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Y. Ö.K DÖKÜMANTASYON MERKEZİ TEZ VERİ FORMU

1.4 Namık Kemal (1840 1888)

1.4.2 Celâleddin Harzemşâh (1885)

Os pré-natais realizados de forma adequada são importantes para identificar transtornos durante a gravidez, receber orientações sobre como cuidar-se e para estabelecer o vínculo com o pessoal de saúde. Mas nem todas cumprem com o total de avaliações pré-natais por razões diferentes: porque estão trabalhando e têm um limite de tempo; quando vão ao posto de saúde na data agendada esperam muito tempo e às vezes voltam para casa sem serem atendidas; pela vergonha que elas sentem ao serem criticadas pelos profissionais que dizem “outra vez você está grávida?”.

No posto de saúde não quiseram atender-me porque não tinha endereço fixo, insisti que a senhora agendou, pediram exame de xixi e ultrassom e só disseram para mim “está tudo bom”, demoraram só acho cinco minutos; por isso eu fui [posto de saúde] poucas vezes [quatro vezes] para pré-natal, eu não tive mais vontade de ir ao posto de saúde (Cintia, 28 anos, 3 filhos).

Eu tardei em meu controle [pré-natal], tinha medo [risada] que me olhem [barriga crescida] porque meus bebês são seguidos, o outro [criança anterior ao RN] é pequeno [2 anos], eu dizia depois vou ir porque eles [profissionais] não gostam e sempre dizem “outra vez estas grávidas?”. Já escutei que ralhavam com uma boliviana [voz de brava]: “De novo você está grávida? Mas você recém teve bebê? E novamente?”. Então eu tinha medo e esperei até os sete ou seis meses acho para ir ao pré-natal (Alê, 30

anos, 3 filhos).

Esta primeira recepção às mulheres grávidas em procura de um atendimento de pré- natal somada à limitação do idioma faz com que as mulheres também procurem pouco o serviço ou, como em alguns casos, nem realizem o pré-natal. É importante dizer que mesmo algumas mulheres que estão há mais tempo em São Paulo e que entendem razoavelmente o português não cumprem com o mínimo de consultas pré-natais, sobretudo, quando têm entre dois e três filhos, pois resistem a procurar o posto de saúde pelas opiniões de juízo moral que recebem de parte dos profissionais no posto de saúde.

Eu fui ao posto de saúde, já tinha quatro meses e esperei bastante tempo desde cedo até meio-dia já, no corredor uma das pessoas que atende me perguntou se estava grávida, falei que sim, mas não vi mais ela [profissional]. Apareceu outra enfermeira e falou para mim “eu vou te atender”, quando estava no consultório entrou uma enfermeira e me olhou e disse para mim: “os bolivianos chegam a fabricar wawa aqui, porque vocês não vão fabricar wawa lá na Bolívia?”, eu fiquei calada e com vergonha, a enfermeira que estava atendendo-me sorriu e nada mais. Aqui há bastante boliviana nos postos de saúde que estão grávidas, estão sentadas esperando, e às vezes dá medo de caminhar assim porque te olham e comentam: “os bolivianos são bem trabalhadores só fabricando wawas estão, parem de fabricar wawas”, dizem, [voz forte] “fora de ter wawa”, dizem, aí nos sentimos tristes, por isso já falei para ele [assinala ao marido] que eu não quero mais wawas [sorriso] (Claudia, 30 anos, 2 filhos).

Alguns doutores sim entendem [espanhol], mas eles dizem “não entendi nada”; e assim há outras moças e outras senhoras e ficam sem falar e com a vista para baixo e alguns [profissionais] se aproveitam disso e aí saem os comentários que dizem “ah, é boliviana, não entende nada”, entre eles [profissionais] falam assim, é o que vejo que é uma discriminação” (Rosa,

42 anos, 4 filhos).

O exemplo de Claudia ilustra a violência institucional que deixa clara a falta de ética profissional e uma relação assimétrica de poder; em que as mulheres se encontram em maior vulnerabilidade por sua raça, classe social e imigrantes; com juízos de valores que subjazem à fala do profissional, sem o respeito a seus direitos humanos e no âmbito destes, aos direitos sexuais e reprodutivos. Apesar de o direito universal à saúde ser reconhecido como igualitária na prática se dão restrições que faz com que os imigrantes não alcancem esse direito por igual.

O gráfico a seguir mostra a quantidade de mulheres que realizaram o mínimo de consultas de pré-natal (sete) e também um número importante daquelas que não fizeram consultas de pré-natal.

Figura 19: Número de mulheres, por número de consultas de pré-natal realizadas. São Paulo, 2013

Nas primeiras consultas, as mulheres vão acompanhadas de algum familiar que ajuda com a interpretação do idioma. Elas se sentem melhor pela facilidade de entender as orientações ou pelo fato de não estarem sozinhas. Outras grávidas vão acompanhadas do marido, mas isso ocorre poucas vezes, pois se um deles deixa de trabalhar o outro deve ficar na oficina para assegurar o pagamento diário e dar conta da produção. Elas têm um duplo problema: o primeiro é que muitas vezes elas acabam se “descuidando” do pré-natal em virtude de dependerem da compreensão do chefe e não podem “demorar muito”, porque seus pagamentos serão menores se menor for a produção ou, simplesmente, poderá não receber o pagamento por este dia ser considerado como “dia não trabalhado”; o segundo ocorre após o parto, quando têm filho e o chefe não gosta de crianças.

Geralmente, a relação com o pessoal do posto de saúde é considerada de “pouca confiança”. As mulheres reclamam sobre o atendimento, dizem que gostariam que não fossem vistas como “bichos raros” – esta é a forma que descrevem o atendimento que recebem. Mencionam que alguns dos profissionais são bons “porque tratam de entender, e tratam de explicar mesmo falando em diferente idioma”, mas a maioria dos profissionais só trata de deixá-las como “menor”, neste caso dizendo “são bolivianas e não entendem” ou

perguntando-se “por que tem tanta boliviana grávida aqui? Por que vocês chegam aqui [São Paulo] para sofrer?”.

Quando primíparas, o temor e a vergonha de ficarem descobertas para um exame e a desconfiança são também algumas limitantes encontradas para realizar o pré-natal. A informação sobre como é o atendimento transmite-se como uma bola de neve de uma mulher para outra dentro das oficinas de costura.

Apesar de não ter sido mencionado de forma direta, as mulheres comentam que quando os maridos não as acompanham na consulta, mais tarde perguntam “foi avaliada por uma mulher ou um homem?”, o que indica que talvez haja preferência pelo sexo do profissional por quem deva ser atendida a grávida.

As mulheres consideram o pré-natal importante porque assim podem detectar oportunamente qualquer problema, saber como está crescendo o bebê, entre outros fatores, mas isso acontece quando há uma informação clara e uma boa atenção. Contudo, na avaliação sobre o serviço recebido, mencionam que as consultas transcorrem “em silêncio e nem olham para nossa cara, terminam rápido a consulta e colocam no cartão a data que deve voltar”. Pelas experiências não satisfatórias e com o trato hostil, percebem que são atendidas com indiferença, notam que são discriminadas, pelo que se questionam que talvez seja assim “por ser pobres, feias e por não falar o idioma português”.

Às vezes voltava [do posto de saúde] sem entender nada e quando perguntava e pedia que me explicasse devagar, ele [profissional] ficava bravo [percebia pelo tom da voz e a expressão], aí eu me perguntava “que queria dizer?”. Era incômodo porque não há paciência, assim, com dúvidas, voltava para casa (Margara, 36 anos, 1 filho).

Nos depoimentos das grávidas nota-se quantas dificuldades elas têm de enfrentar nos postos de saúde. Na maternidade não é tão diferente. Lembro-me de um plantão realizado à noite, quando uma parturiente chegou à sala de parto, a colega enfermeira pediu seu cartão de pré-natal, onde havia o registro de apenas uma consulta pré-natal. A colega enfermeira olhou para mim e, quase atirando o cartão em minha cara, disse:

Você que é pesquisadora de bolivianas, olhe este cartão de pré-natal, só uma vez fez pré-natal, olhe você que se pode fazer com elas? Depois são as consequências, não é possível que cheguem aqui sem fazer nenhum pré- natal, já que você fala espanhol, explica para ela que deve fazer para a próxima [voz forte, parturiente olhando] (Caderno de campo).

Limitei-me a escutar, sem dar resposta. Já sabia que a parturiente não havia realizado o pré-natal. Parece difícil para muitos profissionais compreender e analisar outros fatores (que desconhecem) que a maioria dos imigrantes – e também brasileiras – enfrenta para cumprir ações de cuidado, neste caso, o pré-natal. Quando se conhece a problemática não é difícil entendê-la, mas quando há uma visão muito técnica, se tem uma visão estereotipada.

No campo de pesquisa percebi que a mulher boliviana é mais diferenciada pelos seus traços físicos, seus costumes, sua vestimenta e pelo dialeto: aimará e quéchua, e estereotipadas como submissas, sofridas, sujas, que não sabem e não entendem nada, comparadas sempre com as imigrantes de outras nacionalidades.