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Y. Ö.K DÖKÜMANTASYON MERKEZİ TEZ VERİ FORMU

1.5 Abdülhak Hâmid Tarhan (1852 1937)

1.5.4 Duhter-i Hindû (1876)

As mulheres que chegam com as dores de trabalho de parto ao serviço de pronto- atendimento passam primeiro por triagem e são classificadas de acordo com a sua necessidade de atenção. Posteriormente são avaliadas para se conhecer com quanto de dilatação encontram-se. Algumas parturientes são orientadas a voltar para casa e retornar à maternidade quando “as dores forem mais seguidas”.

Uma vez que devem hospitalizar-se, o passo seguinte é trocar de roupa, colocar uma bata aberta na parte de trás e um top maternal. O top maternal é uma faixa de tecido confortável protetora das mamas e deve ser usado durante o trabalho de parto e pós-parto com a finalidade de proporcionar conforto, inclusive quando o bebê nascer, para colocá-lo no peito e dar segurança. Para as parturientes bolivianas essas normas não são bem aceitas porque seus corpos ficam expostos, mas elas não se recusam a cumpri-las porque os profissionais “assim ordenam e mesmo que não desejamos, devemos cumprir [trocar de roupa], mas não é bom, não”.

O caso da Sabrina é claro. Ela foi para o hospital porque já estava sentindo as dores, mas foi orientada para voltar para casa até que as dores fossem frequentes. Em casa começou a tomar chá de coca e foi sentido que as dores estavam aumentando; quando estava retornando ao hospital entrou em trabalho de parto e o bebê nasceu no táxi. Para ela, ter dado à luz no taxi acabou sendo considerado como “melhor”; sem técnicas que ela dizia “não conhecidas e que dão medo” e sem a exposição de seu corpo, que ocorreria quando fosse obrigada a usar a bata aberta e o top maternal dizendo: “Graças a Deus meu parto foi no táxi porque senão faziam tirar a roupa”.

Quando começaram as dores eu fui à maternidade, mas me fizeram voltar para casa porque a dilatação estava começando. De volta, quando cheguei a minha casa, comecei a tomar chá de coca quente e as dores iam aumentaram rápido, aí pensei que não chegaria à maternidade... faltando três quadras para chegar [maternidade] não aguentei e sentia que já estava em expulsivo, quase saindo meu wawa, aí minha cunhada pediu para o taxista parar, a bolsa estourou, saiu a wawa e chorou, o carro [táxi] ficou todo com sangue e o taxista assustado... daí o taxista nos levou à maternidade. Graças a Deus meu parto foi no táxi, porque senão faziam tirar a roupa [refere-se à bata e ao top maternal] na frente das pessoas [profissionais, usuárias] todo mundo está olhando nossas partes, nosso corpo todo [fica ruborizada e cobre seu rosto], a Deus graças que eu não tive que passar por isso, porque vi a bolivianas e outras não bolivianas que estavam quase peladas (Sabrina, 24 anos, 2 filhos).

As parturientes avaliam o serviço como insuficiente, “precisa ter muita sorte, porque quando chegamos nem sempre ficamos [hospitalizadas], aí dizem que devemos voltar para casa e quando as dores ficarem mais fortes, retornar [ao hospital]”. Esta situação é incômoda porque algumas moram distante do HMLMB e isso significa um custo adicional para realizar o percurso novamente.

Lá na maternidade, quando cheguei ao pronto-atendimento havia uma enfermeira, acho que por sono, não sei, pelo cansaço ou porque não gosta de seu trabalho não sei me tratou um pouquinho mal, pedia que eu caminhasse rápido, eu não podia porque estava sentindo dor, ficou brava, só respondi para ela que não podia porque estava com a contração e pedi que esperasse até passar a contração. Continua brava, “mais depressa, menina”, falou. Tinha que medir a pressão arterial, pediu para estirar o braço e falou “você não pode nem fazer isso, não temos todo teu tempo. Vai ser avaliada pelo médico”, me diz, “deve caminhar mais rápido, porque tem filhos vai reclamar” (Alê, 30 anos, 3 filhos).

A “sorte” de que falam as parturientes refere-se não só em caso de encontrar um profissional disposto para estabelecer uma relação de comunicação, mas também de profissionais que deixam seus preconceitos de lado quando as parturientes não conseguem uma fluidez no idioma português, o que é cobrado repetidamente. Em campo de pesquisa presenciei situações como:

Profissional: Quanto tempo você está aqui? Parturiente: Quatro anos.

Profissional: Como não vai saber falar nem entender português, para isso você vem a meu país? Tem que apreender. Você vem a meu país, tem que apreender.

Parturiente: [baixou sua cabeça envergonhada]. (Caderno de campo).

Complicado quando cobram uma pessoa por não ser fluente em um dado idioma. Posso dizer que passei por isso e não é fácil, ficamos envergonhadas e depois é mais difícil ainda falar por medo de errar.

Para o parto, é comum escutar das mulheres bolivianas que “em casa é sempre melhor”, partindo das experiências que passaram no atendimento de seus partos anteriores.

Na sala de parto é feio, fazem abrir as pernas, isso é feio porque o corpo se esfria, eles [profissionais] nem colocam uma toalha, lençol, nada... depois pedem para sentar na pontita [ponta] para que possa sair o bebê, assim não é, a mulher assim sofre, eu não aguentava e queria ficar deitada, melhor, aí a doutora me ameaçou dizendo para mim: “cuidado com subir [baixar as pernas e ficar mais para cima] porque vai ser pior, você ou o bebê podem morrer”, aí fiquei com muito medo (Carla, 19 anos, 2 filhos).

Na casa é melhor dar à luz [risadas], aqui o grave é que te tocam [toques vaginais], eu tinha medo porque nem a parteira te toca [refere-se que não examina com toques], por isso com a parteira é melhor que com os profissionais como chamam, para mim a parteira ajuda bastante porque alguns chás quentes de mate de coca já ajudam a nascer rápido, eu falo porque assim tive minha primeira filha (Sara, 28 anos, 3 filhos).

É preferível ter em casa porque as atenções são diferentes, mas precisa ir lá [hospital, maternidade] por causa do certificado de nascimento35, porque se

temos o bebê na casa não entregam o certificado, senão, fora por isso só depois de ganhar o bebê iríamos ao hospital, mas também há bolivianas que não vão ao hospital, só têm em sua casa (Carla, 19 anos, 2 filhos).

A exposição do corpo durante o parto coloca a parturiente em mais uma situação de vulnerabilidade e os cuidados acabam sendo rejeitados pelo incômodo e o pouco respeito à sua privacidade, sendo práticas consideradas anormais. Para elas, suas práticas tradicionais são consideradas melhores. Ainda que possam ser consideradas sabedorias simples para alguns remetem a cosmovisão cultural e evitam problemas de saúde no futuro.

Eu cheguei ao pronto-atendimento quase ao meio-dia, já estava quase nascendo meu bebê, todo mundo corria de um lado para outro, me disseram que não podia dar à luz aí e me levaram ao centro obstétrico, tinha muita dor e me apurava [a dor era forte e contínua]. Havia um monte de pessoas, médicos, enfermeiras e outras, acho que todos eram médicos. Como eu fui bem abrigada pediam para tirar a roupa, eu não queria tirar minha roupa porque imagina, bem abrigada e daí ficar sem nada de roupa, não é bom para a saúde, o frio entra no corpo, todos diziam para mim “rápido, tira a

35 Como na pesquisa realizada com a população kukama kukamiria em que as mulheres relataram serem eram obrigadas a ir ao posto de saúde para dar à luz, sendo ameaçadas com argumentos falsos de que pagariam multa para receber o certificado de nascimento.

roupa”, eles [profissionais] não entendem nada, a dor também era forte, como que me abria a cintura. Meu marido chegou ao pronto-atendimento, mas ele não entrou, eu queria que ele entrasse, mas também nem dava para perguntar onde ele estava (Ana, 31 anos, 4 filhos).

Muitas vezes são orientadas a entrar no chuveiro para relaxar e ajudar no avanço do trabalho do parto, mas elas não compartilham a ideia de que entrar no chuveiro é para ajudar no trabalho de parto. Isso colide com seus cuidados tradicionais. Pode acontecer um desequilíbrio entre frio e quente, de modo a desacelerar as dores do trabalho de parto, tal como é referido pelas entrevistadas.

Quando eu fui à maternidade para o exame, foi um sábado, para realizar análise de sangue que haviam pedido [silêncio] tudo estava bem e me disseram que tinha que ficar porque já era tempo [para nascer o bebê], mas eu não tinha dor, nada, estava tranquila, mas já fiquei porque eles assim mandam. Eram 9h, fiquei o dia todo e não havia dor e eu queria voltar para minha casa, eu sabia que não ia nascer ainda porque levava a conta por meu período [menstruação], que estava controlando, mas fiquei e falavam que ia ser normal. Sábado pela noite me colocaram algo para dilatar e aí sei que sofri um pouco, melhor dito, bastante [silêncio]. Começou uma dor forte e logo parava. Assim, desde as 3h até 11h do domingo não avançava muito a dilatação, entravam os doutores, diziam para mim que tinha que conseguir um parto normal, mas eu sentia que não ia ser normal. Uma médica dizia: “Tem que conseguir, tem que conseguir normal”, eu já não tinha força, sentia-me cansada, logo foi pior, fizeram tomar banho, sabia que ia ser pior, mas eu fui tomar banho, a dor sumiu e fiquei sem dor, fui a minha cama e outro soro [silêncio]. Injeção não sei que mais, eu acho que era para dilatar, me doía um pouco. Entrava outra doutora para dizer-me que tinha que banhar-me, o meu Deus, outra vez ao chuveiro e outra vez sana [refere-se que ficava sem contração] estava caminhando pelo corredor e terminou o dia e nada. Por fim eu já pedia que queria uma cesárea de medo que acontecesse algo com meu filho ou comigo, rogava para eles; entrava um e outro; alguns me escutavam outros nada [silêncio e suspira], depois entrou uma doutora para examinar-me e falou “não, não, não avança mais”, falou com outro doutor e entendi que já fariam cesárea, mas já quantas horas que eu estava quase agonizando com tanto soro, banho e toques. Mas entrou uma médica que acho que ainda queria que eu, nesse estado de agotamento [exausta] desse à luz, quando eu não podia mais, esta médica entrou falando que ia me examinar, meteu seus dedos [toque vaginal] e pedia para fazer força e força, eu já não tinha mais forças, como entendo e falo um pouquinho o português, falei que não faça mais dano, para mim não foi tão agradável o que fizeram comigo (Rosa, 42 anos, 4

filhos).

Na interpretação das mulheres, essa posição “não ajuda a wawa nascer”, pelo contrário, é uma atitude de abdicação da autoconfiança. Para elas, significa uma condenação a sofrer passivamente a violência do parto, dificultando a expulsão do feto e da placenta e

prolongando a dor. A exigência da posição de litotomia é um desrespeito do direito das mulheres às escolhas.

Feio é o que eu vivi aí, essa posição para nascer a wawa com as pernas penduradas não é boa, fazem abrir as pernas também, eu tive minhas primeiras filhas de joelhos porque é uma boa posição, que ajuda a descer e coberta, não assim como aqui [maternidade] já daí deitas em uma cama

(Eliana, 32 anos, 3 filhas).

O serviço não oferece opções de posição no parto, tal como recomendado pelas evidências científicas; em vez disso, mantém rotinas obsoletas e desconfortáveis para as mulheres, que contribuem para partos mais demorados e dolorosos. A esse respeito, PACIORNIK (1997) refere que os partos indígenas são mais adequados e fisiológicos, sendo o parto de cócoras o mais natural.

10.4 PARTO E A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NA ASSISTÊNCIA ÀS MULHERES