O delineamento das experiências de Mendel permitiu-lhe uma interpretação estatística muito simples dos resultados, mas suficiente para enunciar alguns princípios básicos da hereditariedade. Com base num grande número de cruzamentos de ervilhas, Mendel "probabilizou" os diferentes genótipos, fenótipos e a presença de genes que estão associados à transmissão da hereditariedade de geração em geração (BEIGUELMAN, 2008).
Li et al. (2009) mostraram que a variação genética dentro da população é responsável pela maioria da diversidade humana; no entanto, a variação entre as populações é suficiente para mostrar a presença de estrutura genética entre estas. A contribuição genética ancestral pode ser obtida por meio da comparação da frequência de alelos de determinadas regiões genômicas entre a população alvo e as possíveis parentais, ou seja, aquelas que contribuíram de alguma forma com alguns indivíduos, genomas, para a formação da população alvo (RIBEIRO, 2009).
A Genética Populacional tem como um dos objetivos analisar as consequências da aplicação dos princípios mendelianos em determinada população, estudando os efeitos das mutações, seleção natural, migração e deriva genética. É de grande interesse em Antropologia e em Medicina legal, pois quando se efetua a valorização da prova pericial, se faz necessário conhecer alguns parâmetros estatísticos da população referência (BEIGUELMAN, 2008).
Sabe-se que diferentes populações apresentam alelos em frequências diferentes e algumas vezes únicos, por isso a necessidade do estudo de diferentes
marcadores naquela população para saber quais alelos presentes e em que frequência, a fim de se definir quais são os melhores marcadores a serem utilizados nestes casos. Assim, para que a identificação através de STRs possa ser rapidamente incorporada com efetiva confiabilidade à população brasileira, é de extrema importância a realização de estudos populacionais (OLIVEIRA et al, 2002) e nestes estudos a investigação deve ser realizada em indivíduos sem nenhum grau de parentesco, a fim de possibilitar a determinação da frequência alélica da população.
Para a realização da identificação humana é mais interessante utilizar marcadores moleculares que apresentem grande variabilidade dentro da população, ou seja, alto grau de polimorfismo, de forma que a probabilidade de duas pessoas apresentarem um mesmo alelo torne-se menor. Sendo assim, a realização de pesquisas para a obtenção de frequências alélicas populacionais tornam-se extremamente importantes, possibilitando a divulgação desses dados, através da literatura científica e, também, por banco de dados (sistemas nos quais são armazenados perfis de DNA referentes a um conjunto de marcadores moleculares) podendo ser aplicados na investigação forense (GÓIS, 2006).
Populações que se encontram em regiões diferentes ou apresentam origem distinta podem apresentar alelos em frequências diferentes e algumas vezes, únicos. Portanto, quando se deseja identificar um indivíduo proveniente de determinada população, é necessário o estudo de diferentes marcadores naquela população para saber quais são os alelos presentes e em que frequência, a fim de se definir quais são os melhores marcadores a serem utilizados nestes casos.
Tal distribuição alélica será aplicada nos cálculos estatísticos realizados em testes de identificação humana e de paternidade, a fim de dar força e credibilidade às informações obtidas pela análise da evidência genética (amostra biológica). A base para esses cálculos de frequências de alelos derivou dos estudos de Hardy- Weinberg. O Princípio de Hardy-Weinberg é um modelo matemático simples que demonstra que as frequências genotípicas de uma população se mantêm constantes quando não há força evolutiva atuando sobre a mesma. Para que o princípio possa ser demonstrado, a população em questão deve estar em equilíbrio genético, devendo ela apresentar as seguintes características (BEIGUELMAN, 2008):
1) A população analisada deve ser grande o suficiente para que não ocorram desvios estatísticos;
2) Não deve haver fluxo gênico entre diferentes populações; 3) Não deve haver a ocorrência de mutações;
4) Os casamentos devem ocorrer aleatoriamente, não existindo, por conseguinte, casamentos preferenciais entre indivíduos por causa de seu genótipo, fenótipo, estratificação social ou consangüinidade. Aliás, por serem os casamentos realizados aleatoriamente, os casamentos consangüíneos podem existir, desde que ocorram aleatoriamente
5) Não pode haver atuação da seleção natural.
Este tipo de população é chamada de população ideal e apesar de nenhuma população humana preencher as condições descritas acima, a prática tem demonstrado que em numerosas populações humanas, os genótipos se distribuem de acordo com a Lei de Hardy-Weinberg, sendo esta muito útil para se estudarem populações e os mecanismos evolutivos que violam o Princípio (BEIGUELMAN, 2008).
Existem diversos parâmetros estatísticos para determinar a eficácia de um marcador genético na conclusão de casos na área da Genética e Biologia Forense, sendo diferentes para cada situação (investigação biológica de filiação, criminalística biológica e identificação genética individual). Para que se possa usar um marcador genético tem que se realizar um estudo desse marcador na população em questão. Abaixo estão listados aguns dos principais parâmetros populacionais usado em Genética e Biologia Forense (BEIGUELMAN, 2008; McMANUS et al, 2011):
• Poder de Exclusão: O PE de um marcador genético numa determinada população é um parâmetro importante no que concerne à investigação biológica da paternidade. Pode ser definido como a percentagem de indivíduos falsamente acusados, cuja paternidade ficaria excluída, com base nesse marcador.
• Poder de Discriminação: O PD é um parâmetro estatístico a priori que se define como a probabilidade de dois indivíduos, retirados ao acaso da mesma população e não aparentados entre si, se possam diferenciar geneticamente, mediante a análise de um sistema ou conjunto de sistemas genéticos. Quanto maior for o número de sistemas genéticos considerados, maior o valor de PD, existindo maior capacidade de discriminar vários indivíduos de uma população.
• Probabilidade de Matching (MP): Também conhecida como Match Probability ou Probabilidade de Coincidência, é a probabilidade de dois indivíduos terem o mesmo padrão genotípico. Portanto, é o oposto da Probabilidade de Discriminação.
• Heterozigosidade: Trata-se de um parâmetro que representa a probabilidade de dois alelos do mesmo locus, escolhidos ao acaso na população, serem diferentes. A heterozigosidade observada (Ho) define- se como o número de indivíduos heterozigóticos observados, relativamente ao número total de indivíduos da população. A variabilidade genética de uma população é quantificada pela heterozigosidade média esperada (He) por locus. Este valor consiste na média aritmética dos valores de heterozigosidade dos vários loci analisados. He difere de Ho porque ela é uma previsão baseada na frequência alélica conhecida, oriunda de amostras individuais.
• Conteúdo Informativo de Polimorfismo (PIC): É a capacidade informativa de um locus analisando-se seu conteúdo em informação polimórfica. PIC superiores a 0,5 são considerados muito informativos.
3 JUSTIFICATIVA
Até o presente momento, há poucos trabalhos no Brasil cujo enfoque esteja voltado para a construção de um banco de dados de frequências alélicas para os marcadores comumente utilizados em identificação humana, que contemplem 15 loci polimórficos ou mais, assim como uma maior quantidade de indivíduos analisados.
Portanto, faz-se necessário a caracterização da população do estado do Rio Grande do Norte através da introdução de mais marcadores genético moleculares, capazes de auxiliar na resolução de identificação humana (testes de paternidade) e de medicina forense.
4 OBJETIVOS