D- HİKÂYELERDE MEKÂN
3- Egzotik Mekânlı Hikâyeler
ADMINISTRATIVO Representado pelo gestor executivo da unidade prisional e seus auxiliares (agentes penitenciários). Responsável pela direção e funcionamento do presídio.
JURÍDICO Setor responsável pelo acompanhamento jurídico de todos os detentos e atendimento aos advogados ou representantes legais dos presos.
PENAL Departamento que responde pela liberação dos detentos após a chegada do alvará de soltura e verificação em sites de jurídico. Também encaminha a transferência de presos para outras unidades quando da progressão de regime.
LABORTERAPIA Chefiado por um agente penitenciário e seus auxiliares (com perfil ressocializador) encarregam-se da ocupação dos detentos em atividades laborais da própria unidade prisional ou em fábricas instaladas no presidio.
PSICOSSOCIAL Composto por psicólogos e assistentes sociais chefiados por um agente penitenciário, respondem pelo acompanhamento dos presos e seus familiares, como também da avaliação da conduta dos reeducandos.
MÉDICO-
ODONTOLÓGICO Composto por dentistas e clínicos gerais que se revezam em escalas para atendimento de toda população carcerária de Igarassu. Também são chefiados por um agente penitenciário.
NUTRIÇÃO Profissional responsável pela escolha, verificação do preparo e qualidade nutricional da alimentação dos detentos. No Presídio de Igarassu existe apenas um nutricionista.
ECUMÊNICO Setor encarregado das atividades religiosas desenvolvidas na igreja construída nas dependências do presídio. Esse trabalho é realizado por representantes religiosos voluntários, sem vínculo empregatício com a unidade.
EDUCACIONAL Constituída pelos profissionais de educação (gestor pedagógico, gestor adjunto, coordenado, secretária e professores) a escola fica responsável pelo atendimento educacional dos presos nas suas diversas modalidades de ensino.
SEGURANÇA Responsável pela supervisão de segurança da unidade e pelas escalas de plantões dos agentes penitenciários. Este setor é composto por agentes com larga experiência em gerenciamento de crise.
ESCOLTA Departamento encarregado do translado e apresentação dos detentos em audiências, julgamentos, atendimento médico para situações graves e funerais de parentes de primeiro grau.
De acordo com as observações realizadas na pesquisa de campo e através dos relatos dos reeducandos foi possível pontuar as seguintes situações relacionadas ao convívio dos detentos no Presídio de Igarassu:
1. Superlotação de celas, presos enjaulados em cômodos com vários compartimentos, colchões ou esteiras espalhadas pelo chão do corredor, sujeira e mau cheiro, num absoluto desrespeito à dignidade humana;
2. Ociosidade do preso;
3. Mistura no mesmo presídio e na mesma cela de presos condenados e de pessoas presas preventivamente, bem como primários e reincidentes;
4. Violências sexuais e homossexualidade forçada a que são submetidos os presos, como decorrência das condições sumamente desumanas do encarceramento;
5. Punição da família do preso pela situação de penúria em que fica este; a punição do cônjuge ou companheiro, quando o preso o tem, privado da vida sexual, num desrespeito ao princípio constitucional de que a pena não pode passar da pessoa do condenado;
6. A incomunicabilidade a que são submetidos alguns presos na fase de inquérito policial;
7. Os castigos arbitrários impostos aos presos pela administração do presídio, a submissão a longos isolamentos que conduzem com frequência à loucura; 8. Os espancamentos, os maus tratos, as torturas físicas e psicológicas, comuns
no ato de prender, nos interrogatórios policiais e como castigo disciplinar; 9. Dificuldade de acesso aos serviços essenciais da unidade prisional como
clínico, odontológico, psicossocial, educacional e laborterápico;
10. Dificuldade de encaminhamento ao setor jurídico do presídio para acompanhamento do processo.
6.4 Educação por trás das grades
Nas vinte unidades prisionais de grande e médio portes em Pernambuco existem escolas de ensino formal regulamentadas pela Secretaria Estadual de Educação (SEDUC) e pelo Ministério da Educação (MEC). Destas escolas 13 são autônomas, ou seja, regulamentadas e como recursos próprios da SEDUC, as outras 7 ainda são anexas, ou seja, extensões de escolas credenciadas de comunidades próximas. Nesse contexto o sistema penitenciário de Pernambuco apresenta o melhor índice nacional em educação prisiona, com 28,7% de reeducandos frequentando alguma modalidade de ensino. Entre as turmas que compõem essas escolas são desenvolvidas modalidades de correção de fluxo, haja vista, a faixa etária dos reeducandos (de 18 a 60 anos de idade). Entre essas modalidades destacam-se: travessia (com adiantamento de duas séries em um ano), telessala (aulas com acompanhamento audiovisual) e EJAI (Educação de Jovens Adultos e Idosos), sendo esta última a modalidade mais utilizada nas escolas prisionais.
Atualmente a Secretaria Executiva de Ressocialização (SERES) possui 312 profissionais da Secretaria Estadual de Educação (SEDUC) atuando nas escolas das unidades prisionais. Desta equipe destaca-se gestores das escolas, gestores adjuntos, coordenadores, secretários, bibliotecários e educadores, todos supervisionados por um apoio pedagógico. Esta última função é sempre desempenhada por um agente penitenciário responsável por controlar, organizar e fiscalizar as atividades do módulo de ensino. Este agente é sempre escolhido pelo seu perfil educacional e ressocializador, pois, lhe cabe servir de intermediário entre a escola e os diversos setores da unidade prisional além de viabilizar o acesso e permanência do reeducando em sala de aula.
Nesse contexto é evidente que a pessoa que perde o direito à liberdade não pode ter negado seu direito a Educação. Nas instituições prisionais que recebem homens e mulheres em conflito com a lei, a continuidade do ensino é uma obrigação e parte integrante da interação. E como bem respalda a Lei de Execuções Penais de 1984, a assistência educacional deve ser uma das prestações básicas mais importantes não só para o homem livre, mas também àquele que está preso, constituindo-se, neste caso, em um elemento de tratamento penitenciário como meio para a reinserção
social. Dispõe, aliás, a Constituição Federal que a “educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o desenvolvimento da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (art. 205), garantindo ainda o “ensino fundamental, obrigatório e gratuito, assegurada, inclusive, sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiverem acesso na idade própria” (art. 208, I), conceituado este como “direito público subjetivo” (art. 208, § 1º).
Isto quer dizer que não só a instrução, que é um dos elementos da educação, mas também esta é um direito de todos, sem qualquer limitação de idade. Assim, pois, qualquer pessoa, não importa a idade e tampouco sua condição ou status jurídico, tem o direito de receber educação desde que, evidentemente, seja dela carente qualitativa ou quantitativamente. Uma vez que a cada direito corresponde um dever, é a própria Constituição que esclarece ser este um dever do Estado, que deverá prover a educação aos presos e internados se não o tiver feito convenientemente no lar e na escola.
Assim, o preso em qualquer regime penal sem instrução tem o direito a educação como qualquer pessoa, de recebê-la do Estado. É, pois, necessário que, nos estabelecimentos penais, haja escola ou um dos substitutivos de escola (na configuração tradicional) que atualmente existem. Estes locais devem ser equipados com salas de aula, biblioteca e laboratório de informática. Porém, na prática a realidade é totalmente diferente do que estabelece a legislação. Os entraves começam pelos espaços inadequados para abrigar salas de aula e insuficientes para acomodar os reeducandos.
Diante dos problemas da educação prisional, destaca-se a conquista da remição de pena pela educação – antes uma exclusividade dos presos que trabalhavam (remição de pena pelo trabalho) no qual a cada três dias de trabalho há a remição de um dia da pena. Esta conquista foi pioneira em Pernambuco, onde as varas de Execuções Penais passaram a conceder remição de um dia da pena para cada 12 horas de estudo, o que equivale a três dias de aulas frequentadas.
Ainda neste paradoxo explícito nas unidades prisionais entre o encarceramento como forma de punição e a educação como forma de ressocialização, não se tem cumprido,
na maioria das tentativas, o papel de ajudar o encarcerado a compreender sua realidade. Logo, auxiliar o detento no sentido de propiciar a (re)construção de sua postura como ser humano, de sua visão de mundo, de sua inserção e dos outros sujeitos nesse mundo, a fim de favorecer-he uma vivência destituída de opressão e exclusão nas diversas esferas sociais é uma tarefa complexa.
Contudo, no âmbito prisional, difícil e raramente, como se pretende, se viabiliza à construção de conhecimentos necessários à recuperação e reinserção dos presos à sociedade. Na antítese deste propósito Foucault (1987, p.131) afirma que “a prisão, longe de transformar os criminosos em gente honesta, serve apenas para afundá-los ainda mais na criminalidade”.
Nessa perspectiva, conhecer e compreender essas visões que permeiam o universo da educação nas prisões requer um olhar crítico da escola em sua totalidade. Logo, para isso exige-se um entendimento de que conhecer a escola mais de perto significa colocar uma lente de aumento na dinâmica das relações e interações que constituem seu dia a dia. Aprendendo, desta forma, as forças que impulsionam ou que a retém, identificando as estruturas de poder e os modos de organização deste ambiente, analisando a dinâmica de cada sujeito neste contexto interacional. Pois, é nesta dimensão que este trabalho propõe mostra a caracterização dos evolvidos nesse processo de aprendizagem e os resultados vivenciados na pesquisa etnográfica realizada, enquanto observador participante, durante dez meses, na Escola Dom Hélder Câmara, no Presídio de Igarassu.
Logo, desvendar os contextos das interações entre os personagens existentes neste meio e as relações de aprendizagem construídas por esses sujeitos servirá de subsídio para comprovação e caracterização do programa de alfabetização prisional MOVA-BRASIL no contexto da inovação pedagógica.