5. TÜRKİYE’DE MİKROKREDİ UYGULAMALARI VE TÜRKİYE
5.9. Mikrokredi Başarısının Değerlendirilmesi
5.9.1. Kalitatif kriterler
5.9.1.1. Ekonomik göstergeler (nitel)
Sabemos que estamos diante de um texto religioso com características que supõe o seguimento e discipulado com base na confissão de fé junto a uma comunidade de vida e de culto. A crítica sociorreligiosa, neste sentido, é a ferramenta mais adequada para interpretar textos dessa natureza. Pois, a partir dela, a religião não é tomada como fenômeno separado ou exclusivo das demais dimensões da vida humana em sociedade, mas como dimensão que se expressa no texto de modo necessariamente condicionado e de alguma forma em correspondência com as relações sociais dominantes legitimadas pela cultura.
A análise sociorreligiosa então exige que se explicitem os pressupostos culturais e sociais implicados na mensagem do texto. Por isso, antes de verificar o caráter sociorreligioso, é preciso, por razões analíticas, tomar cada uma das dimensões do lava-pés em separado, a saber, a cultural e a sociológica, embora na realidade só se possa conceber o lava-pés como fenômeno singular que integra esses vários aspectos.
Sendo assim, a tarefa desse capítulo se divide em dois grandes tópicos. O
primeiro tem como objetivo a análise cultural, ainda sem o componente religioso. O
lava-pés é tomado em sua dimensão cultural (1), isto é, como fenômeno circunscrito nos costumes e comportamentos de um povo. Nesse momento vamos verificar o sentido do lava-pés como costume e legado da cultura, dimensão pressuposta, mas não inteiramente explícita no texto. O segundo se refere à dimensão especificamente social implicada no gesto do lava-pés e visa (2) compreender a estrutura assimétrica das relações sociais pressupostas como condicionante do lava-pés.
O perigo da projeção de modelos atuais, tanto antropológicos quanto sociais de análise de textos antigos existe, o que de fato poderia tornar nossas conclusões anacrônicas. Entretanto, esse problema pode ser superado e o faremos com a seguinte precaução: tomar o texto como ponto de partida para a construção do contexto e não o contexto para compreensão do texto. Quando esse princípio por acaso não é seguido isso acontece por razões autorizadas pelo próprio texto, uma vez que nem sempre estão explícitas todas as noções e informações necessárias à sua audiência imediata. Explicitar informações sobre o tempo e ambiente vital tornaria o texto redundante em obviedades tácitas assumidas entre narrador e seus primeiros leitores. O que coloca para nós, leitores distantes da intenção comunicativa que deu origem ao texto, - uma tarefa agora necessária. Por isso, a melhor medida de precaução para evitar o anacronismo interpretativo é recuperar a linguagem do texto cujo sentido só se entende a partir do contexto sociocultural imediato no qual leitor e narrador estão envolvidos e se comunicam.
O que entendemos por contexto sociocultural evidentemente passa primeiramente pelos conceitos de cultura e sociedade. O fenômeno cultural já foi discutido exaustivamente pelos antropólogos da cultura. Mas, entre as diferentes tendências teóricas83, optamos em manter o conceito clássico de cultura formulado por Tylor84, pois favorece um olhar descritivo do lava-pés como evento humano adquirido socialmente, o que consideramos ideal para uma primeira aproximação da narrativa joanina como fenômeno cultural. Por outro lado, a escola compreensiva é assumida como complemento necessário para o que achamos mais adequado para uma análise exegética que leve em conta uma noção mais aberta à dimensão semiótica do fenômeno cultural, pois cultura é realidade reconhecidamente interpretativa e sujeita ao desafio da significação. Sendo assim, optamos, como complemento mais específico ao de Tylor, pelo conceito de cultura proposto por Cliffort Geertz:
O conceito de cultura que eu defendo [...] é essencialmente semiótico. Acreditando, como Marx Weber, que o homem é um animal amarrado a
83 Sobre o tema da diversidade das tendências teóricas em Antropologia Cultural a obra de Pitirim SOROKIN, Novas teorias sociológicas (1969, p. 519-547) faz um levantamento e análise crítica dos diferentes modelos sociológicos na identificação dos mais diversos tipos de agrupamentos sociais. 84 “Cultura é este todo complexo que inclui conhecimento, fé, arte, moral, lei, costume, e outras capacidades e hábitos, adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade” (TYLOR, 1871, p. 1).
teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado (GEERTZ, 1989, p. 4).
Entender o fenômeno cultural como um sistema capaz de produzir símbolos significativos para a vida de pessoas e grupos que lhes dão identidade frente a outros grupos e pessoas é o modo mais adequado para a compreensão do lava-pés, pois como veremos mais adiante, a comunidade joanina interpreta para si mesma a prática do lava-pés de modo a transformá-lo em símbolo de sua identidade. Prática, interpretação e símbolo são fundamentais para a compreensão da cultura.
Separar o fenômeno cultural do social só é possível quando se tem em conta a necessidade da análise. Por isso, chamamos de fenômeno exclusivamente social aquele que se manifesta no horizonte das relações observáveis e objetivas entre pessoas e grupos, enquanto o fenômeno cultural aquela dimensão da sociedade que manifesta seus valores, costumes e todo o seu sistema simbólico de representação da realidade, incluindo evidentemente suas crenças religiosas.
Sociedade é um conceito-chave instituído primacialmente pelos sociólogos. Os antropólogos se inclinaram mais pelo conceito de um “grupo cultural” ou um “grupo étnico”, isto é, uma população culturalmente diferenciada ou mais ou menos impar etnologicamente. [...] A sociedade foi definida acima como agregação de indivíduos em populações ou grupos organizados. Simplificando podemos dizer que a “cultura” focaliza os costumes de um povo; a “sociedade” focaliza o povo que pratica os costumes (KEESING, 1961, p. 66)85.
Outra noção importante suposta neste capítulo é o fenômeno que denominamos sociocultural, pois os fenômenos humanos se manifestam objetivamente na sociedade como um todo singular integrado na dinâmica das práticas sociais condicionadas pela cultura. Portanto, cultura e sociedade se integram numa relação de mútua influência.
A relação essencial entre esses conceitos (cultura e sociedade) leva ao uso frequente de uma forma combinada “sócio-cultural” aplicada ao comportamento de grupo. A cultura não poderia existir sem pessoas a ela condicionadas e transmitindo-a a seus descendentes: sem a “sociedade”. [...] Para evitar confusão, muitos cientistas sociais preferem restringir o termo “sociedade” a populações humanas culturalmente configuradas.
85 Ver também BEATTIE (1971, p. 34-41) que procura estabelecer, embora reconheça a proximidade, distinções entre os objetos de análise do antropólogo dos objetos de interesse do sociólogo.
[...] Mas, seja qual for o uso, é claro que “organização social” entre os seres humanos baseia-se fundamentalmente nos padrões de conduta adquiridos e bem estabelecidos, isto é, na cultura como, por exemplo, os costumes matrimoniais e familiares, a organização da comunidade, das categorias, das classes e do governo (KEESING, 1961, p. 66-67).
A dimensão sociorreligiosa desde uma perspectiva integradora será tomada no quarto capítulo integrando-a aos elementos que aqui serão demonstrados. Teremos assim, ao final, uma recuperação do significado cultural e sociorreligioso do lava-pés. A compreensão dos diferentes significados religiosos que a narrativa do lava-pés pode envocar em seus leitores imediatos dependem das condicionantes
socioculturais que serão evidenciadas a seguir. Desse modo, o presente capítulo será
encaminhado seguindo esses dois momentos distintos como pressupostos para a análise do lava-pés: 1) análise cultural; 2) análise sociológica.