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EKONOMĐ POLĐTĐKALARININ BÜYÜMEYE ETKĐSĐ

A partir do momento em que assume a função de Ministro da Cultura, Malraux defende ser essencial o papel do Estado como gerenciador das ações culturais, pondo-as à disposição do maior número de pessoas que desejassem usufruir delas; para, dessa forma, constituir uma civilização que, como era de sua vontade, “seja a primeira a colocar as grandes obras da humanidade a serviço de todos os homens que as evocam”346. Afinal, é equivocado supor que os sonhos da grande massa se limitem à arte de consumo, em geral associada aos termos entretenimento e superficialidade. Para Malraux, o conhecimento da arte evoca a liberdade de espírito que permite ao homem fazer suas próprias escolhas. O elitismo do acesso à cultura reforça a dicotomia entre erudito e popular, promovendo o controle e a dominação do menor pelo maior. Esse princípio vai de encontro à função da arte tal qual é pensada pelo escritor. Assim, o projeto de maior destaque em sua gestão se refere à criação das Casas de Cultura, cujo objetivo era descentralizar e democratizar o acesso à arte. Posto em prática, ainda hoje esse empreendimento serve como referência à política cultural adotada pela França, e serve como símbolo da ação de Malraux no governo. Como declara em discurso realizado no Ministério da Educação e da Cultura, em agosto de 1959 no Rio de Janeiro, “trata-se, portanto, de [através das Casas] colocar toda a grandeza da arte a serviço dos homens”347.

344 BENJAMIN, Paris, capitale du XIXème siècle. 2007:24. 345

MALRAUX, Discours au Palais Bourbon (1963). Centre des Archives Nationales, Site Fontainebleau, 20090131 art. 195.

346 MALRAUX, Discurso proferido em Brasília (1959), 1998:40. 347

Poucos meses depois, ao defender seu projeto democrático na apresentação do orçamento ministerial, ele afirma que o movimento em direção à crescente democratização do conhecimento e do acesso à arte é inevitável. Para o escritor, o século XX seria a testemunha de uma transformação mundial da civilização, e os valores difundidos pelas Casas estariam de acordo com essa nova ordem. Afinal, como ele adequadamente observa, o patrimônio universal passará nas mãos de várias nações, fornecendo ao termo “universal” uma leitura quase literal:

Nous arrivons aux maisons de la culture, ce qui me conduit à évoquer, ainsi que les rapporteurs me l'ont demandé, les grandes orientations de la culture dans le monde que nous connaissons. Mesdames, messieurs, les orientations sont au bout du compte très claires. En premier lieu, nous sommes en face d'une transformation de la civilisation mondiale, qui n'échappe à aucun de vous. Ce siècle verra l'héritage entier du monde passer dans les mains de quelques nations. 348

A defesa vêemente do projeto se justifica, segundo suas palavras, porque o objetivo das Casas é permitir que o cidadão francês, morador da periferia, possa ter acesso ao patrimônio nacional e à glória do espírito da humanidade:

Cela veut dire qu'il faut que, par ces maisons de la culture qui, dans chaque département français, diffuseront ce que nous essayons de faire à Paris, n'importe quel enfant de seize ans, si pauvre soit-il puisse avoir un véritable contact avec son patrimoine national et avec la gloire de l'esprit de l'humanité. 349

Ao discursar em São Paulo, o Ministro declara que “todas as grandes civilizações conheceram uma tal imagem: a humanidade só é grande quando caminha ao encontro de seus sonhos”350.

Para fins de organização, segue quadro abaixo apresentando as Casas de Cultura criadas, bem como as datas de inauguração351:

348 MALRAUX, Présentation du budget des affaires culturelles (1959), 1996:16.

349

MALRAUX, Présentation du budget des affaires culturelles (1959), 1996:16. 350 MALRAUX, Discurso proferido na Universidade de São Paulo (1959), 1998:46.

351 Embora haja menção à criação de doze Casas de Cultura, optei por apresentar no quadro apenas as que eu havia confirmado as datas de inauguração. Desta forma, a Casa de Cultura de Saint-Etienne, cuja única referência se encontra em CHANUSSOT et TRAVI , sem data, não foi incluída dentre as demais.

Casa de Cultura do Havre352 1961

Casa de Cultura de Caen 1964

Teatro do Leste Parisiense (TEP) 1964

Casa de Cultura de Bourges 1964

Casa de Cultura de Firminy 1965

Casa de Cultura de Rennes 1965

Casa de Cultura de Amiens 1966

Casa de Cultura de Thonon e do Chablais 1966

Casa de Cultura de Grenoble 1968

Casa de Cultura de Reims353 1969

Casa de Cultura de Créteil354 (projeto) 1961 Casa de Cultura de Strasbourg (projeto) 1965 Casa de Cultura de Nevers e de Nièvre 355 1972

Cada Casa de Cultura era pensada e planejada cuidadosamente, com estudos sobre a região a ser contemplada, a população local, as necessidades relativas à cultura, a existência (ou não) de imóvel que pudesse abrigá-la e, claro, a receptividade e o interesse do governo municipal no projeto. O estudo do caso compreendia: avaliação do público-alvo a ser atingido, posição geográfica e condições econômicas da cidade. Quanto à localização, pode-se ver, por exemplo, que um dos argumentos utilizados para a criação da Casa de Cultura de Thonon e do Chablais foi que: “Por sua situação geográfica, próxima a Genebra e a Lausanne, bem como das fronteiras italians, no meio do caminho entre os países do Norte e do Midi da França, a Casa de Cultura de Thonon é um centro de irradiação [cultural] internacional”356. Conforme o

352 A Casa de Cultura do Havre foi mais tarde dividida em duas partes, a fim de se separar do teatro e do museu d e belas artes de origem. O projeto do novo prédio teve início em 1972, sendo inaugurado apenas em 1982, e curiosamente é de autoria do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. Maiores informações no artigo Le Havre:

Maison de la Culture “Le Volcan” (2004), da Revista Docomomo, disponível no endereço:

http://www2.archi.fr/DOCOMOMO-FR/fiche-havre-volcan.htm

353 A Casa de Cultura de Reims foi inaugurada em outubro de 1969 por Edmond Michelet, Ministro de Estado, pois a partir de junho do mesmo ano Malraux se encontrava a maior parte do tempo em Verrières-le-Buisson, na casa de Louise de Vilmorin.

354 A Casa de Cultura de Créteil foi concebida desde 1961 por Malraux, mas seu projeto só foi levado adiante após sua saída, e sua inauguração ocorreu em 1977, sob o nome de Maison des Arts et de la Cultura de Créteil. 355 A Casa de Cultura de Nevers e de Nièvre foi inaugurada por Malraux, mas somente em 1972, e teve todo seu projeto reformulado em 2000.

356 Dado retirado de documento do Centre des Archives Nationales – Site Fontainebleau, versement 20090131, art. 143. Tradução minha do original: «Par sa situation géographique, aux portes de Génève et de Lausanne, près des frontières de l’Italie, à mi-chemin entre les pays du Nord et le Midi de la France, la Maison de Culture du Thonon est un centre de rayonnement international».

mesmo documento, além das informações sobre a região, é possível ler a organização administrativa e orçamentária que o projeto de criação das Casas de Cultura põe em cena:

Uma Casa de Cultura é uma realização baseada na colaboração igualitária entre Estado e Cidade :

- Igualdade no financiamento da construção - Igualdade no financiamento do funcionamento Colaboração igualitária na gestão do estabelecimento.

Este é gerenciado por um Conselho Administrativo composto por membros de Direito representando o Estado, o Departamento e a Cidade, e em maioria de Membros eleitos.357

Deve-se acrescentar também que o Conselho de Administração elege um presidente e um diretor; este, por sua vez, forma um Conselho Cultural, formado por artistas e profissionais ligados à cultura, sempre da região, que participa do planejamento de atividades (exposições, eventos, teatro, cinema) da Casa em questão358. Assim, após o estudo de caso, a criação da Casa (com imóvel próprio ou reutilizado), e a formação dos Conselhos, o passo seguinte é estimular que os habitantes locais se tornem ‘sócios’ da instituição. Conforme documento intitulado “Por que se associar?”359, são enumeradas as seguintes razões:

- Tarifas promocionais para todos os eventos pagos oferecidos pela Casa: - Recebimento do jornal da Casa de Cultura;

- Prioridade de acesso a todos os eventos gratuitos organizados pela Casa; - Possibilidade de ir a eventos especiais: noites de gala, ensaios, festas;

- Possibilidade de utilização dos serviços e das seções da Maison, tais como: biblioteca, discoteca, tele-clube, curso de arte dramática;

- Possibilidade de usar os espaços da Casa, com a autorização do Diretor.

A programação dos eventos era planejada, em geral, em trimestres, e divulgada tanto nos jornais da instituição e nos da imprensa local. Além disso, a Casa dispunha de um acompanhamento feito por membros do próprio Ministério, a fim de avaliar a quantidade e a qualidade dos eventos oferecidos, bem como a reação e o interesse do público. Aparentemente, tais ‘avaliadores’ eram enviados de maneira incógnita, de modo que não chamassem atenção dentro da Casa, o que demonstra o interesse do governo em realmente acompanhar e ter uma

357 Dado retirado de documento Centre des Archives Nationales – Site Fontainebleau, versement 20090131, art. 143. Tradução minha do original: «Une Maison de la Culture est une réalisation basée sur la collaboration à égalité Etat-Ville: -Egalité dans le financement de la construction/-Egalité dans le financement du fonctionnement/Collaboration également dans la gestion de l’établissement./Celui-ci est geré par un Conseil d’Administration composé de membres de Droit représentant l’Etat, le Département et la Ville, et en majorité des Membres élus».

358 Dado retirado de documento do Centre des Archives Nationales – Site Fontainebleau, versement 20090131, art. 143.

359 Dado retirado de documento do Centre des Archives Nationales – Site Fontainebleau, versement 20090131, art. 143.

visão imparcial do funcionamento da instituição. Abaixo, um exemplo desse tipo de relatório, cuja reprodução de trechos mostra o caráter imparcial e autêntico das informações fornecidas ao Ministro. Datado de 11 de dezembro de 1968, se refere à Casa de Cultura de Amiens e é assinado por Philippe Sauzay:

Note à l’intention de Monsieur le Ministre

Compléments aux impressions (...) sur la Maison de la Culture d’Amiens J´ai assisté seulement à la représentation du ballet-théâtre contemporain : 1) Le spectacle lui-même :

a) Son passif : choréographie d’une médiocrité alarmante (…).

b) Son actif : spectacle très soigné – décors, costumes, notamment – très bons solistes très mal employés.

c) Certes, il y a avait de très nombreux parisiens dans le public, mais c’est réconfortant de penser qu’à Amiens il peut exister pour la 4ème soirée consécutive une salle pleine venue voir une spectacle de ballets.

2) L’atmosphère :

a) Dans la salle, effet déporable de cinq ou six rangs de fauteils en plein milieu, réservées pour la presse et les officiels. (…)

b) A la caféteria, impossible au premier entr’acte d’avoir des sandwiches au bar, malgré l’existence de visibles plateaux de salade et d’œufs mimosas, réservés, disait-on, aux ‘officiels’, après le spectacle.

(…)

En conclusion, ce n’est pas une soirée perdue, mais il y a fort à faire ou à refaire. 360

Percebe-se, portanto, que a intenção de Malraux era justamente ter impressões colhidas imparcialmente sobre o desenrolar das atividades das Casas, de modo a avaliar, ou a reavaliar, a partir desses relatórios, o que estava funcionando de acordo com a sua concepção de uma Casa de Cultura. Tal fato parece indicar que Malraux tinha pleno interesse em ter no estabelecimento das Casas não apenas um estandarte de seu governo, mas uma ação de grande valia e permanência, comprometida com seu pensamento sobre a difusão e a democratização da arte e da cultura. De acordo com a programação de 1967 da Casa de Thonon, pode-se verificar a abrangência de ação da Casa de Cultura, que funcionava como um verdadeiro pólo cultural, agregador de manifestações e de interessados no tema. Os eventos eram distribuídos em áreas diversas: cinema, música, arte, dança, espetáculos infantis, poesia e teatro, com conferências sobre temas ligados à arte, como ‘Saint François de Sales et la Langue Française’ e ‘Les deux Prévert’361.

360 Dado retirado de documento do Centre des Archives Nationales – Site Fontainebleau, versement 20090131, art. 80.

361 Dado retirado do dossiê sobre o projeto da Maison de la Cultura de Thonon Centre des Archives Nationales – Site Fontainebleau, versement 20090131, art. 143

Eram também realizados controles estatísticos dos eventos, detalhando a composiçao do público presente, a partir da porcentagem indicativa de sócios e não-sócios362. Cada Casa contava, igualmente, com um controle da evolução do número de sócios obtidos desde o ano de sua criação. Abaixo, um exemplo desse controle 363, relativo à Casa de Thonon:

O documento mostra que, desde sua criação em junho de 1966, a Casa de Thonon teve número ascendente de sócios, com exceção do primeiro trimestre de 1967, cujo número permaneceu o mesmo, ainda que superior em média 50% ao número inicial de sócios. Isso, e se considerarmos que Thonon é uma cidade que conta com 18.500 habitantes364, é possível ver que, em seu primeiro ano de funcionamento, a Casa de Thonon atraiu o interesse comprometido de quase metade da população local, o que é um número bastante expressivo – sem contar o público não-associado que comparecia aos eventos e a população flutuante da cidade durante as férias de verão.

Ainda que na teoria as Casas tenham tido ampla repercussão e consistissem num projeto consistente e original, na prática administrativa de um ministério de orçamento reduzido elas passaram por diversas dificuldades e foram alvos de muitas críticas – como, aliás, a maior parte das ideias concebidas e postas em prática por Malraux.

Les cathédrales, como as chamava Malraux, continham em si a premissa de serem a ligação entre o público e as obras de arte. Constituíram, através de sua estrutura administrativa, um momento emblemático do desenvolvimento de uma colaboração possível entre Estado,

362 Dado retirado do dossiê sobre o projeto da Maison de la Cultura de Thonon Centre des Archives Nationales – Site Fontainebleau, versement 20090131, art. 143

363 Dado retirado do dossiê sobre o projeto da Maison de la Cultura de Thonon Centre des Archives Nationales – Site Fontainebleau, versement 20090131, art. 143

364 Dado retirado do dossiê sobre o projeto da Maison de la Cultura de Thonon, Centre des Archives Nationales – Site Fontainebleau, versement 20090131, art. 143.

1966 Junho 5025 Julho 5025 Agosto 6084 setembro/outubro --- novembro 7285 Dezembro 7420 1967 Janeiro 7820 Fevereiro 7820 Março 7820

município, coletividades locais e artistas. Isto porque, como já citado, de acordo com o planejamento original, o governo garantia 50% dos custos de construção e de funcionamento, o imóvel era municipal, e a instituição era gerida por uma associação formada por membros da coletividade local e do governo, em quantidade igual, como um pequeno parlamento cultural local. A concepção das Casas foi recebida com otimismo, mas a realidade viu-se afetada por restrições orçamentárias e confrontos entre governo e municipalidades. E, mesmo atualmente, as informações sobre a criação e apermanência das Casas de Cultura são desencontradas, com menções dispersas de determinados autores (Chanussot e Travi fazem menção à criação de doze Casas, sem, no entanto, especificar detalhes) e, mesmo no site do Ministério da Cultura há referências vagas às doze Casas, mas igualmente sem fornecer maiores informações. Pode- se imaginar que a dificuldade em reunir informações exatas e objetivas sobre as Casas de Cultura se deva ao fato de que seu projeto foi cercado de reviravoltas: como aberturas, reaberturas, fechamentos, dentre outros problemas. Algumas foram concebidas ainda durante sob o governo malruciano, mas tiveram suas atividades iniciadas oficialmente após sua saída. Outras, como a do Havre, foram reformuladas, se transformando em uma instituição anscidaà luz do pensamento de Malraux, mas se tornando na atualidade um centro cultural aliado a seu novo tempo. Por outro lado, outros projetos acabaram por não ir adiante, como as Casas de Cultura de Créteil – que foi inaugurada somente em 1977, com modificações – e de Strasbourg. A Casa de Cultura de Strasbourg se tornou um projeto tão ambicioso que não conseguiu sair do papel. Em ofício interno de 1965 e intitulado Le Corbusier et Strasbourg, Émile Biasini defende a proposta de criação da Casa de Cultura de Strasbourg, sobretudo por se tratar do último estudo realizado por Le Corbusier antes de morrer e, por isso, adquiria valor de patrimônio cultural nacional:

L´étude fut confiée à Le Corbusier, qui venait de la terminer lorsqu´il mourût, de sorte qu´il s´agit là désormais de son dernier message architectural. Il prend dès lors indépendamment de sa valeur propre, un caractère exceptionnel justiciable d´un intérêt particulier situé au niveau du Gouvernement.365

Biasini reconhece, porém, que os valores alcançados pela estimativa de seus custos (40 milhões de francos) dificultam sua execução: “Le projet em effet a pris une dimension financière telle qu´il n´entre pas dans les limites contributives de la ville de Strasbourg et de la

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Direction de l´Action Culturelle”366; o que explica o fato de a proposta nunca haver se concretizado.

O resultado é que, quando Malraux deixa a rua de Valois – sede do Ministério - em junho de 1969, somente nove das vinte Casas previstas inicialmente haviam sido construídas, a saber: Le Havre, Caen, o Teatro do Leste Parisiense (Le Théâtre de l’Est Parisien), Bourges, Rennes, Amiens, Thonon-les-Bains, Firminy e Grenoble. Dessas, Thonon, por exemplo, a despeito do interesse e do compromisso da comunidade, teve suas portas fechadas em 1968. A razão, em princípio, foi a impossibilidade de o governo municipal arcar com as despesas referentes à sua parte, já que os custos eram divididos em partes iguais entre a esfera federal e a municipal. O imbróglio levantou polêmica discussão na época, mobilizando a mídia local. De um lado, a municipalidade, e a decisão de pôr fim à Casa sob a alegação de que não tinha como honrar suas despesas; e, ainda, afirmando que reutilizaria os equipamentos e as instalações para estabelecer um novo centro cultural, a ser administrado somente pelo governo municipal. De outro, o Ministério, precisando que a criação da Casa de Thonon respondeu à demanda feita pela própria cidade, e que estaria disposto a aumentar sua parte de subvenção, caso isto lhe tivesse sido solicitado. O fato é que, segundo o que o relatório de Antoine Bernard direcionado a Malraux deixa entrever, a Casa de Thonon já apresentava problemas em relação à qualidade dos eventos e ao interior dos espaços. Sem ficar clara a responsabilidade de cada parte no que se refere à desistência de uma ação desse porte, o que ganha ênfase é justamente a dificuldade em levar à esfera administrativa o princípio cultural de democratização. A complexa tarefa de neutralizar conflitos políticos e econômicos de gestões diferentes, somada ao próprio desgaste sofrido por Malraux no pós-68 – Thonon encerra suas atividades em fins do ano em questão -, são razões que devem ser consideradas com atenção ao avaliar o êxito ou o fracasso do projeto malruciano. O confronto entre as palavras e as ações do governo de Malraux mostra que o projeto das Casas de Cultura foi, desde o início, concebido de maneira séria e cuidadosa por Malraux e sua equipe. O que se pretende demonstrar aqui, e a partir dos dados apresentados, é que a chef-d’oeuvre da gestão de Malraux não resultou de ideias belas, mas dispersas e utópicas; seu pensamento sobre a democratização da cultura foi aliado a uma firme ação, cujo início e progresso foram meticulosamente acompanhados e estudados.

Dessa forma, conforme Poirrier ressalta, apesar dos problemas e de não ter conseguido triunfar na difícil missão de democratizar a cultura, levando obras de arte a um público menos

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familiarizado à arte, as Casas deixaram sua marca e seu exemplo, que contribuem para o debate das políticas públicas culturais:

Equipamentos que permitiam pôr em prática a filosofia estética de Malraux, a serviço de uma concepção jacobina do serviço público, as casas de cultura deixam pouco espaço à legitimidade dos prefeitos, em matéria de política cultural. Mas, por seu caráter exemplar, bem como pelos debates que foram suscitados, as casas de cultura tiveram um papel que não deve ser desconsiderado no que se refere à tomada de consciência das questões culturais pelas cidades.367

A intenção aqui, ao buscar retraçar, ainda que de forma fragmentada, a implantação e o funcionamento das Casas de Cultura, apoiando-nos em documentos em sua maior parte administrativos e burocráticos, é tão somente mostrar por vias objetivas que as Casas de