é contra si mesmo, na medida em que ele, e somente ele, representa essa finitude e a falta de sentido na vida. Buscar qualquer explicação se mostra ainda fora da esfera do visível, do que pode ser comprovado. Ainda assim, o mais interessante é que dessa revolta surge a noção de um homem ligado ao trágico, porém movido pela fé, pela coragem e pela esperança. Afinal, para Malraux, «Entre toutes les valeurs de l'esprit, les plus fécondes sont celles qui naissent de la communion et du courage »252. Mas é especialmente no combate, ainda que simbólico, que Malraux encontra a presença da fraternidade, empunhada
251 MALRAUX, Discurso Occidentaux, quelles valeurs défendez-vous? Congrès “Pour la liberté de la culture” (1952), 1996:218.
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ao lado de princípios como coragem e nacionalismo. Da mesma forma que as revoluções e as guerras puseram lado a lado milhares de homens unidos por um único objetivo, o combate não significa necessariamente uma luta armada, mas a busca coletiva por um ideal, capaz de unir homens em posições e condições opostas, movida pela esperança:
Résolus à combattre si le combat est la seule garantie du sens que nous voulons donner à notre vie, nous nous refusons à faire de lui une valeur fondamentale; nous voulons une pensée, une structure de l´État, un héritage et un espoir qui débouchent sur la paix et non sur la guerre.253
Para investigar a questão da fraternidade na obra malruciana, é preciso compreender que ela é profundamente vinculada à problemática da diversidade cultural; isto é, da alteridade que, para a civilização européia, é representada pelas culturas não ocidentais. A noção de diversidade cultural é recente e se coloca de maneira cada vez mais categórica como tema de reflexão e de debate entre teóricos, filósofos, críticos, e intelectuais em geral. Nunca o ‘outro’ esteve tão presente em nós; isto é, nunca a alteridade esteve tão próxima, e como fonte de estudos e investigação para compreender os sentidos e os elementos que permeiam as relações humanas. Nunca nos esforçamos tanto para pensar o outro, para compreender e teorizar a alteridade.
Jean-Claude Larrat e Domnica Radulescu, no texto Malraux et la diversité culturelle (2004), afirmam que a noção já existia na obra de escritores humanistas como Montaigne, ou iluministas como Montesquieu e Voltaire, mas geralmente sob a forma de representações literárias ou artísticas. É sempre um outro que encarna uma cultura distante e exótica, em relação aos valores ocidentais. Mas, como afirma Radulescu, quanto mais se avança no século XX – e, agora, no XXI, essa tendência se acentua – mais “esse interesse, essa fascinação ou essa interrogação se tornam urgentes e necessárias, graças sobretudo às transformações do mundo ocidental”254.
De um mundo colonialista passamos a um pós-colonialista, as relações humanas e os debates teóricos refletindo essa mudança. Segundo Edward Saïd, em sua obra Orientalismo, o interesse dos escritores do século XIX por outras culturas traduzia quase sempre, no nível de representação do outro, uma forma diversa de colonização, mas ainda assim um reflexo das relações de poder e hierarquia. Na década de 30, em que Malraux se sobressai justamente por sua defesa da causa anticolonialista, as motivações e as causas que nos fazem olhar o outro mudam radicalmente e, como bem coloca Radulescu, ultrapassam os limites da teoria
253MALRAUX, Discurso Sur l´héritage culturel (1936), 1996:140. 254
puramente estética ou filosofia para se colocar no modo de vida: no cotidiano, na linguagem, nas diversas formas de se expressar; e a arte é uma delas.
Nesse sentido, Malraux se mostra como um pioneiro, ao pensar as culturas não-ocidentais de uma forma diversa, numa tentativa de colocá-las na mesma altura do olhar lançado para a cultura européia, dita civilização. Para isto, ele confronta as noções de civilização e cultura, procurando demonstrar que muito dessa discussão tem como base uma visão eurocêntrica, que evidencia a crença segundo a qual “se civilizar” significa “se europeizar”: “Il est clair que, en fonction de votre idéologie même, ce que vous appelez se civiliser, c´est s´européaniser”255. Sem a intenção de transformar Malraux em um mito heróico acerca da alteridade cultural, é importante no entanto mostrar que, de fato, a fraternidade foi uma bandeira levada a campo por ele, e que, dentre outras questões, envolvia também seu pensamento e seu interesse por culturas que, até então, não eram consideradas como formas de arte. Malraux vai justamente discutir a noção de arte e de sagrado a partir de determinados exemplos estranhos à história da arte ocidental, como esculturas orientais, estátuas budistas e máscaras africanas. Se, hoje, termos utilizados por Malraux para falar das artes africanas (“selvagens”) seriam inaceitáveis, como sublinha Henri Godard, e podem mesmo revelar sentimentos contraditórios em relação à alteridade, o que importa realmente é que Malraux dirige às artes mais distantes dos valores e da estética ocidental um olhar atento, pleno de interesse e disposto ao diálogo. E, de certa forma, viu nessa arte uma forma de revolta contra o destino imposto pelo próprio homem, a dominação.
O interesse de Malraux é marcante pelas culturas e pelas histórias de civilizações não européias, e incluem-se neste grupo as Américas, sobretudo a do Norte, e a do Sul - vide a grande turnê de 1959 na América Latina, e que passou inclusive pelo Brasil, tema tratado em texto anexo a este trabalho256 -, a África e o Oriente, com destaque para o Japão, a Índia e a China. Quanto à África, pode-se dizer que o lugar acordado às artes africanas em suas reflexões foi extremamente significativo, concorrendo, nesse sentido, apenas com a Índia e o Japão. Como ministro delegado por De Gaulle, foi responsável por proclamar a independência de 4 países africanos: o Tchad, o Gabão, o Congo e a República centro- africana, em 1959 e 1960. Deve-se lembrar também que Malraux inaugurou, junto ao presidente da república do Senegal, o I Festival de Artes Negras do Dakar, em 1966. No discurso em Ouagla como representante de Estado da França, Malraux evoca a figura do
255 MALRAUX, Discurso Réponse au 64 (1935), 1996:127. 256
general como representante da liberdade, mas também valores universais caros a ele, como a fraternidade entre nações:
Et l'une de nos tâches les plus urgentes est en effet, Monsieur le Maire, la conquête de notre fraternité. Qu'il s'agisse de notre emprise historique qui s'appelle la Communauté, ou qu'il s'agisse modestement de cette ville. L'écho des grenades n'est pas si loin, mais que signifie-t-il si la ville musulmane qui l'entende est protégée, libre et fraternelle. Cette foule nous crie que nous y parviendrons ensemble! 257
Ao afirmar que uma das tarefas mais importantes da civilização é a conquista da fraternidade, e ainda enfatizando a importância da noção de comunidade, Malraux procura acenar com a ideia de um lugar igualitário para a África na nação francesa, ainda que essa problemática histórica seja muito mais complexa. No entanto, a importância simbólica dos termos do discurso – fraternidade, liberdade, Comunidade – além de evocarem claramente os ideais da Revolução Francesa, mostram a França aberta ao diálogo entre nações de culturas tão diversas, ainda que atreladas pela história das colonizações. A concepção de seu papel como uma espécie de missionário, cujo dever é a difusão dos valores da República Francesa, fica ainda mais clara em outro trecho do mesmo discurso: “Peut-être est-il impossible de rendre les hommes libres, égaux et fraternels. Mais il n'est pas impossible du tout de les rendre plus libres, moins inégaux et plus fraternels»258. Sua posição, no entanto, não deixa de ser ambígua, ao se colocar como um representante de valores como liberdade e fraternidade, ao mesmo tempo em que sofria com críticas à sua ligação com o General De Gaulle.
Ao dotar a artes africanas do status de arte, o que pode ser considerado de fato pioneiro, especialmente para um intelectual que também cumpria funções de Estado, Malraux colocava a arte africana em discussão, assumindo-a como um sistema de referências, e não como apenas uma materialização da tentativa do homem de acesso ao divino. Desvinculando a arte africana do sagrado, ele afasta sua função primeira e a coloca simultaneamente no museu, real e imaginário, bem como nas discussões teóricas estéticas. Considerando-a então como um domínio estético, Malraux inaugura um discurso estético que foge à regra, pois além de dar lugar à voz do outro, na mesma altura, procura questionar também a problemática que envolve a relação entre nações e visões conflitantes, representadas pelo ocidente clássico e o oriente