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Uma tarefa importante que auxilia na identificação dos elementos do problema em uma abordagem quantitativa é uma análise qualitativa do ambiente (WAGNER [47]). O diag- nóstico do ambiente é descrito com base na vivência do autor da dissertação no contexto estudado.

A descrição da rede de distribuição e identificação da situação problema foram feitas nas seções 2.3 e 2.4. Para uma melhor compreensão do ambiente, é detalhado a seguir o posicionamento logístico (ver seção 3.1.1) da empresa com relação ao atendimento do canal de distribuição do varejo. Procura-se descrever a política de atendimento da rede de distribuição e as estratégias de distribuição/estoque, instalações e transporte utilizadas. Busca-se estabelecer uma relação entre a política de atendimento e as estratégias que a suportam, visando o auxílio na definição dos objetivos do modelo a ser formulado (segundo WANKE [48], a política de atendimento ao cliente é resultado das decisões integradas de estoque, localização e transporte). Outros aspectos e particularidades do contexto também são levantados.

4.1.1.1 Política de atendimento à demanda

A rede de distribuição segue a estratégia de antecipação da demanda, a qual é carac- terizada pelo planejamento das operações logísticas baseado nas previsões de vendas. O fluxo de produtos é direcionado do fabricante em direção ao consumidor final. Segundo Wanke [49], essa estratégia de atendimento é apropriada quando o tempo de resposta das operações é longo e não existe visibilidade da demanda. De fato, no setor de siderurgia, os tempos de resposta das operações são bastante longos, sobretudo no que se diz respeito ao processo produtivo. Geralmente são empresas com uso intensivo de capital, o que implica em custos fixos elevados. É perseguida uma estratégia de aumento de escala na produção, o que sugere menos trocas de programas. Um produto pode ter seu tempo de ressuprimento extremamente elevado quando sujeito aos programas fixos de produção ao longo de um período. Portanto, a produção não pode aguardar o pedido de um cliente ou loja para iniciar suas atividades. Deve haver uma certa quantidade de produto disponível em estoque, ao menos na fábrica. Em decorrência disto, a política de produção adotada pela empresa é a produção para estoque.

Em relação ao outro aspecto que define a política de atendimento, a visibilidade da de- manda, pode-se afirmar que a empresa consegue obter dados completos da demanda e em tempo real, graças à plataforma de tecnologia de informação utilizada (ver seção 2.3.2). Portanto, conforme ilustra a figura 3.3, a empresa se encontra em um quadrante onde seria recomendada uma política híbrida planejar-reagir, ou seja, podem existir oportunidades para reagir à demanda na distribuição.

4.1.1.2 Política de distribuição e estoque

A política de distribuição está intimamente ligada à forma como se processa a distribuição e onde os estoques estão localizados ao longo da rede.

O plano de distribuição para cada uma das instalações é gerado no módulo de plane- jamento do suprimento da rede do sistema de SCM da empresa (ver seção 2.3.2.1), e é baseado nas previsões de venda de cada produto. O método empregado atualmente por este módulo está fundamentado em técnicas de planejamento das necessidades de

distribuição (DRP-Distribution Requirements Planning1). Conforme afirmam Bowersox e Closs [8], um sistema de planejamento baseado em técnicas de DRP exige previsões de demanda assertivas para que se garanta sua eficácia. Contudo, os níveis de aderência entre previsões e vendas reais variam muito de produto a produto em cada loja. O apêndice A mostra para vários produtos de uma loja da rede de distribuição como os níveis de assertividade das previsões variam item a item (a coluna "Aderência Previsão/Vendas" representa o quociente entre previsão de vendas(t) e vendas(t)). Assim, a aplicação da técnica DRP para execução do plano de distribuição para todos os produtos de forma indiscriminada é no mínimo questionável. De forma não sistêmica, alguns produtos iden- tificados com baixos índices de aderência de previsão já estão atualmente sendo tratados de forma diferenciada, à revelia do plano gerado pelo DRP (para estes produtos estão sendo feitas revisões contínuas de estoque ao longo do mês ou em intervalos periódicos para se analisar a necessidade de ressuprimento).

Conforme elucidado na seção 3.1.1, a decisão sobre a localização de estoques na rede afeta sobremaneira o posicionamento logístico da empresa e por consequência a política de atendimento ao cliente. Segundo Wanke [48], dependendo da interação e combinação de alguns fatores pode ser viável para uma empresa a centralização de estoques (parcial ou total) em uma rede. Alguns desses fatores são: valor do produto, grau de obsolescên- cia, acesso à informação em tempo real, previsibilidade de demanda e giro de estoque. Enquanto o grau de obsolescência não se aplica em princípio aos produtos siderúrgicos2, já foi visto que a informação de demanda é acessível em tempo real para a empresa. Os demais fatores variam bastante para cada produto. No apêndice B, os mesmos produtos apresentados no apêndice A são novamente relacionados com o intuito de ilustrar de que modo fatores como valor do produto, giro de estoque e coeficiente de variação de ven- das (quociente da divisão do desvio padrão de vendas e demanda média) variam item a item. Os dados apresentados são reais, preservando-se a identidade dos produtos, como no apêndice A.

De acordo com o explanado na identificação da situação problema, os estoques estão lo- calizados em todas as instalações da rede, ou seja, existe atualmente uma descentralização total dos mesmos.

1

Detalhes sobre esta técnica podem ser vistas em Bowersox e Closs [8] 2

Este conceito está associado ao ciclo de vida do produto, que no caso de produtos siderúrgicos é estável no tempo, ao contrário do setor de informática, por exemplo

4.1.1.3 Política de instalações

A estratégia de localização apresenta dois tipos de decisões principais: a localização de instalações e a configuração da rede logística. Conforme definição mercadológica, as insta- lações são fixas e não passíveis de serem alteradas, pois a presença física das lojas em cada região de demanda é necessária. No que tange ao desenho atual da rede, todas as lojas são abastecidas diretamente por todas as fontes fornecedoras de produtos, não existindo pontos intermediários. Uma possível mudança nessa política seria uma reestruturação da configuração da rede no que se refere a fluxos de atendimento.

4.1.1.4 Política de transporte

O modal de transporte mais utilizado pela empresa para distribuição dos produtos às lojas é o rodoviário. Outros modais de transporte (como o ferroviário e cabotagem), embora mais baratos, são mais lentos e muito mais sujeito às incertezas, impactando os níveis de serviço no que tange ao tempo de entrega, além de exigir análises mais profundas de dimensionamento de estoque de segurança. Além disso, têm participação mínima no processo de distribuição às lojas e não serão considerados neste trabalho.

A empresa não opera com transporte próprio, tendo um cadastro de transportadoras que operam em certas rotas pré-estabelecidas.

4.1.1.5 Outros aspectos relevantes

Além das estratégias que definem o posicionamento logístico da rede de distribuição, outros pontos são importantes na descrição do diagnóstico do ambiente:

• Aspectos de capacidade - tais fatores são relevantes e levados em consideração no planejamento tático logístico, sobretudo porque a análise é multi-produto. São consideradas as restrições de capacidade produtiva, de armazenagem nas lojas e de expedição das fábricas;

• Aspectos fiscais - na rede de distribuição, os aspectos fiscais não são levados em consideração para se determinar os fluxos de produtos para a venda, porque obri-

gatoriamente as vendas para uma região de varejo devem ocorrer da própria loja da região. Nas operações de transferência de estoques entre instalações da empresa, esses aspectos não são considerados na geração do plano de distribuição pelo sistema de SCM ;

• Aspectos de expedição - todo pedido de venda ou transferência de estoque colocado em uma fábrica tem dois dias para ser expedido. Isto ocorre devido ao tempo de formação de carga, e é especialmente relevante quando estiver sendo tratado o conceito de tempo de ressuprimento;

• Aspectos de nível de serviço - atualmente o nível de serviço em termos de disponibili- dade de estoque é garantido por um estoque de segurança nas lojas que é calculado dinamicamente em função da previsão de vendas. Quando as previsões não são assertivas pode ocorrer falta de produtos ou excesso de estoque na loja.