A- S YAS MÜCADELELER
3- evardnadze’nin ktidar Dönemi
O exercício crítico em relação ao conceito do espaço, sua produção, apreensão e representação tem dado origem a novas questões sobre terminologia e método. Desde a década de 1960, quando surgiram os textos seminais, passando pela década seguinte, quando, para usar o subtítulo do livro de Edward Soja, procedeu-se a uma “reafirmação do espaço na teoria social crítica”, temos visto a aparição de uma série de tentativas teóricas em situar “o local da cultura", numa referência ao título do livro de Hommi Bhabha. Nesse período houve uma profusão de teorias sobre o tema, ajudando a crítica contemporânea a abordar os fenômenos sociais e a produção da cultura em relação com os modos de
espacialização.
Trabalhos como o de Henri Lefèbvre influenciaram profundamente a teoria urbana atual.31 Já em seu La production de l’espace, publicado em 1974, ele argumentava que o espaço era produzido por meio de três modos inter-relacionados: práticas do espaço, representações do espaço e espaços de representação. Trata-se de um modelo trialético, que muitos geógrafos culturais, bem como historiadores da arte, arquitetos e urbanistas,
30 Do texto de Orlando Grossegesse, "A arte de errância pelo mar de pedra. De Walter Benjamin a José
Cardoso", a ser publicado.num volume em homenagem à Profª. Fátima Brauer-Figueiredo, organizado por Henry Thorau e Paulo de Medeiros.
31 Teoria Urbana é um conjunto de teorias sociais – do clássico ao pós-moderno. Essa referencia a teorias
sociais pressupõe a não-separação entre as forcas sociais, políticas e econômicas. O conceito de sustentabilidade torna-se progressivamente a pedra de toque dos estudos urbanos a essa tríplice relação entre o social, o meio-ambiente e a economia.
adotaram como um quadro referencial teórico, dentro qual era possível elaborar uma crítica da produção espacial e visual. No início de La production de l’espace, Lefèbvre observa que um dos problemas-chave nos estudos do espaço é o de que a prática espacial seja entendida como a “projeção” das relações sociais sobre o campo espacial. Problematizando essa relação unívoca, ele propõe que se trata de uma relação ambígua e que o espaço também tem um impacto sobre o social.
Soja descreve esse conceito de Lefèbvre como a noção fundamental da dialética sócio-espacial, isto é, que as relações sociais e espaciais são dialeticamente interdependentes e inter-reativas e que a produção das relações sociais é tanto formadora do espaço quanto contingenciada por ele. Vale dizer, portanto, que não apenas o espaço é socialmente produzido, mas também que as relações sociais são espacialmente produzidas. A reviravolta espacial, no final da década de 1980 e na década de 1990, ressaltou a importância do espaço, ao invés do tempo, no período pós-moderno. Acadêmicos de todos os tipos de disciplinas voltaram-se para a Geografia na busca de uma análise rigorosa e teoricamente embasada acerca da articulação entre as relações sociais e espaciais.
Publicado em 1993, a coleção de artigos editada por Michael Keith e Steve Pile,
Place and the Politics of Identity, marcou o momento no debate quando identidade e lugar
tornaram-se centrais na discussão do espaço. A Introdução e muitos dos artigos destacam um interesse por um lugar de difícil localização, não mais fixo, não mais passivo. Um espaço dialético, porque forças desestruturantes bloqueiam qualquer tendência a considerar o espaço como o receptáculo inerte para o processo social.
No inicio desta década, houve reflexões decorrentes daquela reviravolta espacial. Em Thinking Space, uma coletânea de artigos editada por Mike Crang e Nigel Thrift, os autores procederam a uma revisão dos teóricos seminais do espaço, identificando uma série de novos temas no pensamento espacial, tais como experiência, viagem, mobilidade, prática e performance – temas que descrevem o foco de boa parte da teoria e da crítica recente, demarcando uma nova interseção entre arte e geografia em torno do problema da prática espacial.
Em seu texto mais importante, L'invention du quotidien, publicado em 1980, Michel de Certeau desenvolve uma compreensão de espaço e lugar orientada segundo a distinção de Ferdinand de Saussure entre langue e parole. Para o antropólogo francês, da
mesma forma que a língua se constitui em um sistema social de regras e a fala na atualização dessas regras pelos indivíduos, o espaço se constitui na prática do lugar pelos indivíduos, ou seja, o espaço é um lugar praticado.
Ao interrogar o espaço como dinâmico e constituído pela prática, Certeau faz a distinção entre espaço e lugar, definindo o conceito de lugar como uma “configuração instantânea de posições” (CERTEAU, 1996, p. 201). Uma organização que aponta para uma suposta vitória sobre o tempo, já que os elementos que a compõem mantêm posições fixas e relativas umas às outras. Não há movimento. Certeau chamou as operações que organizam o lugar de estratégias, isto é, operações que existem dentro de relações de poder específicas. Lugar, por conseguinte, estaria para a langue, enquanto o conceito de espaço, por ser o “efeito produzido pelas operações que o orientam, o circunstanciam, o temporalizam e o levam a funcionar em unidade polivalente de programas conflituais ou de proximidades contratuais” (CERTEAU, 1996, p. 201), estaria para a parole.
Enfim, o espaço é a prática do lugar pelos indivíduos, ou um lugar praticado. De maneira que “a rua geometricamente definida por um urbanismo é transformada em espaço pelos pedestres. Do mesmo modo, a leitura é o espaço produzido pela prática do lugar constituído por um sistema de signos – um escrito.” (CERTEAU, 1996, p. 202). Como nos conceitos de espace vécu de Lefèbvre e de espace identitaire, relationnel et
historique de Augé, o conceito de espaço de Certeau incorpora uma dimensão prática, um
valor de experiência em que o sujeito e o meio (lieux) passam a interagir reciprocamente. Merleau-Ponty (1996) já distinguia de um espaço geométrico, que remete a uma espacialidade homogênea e isótropa análoga ao lugar de Certeau, uma outra espacialidade que denominava espaço antropológico. Essa distinção tinha a ver com uma problemática diferente, que visava separar da univocidade geométrica a experiência de um “fora” dado sob a forma de espaço e para o qual “o espaço é existencial” e “a experiência é espacial”. Essa experiência é relação com o mundo; no sonho e na percepção, e, por assim dizer, anterior à sua diferenciação. Ela exprime “a mesma estrutura essencial do nosso ser como situado em relação com um meio” – um ser situado por um desejo, indissociável de uma “direção de existência” e plantado no espaço de uma paisagem. Deste ponto de vista, “existem tantos espaços quantas experiências espaciais distintas”. A perspectiva é determinada por uma “fenomenologia” do existir no mundo.
Nessa intersecção entre a percepção e o espaço ocorre a fabulação, o sonho, a representação desse espaço, enfim. Inventamos o espaço, ou espaços, a partir de nossa prática cotidiana de movermo-nos pelos lugares, inscrevendo e ao mesmo tempo lendo signos que carregam o selo de nossos desejos e memórias:
O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior. É uma história a meio de nós mesmos, quase em retirada, às vezes velada. Não se deve esquecer este “mundo memória”, segundo a expressão de Péguy. É um mundo que amamos profundamente, memória olfativa, memória dos lugares da infância, memória do corpo, dos gestos da infância, dos prazeres. Talvez não seja inútil sublinhar a importância do domínio desta história "irracional” ou desta “não-história”, como o diz ainda A. Dupront. O que interessa ao historiador do cotidiano é o invisível...” (CERTEAU, 1996, p. 31)
Certeau propõe que o que interessa à narrativa da cidade é revelar o que ela não mostra, aquilo que é invisível em seu cotidiano, procurar por seus sentidos perdidos ou ocultos, impossíveis de serem significados a partir de um olhar primeiro, panorâmico e contemplativo. Como diz Cardoso Pires, logo no início de seu “livro de bordo”, acerca de Lisboa: “ a distância inventa cidades, como muito bem sabemos. Por essa razão é que eu nunca me esqueço daquele aviso que alguém um dia deixou nesta varanda de curiosos: A Primeira Vista é Para os Cegos!, aviso sábio, sem dúvida ...” (PIRES, 1997, p. 11). Para conhecer as Lisboas invisíveis, Cardoso Pires se afasta da visibilidade ofuscante das paisagens encomendas da Ville Blanche para fazer um inventário dos lugares, com seus cheiros e sons, seus fantasmas a partir de uma tessitura entre desejos e memória de modo a diluir a distinção entre o exterior, a cidade, e o interior, a sua representação. Temos então a noção de cidade “trans-discursiva”, que transgride a divisão que Foucault faz entre o plano discursivo (códigos) e não-discursivo (práticas) (SHIELDS, 1996, p. 246). Em outras palavras, entre a Lisboa “real”, trilhada por Cardoso Pires e as cidades invisíveis que se vão se incorporando na paisagem, ao longo do tempo, deixando nela suas inscrições, vamos encontrar as cidades trans-discursivas em que o empírico e o inventado misturam-se, obliterando a distinção ente o real e o imaginado, entre o fatual e o fictício.