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A idéia de como trabalhar a coletividade na escola partiu de mim, mas evidentemente, todos no grupo contribuíram para melhorar esta idéia inicial. Passei um tempo refletindo sobre como poderíamos trabalhar a coletividade com o corpo docente da escola, e pensei que poderíamos nos utilizar de analogias para transmitir a mensagem que pretendíamos com nossa oficina, de forma a não nos portarmos de maneira autoritária e detentora do saber predominante.
Referencio mais uma vez Ruiz que traz em seu texto as idéias e contribuições de Makarenko (1980) para pensar as relações estabelecidas na escola de maneira coletiva. As experiências de Makarenko (1980) são com os alunos, mas consigo estabelecer a mesma dimensão formativa na categoria dos professores; afinal um professor em formação não deixa de ser um aluno em potencial.
Um outro aspecto que chama a atenção na obra de Makarenko e pode contribuir para pensar a escola de hoje é o investimento que se fazia na educação da “unidade do coletivo”. Buscava-se uma união bastante estreita entre os alunos. Estes podiam criticar-se entre si nas assembléias gerais, podiam pressionar uns aos outros nos trabalhos do dia-a-dia, mas, era imperioso que buscassem fazer justiça a cada qual, antes de mais nada, pelo fato de todos serem membros da coletividade. Não deviam difamar uns aos outros, causando intrigas desnecessárias e sempre que necessário deviam defender-se mutuamente dos estranhos. O sentimento de unidade do coletivo era fortalecido, fazendo com que todos se sentissem responsáveis uns pelos outros (RUIZ, 2008, p. 230).
Foi a partir do pensamento de “unidade do coletivo” proposto por Makarenko (1980) e recuperada por Ruiz (2008) que centrei o foco da minha idéia da oficina pedagógica. O fato de usar analogias muito me agradava, como já dito anteriormente. Foi então que propus a meu grupo que transformássemos a nossa oficina em uma “aula gastronômica”, e que fizéssemos uma salada de frutas junto com o corpo docente da escola.
De início meus colegas de grupo estranharam a proposta, mas conforme eu fui detalhando minhas intenções, eles foram se empolgando e aderindo a minha idéia da salada de frutas.
Basicamente a questão era propor que todos os funcionários da escola (direção, coordenação, corpo docente e outros) juntamente conosco, participassem da atividade. Cada pessoa deveria levar no dia da oficina uma fruta e esta deveria ter algum tipo de significado para ela. Antes de se começar a fazer a salada de frutas, uma socialização seria feita por parte
de cada um, em relação à fruta e ao motivo escolhido. Após esse espaço de socialização, a salada deveria se feita por todos os participantes e, logo após de pronta, seria degustada por todos e novamente uma socialização deveria acontecer acerca das sensações obtidas durante a preparação da salada.
No momento seguinte, após todos terem saboreado a sobremesa e socializado as sensações, nós proporíamos a eles que atribuíssem às frutas o sentido de idéias. De fato, era como se cada fruta trazida representasse uma prática peculiar à pessoa que a trouxe. A partir de então, discutiríamos o “sabor” da ideia sozinha (no caso o sabor da fruta única) e o sabor dessa mesma ideia no coletivo (o sabor da mesma fruta na salada). E com estas analogias, trazer para discussão a importância da coletividade, em todos os âmbitos da escola enquanto espaço de relações cotidianamente estabelecidas. Segue o registro contido no relatório de estágio elaborado por mim e por meus colegas de grupo onde descrevemos detalhadamente a proposta da oficina.
REE4 – Primeiro semestre de 2009.
Nosso objetivo era o de tentar sensibilizar os professores para que de alguma forma pudessem experimentar (literalmente, no caso da salada de frutas) as delícias que podem resultar de um trabalho coletivo. Não podíamos esperar, contudo, que ocorresse algum tipo de mudança radical e que todos dessem importância ao tema trabalhado. Mas se pelo menos um professor despertasse para a necessidade do trabalho em conjunto no interior da escola, poderia ocasionar discussões posteriores a este respeito.
[...] Com a salada concluída, poderíamos comê-la, enquanto algumas questões seriam discutidas. A primeira delas é que uma fruta sozinha pode não agradar o paladar de uma pessoa, mas várias frutas juntas “temperadas” com suco de laranja passam a ter um gosto a mais. Elas não são simplesmente uma junção aleatória que resulta na soma das partes. Ao contrário, quando juntas, elas se tornam algo diferente do inicial: passam a ser uma salada e não simplesmente frutas. Contudo, mesmo se tornando algo diferente das frutas sozinhas, a salada ainda conserva um pouco de cada ingrediente utilizado. O mesmo ocorre no trabalho coletivo: quando nos unimos em torno de um objetivo ou de um ideal, todos nós assumimos papéis e posturas um pouco diferentes daqueles que tínhamos inicialmente. O comprometimento deve ser maior, pois cada um precisa ter em mente que suas decisões afetam não somente a ele, mas ao grupo como um todo. Se pensarmos, por exemplo, em um trabalho coletivo que vise se responsabilizar por tentar melhorar o trabalho pedagógico com os alunos de uma escola, não veremos mais professores pensando: “Os meus alunos”, mas sim: “Os nossos alunos”. Há uma grande diferença aí.
Este fragmento acima citado, me fez lembrar de Veiga (2004) quando ela aponta a importância da construção coletiva do Projeto político-pedagógico na escola.
O projeto político-pedagógico ao se constituir em processo democrático de decisões, preocupa-se em instaurar uma forma de organização do trabalho pedagógico que supere os conflitos, buscando eliminar as relações competitivas, corporativas e autoritárias, rompendo com a rotina do mando impessoal e racionalizado da burocracia que permeia as relações no interior da escola, diminuindo os efeitos fragmentários da divisão do trabalho que
reforça as diferenças e hierarquiza os poderes de decisão (VEIGA, 2004, p. 14).
Encontro na fala de Veiga (2004), diversos elementos identificados como um problema de falta de construção coletiva naquela escola, tais como “relações autoritárias” e “efeitos fragmentários da divisão do trabalho”. A oficina da salada de frutas, ao qual nomeamos de “O sabor da coletividade”, não tinha o propósito de ensinar a eles a importância da coletividade, até mesmo porque eles sabiam dessa importância, mas sim, fazer com que eles se apropriassem dos espaços disponíveis para assim transformá-los em espaço de formação coletiva. Acerca dos princípios que podem resgatar a coletividade possivelmente perdida no ambiente escolar, Veiga (2004) apresenta o princípio da Gestão democrática como um dos elementos de construção coletiva no plano de elaboração de um Projeto político- pedagógico na escola.
A gestão democrática implica principalmente o repensar da estrutura do poder da escola, tendo em vista sua socialização. A socialização do pode propicia a prática da participação coletiva, que atenua o individualismo; da reciprocidade, que elimina a exploração; da solidariedade, que supera a opressão; da autonomia, que anula a dependência de órgãos intermediários que elaboram políticas educacionais das quais a escola é mera executora (VEIGA, 2004, p. 17).
Influenciada pelas palavras de Veiga (2004) consigo identificar em nossa proposta de oficina, elementos da gestão democrática explicitado pela autora no tocante a “prática da participação coletiva” no atenuante contra a opressão, a exploração e ao individualismo. Pois refletindo de maneira analógica, a salada de frutas é como se fosse uma escola, repleta de sabores distintos, mas que juntos constituem um novo sabor. Na salada, não existe a fruta mais importante ou a menos importante, cada fruta traz o seu sabor próprio e ajuda a compor o sabor coletivo da sobremesa. Essa era a especificidade da nossa oficina, trabalhar de maneira indireta para que o corpo de professores, a equipe de gestão e os demais funcionários conseguissem enxergar a potencialidade do trabalho coletivo na construção da escola.