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2. ULUSLARARASI GÖÇ KÜRESELLEŞME VE KENT İLİŞKİSİ

2.2. Küreselleşme Kent ve Göç Ekseninde Segregasyon ve Dışla(n)ma

2.2.3. Segregasyon ve Dışlanma Türleri

2.2.3.3. Ekonomik Segregasyon ve Dışlanma

Pudemos perceber no delimitado percurso desenvolvido nesta dissertação pontos, ou o que prefiro chamar de elementos, os quais foram negligenciados de maneira geral na academia moderna e que aos poucos estão retornando a este ambiente. Na nossa Introdução desenvolvemos de maneira proposital uma tentativa de definição do ocidente, de maneira técnica, evidenciando aquilo que se construiu enquanto uma compreensão do ocidente dentro de algumas características limítrofes e extremas.

Deste modo buscamos enfatizar a ausência de determinadas características que são próprias do ocidente, como as noções de origem ou revelação, como vimos em sua estreita relação com noção de prisca theologia e as fontes ou origens da religião ou da revelação cristã no Renascimento.

Também apresentamos e pudemos perceber a grande influência destas ideias com a construção de vários imaginários mitológicos, sociais e simbólicos específicos tendo como centro a figura de Hermes Trismegistos (ou figuras de autoridade correlata) e o conhecimento legado por ele a humanidade conforme a crença desenvolvida em seu entorno. A referência a um imaginário mitológico se coloca na contramão da “história oficial”, onde as origens dos diversos grupos “herméticos” e esotéricos posteriores ao Renascimento traçavam uma história mítica, ou sagrada, de suas origens em relatos

166 onde se confundem história factual e recurso mítico. Bom exemplo disso é o relato da origem da Maçonaria envolvendo a figura de Hiram Abif, e vale ressaltar que esta narrativa é exclusiva desta confraria, não se podendo determinar se tais fatos da narrativa são historicamente comprováveis, e é bom notar que esta instituição possui sua origem histórica comprovada por meio de documentos e relatos históricos, e mesmo assim o relato mítico ainda se mantém e conforma parte da estrutura fundacional e de sua visão de mundo, valores e condutas.

Percebemos acerca da rejeição e da permanência das ideias herméticas e sua relação com o fortalecimento da filologia e sua crítica rigorosa e o florescimento daquilo que hoje chamamos de esoterismo ocidental. Percebemos que dentro deste primeiro âmbito, o rigor científico da crítica filológica desencadeou um endurecimento que associado ao contexto entre reformas conduziu a exigência de se fazer cumprir agendas anti-herméticas ou anti-mágicas, fazendo-nos adentrar a um problema que circunscreve estas ideias na modernidade, ou seja, o tema da rejeição a tudo aquilo que se tornou objeto de escárnio e acusação de obscurantismo, ou seja, o “oculto”, o “esotérico”, a magia, se tornaram objetos que desaparecem completamente do discurso acadêmico até o início do séc. XX. Sua permanência é percebida por meio de um movimento contrário ao endurecimento da crítica e da história, exatamente uma contracorrente ou uma agenda anti-histórica e plurissignificativa.

A permanência destas ideias no ocidente se deu por meio de círculos intelectuais, associações fraternais e correntes de pensamento. A transmissão e a recepção destes conhecimentos centrou-se em vários casos em torno da noção de iniciação e o recurso a sistemas de regularidade que buscavam garantir a legitimidade e a guarda de tais conhecimentos legados diretamente de suas fontes originais, daí a necessidade vista por Antoine Faivre em incluir este condicionante enquanto um elemento fundamental. Este imaginário envolvendo a iniciação hermética ou esotérica produziu um profundo ar de mistério e segredo, levando a um furor iniciático no séc. XVIII onde inúmeras ordens surgiram e um comércio de graus se desenvolveu oferecendo uma gama de conhecimentos secretos e ascensão na escada social destes grupos.

Outro caso que pode ser visto como paradigmático é dos rasacruzes, os quais imbuídos pela ideia de reforma hermética dos renascentistas buscaram retomar um programa de reforma não só da Europa, mas uma reforma geral e universal. Frances Yates (1983, p. 8) relacionou este movimento do início do séc. XVII como uma espécie de renascimento ou iluminismo anterior a revolução científica levada a cabo neste

167 mesmo século. Este movimento, segundo Frances Yates, foi profundamente devedor dos hermetistas e cabalistas renascentistas e da alquimia.

Gilbert Durand em Ciência do Homem e Tradição apontou para um contexto específico acerca da permanência da ideia de mediação e do princípio de semelhança associado e ao caráter de Hermes enquanto o novo espírito antropológico. Esta consiste na persistência do retorno de Hermes, a “força” e a “estabilidade” de sua imagem de recorrência, comunicação, arquétipo da linguagem e do sentido (DURAND, 1999, p. 271). Na conclusão da análise de Gilbert Durand sobre o que ele chama de “extremo ocidente” há três mitos que subsistem, e um deles é a recorrência hermética que está circunscrita a uma elite científica.

As ideias herméticas de correspondência, analogia, semelhança, etc., mantiveram- se, epistemologicamente, circunscrito à mesma episteme ou paradigma dos renascentistas, e por mais que a episteme ou paradigma moderno tenha se exercido de maneira rigorosa e redutora na academia, estas ideias se mantiveram de maneira despercebida na cultura do ocidente, fato tal desenvolvido por Gilbert Durand em

Ciência do Homem e Tradição, no qual apresenta as recorrências do Hermetismo na modernidade e em autores que paradoxalmente as utilizaram de maneira implícita, e mostrando que estas recorrências despontaram exatamente em momentos de crise da racionalidade.

Em nossos tempos atuais de crise e conflitos, a recorrência de Hermes aparece enquanto um sinal, uma luz que atravessa as nuvens, uma ponte para a outra margem para o reencontro antropológico com este mediador. Este retorno de Hermes é o mesmo

eterno retorno de Nietzsche, as contemporaneidades e os destinos em Spengler, etc. (DURAND, 1999, p. 272).

Deste modo, Hermes torna a ser o referencial ou guia dos homens que buscam antropologicamente “conhecer a si mesmos” e perceber a circularidade das mesmas condições nas quais diferentes culturas passam a possuir características semelhantes,

contemporaneidade na linguagem de Spengler, e identificar determinadas constantes no fluxo do tempo. Assim, as mesmas condições em termos de semelhança podem ser traçadas entre a crise na qual surgem os escritos herméticos na Antiguidade, séc. II-III e sua maneira de redirecionar os problemas de ordem filosófica para o discurso “teológico”.

A filosofia grega a qual centrou-se na inteligibilidade do mundo por meio da razão e da dialética, estabeleceu como meta final de todos os sistemas gregos a

168 realização da eudaimonia (ser ou estar na presença de um “bom daimon”, um “bom espírito”, em suma, a felicidade). Como vimos a meta final do homem (ou de sua alma) no Hermetismo antigo é o retorno ao seu estado de completude ou regeneração, esta recebendo referências como, por exemplo, “reencontrar o pai”. Esta é a “eudaimonia hermética”, a deificação do homem, o tornar-se deus, o qual é bastante semelhante ao tom religioso que assume quase todas as escolas do período helenístico e que tratamos introdutoriamente no primeiro capítulo.

No Renascimento, e em meio a condições semelhantes ou contemporâneas, o Hermetismo ou o interesse por ele, isto deve ser notado, surgiu para buscar revolver circunstâncias as quais os homens do séc. XV-XVI estavam profundamente envolvidos, ou seja, uma necessidade de reforma e de uma nova compreensão do Cristianismo, onde foi buscado na Antiguidade uma origem ou revelação primordial, modelo e autoridade. Esta afirmação pode ser vista enquanto um conhecimento cultural na “Escola de Atenas” de Rafael onde no centro Platão aponta para cima com uma mão, enquanto na outra segura o Timeu, do seu lado Aristóteles aponta uma das mãos para baixo, enquanto com a outra segura a Ética à Nicômaco.

Como vimos a Ética a Nicômaco era a referência central para os primeiros humanistas do Renascimento. Entretanto, a partir da formação da Academia Platônica em torno de Marsílio Ficino (que foi um aristotélico) passou-se a cumprir uma agenda antiaristotélica e pró-platônica e hermética, estando Platão enquanto a consumação da linhagem da prisca theologia e o Timeu enquanto uma das bases do discurso neoplatônica ou protoesotérico. A figura inicial, e consequentemente, a referência ou autoridade fundamental continuou sendo Hermes Trismegistos, por sua antiguidade e originalidade garantem a legitimidade de toda a cadeia da prisca theologia.

Emblemático, neste sentido, a figura de Hermes Trismegistos enquanto divino revelador no duomo di Siena, entregando um livro ao que parece ser Moisés, e a frase enigmática abaixo “Hermes Mercúrio Trismegistos contemporâneo de Moisés”. Por mais que esta contemporaneidade não seja factual e historicamente comprovada, ela é com certeza uma contemporaneidade mítica, fundacional. Este imaginário envolvendo Hermes Trismegistos tornou-se fundador de uma visão de mundo e de crenças em torno desta figura que se consolidou de maneira inviolável contra a crítica filológica mais dura, gerando uma longevidade da figura de Hermes e de seu discurso legando ao ocidente em um conjunto coeso de narrativas e recursos simbólicos.

169 De fato, em uma única dissertação não poderíamos suficientemente abranger toda a problemática envolvendo o Hermetismo na cultura ocidental, pois esta é monumental e extremamente rica, não se resumindo aos problemas epistemológicos, mas abrangendo um horizonte que envolve até aspectos políticos, entre outros. O que buscamos discutir e desenvolver aqui foram apenas aspectos os quais julguei importantes e suficientes para desenvolver uma argumentação coerente circunscrito ao recurso hermenêutico envolvendo referências herméticas e a sua episteme.

Em seu caráter inédito, pois não localizei dissertações ou teses envolvendo este tema no Renascimento – vale lembrar a Tese de Doutoramento de Francisco de Paula Souza de Mendonça Junior do ano de 2014 na Universidade Federal de Minas Gerais com o título A Arte do Segredo sobre segredo, esoterismo, sigilo, e dissimulação política no Renascimento e da dissertação de mestrado de 2016 do José Carlos de Abreu Amorim sobre os Símbolos Secretos dos Rosacruzes dos Séc. XVI e XVII na Universidade Federal da Paraíba – tenho a esperança no desenvolvimento futuro de pesquisas por outros pesquisadores para que este campo possa fortalecer e se consolidar em nosso país. Com efeito, a dissertação desenvolvida por mim abrangeu uma temática inédita, e devemos levar em consideração que todo trabalho inédito corre grandes riscos e seguramente cometeu alguns erros que a posteridade deverá corrigir.

As possibilidades futuras de pesquisa neste campo são consideráveis e há grande número de objetos de pesquisa esperando por serem redescobertos pelos acadêmicos. Acredito que esta temática no Renascimento possui uma possibilidade exploratória imensa e cabe aos pesquisadores se debruçarem sobre ele e perceberem o quanto ele é fundamental na dinâmica social e cultural do ocidente. Relacionado ao chamado

esoterismo ocidental de maneira geral, dissertações e teses já foram defendidas e outras estão em curso aqui no Brasil, o que mostra que esta área está apenas começando a ser descoberta, conferências e disciplinas nos cursos de história e ciências das religiões já foram ministradas e talvez quiçá possamos tornar o campo do esoterismo ocidental uma área autônoma em nosso país.