Y. Ö.K DÖKÜMANTASYON MERKEZİ TEZ VERİ FORMU
1.5 Abdülhak Hâmid Tarhan (1852 1937)
1.5.7 Eşber (1880)
A cesariana é uma prática vista por todas as parturientes bolivianas como agressiva para seus corpos, que implica um perigo para sua própria saúde no futuro e porque já não poderão trabalhar, fazer esforço, pois “o corpo já não será mais igual”. Todas esperam um parto natural e a cesárea é “cortar o seu corpo e nunca mais ficar bem e está relacionada com a morte”. Em caso de se tratar para salvar a vida da mãe e bebê, “está bem passar por esse tipo de parto”.
O caso de Sara, que não fala nem entende português e o idioma espanhol é falado limitadamente, tendo uma maior destreza com o dialeto aimará, mostra várias facetas sobre o drama vivido durante a cesárea pela que teve que passar. Acompanhada de sua prima e totalmente invisível em um ambiente desconhecido, ofereceu seu depoimento:
Eu fui à maternidade para marcar uma consulta e aí me avaliaram e disseram já para internar-me, eu não tinha dor, dois dias vai estar aqui, daí vai a tua casa, me disseram e realizaram ultrassom e um [bebê] está sentado e o outro está bem, “vamos fazer cesárea”, falou, e eu não tinha dor, nada, eu sei que faltavam três semanas, nem líquido havia perdido e falavam que havia perda de líquido, mas não havia perdido nada, me deram remédios para tomar e começou a baixar líquido e me falaram “está perdendo líquido dos nenês” (bebês), foi uma ameaça [para dar medo], ficaram bravas as senhoras [profissionais] porque faltava para assinar [prontuário], eu estava com minha prima e eu não queria assinar, eles falaram “aí pode morrer ou passar algo com os nenês”, eu queria vir para minha casa eu não queria cesárea porque eu sei que faltavam algumas semanas; então, “você que sabe”, me disseram, se quiser pode ir também para tua casa, mas não vamos ser os responsáveis pelo que possa passar com você, advertiram-me. Eu fiquei chorando de pensar o que seria a cesárea, minha prima ficou também triste. Eu entrei no banheiro e me perguntava “como pode ser isso?” [tinha que submeter-se a uma cesárea], nesse momento passou muita coisa por minha cabeça e não parava de chorar porque com cesárea não é fácil, já não é igual, a vida com isso é como mutilar. Parece que estavam crucificando-me, feio, me amarraram os pés, as mãos, assim me amarraram forte], cobriram com uma bata e também em três lugares colocaram anestesia e agora “grave me duele” [doe muito], agora parece que vou morrer, o corpo já não é igual, já não poderei trabalhar, fazer força, assim já ficamos doentes para sempre. Não gostei dessa anestesia, dói muito até quando fico muito tempo sentada dói como se
estivesse entrando uma agulha, “que será?”, me pergunto. Talvez esteja com uma ferida, que será? Quando se tem nenê em casa não é assim porque aí é normal. Agora estou sofrendo, não consigo trabalhar, falta para o leite, sem cesárea é diferente, agora passo só chorando todos estes dias, chorando estou porque que vou fazer sem dinheiro (Sara, 28 anos, 3 filhos).
Ao respeito das cesáreas, FERNÁNDEZ (2008, p. 243) refere-se “que entre os aimarás percebem que o médico gosta de fazer cirurgias para abrir os corpos e ver o que passa por dentro, é dizer ‘aprender’ utilizando os pacientes como coelhos da índia a prática cirúrgica como seu coagulado que gera ingressos econômicos”.
Este tipo de parto é ensinado nos hospitais-escola no Brasil (TESSER et al., 2011; DINIZ, 2009) e quando desnecessário está associado a piores resultados para a saúde das mulheres e dos bebês (HOFMEYR et al., 2008). Nos depoimentos das mulheres mencionadas é possível entender como são utilizadas estratégias para que o nascimento não se dê por via vaginal. Mesmo a cesariana sendo necessária, a forma de oferecer atenção – como no caso de Sara – pode ser considerada cruel, pela condição de mulher imigrante e indígena, com limitações para entender o idioma e sem informação mais específica a respeito de seu parto. Os testemunhos também fazem refletir sobre como a formação médica vem sendo influenciada pelas concepções de classe social, etnia e gênero, mantendo as desigualdades de diversas formas (MARTIN, 2006).
Eu não queria cesárea por que sou jovem [17 anos] nunca pensei passar por esses cortes, mas como não entendo nada e foi meu tio que me acompanhou e também assinou os papeis [prontuário] então eu não podia fazer nada, porque o pai do bebê é também jovem tem 17 anos, os primeiros dias doem forte agora que já diminuiu um pouco a dor, mas acho que eu poderia haver tido por abaixo [parto vaginal] não sei como será, mas pa frente lá na Bolívia assim normais por abaixo nascem os wawas eu vi a minha mãe e outras pessoas que não passam por cortes nada, aqui não entendia nada [português] falavam e falavam e riam quando me colocavam soro e me limpavam a barriga já daí fiquei dormida até depois que acordei em outro lugar [sala de recuperação] (Maria, 17 anos, 1 filho).
Para ROBBIE DAVIS-FLOYD (2001), as histórias dessas mulheres poderiam ser interpretadas como uma caricatura do que ela denomina “modelo tecnocrático-hospitalar” de atenção ao parto, orientado à separação entre mente e corpo. Os profissionais sentem-se liberados da responsabilidade perante o paciente como sujeito mental e espiritual e vigora uma hierarquia e padronização dos cuidados, segundo as quais o profissional é tido como superior e detentor do curso dos acontecimentos. Para essa autora, em razão disso, a forma de nascimento poderia ser compreendida como consequência da sociedade ocidental globalizada,
orientada pela ciência, pela tecnologia, pelo lucro econômico e por instituições controladoras do corpo feminino. Assim como DINIZ (1996), acredita que tanto na medicina quanto na sociedade, a tecnologia prepondera, contribuindo para que as técnicas e os procedimentos médicos sigam em vigor não por questões médicas propriamente ditas, mas muito mais em razão de aspectos culturais que transcendem a própria prática médica.
10.6 O PÓS-PARTO
Os cuidados pós-parto para as bolivianas têm a ver com o resguardo na cama, com a alimentação e os elementos de equilíbrio entre o frio e o calor, que permitem uma boa recuperação. Geralmente esses conhecimentos de cuidados tradicionais não se cumprem dentro do cuidado hospitalar e não se realizam distinções culturais, uma vez que tudo é regido por um protocolo de atendimento.
Fiquei num quarto e fria era minha barriga se inchou assim de grande [mostra em sua barriga o tamanho], parecia que estava grávida como que tinha outro filho, chorei muito e não aguentava a dor, era muito forte, logo entrou uma enfermeira morena e perguntou “o que aconteceu?” [Voz forte], ficou perto de mim, colocou sua mão na minha barriga e rebentou [desceu] bastante sangue, eu tinha muito frio, não estava bem abrigada, me deixaram assim com uma bata [silêncio] e roupa de cama que não abrigava muito
(Claudia, 30 anos, 2 filhos).
Ainda assim, nas vozes das mulheres aparece também a forma “boa” como elas percebem que foram atendidas, o que estaria associado a entender e falar o idioma português, como é o caso de Alê; a maioria das parturientes não consegue se comunicar, o que faz a diferença ao dirigir-se a elas.
As enfermeiras que estavam de plantão eram boas, me diziam “vamos voltar para ajudá-la a levantar da cama, não entre e tome banho sozinha, vamos ajudá-la”, talvez porque eu falava em português e não ficava calada, mas o que observei é que quando as mulheres não falavam ou eles [profissionais] entendiam errado, ficavam bravos e começavam a dizer, “mas você não entendeu?” Aí começavam a levantar a voz quase gritando, às vezes o trato é como se as bolivianas fôssemos animais, eu observava e depois que saía a enfermeira explicava para as outras colegas de quarto. Uma vez eu falei para a enfermeira [explicando de suas companheiras de quarto] “é seu primeiro filho, não entende o português, está há pouco tempo aqui [São Paulo] (Alê, 30 anos, 3 filhos).
Queria fugir do hospital, estava com soro, a comida não estava boa, mais a dor, tudo, às vezes me falavam e não entendia, acho que também ficavam bravas aí as pessoas, eu morria de frio, estava desesperada para ir para casa, pior, a bebê entrou em uma cama [berço] com lâmpada [fototerapia], pensei que estava grave [doente] já daí passaram três dias e deram alta, meu tio foi [à maternidade] para eu poder sair porque sou menor de idade né (Maria, 17 anos, 1 filho).
10.7 OS BEBÊS E SEUS CUIDADOS: DESCONFIANÇAS E DESCONCERTOS