SEKELLERİN SİYASİ TARİHİ
BOY HALOM
A. DİN VE İNANIŞLAR
Em uma palestra na Universidade de Massachussetts em 1975, que se tornou artigo em 1977 e é constantemente republicado em coletâneas que reúnem críticas ao romance Heart of darkness, a mais recente Armstrong (2006), Achebe fez uma das críticas mais duras ao romance de Conrad e a estendeu ao autor, afirmando que este é um maldito de um racista (bloody racist), crítica que mais tarde, na revisão de seu artigo em 1988, foi atenuada para perfeito racista (thoroughgoing racist). O artigo veio como resposta às diversas interpretações do romance, entre elas, aquelas que o viam como a exploração e desintegração da mente de um europeu (Kurtz), causada pela solidão e doença; aquelas que afirmavam que Conrad não era tão indulgente com os europeus quanto o era com os africanos; aquelas que afirmavam que o objetivo da história era ridicularizar a missão civilizadora da Europa na África; ou aquelas que apontavam que a África era apenas o cenário para a desintegração da mente de Kurtz. Para o autor, o racismo manifesto no romance fora negligenciado pelos críticos, porque o racismo branco contra a África era uma forma de pensamento naturalizada.
Um dos principais argumentos do autor é que o romance de Conrad é representativo do desejo ou necessidade ocidental de colocar a África como o oposto da Europa, o “outro mundo”. O autor ilustra como esta necessidade se manifesta no cotidiano ocidental atual6 através de alguns fatos: o primeiro é o relato de sua conversa com um estranho no estacionamento da universidade:
6 Embora se tenha passado mais de trinta anos após a publicação do artigo de Achebe, mantém-se o uso do presente
do indicativo e dos dêiticos temporais nesta resenha, haja vista a manutenção da opinião do escritor sobre a visão contemporânea do Ocidente em relação à África manifestada em entrevistas, artigos e livros posteriores (ACHEBE, 1994; ACHEBE, 2000; FRANKLIN, 2008)
primeiramente, o interlocutor de Achebe admirou o fato de ele ser professor e, em seguida, assumiu nunca ter pensado na existência de literatura africana; falta de informação reforçada, segundo Achebe, no artigo de Hugh Trevor Roper, um professor de Oxford, que proclamou a inexistência de uma história africana. O segundo fato foi detectado em cartas de dois adolescentes, enviadas após a leitura de seu livro O mundo se despedaça. Nelas, um dos estudantes dizia-se contente por ter aprendido sobre os costumes e superstições de uma tribo africana, não percebendo, como salienta o autor, que seus próprios arredores estão cheios de costumes e superstições estranhas. Finalmente, o terceiro fato diz respeito a uma publicação em um jornal que discutia a dificuldade encontrada por crianças bilíngües, que usam uma língua em casa e outra na escola. Enquanto esse jornal exemplificava com falantes de espanhol nos Estados Unidos, imigrantes italianos na Alemanha ou um fenômeno quadrilíngüe na Malásia, o termo língua era utilizado, mas o termo dialeto foi preferido para identificar a linguagem falada por indianos e nigerianos em Londres. Esquivando-se de análises sociais ou biológicas para o fenômeno, Achebe se coloca na posição de um escritor respondendo a um romance europeu, que, segundo ele, manifesta tal desejo ocidental.
Achebe ([1977] 2006) se permite estender a crítica ao autor do romance, porque, para ele, Marlow, o narrador, parece gozar da total confiança de Conrad. O cordão de isolamento que o novelista criou colocando um narrador por cima de outro, o que criaria um distanciamento entre autor/narrador, ou ainda a possibilidade de Conrad estar sendo crítico e irônico são tidos como recursos insuficientes para separá-los, haja vista o fato de o novelista não apontar, ainda que sutilmente, um frame alternativo de referência pelo qual os leitores pudessem julgar as ações e opiniões de seus personagens.
Para tanto, Achebe ([1977] 2006) aponta algumas questões no romance indicativas de puro racismo. Inicialmente chama a atenção para comparações (o Rio Tamisa, o bom, e o Rio Congo, o mau; a Pretendida de Kurtz e a Amazona, sua amante), que, mais que apresentarem contrastes, revelam o temor de Conrad do parentesco entre as duas civilizações e que pode ser resumido na seguinte frase de Marlow no romance: “...; mas o que apavorava era exatamente a idéia da humanidade deles - como a sua -, a idéia de seu parentesco remoto com essa gritaria selvagem e impetuosa. Feio.” (CT 2002, p. 57). A segunda questão apontada por Achebe ([1977] 2006) é a forma de apresentação dos africanos em massa e como membros humanos – aqueles que desviam desse padrão têm o mérito de reconhecerem o seu devido lugar; a terceira questão apontada é o fato de as “almas rudimentares” não terem uma linguagem e emitirem apenas sons ou grunhirem frases curtas entre eles; a quarta questão é o fato de que, embora Marlow nos seja apresentado como possuidor de visões humanas e avançadas, próprias à tradição liberal inglesa, que requeria que todo inglês decente devia chocar-se com atrocidades, onde quer que acontecessem, este liberalismo não alcançava questões de igualdade entre brancos e negros. Para Achebe ([1977] 2006), o liberalismo de Marlow é pior que o do missionário Albert Schweitzer, que considerava os africanos como irmãos, mas o irmão caçula, portanto não necessitavam, por exemplo, da construção de hospital com condições de higiene adequadas; finalmente, e, de certa forma resumindo as anteriores, o fato de Conrad apresentar os africanos totalmente desumanizados e a África apenas como um campo de batalha para a desintegração de uma mente européia caprichosa. Sem desmerecê-lo totalmente, Achebe ([1977] 2006) questiona se um romance que celebra a desumanização e despersonaliza uma porção da raça humana deve ter o epíteto de obra de arte.
Em entrevista concedida a Jerome Brooks em 1994 e publicada em The Paris Review7, Achebe esclarece que ele não advoga o banimento da obra, pelo contrário, ele próprio ministra cursos sobre Heart of darkness. O propósito de sua crítica é o evidenciamento do tratamento dispensado aos africanos na novela.
No artigo de 1977, o autor antecipa duas contestações às suas colocações. A primeira é que uma obra de ficção não deve se preocupar em agradar as pessoas sobre quem se escreve. Embora Achebe ([1977] 2006) concorde com essa proposição, ele se coloca não contra o fato de agradar pessoas, mas contra um livro que, colocando em questão a própria humanidade dos negros, discorre vulgarmente sobre insultos e preconceitos dos quais uma parcela da humanidade foi vítima, sofrendo agonias e atrocidades indescritíveis de várias formas e em vários lugares. A segunda contestação antecipada concerne à veracidade dos relatos de Conrad. Ainda que o próprio Conrad tenha viajado ao Congo em 1890, Achebe ([1977] 2006) recusa-se a aceitar o seu relato de viagem, por considerá-lo parcial, inadequado e vindo de alguém cujo biógrafo reconhece imprecisões nas descrições de sua própria história. A parcialidade e cegueira de viajante são ilustradas por Achebe com a exclusão de outras atividades dos africanos, além daquelas de “surgirem” diante de Marlow ou se fundirem à floresta. Como exemplo de atividade excluída, é citada a vivacidade de artistas africanos que causou impacto na arte européia na mesma época que Conrad escrevia seu livro.
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ACHEBE, Chinua. Chinua Achebe: the art of fiction n. 139. The Paris Review, n. 133, 1994. Entrevista
concedida a Jerome Brooks. Disponível em