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3.7.5 ESET Shell
Considerando que a economia de mercado pode falhar e que a intervenção do Estado na economia pode ser importante, as discussões que envolvem o terceiro momento do Direito e Desenvolvimento se pontuam no conceito de desenvolvimento que inclui a liberdade. Além disso, o direito deixou de ser uma ferramenta para se atingir o desenvolvimento e passou a ser aceito como um fim em si mesmo. Isto é, as próprias instituições legais configuram parcela do desenvolvimento157.
Um novo ciclo de alterações na economia, no direito e nas práticas institucionais provoca a necessidade de um novo olhar sobre a temática aqui tratada.
A decadência do discurso neoliberal provocou mudanças no cenário político, em especial na América Latina, região em que muitas nações se frustraram com os efeitos do Consenso de Washington. Assim, chegaram ao poder ideias políticas diferentes, mais voltadas ao aspecto social do que ao econômico. Estavam surgindo novos ideais desenvolvimentistas a
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RITTICH, Kerry. The future of Law and Development: second-generation reforms and the incorporation of the social. In: SANTOS, Alvaro; TRUBEK, David. The New Law and Economic Development: A Critical Appraisal. New York: Cambridge University Press, 2006, p. 207.
156 Ibidem, p. 234. 157
ZANATTA, Rafael Augusto Ferreira. Direito e Desenvolvimento no século XXI: rumo ao terceiro momento? In: Anais do I Circuito de Debates Acadêmicos. Ipea e Associações de Pós-Graduação em Ciências Humanas. II Conferência do Desenvolvimento. Brasília, 2011, p. 15.
compor um novo ativismo estatal capaz de promover crescimento e liberdade, além de igualdade, conjuntamente.
O fenômeno pode ser verificado especialmente no Brasil – e será objeto de exame específico adiante – mas também, mutatis mutandis, na Colômbia, no Chile, no México, na Nigéria, no Camboja, na China e na Coréia do Sul.
Os elementos deste novo estado foram coligidos por David Trubek, a saber158:
a) ao invés de investimentos estatais diretos, confia-se primariamente no papel do setor privado como investidor;
b) reconhecimento da atuação estatal na condução de investimentos, coordenação de projetos e prestação de informações, relacionadas em especial a projetos com múltiplos
inputs159 e retornos a longo prazo;
c) crescente colaboração e comunicação entre os setores público e privado; d) maior apreço pelas exportações e relativa abertura para importações;
e) estímulo ao empreendedorismo, à inovação e ao desenvolvimento de novos produtos, afastando a dependência do conhecimento e da tecnologia importados;
f) incentivo aos investimentos diretos estrangeiros produtivos (e não especulativos); g) maior ênfase em tornar as empresas privadas competitivas, em relação à proteção da concorrência;
h) privatização ou parcerias público-privadas na prestação de serviços públicos;
i) impulso ao mercado de capitais interno e à indústria financeira para que ambos possam gerar e alocar recursos;
j) dedicação à proteção social, incluindo esforços para reduzir a desigualdade, conservar a solidariedade e resguardar custos relacionados à recuperação de empresas;
i) programas assistenciais condicionados ao trabalho ou ao investimento em capital humano por parte de seus beneficiários.
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TRUBEK, David. Developmental States and the Legal Order: towards a new political economy of development and law. Working paper of LANDS, the project on Law and the new Developmental State. Disponível em: <http://law.wisc.edu/gls/documents/developmental_states_legal_order_2010_trubek.pdf>. Acesso em: 26 ago 16, pp. 10-11. (October 2010 version).
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Em economia, o termo input representa um fator de produção (maquinário, horas de trabalho, capital etc) ou matéria-prima utilizado para a produção de bens ou serviços. O resultado dessa produção é assinalado pelo termo output.
Essas condutas exigem novas políticas públicas para sua implementação – no caso brasileiro, dentre elas pode-se de logo citar o Programa do Microempreendedor Individual, objeto de detalhamentos no decorrer deste trabalho.
O estado brasileiro tem sido, de há muito, objeto dos estudos da seara do Direito e Desenvolvimento. Nesse terceiro momento, inclusive, aponta-se em nosso país um significativo exemplo desse novo ativismo estatal (neodesenvolvimentista), debate que será objeto de tópico próprio.
Nesse novo momento, o direito é utilizado para facilitar a experimentação e a inovação, mediante o estabelecimento de normas que viabilizem as parcerias público- privadas, por exemplo. O direito também tem sido bastante afetado por determinadas forças globais, como a disponibilização, pelo Banco Mundial, de modelos variados da relação jurídica com o desenvolvimento – implicando nas políticas públicas brasileiras, como se verá empós; além disso, a competitividade nacional recebe influência dessa realidade, à medida em que os investidores estrangeiros avaliam as normas antes de decidir a respeito de sua atividade. Por último, normas transnacionais, de organismos como a Organização Mundial do Comércio (OMC) ou o Mercosul, podem afetar o ordenamento jurídico interno nesse contexto.
Como já mencionado, o Direito faz parte da noção de desenvolvimento, sendo necessário para aumentar as capacidades de um indivíduo, à luz do que se explicitou sobre o
desenvolvimento como liberdade. Consoante David Trubek, “a proteção jurídica para valores
constitucionais e direitos humanos, incluindo direitos econômicos e sociais, deve fazer parte da agenda de direito e desenvolvimento junto ao direito econômico e à reforma judicial”160.
A propósito das políticas públicas nessa seara, neste terceiro momento verifica-se sua base em evidências empíricas, e não mais em debates abstratos. Por exemplo, voltando ao caso do microempreendedor individual, evidencia-se diversos problemas decorrentes da informalidade, nos mais variados setores da sociedade (como o desamparo previdenciário, para citar um); assim, a política pública se determina com o objetivo de reformar a realidade.
De acordo com Rafael Zanatta,
Neste terceiro momento, os pesquisadores e a universidade exercem um papel fundamental. O experimentalismo e o processo de aprendizagem, baseado em pesquisas empíricas, são essenciais para este novo momento. A principal lição do direito e desenvolvimento do século XX é que não há script, não há um modelo único. Os sistemas jurídicos estão profundamente emoldurados pela cultura e pela
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TRUBEK, David. Direito e desenvolvimento no século XXI. In: Direito e Desenvolvimento: debates sobre o impacto do marco jurídico no desenvolvimento econômico brasileiro. Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial – ABDI, Proposta de Trabalho, Brasília: 2010, p. 29.
sociedade. Não há um setor privilegiado para a promoção do desenvolvimento, como a reforma do ensino jurídico ou a reforma do judiciário. One size does not fit all. Não há fórmula desenvolvimentista que possa ser aplicada a todos os países em desenvolvimento161.
A pesquisa jurídica, portanto, há de ser guiada pelo empirismo. Definir a eficácia de determinada instituto jurídico exige a observância de fatores sociais, econômicos ou políticos, verificados na experiência prática.
Esclarecida a história que embasa o movimento Law and Development, mostra-se possível investigar sua natureza, o que se fará a seguir.