Junto com a resistência oferecida pelo movimento, vieram também as conquistas, que mesmo que pequenas, eram comemoradas e serviam como motivação para continuar resistindo.
Em audiências públicas o projeto do VLT e as construções das estações eram questionados pelo movimento. Tais questionamentos e exigências realizadas pelos moradores alteraram o traçado do projeto, buscando o menor impacto possível para as comunidades.
A mobilização popular nas comunidades por meio de reuniões e assembleias teve papel fundamental para o esclarecimento da situação e do futuro das comunidades, diante da ausência de diálogo por parte do Governo Estadual.
O processo de desapropriação iniciou-se com a marcação e avaliação dos imóveis sem nenhuma explicação para os moradores que neles residiam. Diante da situação, não existiu outra saída senão resistir.
Diante de toda a resistência e mobilização realizada pelas comunidades, o Governo se viu preocupado com a situação ao ponto de o próprio Governador do Estado do Ceará à época, Cid Gomes, ter ido pessoalmente a uma das comunidades afetadas no dia 03 de agosto de 2011, às 20 horas, acompanhado de seguranças armados, e sem nenhuma comunicação prévia, para defender o projeto de construção do VLT. (QUEIROZ, 2011).
A situação provocou mobilização imediata dos membros movimento que interpretaram a atitude do governador como tentativa de realizar pressão psicológica nos moradores:
Segundo a professora Francinete Gomes, membro do MLDM e moradora da Trilha do Senhor, Cid Gomes chegou a entrar em cinco residências, onde defendeu o projeto e disse que só haveria duas alternativas – ou aceitavam as indenizações no valor de 10 mil reais, em média, ou seriam realocados em algum conjunto habitacional. (GOMES apud QUEIROZ, 2011).
Vale ressaltar que a tentativa de diálogo do Governo visitando os moradores à noite e sem aviso prévio, não representou de fato um diálogo esclarecedor, pois caso contrário teria marcado uma reunião ou assembléia com todos os moradores a fim de explicar sobre a obra e construir possibilidades alternativas.
E as “visitas surpresas” não pararam por aí. No dia 10 de abril de 2013, o ex- governador foi até a comunidade Jangadeiro (situação esta que pude presenciar) à noite, tentar conversar com os moradores sobre a construção do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).
A reação dos moradores não foi diferente. Compreendendo o descaso do Governo e a nova tentativa de intimidação, o ex-governador foi recebido com vaias, representando a resistência da população às remoções forçadas:
Uma moradora que não quis se identificar relatou que quatro carros de segurança acompanharam o governador durante os cerca de 40 minutos de visita, além de homens armados que o seguiam na visita casa a casa ao longo dos 200 metros cumpridos por Cid. "Ele invade nossa comunidade para falar o que quer, na hora que quer, é arrogante com as pessoas para impor o que ele acha que é certo e não sabe ouvir o povo", reclama uma moradora que não quis se identificar. (O POVO, 2013).
Na comunidade Trilha do Senhor foram quatro anos de resistência na tentativa de permanecer no local em que moravam há décadas. No entanto, muitas famílias foram obrigadas a abrir as portas para realização da medição nos imóveis diante de decisão judicial.
Importa ressaltar que a medição forçada dos imóveis foi realizada sem qualquer cuidado psicológico com a população, que foi forçada a abrir a porta de suas casas sempre observados por força policial (ALVES, 2013).
Após a medição das casas, muitos moradores começaram a receber os laudos com a avaliação dos imóveis contendo o preço, o que restou evidente a impossibilidade de comprar outra casa nas proximidades
Para os moradores da Trilha do Senhor, o VLT serve como "desculpa" para remover a faixa carente do bairro nobre de Aldeota, onde a comunidade está localizada. "O que a gente queria mesmo era permanecer. Mas a luta vai continuar, estamos levando nossas reivindicações", afirma Cássia Sales. (ALVES, 2013).
Mesmo diante de pressão, as reivindicações não pararam. Além da alteração do projeto do VLT, reduzindo o impacto em algumas comunidades, a mobilização dos moradores contribuiu para o aumento do valor do aluguel social, benefício concedido aos desapropriados pelo Governo do Estado, conforme retrata depoimento de morador da comunidade Lauro Vieira Chaves:
"Uma das nossas grandes conquistas foi evitar que todas as casas fossem derrubadas, pois o trajeto inicial passava por cima de todas as moradias. Nós conseguimos também um terreno próximo aqui à comunidade, onde o Governo prometeu construir 80 apartamentos para os desapropriados", coloca Ivanildo. (CHAVES apud MELO, 2014).
O aluguel social é um mecanismo que tem o objetivo de auxiliar na moradia de famílias que estão em situação de vulnerabilidade social decorrente de diversos fatores como desastres ambientais, remoções, incêndios. Trata-se de benefício temporário e de responsabilidade da Defesa Civil, Fundação do Desenvolvimento Habitacional de Fortaleza (Habitafor), Secretaria de Direitos Humanos (SDH) e Secretaria de Trabalho, Desenvolvimento Social e Combate à Fome (Setra).
O valor do aluguel social, anteriormente previsto pelo Governo no valor de R$ 200,00, foi aumentado para R$ 400,00 em decorrência da pressão feita pelos moradores alegando a impossibilidade de se alugar um imóvel em Fortaleza no valor de R$ 200,00.
A resistência oferecida pela comunidade resultou em várias conquistas como o aumento do aluguel social, diminuição das áreas atingidas, e além destas uma das conquistas que vislumbrei foi a postura de cidadão politicamente ativo e socialmente engajado assumida pelos moradores afetados com a execução das obras, adquirida ao decorrer da luta pelo direito à cidade.
Mesmo com toda a resistência muitas famílias foram removidas de suas casas, outras ainda permanecem em suas residências, mas estão em processo de negociação com o Governo do Estado em busca de melhores indenizações ou moradias próximas e a preços acessíveis.
Em relação à execução das obras do Veículo Leve sobre Trilhos, após a realização da Copa do Mundo, a obra ainda não foi concluída (apenas 50% das obras foram concluídas), mesmo com todos os impactos na vida dos moradores das comunidades do trilho. (O POVO, 2015).
O Governo do Estado não possui sequer previsão de quando será concluída o restante da obra diante do cancelamento do contrato com a antiga empresa responsável pela execução do projeto.
Enquanto isso, muitos moradores ainda sofrem as consequências de tal processo realizado sem diálogo e sem qualquer respeito a direitos básicos, individuais e sociais, o que representou acima de tudo um processo de exclusão de parte da população da cidade.