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Vejamos primeiro a reformulação do argumento voluntarista antideontologismo. Se utilizarmos o argumento para o voluntarismo doxástico restrito aplicado à agência epistêmica, teremos semelhante reformulação ou será que podemos chegar a outra conclusão? Voltemos ao argumento:

Argumento para o voluntarismo doxástico restrito:

i) se eu tenho controle sobre um estado do mundo e minha crença rastreia aquele estado, então eu tenho controle sobre minha crença;

ii) eu tenho controle sobre um estado do mundo; iii) minha crença rastreia aquele estado;

iv) então eu tenho controle sobre minha crença.

Caso aceitemos as premissas desse argumento, estamos forçados a aceitar um voluntarismo doxástico restrito. Ele garantiria a possibilidade conceitual de controle de crenças e poderia sustentar uma forma de agência epistêmica, ainda que limitada. Se retornarmos a Engel, ainda no exame do modelo de agência epistêmica manipulativa, ao assumir que ela é inviável devido ao involuntarismo doxástico, ele próprio afirma haver um sentido possível de agência epistêmica indireta. A descrição de Engel é muito parecida com a descrição dos controles que são passíveis de serem exercidos sobre o mundo, a fim de gerar uma crença específica que seja do tipo sensível à produção desses estados: “Pode ser o caso que nós causamos a nós mesmos acreditar nas coisas por alguma razão prática ou prudencial, mas para a qual temos boas razões epistêmicas como resultado de alguma ação” (ENGEL, 2010, p. 7).40

Vamos continuar assumindo a verdade da conclusão do argumento para o voluntarismo doxástico restrito. Levando em consideração a reformulação do argumento voluntarista antideontologismo, motivado pela restrição a ser incluída na premissa (ii) (as pessoas não têm controle voluntário sobre crenças [a respeito de estados do mundo que não podem controlar]), chegamos à reformulação do argumento sobre agência epistêmica:

Argumento do involuntarismo antiagência epistêmica revisado:

i) as pessoas não têm controle voluntário sobre crenças a respeito de estados do mundo que não podem controlar;

ii) se há agência epistêmica sobre essas crenças a respeito de estados do mundo que não podem controlar, então as pessoas têm controle voluntário sobre essas crenças;

iii) então não há agência epistêmica sobre essas crenças a respeito de estados do mundo que não podem controlar.

40 No original: “It may be the case that we cause ourselves to believe things for some practical or prudential reason but for which we have good epistemic reasons as a result of some action”.

Uma vez que aceitamos as premissas, essa reformulação dá margem para a sustentação de agência epistêmica sobre crenças a respeito de estados do mundo que podem ser controlados. Vejamos o argumento para isso:

Argumento para o voluntarismo doxástico restrito para agência epistêmica: i) as pessoas têm controle voluntário sobre crenças a respeito de estados do mundo que elas podem controlar;

ii) se as pessoas têm controle voluntário sobre crenças a respeito de estados do mundo que elas podem controlar, então há agência epistêmica sobre crenças a respeito de estados do mundo que elas podem controlar;

iii) então há agência epistêmica sobre crenças a respeito de estados do mundo que elas podem controlar.

O argumento é válido e tem premissas plausíveis, pretendendo ser cogente. Poderíamos parar aqui e aceitar a possibilidade de um tipo de agência epistêmica, ainda que restrita e específica. Contudo, seria imprudente não retornar ao exame de Engel sobre essa possibilidade de agência indireta – de modo específico, para examinarmos a premissa (ii), que é baseada no argumento para o voluntarismo doxástico restrito de Feldman, e que foi assumida como verdadeira até aqui.

Se for possível sustentar esse último argumento para agência epistêmica, a partir da possibilidade do voluntarismo doxástico restrito, teremos a possibilidade de agência epistêmica. Ainda restará o exame da efetividade dessa concepção, tal qual feita com o deontologismo por Feldman. Avaliemos essa possibilidade a partir de Engel (2010).

Engel faz uma distinção entre razões para crer, que podem ser epistêmicas ou práticas, afirmando que só as primeiras são adequadas para constituir o caráter epistêmico de uma ação. Mas, na agência indireta, as razões práticas são as bases da ação. Isso compromete a agência epistêmica, por serem razões práticas que causam a crença. Engel afirma: “o problema com o [modelo de] controle manipulativo é que nós nos propomos a crer que P por razões pelas quais não são as que deveríamos crer que P” (grifo original, 2010, p. 7).41 A crença poderia ter como causa o desejo de que o mundo seja de tal forma, anterior à mudança do mundo, e essa modificação, para que

41 No original: “The problem with manipulative control is that we set ourselves to believe that P for reasons which are not the reasons for which we ought to believe that P”.

ele seja de tal forma, é o que torna a crença verdadeira posteriormente, não a consideração das razões epistêmicas. Se o sujeito falhasse em alterar o mundo (assim como nos casos em que não pode fazê-lo), sua crença seria falsa, pois não rastrearia o mundo, mas o apresentaria como o desejo do agente que falhou em mudá-lo. Temos, portanto, no máximo, uma crença que é verdadeira como resultado de agência prática e não pode contar como um caso de agência epistêmica.

Pode-se argumentar que, se podemos exercer agência e posteriormente formar crenças correspondentes ao seu resultado, estaremos produzindo efeitos no domínio epistêmico. Porém, esses efeitos são justamente a formação de crenças, não o estado de coisas no mundo. Ao produzirmos um estado de coisas no mundo com a intenção de formar uma crença, nossa agência não será epistêmica, pois é anterior ao processo de formação da crença. A formação da crença exige aquele estado previamente e continuará sendo uma consequência da agência prática do agente, não estando sujeita ao seu controle, mas aos seus próprios critérios de formação. Ainda que o resultado da agência seja epistêmico, ela em si mesma não será. Ou seja, o resultado será epistêmico, i.e., a crença sensível aquele estado de coisas do mundo produzido pelo agente, mas a agência em si não, uma vez que a agência é efetivamente a produção do estado de coisas do mundo, e a formação da crença é um processo que ocorre após essa alteração no mundo.

Sendo assim, pensamos que o argumento para o voluntarismo doxástico restrito parte de premissas falsas. Devemos abandonar tanto essa versão do argumento, quanto o argumento para o voluntarismo doxástico restrito para agência epistêmica, que é dependente dela. Agência epistêmica não pode ser estabelecida a partir de nenhum tipo de controle ou ação sobre crenças. Mesmo que haja uma relação entre crenças sobre estados do mundo que podemos alterar e nossa capacidade de ação para alterá-los, não alteraremos nossa formação das crenças correspondentes, que obedecem a critérios epistêmicos próprios, eliminando a possibilidade de controle.

Isso faz com que refutemos a possibilidade conceitual que Feldman aceitou para o deontologismo epistêmico. A tese da impossibilidade conceitual pode ser verdadeira, mas consideraremos sua falsidade, por hipótese. Passemos à alternativa de Feldman, com a avaliação pelo desempenho de papéis.