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À pergunta: Por que os corpos caem com velocidade cada vez maior? Aristóteles respondera com base na queda dos corpos pesados e na ascensão dos corpos leves, com cada qual buscando seu lugar natural. Já o medievo, em suas considerações mais importantes acerca da física, responde à questão tendo por base a mistura de uma metafísica finalista com uma experiência próxima do senso comum, resolvendo o problema a partir de uma interpretação específica da física do impetus27.

Os medievais em sua interpretação da teoria do impetus preservaram a idéia dos lugares e direções privilegiadas no mundo físico, supondo uma força motriz responsável pela impulsão do movimento. Em função dessa teoria é postulado que o movimento é um efeito produzido por uma causa interna ao móvel, assemelhando- se a uma qualidade ou força nele impressa pela ação de um motor existente em seu interior. O impetus, ao imprimir internamente ao móvel ações sucessivas de impulsões, provoca o movimento acelerado e a queda dos corpos. Nesse caso, a conservação indefinida do movimento se explica sempre pelo emprego de uma nova força quando o móvel tende ao repouso.

Então, para a ciência medieval, a dinâmica do impetus possui, como em Aristóteles, um estatuto ontológico. Mas para a modernidade, se essa teoria estivesse correta, todo movimento deveria necessariamente, em algum momento, perder a velocidade e chegar ao repouso sozinho, exigindo um novo impetus a cada perda de velocidade. No entanto, a linguagem físico-matemática da ciência moderna, concebendo que o movimento pode se conservar indefinidamente, entende que o impetus não pode ser outra coisa senão a impulsão dinâmica que lhe dá a gravidade, que é o caso do movimento uniformemente acelerado.

No Diálogo, Galileu apresenta sua refutação a Aristóteles argumentando que duas bolas de pesos diferentes ao serem lançadas ao mesmo tempo e de um mesmo ponto caem praticamente juntas. Ele sustenta a tese de que os corpos se

27 A física do impetus medieval prevê a atuação de um movimento natural e imanente ao móvel que recebe nele mesmo sempre uma nova impressão ou impetus do movimento. Nessa explicação, o impetus caracteriza-se por um poder impresso no móvel por meio de sua associação a um motor a ele inerente, como algo que passa do movente ao móvel, impregnando-o e afetando-o. Estas pressuposições determinam a existência de uma instância, enquanto força para produzir e conservar o movimento ao modelo do Motor Imóvel de Aristóteles, porém personificado na figura divina.

mantêm em aceleração contínua por causa do próprio movimento e de sua relação direta com o tempo, e não em função de uma força externa ao próprio movimento, como postulara a cosmofísica tradicional. Explica ainda que as pequenas discrepâncias no tempo de queda dos dois corpos se devem ao efeito da resistência do ar − que pode afetar em maior escala os corpos mais leves − e não ao peso dos corpos. Sobre o abandono da noção de impetus da maneira como fora interpretada pelo medievo, Koyré afirma que

devemos insistir sobre a importância capital do abandono, por Galileu, da noção de impetus, como causa interna do movimento do móvel. Sem dúvida o termo se conservará, mas sua significação será completamente transformada: de causa do movimento, o impetus se tornará seu efeito. Essa concepção do impetus como causa do movimento, simplesmente desaparecerá. Noção confusa, obscura,

ela não é, dentro do pensamento de Galileu, substituída por nada.28

(1966, p. 101).

Dessa forma, o novo projeto de edificar uma física matemática se vê obrigado a abandonar − como fizera com a teoria aristotélica − a teoria do impetus proposta pelo medievo, que se mostrara vaga e demasiadamente próxima da experiência sensível. A ciência natural moderna segue, então, defendendo a idéia de que todo movimento é relativo e, num corpo dotado de uma variedade de movimentos, esses não interferem uns nos outros. O princípio da independência dos movimentos proposto por Galileu concebe que, quando um corpo está sob a ação simultânea de vários movimentos, cada um deles se processa como se os demais não existissem. Um exemplo: o fato de nossos movimentos não serem afetados pelo movimento da terra.

Ao trilhar esses caminhos, a física moderna passa a trabalhar com novas categorias, defendendo a tese de que a força produz aceleração, sendo o movimento, assim como o repouso, uma relação e, ao mesmo tempo, um estado. Desta feita, um corpo, uma vez colocado em movimento, conserva sempre seu estado, direção e velocidade, sendo válido para o caso de nenhuma força externa impedir a sua ação. Isso é o mesmo que dizer que um corpo deixado à sua própria mercê persiste eternamente em seu estado, de movimento ou repouso, a não ser

28 “Nous devons insister sur l’importance capitale de l’abandon, par Galilée, de la notion de l’impetus, comme cause interne du mouvement du mobile. Sans doute conserva-t-il le terme; mais sa signification sera complètement transformée: de cause du mouvement, l’impetus deviendra son effet. Quant à la conception de l’impetus, come cause du mouvement, elle disparait purement et simplement. Notion bâtarde, confuse, obscure, elle n’est, dans sa pensée, remplacée par rien.” (KOYRÉ, 1966, p.101).

que uma outra força incida sobre ele, transformando movimento em repouso ou repouso em movimento. Hobbes corrobora essa tese de Galileu ao afirmar no De Corpore (II, 9 e III, 15) e no início do Leviatã que “quando uma coisa está em repouso, permanecerá sempre em repouso, a não ser que algo a coloque em movimento. [...] quando alguma coisa está em movimento, permanecerá eternamente em movimento, a não ser que algo a pare.”29 (1, II, p. 17).

Todas essas novidades, porém, dificultaram o desenvolvimento da nova ciência num curso natural. A Igreja insistia na validade apenas instrumental das novas descobertas. Não havia como impedir que o realismo de Galileu se chocasse frontalmente com o instrumentalismo30 da tradição religiosa, uma vez que a Igreja havia erigido um certo princípio de autoridade, impondo uma forte barreira à superação dos métodos e verdades científicas propostas por Aristóteles e pelos neo- aristotélicos. Com isso, o desafio da nova ciência era duplo: internamente, tinha que encontrar leis quantitativas capazes de assegurar a possibilidade de previsão e identificação dos fatos; e, externamente, lutava contra a Igreja, desejando tornar o movimento um objeto da razão, investigável metodicamente em suas propriedades fundamentais. Havia, nesse sentido, um duplo critério de autoridade: um, imposto pela frente teológica e outro, pela tradição aristotélica.

Corroborado pela observação, Galileu coloca-se contra a interpretação instrumentalista da teoria heliocêntrica feita pelo cardeal Bellarmino31 e pelo luterano

Andréas Osiander32. Ambos, crentes na autoridade científica da Bíblia, defendiam

que as novas teorias astronômicas não passavam de instrumentos aptos a fazerem previsões sobre os movimentos dos corpos celestes com maior rapidez. Católicos e protestantes, ainda presos à tradição do medievo, consideravam que a Bíblia não

29 “[…] That when a thing lies still, unlesse somewthat els stirre it, it will lye still for ever [...]. But that when a things is in motion, it will eternally be in motion, unless somewhat els stay it.” (L, 1, II, p.15). 30 A postura instrumentalista determinava, com o auxílio da Inquisição e sob pena de perda da vida, que Galileu assumisse as descobertas feitas por Copérnico apenas como hipóteses ou instrumentos de cálculos e não como uma descrição verdadeira do mundo. O problema era que a interpretação galileana das teorias de Copérnico contrastava com passagens bíblicas interpretadas ao pé da letra. 31 “Roberto Bellarmino (1542-1621), além de ser um intelectual tipicamente contra-reformista, ocupava uma posição de destaque na cúria romana, como principal consultor teológico dos pontífices Clemente VIII e Paulo V. [...] As discussões empreendidas por Bellarmino [...] das relações entre o poder secular e o poder eclesiástico representavam a versão mais sistemática e clara da concepção contra-reformista do Estado e do poder político, versão pela qual Bellarmino se firma como principal teórico e ideólogo da contra-reforma.” (MARICONDA, 2001, p. 43).

32 Anteriormente a Bellarmino, o luterano Andreas Osiander (1498-1552) já sustentava uma posição instrumentalista acerca das hipóteses contidas no De Revolutionibus de Copérnico e afirmava que tais hipóteses não precisavam ser tomadas como verdadeiras, bastava apenas que elas se mantivessem como instrumentos de cálculos e previsões.

podia errar. A Escritura, no livro de Josué, afirmava que a terra permanecia firme sempre em seu lugar33, o que fazia do copernicionismo de Galileu uma verdadeira

afronta ao Livro Sagrado.

O embate com o cardeal Bellarmino não se restringe às questões de ordem físico-cosmológicas. Hobbes o confronta também quando, na parte 3 do Leviatã (Da República Cristã)34, quer provar a inexistência do poder temporal da Igreja sobre as questões políticas e que o poder eclesiástico tem apenas a tarefa de ensinar. Mas, em meio às controvérsias, o levante apresentado contra Galileu foi mais forte. A Igreja, com sua incontestável autoridade político-religiosa, obriga-o a voltar atrás em suas posturas. A Inquisição, grande perseguidora das novas descobertas e valores, exige o tratamento do copernicionismo como uma hipótese puramente matemática, pois a filosofia natural aristotélica e os textos bíblicos não podiam ser contraditos.

Diante desse quadro histórico, Galileu encontra dificuldades em convencer que a linguagem científica, no que diz respeito às coisas naturais, é superior à teológica. De seu lado, Hobbes usando como instrumento, sobretudo, o Leviatã, exige que a ciência seja autônoma e que as verdades reveladas se restrinjam à fé. Isso demonstra definitivamente que, para Galileu e Hobbes, as novas categorias em torno das quais se buscam a compreensão sobre o mundo e o homem não são mais eternas e ininteligíveis. Para eles, o conhecimento necessita de sistematização, ordem, medida e cálculo. E essas categorias devem transformar-se nas constantes fundamentais em busca de um conhecimento preocupado com a certeza e a veracidade do seu discurso. O novo modelo de conhecimento científico, nesse caso, galilaico ou hobbesiano, preso ao cálculo e à demonstração, determina a separação entre ciência e religião. E a Igreja, apesar de ter feito Galileu voltar atrás formalmente em suas posições e de ter condenado o Leviatã ao index, não conseguiu apagar as novas idéias que passariam a dar suporte ao conhecimento a partir de então.

Essa nova visão de mundo não só possibilitou a queda das idéias de imobilidade e de centralidade da terra, como também, a de finitude do universo. Para

33 Na Bíblia, no livro de Josué 10, 12-13 encontra-se escrito: “Sol, não te movas sobre Gabaão, e tu lua, (não te movas) sobre o vale de Ajalão. E o sol e a lua pararam até que o povo se vingou de seus inimigos [...]. Parou, pois, o sol no meio do céu [...]”. Em Eclesiastes 1, 4 -5, está escrito: “Uma geração passa, e outra geração lhe sucede; mas a terra permanece sempre estável. O sol nasce e põe-se, e torna ao lugar donde partiu, e, renascendo aí, dirige o seu giro para o meio-dia, e depois declina para o norte [...]”.

a modernidade, a infinitude já não representa a negação nem a limitação do conhecimento, mas ao contrário, a imensurável e inesgotável abundância da realidade e, junto a isso, o poder irrestrito de conhecimento do intelecto humano. Faz-se urgente a remoção dos obstáculos epistemológicos responsáveis pelo bloqueio da nova ciência. A modernidade não se nega à tarefa da construção de uma física que carregará consigo a necessidade de uma nova filosofia. Ambas darão à matemática um lugar privilegiado. É o que podemos constatar na filosofia de Thomas Hobbes.