3. HEGEMONİK ERKEKLİK Hegemonya Nedir?
3.3. Erkekliğin Toplumsal İnşası
Esse capítulo é dedicado à leitura das representações de artista presentes em Un spectacle dans un fauteuil, com o objetivo de observar de que modo as mesmas participam da construção do posicionamento do poeta no campo artístico, na década de 1830, na França. Privilegiaremos as imagens de artista através das representações das personagens André del Sarto, em André del Sarto (1833), Tebaldeo em Lorenzaccio (1834) e Fantasio em Fanta sio (1834). Estabeleceremos relações do discurso dessas personagens com o discurso de Musset em seus textos de crítica de arte. Confrontaremos a expressão da posição de Musset, por meio dessas representações de artista, com aquelas apresentadas por Musset em outros textos seus e que nos remetem à sua representação social de artista.
4.1 Tebaldeo, o pintor-artesão
A segunda cena do segundo ato de Lorenzaccio (1834) é iniciada por um diálogo entre as personagens de Valori e de Lorenzo que estão em frente a uma igreja. “Le portail d’une église” 222
não é, para nós, apenas uma indicação de onde se passa a cena, mas também um indício de picturalidade, um topos 223 da pintura que também anuncia uma descrição. Esta permite às personagens observarem o que há no interior da igreja. Musset nos apresenta, com a indicação da entrada dessas duas personagens, duas representações de mecenas. De um lado, Lorenzo representa a corte, e de outro lado Valori, comissário apostólico, representa a Igreja Católica. Valori descreve as belezas da Igreja: “Ah! Monsieur, quelle satisfaction pour un
222
UBERSFELD, Anne. Para ler o Teatro. Trad. de José Simões. São Paulo: Perspectiva, 2005, p.148.
“A fachada de uma igreja”. A partir de então, para mencionarmos essa obra, utilizaremos as iniciais AU, seguida de indicação da página a qual nos referimos.
223
Cf. CATARINA, Pedro Paulo G.F. Quadros literários fin-de-siècle. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ & 7 Letras, 2005, p. 74-75.
Chrétien que ces pompes magnifiques de l’Église romaine!”224
e questiona, em seguida: “Quel homme pourrait y être insensible? L’artiste ne trouve-t-il pas là le paradis de son coeur?”.225
Tebaldeo se apresenta como un “citoyen obscur” (cidadão obscuro) e se autodenomina um pintor de igreja, afirmando que suas obras têm pouco mérito: “Mes ouvrages ont peu de mérite; je sais mieux aimer les arts que je ne sais les exercer. Ma jeunesse tout entière s’est passée dans les églises”.226 Antes de se apresentar, Tebaldeo é reconhecido pelo personagem de Valori: “N’êtes-vous pas le petit Freccia?”227
. Esse reconhecimento do personagem pelo seu sobrenome nos conduz às duas cenas que foram destacadas da peça quando de sua publicação. Em uma delas intitulada Une petite chambre (um pequeno quarto) há um personagem pintor chamado Freccia. Segundo Jean-Marie Thomasseau, a questão do nome das personagens na peça não pode ser negligenciada:
O nome define um comportamento em harmonia ou em oposição com sua significação. Em uma peça histórica, o escritor torna-se, contudo, prisioneiro dos nomes que a história lhe impõe, mas ele pode, à vontade, servir-se de seus componentes. Assim, em Lorenzaccio, todos os nobres da lista são identificados por seus nomes e sobrenomes, acompanhados por vezes de seus estatutos sociais. 228
Thomasseau nos indica que Tebaldeo não faz parte da nobreza e por que não dizer, seria uma personagem de ações sociais limitadas perante o poder constituído na Florença representada por Musset. Não ter seu sobrenome na lista de personagens e ser descrito apenas como pintor denota um caráter servil ao personagem e, consequentemente, a seu trabalho. Bernard Masson em Musset et le théâtre intérieur (1976) explica que o nome de Tebaldeo,
224
AU, p.148.
“Ah, senhor que satisfação para um cristão essas pompas magníficas da Igreja romana!”
225
AU, p.148.
“Que homem pode ficar insensível a ela?”
226
AU, p. 148.
“Meus trabalhos têm pouco mérito: sei amar as artes mais do que exercitá-las.”
227
AU, p.148.
“Não és o pequeno Freccia?”.
228
THOMASSEAU, Jean-Marie. Alfred de Musset - Lorenzaccio; études littéraires. Paris: Presses Universitaires de France, 1986, p. 62.
“Le nom définit un comportement en accord ou en opposition avec sa signification. Dans une pièce historique, l’écrivain toutefois reste prisonnier des noms que l’histoire lui impose, mais il peut à son gré jouer leurs composantes. Ainsi dans Lorenzaccio, tous les patriciens de la liste sont signalés par leur prénom et leur nom accompagnés parfois de leur statut social.”
na verdade, tem sua origem no sobrenome de Antonio Tebaldeo, um poeta e amigo do pintor renascentista Rafael e adverte que essa escolha não foi fruto do acaso:
O nome não é como se acreditou, com certa frequência, invenção de Musset: Ele pertence à história da pintura e da poesia italianas do Renascimento. Antonio Tebaldeo, poeta de tradição petrasquista, precursor do marinismo, contemporâneo de Sannazzaro e do cardinal Bembo, deve a sua amizade por Rafael o fato de figurar no Parnaso, - um dos quatro grandes afrescos da câmara dita da assinatura no Vaticano – ao lado de ilustres poetas da Antiguidade. Homero, Virgílio, Ovídio. Rafael lhe dedicou um retrato de grande reputação, lamentavelmente extraviado. Atribuindo a Freccia o sobrenome desse poeta como nome de batismo e, por assim dizer, de vocação, Musset inseria definitivamente e de uma maneira intencional o jovem artista na esfera rafaélica. Sabemos do impacto desse pintor junto aos românticos 229.
A escolha que fez Musset do nome Tebaldeo não é fortuita e nem por obediência aos fatos históricos ou à cor local do drama. Musset integra o campo artístico em um momento de reconstituição histórica, no qual os artistas participam de um movimento de valorização da imagem do pintor renascentista Rafael. Este não seria apenas cultuado, ele se torna tema das próprias obras artísticas. A imagem e o estilo de Rafael passaram a ser associados à sobriedade, ao luxo e ao vigor, sendo tema desenvolvido pelos pintores em um contexto de fraternidade das artes. Musset segue assim uma tendência artística já emanada no campo artístico 230, como afirma Claude Foucart, em seu artigo L’oeuvre de Raphaël: étapes et formes d’une critique littéraire (1980):
Rafael e o ideal artístico que ele impõe por um tempo nas artes, no século XIX, encontram um eco que ultrapassa largamente o domínio da arte religiosa para atingir os setores mais variados da criação artística, como a literária. Só para citar, antes de tudo, um exemplo bem conhecido, é a partir de certa imagem da Virgem, tal qual Rafael teve o prazer de representar, que
229
MASSON, Bernard. Musset et le théâtre intérieur. Paris: Librairie Armand Colin, 1976, p.43-44.
“Le nom n’est pas, comme on l’a cru souvent, de l’invention de Musset: il appartient tout ensemble à l’histoire de la peinture et de la poésie italiennes de la Renaissance. Antonio Tebaldeo, poète de tradition pétrarquiste, précurseur du marinisme, contemporain de Sannazzaro et du cardinal Bembo, doit à son amitié pour Raphaël de figurer dans le Parnasse, - l’une des quatre grandes fresques de la chambre dite de la Signature au Vatican – aux côtés d’illustres poètes de l’Antiquité. Homère, Virgile, Ovide, Raphaël lui a même consacré un portrait de grande réputation malheureusement égaré. En donnant à Freccia le nom de ce poète pour prénom de baptême et, pour ainsi dire, de vocation, Musset mettait définitivement et d’une manière intentionnelle le jeune artiste dans la mouvance raphaëlique. On sait le rayonnement de ce peintre auprès des écrivains romantiques”.
230
Cf. THUILLIER, Jacques. Raphaël et la France : Présence d’un peintre. In:___. Raphaël et l’art français. Catalogue d’exposition. Éditions de la Réunion des musées nationaux, 1984, p.25-26.
Balzac imagina o personagem de Augustino em Maison du chat-qui-pelote [...].231
Claude Foucard inclui entre seus exemplos de idealização da arte de Rafael Sanzio, a personagem de Tebaldeo. O seu primeiro comentário sobre essa representação de artista é justamente referente a sua concepção:
Mesmo a personagem de Tebaldeo Freccia em Lorenzaccio foi concebida como o retrato de um artista cujos traços correspondem àqueles de seu mestre Rafael. Mas, Musset, como Balzac, não se aprofundam, escrevendo como quem integra à sua obra as correntes de pensamento próprias à sua época, imagem que nos fornece do pintor. E, nos escritos em que aborda ocasionalmente esse tema, Musset se contenta, antes de tudo, em destacar a diferença que descobriu entre dois artistas aos quais parece ter pretendido dedicar um de seus estudos sobre a arte: Rafael e Rubens. 232
Embora contribua para nossa releitura, fundamentando nossas informações sobre a criação de Tebaldeo, e mostre ter conhecimento de alguns textos de crítica de arte de Musset, como Salon de 1836,233 Claude Foucart comete um equívoco, a nosso juízo, quando diz que Musset aborda “ocasionalmente” o tema da arte. Musset não era e nem consta em seu projeto estético a ambição de ser um estudioso da arte, no entanto, posiciona-se no campo artístico com sua crítica, sobretudo, com suas menções a Rafael e a Rubens, acerca da arte de seu tempo. Além dos dois célebres pintores, há outras menções a artistas à disposição da crítica, como já mostramos no capítulo anterior e desenvolveremos ao longo da tese.
231
FOUCART, Claude. L’oeuvre de Raphaël: étapes et formes d’une critique littéraire. Revue d’histoire
littéraire de la France. Nº 6. Paris: PUF, Novembre-décembre, 1980, p.1005. Disponível em: htttp://gallica.bnf.fr/. Acesso em: 28 ago. 2013.
“Raphaël et l’idéal artistique qu’il imposa pour un temps dans les arts, au XIXe
siècle, trouvent un echo qui dépasse largement le domaine de l’art religieux pour atteindre les secteurs les plus variés de la création artistique que littéraire. Pour ne citer tout d’abord qu’un exemple bien connu, c’est à partir d’une certaine image de la Vierge, telle que Raphaël se plut à la représenter, que Balzac imagine le personnage d’Augustine dans la Maison du chat- qui- pelote [...]”.
232
Opus cit., p.1005.
“Le personnage même de Tebaldeo Freccia dans Lorenzaccio fut conçu comme le portrait d’un artiste dont les traits correspondent à ceux de son maître Raphaël. Mais Musset, comme Balzac, n’approfondit point, en écrivain qui intègre à son oeuvre les courants de pensées propres à son époque, l’image qu’il nous donne du peintre. Et, dans les écrits où il aborde occasionnellement ce thème, Musset se contente avant tout de souligner la difference qu’il a découverte entre deux artistes auxquels il semble avoir voulu consacrer l’une de ses études sur l’art: Raphaël et Rubens.”
233
Cf. FOUCART, Claude. L’oeuvre de Raphaël: étapes et formes d’une critique littéraire. Revue d’histoire
littéraire de la France. Nº 6. Paris: PUF, Novembre-décembre, 1980, p. 1006. Disponível em: htttp://gallica.bnf.fr/ . Consulta em 28 ago. 2013.
Afirmação de Masson de que a escolha do nome do personagem do pintor Tebaldeo, por Musset, integraria o personagem em uma “esfera rafaélica” também não nos satisfaz inteiramente. Isso porque com essa aproximação entre as imagens de Tebaldeo e de Rafael, Musset assume, no poema Les secrètes pensées de Rafael (1830), ou seja, por meio de outra cena genérica, um discurso de reivindicação e contesta a não aceitação do seu poema Ballade à la lune (1830), pelo qual o poeta fora acusado pelos líderes do Cenáculo de falta de consistência234 por rimar clocher jauni e point sur un i. 235 Apresentado como gentilhomme Français, o artista Rafael tem seu nome escrito de modo diferente da grafia em francês que é Raphaël. Mesmo com essa diferença gráfica, Musset faz menção ao pintor renascentista, denominado mestre e herói ao mesmo tempo. Cabe ressaltar que Rafael também é o nome do protagonista do drama em versos de Musset, intitulado Les Marrons du feu, publicado em dezembro de 1829.236
A rejeição de seu poema é abordada nos versos seguintes e serve de argumento para que Musset critique a falta de parâmetros na literatura de seu tempo, posicionando-se em favor das regras, dos mestres e de modelos: “Maîtres, maîtres divins, où trouverais-je, hélas! / Un fleuve où me noyer, une corde où me pendre [...]”. 237
Esses mestres divinos mencionados por Musset no poema podem ser associados aos mestres da pintura do renascimento italiano, como ainda aos escritores Boileau, Shakespeare e Racine, mencionados como referências no
234
Cf. FL, p.76. 235
MUSSET, Alfred de. Ballade à la lune. In:___. Poésies complètes. Paris: Gallimard (Bibliothèque de la Pléiade), 1957, p.83.
“C’était, dans la nuit brune, Sur le clocher jauni, La lune, Comme un point i”. 236
Cf. FL, p.671 237
MUSSET, Alfred de. Les secrètes pensées de Rafael In.:___. Poésies complètes. Paris: Gallimard (Bibliothèque de la Pléiade), 1957, p.120.
“mestres, mestres divinos, onde encontrarei, ai de mim!/ um rio onde possa me afogar, uma corda com que possa me enforcar [...]”.
poema: “Racine, rencontrant Shakespeare sur ma table, s’endort près de Boileau qui leur a pardonné”. 238
No que se refere a Rafael como herói, Musset exprime, de forma explícita, sua posição de descontentamento com a literatura em 1830: “Rafael (mon héros) sommeillant doucement / Remarquez bien lecteur, et ne vous en déplaise, / que c’est tout l’opposé d’un héros de roman”. 239
Apoiando-se, ainda, na imagem dos mestres divinos, Musset reafirma o seu distanciamento da luta entre clássicos e românticos, no mesmo ano em que ocorreu a batalha de Hernani, criticando os dois grupos: “Salut, jeunes champions d’une cause un peu vieille, / Classiques bien rasés, à la face vermeille, / Romantiques barbus, aux visages blêmis!” 240
. Musset reafirma também, com esses termos, sua posição contrária às escolas literárias241.
Tebaldeo declara, na peça (II,2) que é capaz de passar dias inteiros na igreja admirando os quadros dos grandes mestres como Rafael e Michelângelo: “Il me semble que je ne puis admirer ailleurs Raphaël et notre divin Buonarotti” e completa dizendo que diante dos quadros desses pintores, ele vê a glória do artista:
Je demeure alors durant des journées devant leurs ouvrages, dans une extase sans égale. Le chant de l’orgue me révèle leur pensée, et me fait pénétrer dans leur âme; je regarde les personnages de leurs tableaux si saintement agenouillés, et j’écoute, comme si les cantiques du choeur sortaient de leurs bouches entrouvertes. Des bouffées d’encens aromatique passent entre eux et moi dans une vapeur légère. Je crois y voir la gloire de l’artiste; c’est aussi une triste et douce fumée, et qui ne serait qu’un parfum stérile, si elle ne montait à Dieu. 242
238
Opus cit., p.121.
“Racine, encontrando Shakespeare na minha mesa, adormece perto de Boileau que lhes perdoou”.
239
Idem, p. 122.
“Rafael (meu héroi) cochilando docemente/ observe bem leitor, e não se aborreça/ que é totalmente o oposto de um herói de romance”.
240
MUSSET, Alfred de. Les secrètes pensées de Rafael In:___. Poésies complètes. Paris: Gallimard (Bibliothèque de la Pléiade), 1957, p.121.
“Olá, jovens vencedores de uma causa um pouco velha, / Clássicos bem barbeados e com o rosto avermelhado, / Românticos barbudos, com rostos pálidos!”
241
Cf. DIAS, José-Luis. Nous tous, enfants perdus de cet âge critique: la génération de 1830 par ele-même.
Romantisme, nº 147. Paris: Armand Colin, 1º trimestre 2010, p.20. 242
AU, p.149.
“Fico então dias e dias diante de suas obras em êxtase sem igual. O canto do órgão me revela o pensamento deles e me faz penetrar em sua alma: observo as personagens de seus quadros, ajoelhadas com tanta santidade e ouço-
O discurso da personagem Tebaldeo impressiona o membro da Igreja que se diz interessado em seu trabalho. Nesse momento, Tebaldeo se descreve como um “desservant bien humble de la sainte religion de la peinture”. 243 Tebaldeo carrega com ele um quadro que aguça a curiosidade de Lorenzo: “Pourquoi remettre vos offres de service? Vous avez, il me semble, um cadre dans les mains”. 244
Com certa resistência, Tebaldeo mostra seu quadro por ele descrito como “[...] une esquisse bien pauvre d’un rêve magnifique”. Nesse momento da cena, há uma oposição a partir do espaço da igreja. No espaço interno, situam-se as obras dos grandes mestres, dos pintores artistas. No espaço externo, nas mãos de Tebaldeo, o personagem de Lorenzo pode observar o quadro do artesão, sendo a igreja um espaço reservado às obras de prestígio. Intrinsecamente, Musset nos coloca diante de outra oposição: entre a arte oficial e a arte devocional, já que Tebaldeo era um pintor de igreja.
A igreja também é o local que acolhe as obras de arte no conto Le tableau d’Église (1830), publicado na Revue de Paris, no qual Musset apresenta um narrador que descreve a outra personagem chamada Henri, em um momento de extâse diante de um quadro que ele contemplava. O templo, do mesmo modo que acalmava o homem abatido, provocava-lhe sensações capazes de fazê-lo transitar entre o sonho e a realidade. A igreja seria o único lugar de paz para um homem que guerreava: “Je pénétrai dans une église au coucher du soleil, le jour où le canon cessa de se faire entendre”. 245 É também na igreja que a arte se oferecia como opção para a personagem escapar dos conflitos políticos de seu cotidiano. A arte é o canal capaz de fazê-lo falar com Jesus Cristo, como lemos no trecho: “J’ignore combien de temps je demeurai les yeux ainsi fixés sur cette toile, où je ne distinguais rien; comment as, como se os cânticos de coro saíssem de suas bocas entreabertas. As lufadas de incensos aromáticos passam entre eles e mim num vapor leve. Creio ver aí a glória do artista; é também uma fumaça triste e doce, e que seria apenas um perfume estéril, se não se elevasse a Deus.”
243
AU, p.149.
“Servo humilde da santa religião da pintura.”
244
AU, p.149.
“Por que adiar tua oferta de serviços? Ao que parece, tens um quadro nas mãos.”
245MUSSET, Alfred de. Le tableau d’église. In:___.
Oeuvres complètes en prose. Paris: Gallimard (Bibliothèque de la Pléiade), 1951, p.769.
l’attention se réveilla peu à peu avant de s’éteindre entièrement, c’est ce que je ne puis non plus m’expliquer [...]. Jésus, Jésus, m’écriai-je sommes-nous frères”. 246
O fato de Tebaldeo apresentar-se como um servo da religião da pintura, além de representar um traço de picturalidade textual, descrevendo seu mister e caracterizando a personagem como um pintor de igreja, pode ser associado também a dois pontos da estética de Musset. O emprego da expressão santa religião da pintura por Tebaldeo, noção difusa no renascimento italiano, caracteriza uma aproximação do poeta com o movimento da arte pela arte. A religião da pintura seria, ainda, uma recusa à religião como doutrina dogmática, simbolizada pelo espaço da igreja ( II,2). Ao contrário, a arte estabeleceria uma ligação entre a divindade e o artista, uma missão de fé sem ligação com a igreja enquanto autoridade religiosa247, uma expressão artística consoladora por ela mesma, como afirma Jean Gimpel em Contre l’art et les artistes (1968):
Religião da forma, do estilo, da beleza, da estética (palavra que surge somente no século XVIII). Essa religião original independente da Igreja será aquela de uma elite intelectual. Para os humanistas, a arte torna-se um ingrediente da vida intelectual e moral. Será possível consagrar uma vida à arte. A arte é uma consolação, frequentemente, um refúgio sagrado, onde os homens criam um álibi, longe das tristezas e das más ações circunjacentes248.
Em certa medida, a mesma Igreja que acolhe as obras de arte é aquela que representa a dependência do artista. Essa Igreja representada em Lorenzaccio (1834, II,2) não está associada à ideia de devoção ao catolicismo que caracterizou a geração anterior de poetas românticos. A própria presença de um Jesus Cristo humanizado em Tableau d’église é expressa por Musset de forma irônica, em contraponto à imagem do Cristo capaz de salvar o
246 “Eu ignoro quanto tempo fiquei com os olhos fixos nessa tela, onde não distinguia nada; como a atenção despertou pouco a pouco antes de se apagar inteiramente, é o que eu tampouco consigo explicar [...]. Jesus, Jesus, gritei, somos irmãos?” MUSSET, Alfred de. Le tableau d’église In:___. Oeuvres complètes en prose.