4. BASTIRILMIŞ KADINLIK
4.1. Erkekliğin Durakları
5.1 Prévan, o musicista diante do poder e do amor
Em seu romance epistolar Roman pa r lettres (1833), Musset reúne doze cartas enviadas pela personagem do musicista Prévan ao seu amigo Henri. Segundo a primeira nota desse texto na edição Gallimard de Oeuvres complètes en prose d’Alfred de Musset (1951), tal romance só foi publicado em 1896, pelo jornal Le gaulois, e tem status de obra póstuma. A edição descreve, ainda, que há um fundo Lardin de Musset no qual se encontram partes das cartas escritas à mão, por Alfred de Musset, e outras copiadas por Mlle Colin, sua governanta461.
No site da Biblioteca Nacional da França temos acesso ao jornal Le gaulois, no período que compreende os anos de 1868 até 1929. A nota da edição Gallimard, que nos serve de referência para o estudo da obra de Musset não menciona a data das publicações das cartas que formam Le roman par lettres. As cartas foram publicadas nos dias 17, 18, 19 e 20 de julho de 1896. 462 Todas elas ocupam a primeira página do jornal que continha, em cada edição, quatro páginas no total. As mesmas eram divididas em seis colunas. No número 5367, de 17 de julho, podem ser lidas as cinco primeiras cartas que ocupam a primeira coluna da esquerda para a direita e metade da coluna seguinte. Na edição de 18 de julho, lemos as cartas VI, VII e VIII situadas na metade da terceira coluna e em toda a quarta coluna da esquerda para a direita.
O número 5369 do jornal, de 19 de julho, expõe as cartas IX e X, ocupando pouco mais da metade da quarta coluna e dez linhas da quinta coluna da esquerda para a direita. A
461
Cf. MUSSET, Alfred de. Oeuvres complètes en prose. Paris: Gallimard (Bibliothèque de la Pléiade), 1951, p.1039.
462
Cf. MUSSET, Alfred de. Le roman par lettres. In: Le gaulois. 3ème série, numéros 5367, 5368, 5369 e 5370 p.1. Disponível em: htttp://gallica.bnf.fr/, sob os números 1896/07/17, 1896/07/18, 1896/07/19 e 1896/07/20. Acesso em: 16 jun. 2013.
edição do dia seguinte traz as duas últimas cartas do romance que ocupam toda a quinta coluna, também da esquerda para a direita. As edições dos dois primeiros dias apresentam, antes do nome de Alfred de Musset, a expressão “A suivre” 463, entre parênteses, e após o nome do autor, um aviso de que a reprodução das cartas era proibida: “Reproduction interdite” 464. Interdição esta que consta em todos os números do Gaulois que publicam Le roman par lettres. Na edição do dia 19 de julho, o fim do romance foi anunciado após as cartas: “La fin à demain”.465 E no número posterior, após as cartas XI e XII, há o anúncio em letras maiúsculas “FIN”. 466
O jornal enfatiza que as cartas de Musset são inéditas, o que deixa claro, com o subtítulo: “Nouvelle inédite”. A veracidade dos escritos e o anúncio das fontes ganham destaque na edição do dia anterior à publicação das primeiras cartas do romance, onde Ange Galdemar recorre à imagem de Musset dramaturgo, que na época já havia tido peças encenadas, para chamar a atenção do público leitor do jornal:
Uma verdadeira fortuna chegou até nós. É aquela de poder oferecer a nossos leitores o primor de uma obra inédita de Alfred de Musset, o Roman pa r lettres, uma novela bem ampla, de um charme requintado, afetuoso, espiritual e fina, cuja publicação iniciaremos a partir de amanhã. O manuscrito dessa obra póstuma, encontrada nos cartões de Musset, figurou ultimamente na interessante exposição do Livro, graças à benevolência da Srª Lardin de Musset. A irmã do ilustre poeta nos autorizou, gentilmente, a publicar a novela inteira, tal qual Musset a deixou nesse precioso manuscrito onde faltam apenas, no penúltimo capítulo, algumas linhas, que não interferem em nada, por sinal, na importância da obra. É o Musset de Fantasio e de Il ne faut jurer de rien que encontaremos nesse pequeno romance, que se passa em um desses ducados imaginários, onde a musa do poeta colheu frescos e agradáveis bouquês de imaginação. 467
463
Cf. MUSSET, Alfred de. Le roman par lettres. In: Le gaulois. 3ème série, numéros 5367 e 5368, p.1. Disponível em: htttp://gallica.bnf.fr/, sob os números 1896/07/17 e 1896/07/18. Acesso em: 16 jun. 2013. 464
Cf. MUSSET, Alfred de. Le roman par lettres. In: Le gaulois. 3ème série, numéros 5367, 5368, 5369 e 5370 p.1. Disponível em: htttp://gallica.bnf.fr/, sob os números 1896/07/17, 1896/07/18, 1896/07/19 e 1896/07/20. Acesso em: 16 jun. 2013.
465
Cf. MUSSET, Alfred de. Le roman par lettres. In: Le gaulois. 3ème série, numéro 5369 p.1. Disponível em: htttp://gallica.bnf.fr/, sob o nº 1896/07/19. Acesso em: 16 jun. 2013.
466
Cf. MUSSET, Alfred de. Le roman par lettres. In: Le gaulois. 3ème série, numéro 5370 p.1. Disponível em: htttp://gallica.bnf.fr/, sob o nº 1896/07/20. Acesso em: 16 jun. 2013.
467 GALDEMAR, Ange. Une oeuvre inédite d’Alfred de Musset. In. Le gaulois
. 3ème série, numéro 5366, p.1. Disponível em: htttp://gallica.bnf.fr/, sob os nos 1896/07/16. Acesso em: 16 jun. 2013.
Alfred de Musset adota uma cena genérica em voga no século XVIII, ao produzir seu Roman par lettres, entretanto, Valentina Ponzetto, em Musset ou la nostalgie libertine (2007), ressalta que a opção de Musset de não investir na publicação desse romance, em 1833, deve ser atribuída à sua noção de que investir nesse gênero não seria uma missão tão fácil, já que não o bastaria imitar para transformar suas cartas em um sucesso de vendas:
Diferentemente desses atordoados de quem ele zomba, Musset é bem consciente da distância que o separa do século XVIII libertino e não pretende ressuscitar as formas e os usos em uma imitação atrasada, forçosamente falsa. [...] Não encontramos na sua obra uma retomada desses esquemas narrativos que tinham feito fortuna, como por exemplo, o conto oriental, a narrativa de metamorfose, a história de uma aprendizagem da vida mundana e galante, ou uma sequência sem fim de aventuras amorosas, carreira de um sedutor, de uma prostituta, ou qualquer outro relato de prazer que seja. Mesmo o romance epistolar, tão bem explorado pelos escritores do século XVIII, libertinos ou não, o tentaram por um momento, mas foi rapidamente abandonado após um esboço de algumas páginas. 468
E esse abandono da obra não faz com que ela seja “menor” na estética de Musset e, particularemente, para nossa releitura. Passagens desse texto são encontradas em seu teatro, tanto em André del Sarto como em Fanta sio e Il ne faut jurer de rien como destacam a edição Gallimard 469 e Alain Heyvaert, em La transparence et l’indicible dans l’oeuvre de Alfred de Musset (1994).470 O nome de Spark aparece duas vezes para identificar personagens
“Il nous arrive une véritable bonne fortune. C’est celle de pouvoir offrir à nos lecteurs la primeur d’une oeuvre inédite d’Alfred de Musset, le Roman par lettres, une nouvelle assez étendue, d’un charme exquis, tendre,
spirituelle et fine, dont nous commencerons dès demain la publication. Le manuscrit de cette oeuvre posthume, retrouvée dans les cartons de Musset, a figuré tout dernièrement à l’exposition si intéressante du Livre, grace à l’obligeance de Mme Lardin de Musset. La soeur de l’illustre poète a bien voulu nous autoriser à publier la nouvelle toute entière, telle qu’Alfred de Musset l’a laissée dans ce précieux manuscrit où manquent seulement, à l’avant dernier chapitre, quelques lignes, qui n’ôtent rien, d’ailleurs, à l’intérêt de l’oeuvre. C’est le Musset de
Fantasio, et d’Il ne faut jurer de rien, qu’on retrouvera dans ce petit roman, qui se passe dans un de ces duchés
de fantaisie, où la muse du poète a cueilli tant de frais et riants bouquets d’imagination. 468
PONZETTO,Valentina. Musset ou la nostalgie libertine. Genève: DROZ , 2007, p.334.
“A la différence de ces étourdis dont il se moque, Musset est bien conscient de la distance qui le sépare du XVIIIe siècle libertin et il ne prétend pas en ressusciter les formes et les usages dans une imitation décalée, forcément factice. [...] On ne trouve pas chez lui une reprise de ces schémas narratifs qui avaient fait fortune, comme par exemple le conte oriental, le récit de métamorphose, l’histoire d’un apprentissage de la vie mondaine et galante, ou une suite sans fin d’aventures amoureuses, carrière d’un séducteur, d’une prostitué ou autre récit de plaisir quel qu’il soit. Même le roman par lettres, si heureusement exploité par les écrivains du XVIII e
siècle, libertins ou non, l’a tenté un moment, mais a été vite abandonné après une ébauche d’à peine quelques pages.”
469
Cf. MUSSET, Alfred de. Oeuvres complètes en prose. Paris: Gallimard (Bibliothèque de la Pléiade), 1951, p.1039-1041.
470
distintos. Em Fantasio, Spark é um jovem habitante da Baviera e, no Roman par lettres, o oponente do musicista Prévan, na luta pelo amor da princesa Louise. Sendo que as duas tramas têm como pano de fundo a mesma região: a Baviera.
Na primeira carta, é possível identificar a condição social de Prévan e sua relação com a arte. Prévan descreve os concertos em que toca como um trabalho árduo do qual ele tira o seu sustento. A exclamação “Quel métier!” nos remete à noção de arte como profissão criticada por Musset tanto no poema Les voeux stériles (1830), como em André del Sarto (1833). Prévan se mostra como um sofredor em relação à sua prática. Na primeira carta, o entusiasmo e a ligação com Deus que fundamentariam o belo na arte, exalatado pela personagem do pintor André de André del Sarto, não se fazem presente. Prévan anuncia a seu amigo Henri:
Ma tournée est finie. Tous frais payés, avec les concerts que j’ai donnés en Suisse et en Piémont, j’aurai gagné une somme bien misérable dans mon voyage d’Allemagne. Quel métier! Une fois à Paris, je jette mon piano par la fenêtre, je me fais cordonnier ou tailleur; je ne veux plus faire un pas pour disputer ma vie au démon de la faim. Je m’enferme et je vais de ma porte à la cheminée, comme un renard dans une ménagerie. Adieu, demain, je serai sur la route de France. 471
Com a leitura dessa primeira carta, observa-se que o musicista não recebe pensão de nenhum membro da corte e ganha com seus concertos apenas o suficiente para pagar as contas. Prévan nivela a atividade musical com a atividade artesanal menos rentável do que os ofícios de sapateiro e alfaiate. Prévan não demonstra uma ligação emocional com a música, sua relação com a atividade parece ser meramente financeira. Mais uma vez, Alfred de 1994, p.104.
Cf. HEYVAERT, Alain. La transparence et l’indicible dans l’oeuvre d’Alfred de Musset. Paris : Klincksieck, 1994, p.104.
471
MUSSET, Alfred de. Roman par lettres. In:___.Oeuvres complètes en prose. Paris: Gallimard (Bibliothèque de la Pléiade), 1951, p.305.
“Minha turnê terminou. Todas as despesas pagas, com os concertos que fiz na Suíça e em Piemonte, ganhei uma quantia bem pequena em minha viagem à Alemanha. Que ofício! Uma vez em Paris, vou jogar meu piano pela janela, viro sapateiro ou alfaiate; não quero mais dar nem mais um passo para disputar minha vida com o demônio da fome. Eu me isolo e vou da minha porta à minha chaminé como uma raposa em uma jaula. Adeus, amanhã, estarei a caminho da França.” A partir de então, para citarmos essa obra, utilizaremos a sigla RPL, seguida da indicação de página a qual nos referimos.
Musset questiona se o valor da arte poderia ser medida por meio de um preço, como vemos, por exemplo, por meio de outra cena genérica, na peça André del Sarto.
Alfred de Musset se posiciona diante do debate sobre a condição social do artista, que integrava o campo artístico em 1833. Associando a música a uma simples atividade laboriosa, Musset questionava sua própria arte e a relação dos artistas, compreendendo o músico, o pintor e o poeta, com o Estado, durante a Monarquia de Julho472. Desse modo, o artista estaria à disposição das demandas do mercado que o tornaria cada vez mais suscetível aos desejos do comprador, o burguês, fazendo da criação artística uma simples atividade comercial. O questionamento sobre a situação social do artista e o valor de seu trabalho é apresentado em l’Artiste, em 1832, na carta de um artista ao diretor da revista:
Os governos modernos não sabem e não querem chamar os artistas para grandes trabalhos que excitam o ardor do talento e o fazem criar maravilhas. Até onde foi reduzido o artista, devido a esse desprezo e a essa negligência? Não podendo trabalhar para todos, e criar uma obra social, ele trabalha para indivíduos e cria apenas obras pequenas, de gosto individuais, obras de boudoir, de salão; ele dedica seu talento à indústria, aos caprichos da moda, às fantasias daqueles que compram, dos burgueses. “Isso me parece, senhor, consequência da posição precária dos artistas em nossa época: miséria para eles, miséria para a arte.” 473
Alain Heyvaert trata da personagem do musicista nas páginas 71 e 72 de L’Estéthique de Musset (1996). Em nenhuma delas, o especialista considera o debate proposto por Alfred de Musset próprio ao campo da música. Heyvaert considera a personagem de Prévan como a imagem de um artista “moderno”. 474
Alain Heyvaert ressalta, no entanto, que a imagem do
472
Cf. MARTIN-FUGIER, Anne. Les Romantiques; figures de l’artiste 1820-1848. Paris: Hachette, 1998, 193-
195. 473
Lettre à Monsieur le Directeur de l’Artiste. L’Artiste, Tome 4, 1832, p.81. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/. Acesso em: 07 out. 2012.
“Les gouvernements modernes ne savent pas et ne veulent pas appeler les artistes à de grands travaux qui excitent l’ardeur du génie et lui font enfanter des merveilles. Où en est réduit l’artiste, par suite de ce dédain et de cette imprévoyance? C’est que ne pouvant pas travailler pour tous, et créer une oeuvre sociale, il travaille pour des individus et ne crée que de petites oeuvres de goût individuel, des oeuvres de boudoir, de salon; il livre son talent à l’industrie, aux caprices de la mode, aux fantaisies de ceux qui achètent, des bourgeois. Telle me semble, monsieur, la conséquence de la position précaire des artistes dans notre époque: misère pour eux, misère pour l’art.”
artista expressa por Prévan não é capaz de transmitir ao leitor a real condição social do artista, em 1833:
Prévan não podia, em 1833, expressar a situação do artista moderno, o romance amoroso tinha se tornado mais importante do que a situação econômica denunciada na primeira carta, e a pequena Corte do Ducado de M***[...] É necessário, com efeito, voltar à primeira carta na qual Prévan está prestes a desistir. Se as forças econômicas predominam, não é simplesmente porque os artistas não têm mais fé suficiente em seu ideal, tema bem mais rico, como vemos com o Fils du Titien publicado em 1838? No entanto, em 1833, é outra obra que se interroga sobre a força dos ideais e sobre o lugar do artista: Lorenzaccio. 475
A extensão do vocábulo artista por ser ele sinônimo de criador, permite ao leitor e à crítica associarem a personagem de Prévan com a representação do poeta. No entanto, a personagem de Prévan não poder ser lida simplesmente como a imagem do criador. No campo da música, segundo Nathalie Heinich, em L’élite artiste (2005), a categorização dos estatutos artísticos se dá de forma distinta daquela dos poetas e dos pintores no período da Monarquia de Julho:
É em matéria de música que essa imprecisão no estatuto dos executores é a mais problemática, já que os compositores são, frequentemente, seus próprios intérpretes. Essa relativa impossibilidade de diferenciação se encontra apenas na poesia, onde o poeta declamando suas obras agrega as duas funções, enquanto um ator de teatro possui um estatuto bem diferente do autor da peça que ele interpreta. Essa confusão entre criador e executor introduz a imprecisão na categorização, contribuindo provavelmente para a situação levemente deslocada dos músicos para o interior da categoria artista, na qual eles aparecem raramente - diferentemente dos pintores ou dos poetas – como modelos de representante. 476
475Opus cit
. (1996), p.72.
“Prévan ne pouvait, en 1833, exprimer la situation de l’artiste moderne, le roman d’amour avait pris le pas sur la situation économique dénoncée par la première lettre, et la petite Cour du Duché de M*** [...]. Il faut en effet revenir à la première lettre où Prévan est au bord de l’abandon. Si les forces économiques l’emportent, n’est-ce pas simplement parce que les artistes n’ont plus assez de foi dans leur ideal, thème bien plus riche comme on l’a vu avec le Fils du Titienpublié en 1838? Il est pourtant, en 1833, une autre oeuvre qui s’interroge sur la force
des idéaux et sur la place de l’artiste Lorenzaccio.”
476 HEINICH, Nathalie. L’élite artiste; excellence et singularité en régime démocratique. Paris: Gallimard, 2005, p.191. “C’est en matière de musique que ce flou dans le statut des exécutants est le plus problématique, puisque les compositeurs sont souvent leurs propres interprètes. Cette relative indifférenciation ne se retrouve que dans la poésie, où le poète déclamant ses oeuvres mêle les deux fonctions, alors qu’un acteur de théâtre a un statut bien différent de l’auteur de la pièce qu’il interprète. Cette confusion entre créateur et exécutant introduit du flou dans dans la catégorisation, contribuant probablement à la situation légèrement excentrée des musiciens à l’intérieur de la catégorie artiste, dont ils aparaissent rarement – à la différence des peintres ou des poètes – comme des représentants types.”
Em 1827, a música era considerada uma arte liberal, assim como a literatura, diferentemente da pintura 477. A noção de artista está inserida nessa relação de troca entre os agentes do campo artístico e traz com ela a tentativa de construção do artista como uma identidade coletiva.478 Pela condição social apresentada por Prévan, que trabalha para pagar suas contas, observamos que a personagem não se apresenta enquanto compositor, ou seja, criador. Nathalie Heinich enfatiza a diferença entre o músico e o compositor, sendo destinado apenas a este a possibilidade de escrever o seu nome na história:
A situação dos criadores (pintores, escritores, compositores de música) em relação àquela dos intérpretes (músicos, comediantes, dançarinos) constitui uma possível referência – variável, todavia, segundo as épocas e os meios – entre artistas no sentido restrito (criadores) e artistas no sentido amplo (intérpretes). Esses últimos são prejudicados, no processo de reconhecimento, pelo caráter efêmero de seus trabalhos e pela dificuldade de deixá-los para a posteridade. 479
Diferentemente da primeira carta, na qual não há nem registro de data, nem da cidade onde ele está, sabemos apenas que o músico se encontra na Alemanha, a segunda carta apresenta a data de 2 de setembro, sendo que o ano não é preciso. Sabe-se apenas que se passa na década de 1830. 480 Prévan diz que está em M*** onde passaria a noite, o que nos possibilita supor que a personagem estava em Munique e ainda, que estava hospedada em um albergue desconfortável: “Je me suis arrêté hier à M*** comptant y passer la journée [...] Je
477
Cf. HEINICH, Nathalie. L’élite artiste; excellence et singularité en régime démocratique. Paris: Gallimard, 2005, p. 158.
478 Cf. HEINICH, Nathalie. L’élite artiste; excellence et singularité en régime démocratique. Paris: Gallimard, 2005, p. 189.
479Opus cit
., p.190.
“La situation des créateurs (peintres, écrivains, compositeurs de musique) par rapport à celle des interprètes (musiciens, comédiens, danseurs) constitue un possible repère – variable toutefois selon les époques et les milieux – entre artistes au sens strict (créateurs) et artistes au sens large (interprètes). Ces derniers sont handicapés, dans le processus de reconnaissance, par le caractere éphèmère de leurs prestations et la dificulte à les fixer pour la postérité.”
480
RPL, p.305. “2 septembre 183...”.
m’étais fourré dans une mauvaise auberge, demandant, pour l’amour de Dieu, qu’on me laissât tranquille.” 481
Nesta segunda carta, a personagem que buscava tranquilidade tem o seu quarto invadido por um criado do duque que o convoca à corte. Nesse momento, observa-se a primeira tensão entre a personagem que representa o artista e o poderoso da cidade onde ele pernoita. Alfred de Musset apresenta um músico que parece, em um primeiro momento, convicto em não atender ao chamado do duque. Prévan relata:
Après le dîner, on frappe à ma porte. Je ne réponds pas. Au bout de cinq minutes, entre la fille de chambre, armée d’un passe-partout et suivie d’un grand escogriffe en habits gris et en bas noirs. Je lui demande son nom. Il me répond qu’il est valet de pied de Monsieur. Monsieur, c’est le Duc, et le Duc