Ao lado do aterro sanitário da cidade de Vitória da Conquista, encontra-se o galpão sede da cooperativa Recicla Conquista, sendo a mesma fundada em novembro de 2004; porém, desde janeiro de 2004 já estava sendo desenvolvido o projeto para a sua implantação. A ideia era a de fechar o lixão para dar um destino adequado ao lixo urbano, pois o mesmo não mais poderia ficar a céu aberto, havendo uma série de exigências com relação a esse controle por parte da Fundação Nacional de Saúde, segundo declarações do coordenador do Projeto e representante da OSCIP Pangea na cidade de Vitória da Conquista.
Havia 175 catadores no antigo lixão da cidade (homens, mulheres e crianças: núcleos familiares em sua maioria). Quando da construção do aterro, pensou-se no que fazer com essas famílias. Inicialmente, a Secretária de Serviços Públicos, direcionada pela Administração Municipal, procurou informações sobre formação de cooperativas na Bahia e em outros estados, e a que melhor se adequava a proposta que a Prefeitura ansiava foi a da OSCIP Pangea, que já tinha sucesso com a implantação da cooperativa de Canabrava, em Salvador (CAEQUE). Naquela oportunidade, foram contratados técnicos, coordenados pela Pangea, para dar início ao projeto de implantação da cooperativa em Vitória da Conquista.
De acordo com o atual representante da OSCIP Pangea e coordenador geral da cooperativa, essa equipe técnica era formada por 16 pessoas, divididas em quatro grupos de trabalho: administração, logística, assistência social e o grupo de comunicação e mobilização ambiental. Esses grupos ficaram responsáveis por dar uma funcionalidade aos cooperados.
Ainda segundo o coordenador geral, um ponto importante a se destacar, refere-se ao trabalho de conscientização da população que, naquele período, se deu de forma bastante efetiva, com a realização de palestras em escolas, movimentos nas ruas, elaboração de cartazes e distribuição de panfletos, e isso porque:
Era necessário que já na abertura da cooperativa Recicla Conquista, se tivesse uma boa parte da população já conscientizada para doar o material. Vitória da Conquista não sabia o que era reciclagem, não sabia como receber o catador quando chegasse a sua casa, e toda essa parte de reciclagem aqui não existia. Então foram definidos os roteiros de coleta, feito um estudo prévio dos melhores bairros de doação, para que a gente “pilotamente” implantasse o início da cooperativa nestes bairros de modo a se saber qual o sucesso que se teria ou não, com relação a quantidade de material coletado, e também à aceitação do público.24
24 Entrevista cedida em abril de 2014.
Quanto aos catadores do antigo lixão da cidade, os mesmos foram então encaminhados para a cooperativa Recicla Conquista. Contudo, essa foi uma época de muitos conflitos, conforme declarou o representante da OSCIP Pangea, que é um dos responsáveis pela organização administrativa da Recicla Conquista:
[...] eles não acreditavam que o lixão iria realmente fechar e que a cooperativa fosse de fato funcionar; achavam que iríamos colocar cabresto neles. Não entrava na cabeça deles que a cooperativa é um processo de expansão de empresa, contudo, eles ainda continuariam livres, de forma que para os cooperados há livre adesão e livre saída.25
Assim, com a transformação do antigo lixão em aterro controlado e, posteriormente, em aterro sanitário, foram cadastradas, inicialmente, 134 pessoas dentre esses catadores, levando-se em consideração os aspectos socioeconômicos dos mesmos. Os demais optaram por continuarem trabalhando como catadores não cooperados ou ainda partiram em busca da realização de novas ocupações. As crianças que trabalhavam no lixão foram encaminhadas para projetos sociais, visando garantir-lhes acesso à educação e a não submissão à exploração do trabalho infantil, ainda segundo informações do coordenador geral da cooperativa.
Os antigos trabalhadores do lixão (atuais cooperados) passaram por processo de capacitação, de gestão de empresa, gestão de cooperativa, triagem e processamento do material, por um período de seis meses. Eles ainda passaram a usufruir de políticas assistenciais, tais como: Bolsa Família, Secretaria Social de Habitação e Programa Minha casa, Minha vida, bem como a receberem assistência médico-odontológica, por meio de parcerias com empresas privadas do município de Vitória da Conquista.
Durante o processo de sua implantação, a Recicla Conquista recebeu apoio da Fundação Banco do Brasil; do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista (PMVC); da Organização da Sociedade Civil para Interesse Público Pangea e da Petrobrás, sendo essa última a principal investidora inicial, disponibilizando R$ 1.000.000,00 reais para a compra de equipamentos, conforme declara a atual presidente da cooperativa.
Ressalta-se ainda que desde o período da sua fundação até o momento atual, 7 projetos da Recicla Conquista já foram aprovados: 2 pelo Banco do Brasil, 2 pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), 1 pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social, 1 pela Caixa Econômica Federal e 1 pela Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista. Outros 2
projetos ainda estão em andamento, porém, já passaram por processo de aprovação e aguardam somente a liberação do recurso para efetivação dos mesmos, com a aquisição de novos equipamentos. Como exemplo, pode-se citar o Cataforte, que se constitui em um Projeto de apoio e fomento institucional, envolvendo cooperativas de todo o Brasil, por meio do qual a Recicla Conquista foi beneficiada com uma quantia equivalente à R$ 400.000,00 que será aplicado em aquisição de veículos, apoio técnico, capacitação, etc. “É obrigatório o envio de um Relatório de aplicação deste recurso, comprovação de nota do que foi adquirido, para não haver possibilidade de desvio desta verba”,26 declara o representante da OSCIP Pangea na cidade.
Ainda segundo ele, um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento de projetos e captação de recursos para a cooperativa é a OSCIP Pangea, havendo pelo menos dois pré- requisitos para o acesso a financiamentos: “[...] a cooperativa precisa existir há pelo menos 2 anos; é necessário também estar com tudo em dia, de modo que não se pode ter débito com o Estado”.27 O que se observa é o financiamento público para o trabalho precário.
Ao todo, são 17 o número de cooperativas na Bahia implementadas com o apoio direto da Pangea, que objetiva disseminar uma rede de cooperativas no estado, por meio da elaboração de projetos para implantação das mesmas nas cidades em que estiverem sendo instalados aterros sanitários, bem como o fechamento dos tradicionais lixões. É a Fundação Nacional de Saúde a responsável pela abertura de editais para o encaminhamento de projetos, exigindo-se a documentação necessária para avaliação, posterior aprovação (caso a mesma ocorra) e liberação de recursos, sendo que o objetivo de tais financiamentos é principalmente o de melhorar a produção e aumentar o número de catadores cooperados.
Cabe sinalizar que o representante da OSCIP Pangea em Vitória da Conquista, é funcionário concursado da Prefeitura Municipal, cedido à cooperativa para prestar serviços na condição inicial de coordenador auxiliar e, atualmente, de coordenador geral. O mesmo ainda enfatizou a fundamental importância desta OSCIP para Recicla Conquista e isso, segundo ele:
[...] não só pela instrução que foi dada aos cooperados, com vistas à incubação, a capacitação, mas a equipe toda coordenava e explicava como deveria ser feito o trabalho pela cooperativa, no intuito de que chegasse a um determinado momento deles caminharem sozinhos. A independência dos cooperados era algo desejado. Mas até o momento se não tiver o braço da Pangea direcionando, a Recicla Conquista não vai para frente, pois os cooperados não têm condições nenhuma de elaborar projetos, não tem esse traquejo para conseguir a captação de recursos. 28
26 Entrevista cedida em abril de 2014. 27 Entrevista cedida em março de 2014. 28 Entrevista cedida em abril de 2014.
Assim, se pode observar uma descrença por parte da própria equipe técnica apoiadora, na capacidade de autogestão da cooperativa. Cabe avaliar se a emancipação desses catadores é mesmo desejável.
Além dos apoiadores já mencionados, a Secretária Municipal do Trabalho, Renda e Desenvolvimento Econômico (SEMTRE), o Centro de Economia Solidária (CESOL) e a Secretária do Meio Ambiente, apresentam-se também como apoiadores diretos da Recicla