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A Identidade como metamorfose, implica entender o nexo entre a transformação de si mesmo e a transformação do mundo, expressando o tempo histórico e as contradições presentes. Então, refletir sobre identidade envolve compreender as ideologias, os poderes e os interesses presentes na sociedade. A afirmação de identidades coletivas se dá pelas lutas de grupos sociais, num esforço de controlar as condições de vida de seus membros. Numa tentativa de resolver conflitos diante das expectativas sociais conflitantes, os indivíduos buscam a transformação e o reconhecimento de suas identidades pessoais. (CIAMPA, 2002, p. 134).

Ao transpormos estas idéias para a temática proposta, entendemos que as políticas de identidade na Enfermagem são desenvolvidas por grupos da sociedade, ao longo do processo histórico, denotando-lhe concepções de subalternidade, submissão, complementaridade, trabalho manual, conhecimento empírico,

compreendendo seus profissionais como tais em relação aos médicos e à própria Medicina.

Entretanto, ao focarmos um indivíduo, ou seja, um determinado profissional - enfermeiro, como por exemplo, Carlos, com uma história de vida em que assume múltiplas personagens, podemos entendê-lo enquanto uma possibilidade de identidade política – alguém que nessa articulação de personagens vividos, pode apresentar uma certa parcela de autonomia e originalidade. Ao contrário, Carlos também poderá heteronomamente adotar o discurso coletivo dos enfermeiros que interiorizaram tais estruturas de pensamento, elaboradas socialmente, apropriando- se dessas concepções como se fossem próprias. Eis a problemática instaurada, já que nesse caso, não há a superação das contradições apresentadas no interior da sociedade e também do grupo profissional; não ocorreu auto-reflexão – condição indispensável para a individuação. Apropria-se da fala do outro como se fosse a sua. Essa interiorização, a que se refere Habermas (2002) ocorre, opondo-se a estruturação do seu Eu, decorrente das escolhas que pode fazer sobre o seu próprio destino, a partir das experiências vividas pelo sujeito – a internalização distinguida pelo autor.

As políticas de identidade envolvem portanto um conflito entre autonomia e heteronomia, entre o indivíduo e o grupo: entre a voz do próprio indivíduo e a voz do grupo que fala por ele. Aí se instala a discussão da autonomia ou não, que leva os indivíduos a indagarem sobre a autenticidade ou não de identidades políticas. Ciampa (2002) assim expressa:

Sempre é possível perguntar se movimentos que levam a novas identidades podem preservar o espaço político como arena de questionamento e tematização de questões individuais e coletivas, sem que esses movimentos também incrementem maior racionalização do poder e da dominação. (CIAMPA, 2002, p.134). Para o mesmo autor, é importante quando se trata de políticas de identidade, estudarmos aquelas que emergem de determinados grupos (os marginalizados, estigmatizados, oprimidos) na relação com os grupos de setores dominantes (elite do poder) da sociedade.

Podemos considerar assim, que os enfermeiros constituem um grupo específico em busca de reconhecimento social e autonomia. Essa busca necessita estar firmemente apoiada na compreensão e superação dos conflitos gerados pela rede de relações historicamente construídas.

Bandeira e Oliveira (1998, p. 679) denominam “o mal-estar da enfermagem” (aspas dos autores) aos conflitos gerados entre os saberes de homens e os saberes de mulheres, e entre uma realidade de trabalho assalariado, subordinado a lógica e às experiências burocráticas, aos procedimentos médicos do sistema hospitalar, como a concepção de prática de cuidar, calcada sobre o modelo de profissional liberal, com os ideais e autonomia que estes implicam.Trata-se, portanto, de mais uma questão relacionada às políticas de identidade a ser compreendida neste trabalho.

Essas autoras também entendem que o jogo entre tais conflitos parece estar centrado num conjunto de representações do feminino e do masculino que vem sendo construído histórica e socialmente. Afirmam que o mito fundador da tradição que ronda o desassossego da Enfermagem é por um lado, a associação à feminilidade e por outro lado, o caráter androcêntrico das relações de poder e a configuração da sexualidade que subjazem no espaço profissional da Enfermagem.

Revelam ainda, quanto essas construções são ideológicas, produtoras de sentidos, de significados que vão se traduzir nas exigências de qualidades para as mulheres e de qualificações para os homens, justificando as demarcações de hierarquias de gênero no campo da saúde.

Mostrando que o prestígio de gênero se dá mesmo na inversão dos papéis socialmente definidos, afirmam a valorização da mulher-médica diante do homem- enfermeiro. Ou seja, entendida como atividade tipicamente masculina e de maior poder, a Medicina outorga à mulher que a exerce os atributos a ela inerentes. Com o homem que opta pelo exercício da Enfermagem, isso não ocorre, uma vez que esta atividade se apóia historicamente, como subalterna e pertencente ao universo feminino.

Definida e classificada ora como profissão e trabalho, uma atividade com competência própria, especializada, ora como tarefa, idéia de trabalho manual, mais restrita e mecânica, a Enfermagem se desqualifica dos atributos científicos da profissão médica, gerando uma confusão quanto à sua identidade, privando-lhe do reconhecimento social de cientificidade, essenciais para obter espaço político e de poder no mundo moderno. (MIRANDA, 1994).

Fonseca (1996) ressalta que a não legitimidade da identidade profissional das enfermeiras, tanto pelo lado dos médicos, como em boa medida, pela própria categoria, gera as condições que as levam a adotar por extensão, a identidade

daqueles que as dominam. Collière (1999) afirma que ao assemelhar a sua prática profissional à prática médica (como é o caso das especializações e pesquisa de ponta), as enfermeiras afastam-se da imagem desvalorizada, aproximando-se da imagem valorizada do médico. A mesma autora aponta três condições essenciais de um desejo de reconhecimento de identidade próxima da do médico:

[...] a) condição de semelhança (a identificação é facilitada pela presença de elementos comuns entre o sujeito e o modelo [...] a hipertecnicidade); b) a condição de poder (a identificação é mais importante se o modelo tem prestígio, o que está várias vezes em jogo: prestígio do homem perante a mulher, do médico perante a enfermeira, prestígio da filiação médica patrilinear gerada pela formação dada aos médicos e em que a enfermeira bebe o seu saber, sem falar do prestígio do médico face aos doentes; c) condição afetiva: a identificação é tanto maior quanto o modelo é simpático [...]. (SAINSAULIEU, 1997 apud COLLIÈRE 1999, p. 190)8

Então, a problemática do homem optando pela Enfermagem enquanto profissão, pode mostrar não somente as políticas de identidade presentes na formação e atuação desses profissionais ao longo do processo histórico, mas também pode revelar tendências emancipatórias individuais e coletivas, através das personagens assumidas e articuladas por esses atores. Nessa busca, também poderemos questionar a autenticidade e a autonomia dos mesmos, pois como salienta Ciampa (2002, p. 135), “[...] como se pode definir quando se trata de escolha original e autêntica do próprio indivíduo?”.

8 SAINSAULIEU, R. L´identité au travail. Paris, Presse de la Fondation Nationale des Sciences Politiques, 1977,

7 TRILHA METODOLÓGICA