Para os idosos a saúde está vinculada a várias descrições de cuidados com alimentação, sono, mas acima de tudo ao estar bem e isto podemos ver na fala do idoso abaixo.
Saúde para mim ela engloba um monte de coisas. Ela engloba o espírito, a saúde espiritual, emocional, a saúde do corpo, acho que você tem que estar bem em tudo isso, isso é saúde. Saúde não é só você tratar de seu dente ou de seu estômago ou de seu HIV, saúde é um conjunto. Para eu estar bem de saúde eu tenho que estar bem com o meu corpo, com o meu
espírito, minha mente, eu tenho que estar bem com a minha família, com meus amigos, eu
tenho que estar de bem com a vida, isso é saúde. (Homem – Família Afelandra amarela)
Com relação aos cuidados necessários para se ter uma boa saúde os idosos colocam em primeiro plano a descrição de levar uma vida saudável, que está vinculada a ter uma boa alimentação e sono. E com a fala do idoso abaixo podemos perceber que o agravo da saúde na vivência com HIV proporcionou uma revisão em seus cuidados de saúde, de modo que concordamos com Sousa, Kantorski e Bielmann (2004) quando estes afirmam que o adoecer proporciona não apenas o contato com um corpo finito, mas acima de tudo um enriquecimento no existir.
Fazer aquilo que eu não fiz a vida inteira. Eu fui muito relaxado, eu vivia sem me preocupar com a saúde, com a alimentação, com nada. Eu não me preocupava com nada, só queria saber de farra. Trabalhava muito, demais, mas também aproveitava demais a vida. Agora já cansei de tudo isso. (Homem – Família Genistra branca)
Na fala deste idoso também podemos identificar mais duas coisas, a primeira é o que afirma Coelho (2007), que o idoso no voltar seu olhar para si mesmo faz uma revisão de seus conceitos de saúde. E a segunda é com relação o desespero abordado por Erik Erikson (1998), em que o idoso olha a sua trajetória por meio dos erros cometidos.
Veras (2009) nos fala que os cuidados com a saúde no decorrer da vida podem proporcionar uma conquista, que é o prolongamento da própria vida. E com relação a isso inferimos duas coisas: primeiramente, tendo em vista a fala do idoso abaixo, podemos nos colocar a questão de que estes cuidados de saúde de forma prolongada podem ser difícil manutenção, o que acaba fazendo com que a pessoa relaxe. E neste relaxar, quando a pessoa tenta voltar, pode não dar mais tempo, pois a idade está avançada e o corpo já está solicitando outros tipos de cuidados, tais como de medicações.
Cuidar de tudo, cuidar do corpo, cuidar de alimentação, cuidar de tudo, mas a gente
relaxa, quando a gente resolve cuidar às vezes não dar mais tempo. (Homem – Dália
amarela)
E a segunda coisa relacionado ao que Veras (2009) assevera, é que, ao analisarmos os cuidados com a alimentação, a maioria dos idosos informaram que fazem uma alimentação
específica, e para alguns deles estes cuidados de alimentação estão relacionados a sempre comer assim em razão de toda a sua família ter este hábito, e ao fato de sempre ter tido uma alimentação saudável. Estas duas descrições nos mostram que já havia uma preocupação anterior ao HIV nos cuidados com a saúde.
Continuando nesta questão da razão para adotar uma dieta específica, percebemos que muitos idosos incorporaram estas mudanças em suas práticas alimentares após o HIV, conforme ilustramos com duas falas abaixo.
Devido as informações que dão e por causa da medicação que faz as taxas aumentarem, então para controlar as taxas. (Mulher – Família Caracala amarela)
Depois que eu descobri o HIV eu mudei o meu ritmo de alimentação. Eu tenho diabetes, o colesterol sobe por causa da medicação, então por causa destes problemas eu cortei muita coisa na minha alimentação. (Homem – Família Dália amarela)
De acordo com a fala do segundo idoso constatamos o que Deeks (2011) afirma de que o HIV pode ocasionar hipertensão, diabetes, problemas cardíacos e musculares, fazendo com que o corpo biológico envelheça com maior rapidez ou antes do esperado.
E foi pensando neste efeito que o HIV causa no organismo humano que o Ministério da Saúde lançou uma cartilha intitulada “Recomendações para a prática de atividades físicas para pessoas vivendo com HIV e Aids” (Data de publicação: 13.03.2012) (BRASIL, 2012b)
Nesta cartilha, o Ministério da Saúde orienta que a prática de exercícios físicos deve fazer parte das estratégias terapêuticas. E em nossa pesquisa constatamos que a maioria dos idosos soropositivos participantes, 54,1%, relataram não praticar nenhum tipo de atividade física. Por outro lado temos 46% que se preocupam com a saúde e seguem as recomendações médicas.
Em outros dois cuidados com a saúde, tais como fumar e beber notamos que também há uma preocupação entre os idosos soropositivos de modo que a maioria relata não fumar e nunca beber.
No autocuidado relacionado a uso de preservativo percebemos que 53,3% que tem uma relação afetiva-sexual informam que sempre usam o preservativo, porém para 40% o preservativo não é usado. E nesta percebemos categorias de análise utilizadas por Kahhale (2010, p. 65), tais como “preciso e uso”.
É normal, não sentindo dificuldade nenhuma, eu errei em não ter usado. Agora uso
direto. (Homem – Família Dipladênia vermelha)
E uma outra categoria de Kahhale (2010, p. 66), que também identificamos na nossa pesquisa é a questão do uso assistemático, o idoso sabe que deveria, mas não usa, como nos ilustra a duas falas abaixo.
Não, às vezes a gente usa. Tem vezes que ela esta muito sensível aí não usa. (Homem – Família Camélia amarela)
Faz tempo que eu não tenho relação sexual com ela, depois do derrame eu não tive mais relação com ela, faz 3 anos né que ela teve o derrame. Mas, antes disso, a gente também
não se prevenia porque ela tinha e eu tinha aí a gente não usava camisinha. (Homem –
Família Goivo branco)
Mas como a população desta pesquisa é de pessoas com mais de 60 anos, temos falas em que a incorporação do uso de preservativo não foi realizado devido a sua geração ter tido a educação com preocupação quase que exclusiva com a gravidez.
...a minha geração já é uma geração que já existia o anticoncepcional pílula, então não tinha porque usar o preservativo, a não ser que fosse por causa das DSTs conhecidas, como gonorreia, mas nos preocupávamos mais com a questão da gravidez que das DSTs. Então é uma geração que ficou vulnerável eu diria. É complicado de usar se a minha geração já não veio com isso. Eu percebo na geração do meu filho que eles compram a camisinha e já
é uma coisa normal. (Homem – Família Rosa amarela)
Não usava porque na época eu tinha 49 anos e não se tinha mais esta preocupação em engravidar e aí nem imaginava, então em 1997, aí, é complicado. Isso às vezes eu me culpo, e penso “poxa, como eu fui deixar acontecer isso?” Eu tinha formação, tinha tudo, mas é que eu nem imaginava, era uma pessoa que trabalhava comigo, que fazia pouco tempo que estava separado, acho que um ano, tinha filhos. (Mulher – Família Gailárdia amarela)
Na fala desta última idosa percebemos dois dados importantes; o primeiro diz respeito a acreditar que por se relacionar com pessoas conhecidas pode-se estar imune, como nos
colocam Silva e Paiva (2007); Lisboa (2007); Sá, Callegari e Pereira (2007); e Rezende, Lima e Rezende (2009).
A segunda coisa que percebemos na fala desta idosa é uma revisão de vida, afinal de contas ela tinha o conhecimento das doenças sexualmente transmissíveis e do uso preservativo, mas se deixou levar por ser uma pessoa de seu círculo profissional. Mais uma vez constatamos o desespero abordado por Erik Erikson (1998), mas também um sentido de integridade por dar continuidade a sua vida com cuidados que a vivência com HIV requer.
Partindo agora para as questões relacionadas à doença, analisamos primeiramente o que os idosos nos dizem com relação a quando se consideram doentes, sendo que para a maioria é quando não conseguem fazer as suas atividades diárias, mas para 31% esta consideração não existe, pois nunca se sentem doentes.
Olha eu não me considero doente, não tem essa consideração comigo, eu me considero uma pessoa que é preciso ter um cuidado com a saúde, não uma pessoa já doente assim. (Homem – Família Gardênia branca)
Este idoso nos fala que o HIV não deteriora o seu organismo a ponto de ser sentido fisicamente, e isto pode estar relacionado aos efeitos da medicação e à adesão ao tratamento. Na adesão ao tratamento notamos que a maioria declara seguir as recomendações médicas, e neste ponto, concordamos com Gorinchteyn (2010) quando certifica que o idoso adere com maior afinco ao tratamento medicamentoso.
Com relação ao auxílio para lembrar da medicação, a maioria dos idosos informa que não precisa, pois é uma coisa pessoal. Este comportamento pode nos revelar tanto autonomia nos próprios cuidados de saúde, como também podemos pensar na vergonha, abordado por Erikson (1998), pois o fato de lembrar da medicação nos remete a direta ou indiretamente falar em HIV, o que é proibido para muitas famílias.
Assim pensamos em como é o restante da família nos cuidados com saúde e doença e os idosos nos informam que em geral há união e auxílio, mas alguns nos informam que há comportamentos diferenciados. E este, pelo que percebemos está relacionado a aprendizados com a família de origem.
A gente corre atrás para resolver sempre. Eu sempre fui mais desleixado, a minha mulher é de tomar muitos remédios por dia, já vem do histórico familiar dela, a casa dela, a família dela já é assim. Toma complexo vitamínico, e não sei o que. Eu já sou totalmente
limitado, tomo o estritamente necessário e meu filho já está mais para a minha mulher.
(Homem – Família Rosa amarela)
Se precisa ir no médico eles vão. Eles tomam um remédio em casa também, já meu marido tudo para ele é farmácia, procura a farmácia, e eu não só vou no médico e na farmácia em último caso, prefiro um remédio caseiro mesmo. Ofereço aos meus filhos o
caseiro também, mas eles não aceitam. (Mulher– Família Bálsamo amarelo)
Assim, partimos para a questão da descoberta do diagnóstico de HIV+ para tentarmos detectar se estes comportamentos de união e auxílio foram incorporados uma vez que a maioria descobriu por já está se sentindo mal ou doente. A maioria dos idosos na descoberta do HIV estava com algum familiar, pois em alguns casos sentiram-se mal, e buscaram atendimento médico; outros estavam internados e uma outra parcela passou mal em casa e foi socorrido por familiares e outros devido ao diagnóstico do companheiro(a). Nestes casos é o que constatamos nas razões para contar como “não fui eu que contei”(18,6%) e “ficaram sabendo junto comigo”(14%).
E para finalizar a nossa análise dos resultados, abordaremos a questão de como é o viver com uma doença crônica como o HIV. Para a maioria há o relato de que vive uma vida normal, e a isto podemos remeter ao que Erik Erikson (1998) nos fala de que a continuidade da experiência de vida é realizado a medida que se dá significado a mesma. Para alguns este significado foi dado procurando esquecer do HIV em seu dia-a-dia, para outros viu no diagnóstico de HIV uma oportunidade de passar a se cuidar para ter um prolongamento da vida com HIV com a qualidade que for possível.
...eu ignoro totalmente eu levo uma vida normal. Como eu disse não sou de beber, bebo socialmente um vinho de vez em quando, uma cerveja de vez em quando, mas não tomo bebida alcoólica, drogas muito menos. E olha eu vou te dizer sinceramente eu levo uma vida como se não tivesse absolutamente nada, levo uma vida normal. Se eu falar para você que tive algum problema por ser portador do vírus eu estou mentindo. Nunca tive nada. Continuei trabalhando, praticando esporte. Eu jogo tênis faço natação, faço caminhada, tenho vida normal e nem me passa pela cabeça, quando eu vou deitar, que eu encosto a cabeça no travesseiro, que eu tenho esse tipo de problema. Acho que até isso seja um fator positivo. (Homem – Família Orquídeas brancas)
Eu não tenho dificuldade nenhuma, nunca tive nenhuma complicação, muito pelo contrário está sempre controlado. Para mim graças a Deus, o que eu vou falar agora pode ser uma demagogia, mas depois que eu descobri que eu estava com HIV eu passei a ser Feliz, porque eu parei de beber, eu parei de fumar, parei de ir para a gandaia, eu passei a me cuidar, a minha família passou a gostar mais de mim, porque eu estava perdendo o respeito dos meus filhos, eu bebia demais, fazia o maior inferno na vida de todo mundo, porque o bêbado só ele tem razão, só ele que sabe, quer dizer o álcool vira na sua casa um desastre, eliminei o álcool, eliminei as drogas, então estou feliz, as pessoas passam a gostar mais de