De acordo com Amossy (2005, p.09), todo ato de tomar a palavra implica a construção de uma imagem de si. Dessa forma, não é necessário que o locutor
fale sobre sua pessoa, apresente suas qualidades; embora ele queira apresentar-se como digno de confiança, de apreciação, esses aspectos serão percebidos pelo público a partir do ato da enunciação. Segundo a autora (2005, p.69), a noção de ethos pertence à tradição retórica. Ligado ao orador, diferencia-se do discurso (logos) e do auditório (pathos).
O conceito do ethos apresentado por meio da enunciação vem de Benveniste, demonstrando que o ato de produzir um enunciado remete necessariamente ao locutor que mobiliza a língua (AMOSSY, 2005, p.11). Kerbrat-Orecchioni analisou os “procedimentos linguísticos”, por meio dos quais o locutor imprime sua característica ao enunciado. Pêcheux também aborda a questão da imagem dos interlocutores, ilustrados numa “cadeia de comunicação”: o emissor A faz uma imagem de si mesmo e de seu interlocutor B; reciprocamente, o receptor B faz uma imagem do emissor A e de si mesmo.
De acordo com Amossy (2005), a produção de uma imagem de si nas interações começou a receber mais atenção por meio de Erving Goffman. O sociólogo, adotando uma metáfora teatral, aborda o conceito da “representação”, um artifício pelo qual o indivíduo recorre a atividades diversas a fim de influenciar, sob certo aspecto, um dos participantes da interação. Trata também dos “papéis” ou “rotina”, modelos de comportamento pré- estabelecidos, como o professor comporta-se em sala de aula, por exemplo. Nenhum dos autores citados até o momento, porém, fez uso da palavra ethos. Segundo Amossy (2005, p.14), a vinculação desse termo às ciências da linguagem encontra uma primeira expressão na teoria polifônica da enunciação, de autoria de Ducrot. O autor afirma que a enunciação corresponde à aparição de um enunciado, e não ao ato de um sujeito que o produz. Para tanto, faz uma distinção entre locutor – sujeito empírico – do enunciador, origem das posições expressas pelo primeiro; nesse caso, o ethos está ligado ao locutor, um ser do discurso.
Maingueneau (2008, p.57), ao tratar desse aspecto, também relembrando a retórica, afirma que este se consiste em causar boa impressão mediante a forma com que se constrói o discurso, em dar uma imagem de si capaz de
convencer o auditório, ganhando sua confiança; para tanto, o orador pode jogar com três qualidades fundamentais: a “phronesis”, ou prudência, a “areté”, ou virtude, e a “eunonia”, ou benevolência. Dessa forma, perante a sociedade, é construída a imagem do professor por meio da sua entidade de classe. O autor destaca, ainda, o aspecto discursivo da noção de ethos, salientando que ele implica uma experiência sensível do discurso, mobiliza a afetividade do destinatário (2008, p.57). Dessa forma, o ethos é constituído junto à cena de enunciação, ou seja, o ethos emerge no acontecimento, no discurso, por isso ethos discursivo. No nosso caso, é construído por meio da publicação do editorial no jornal da sua entidade.
A noção de ethos discursivo é um princípio composto por vários planos. Um primeiro plano de análise é o tom, responsável por fazer emergir essa instância corporificada que serve de fiador do que se diz. Maingueneau diz (2008: p. 64):
Isso quer dizer que optei por uma concepção mais “encarnada” do ethos, que, nessa perspectiva, recobre não somente a dimensão verbal, mas também o conjunto de determinações físicas e psíquicas associadas ao “fiador” pelas representações coletivas. Assim, acaba- se por atribuir um “caráter” e uma “corporalidade”, cujo grau de precisão varia segundo os textos. O “caráter” corresponde a um feixe de traços psicológicos. Quanto à corporalidade, ela é associada a uma compleição física e a uma forma de se vestir. Além disso, o ethos implica uma forma de mover-se no espaço social, uma disciplina tácita do corpo, apreendida por meio de um comportamento. O destinatário o identifica apoiando-se em um conjunto difuso de representações sociais, avaliadas positiva ou negativamente, de estereótipos, que a enunciação contribui para reforçar ou transformar.
Isso implica dizer que o co-enunciador vai construindo, a partir dos seus modelos estereotipados de indivíduos que compõem o seu mundo de
representações, a imagem daquele que lhe fala por meio do texto. No imaginário da memória discursiva, o co-enunciador pode começar a construir a imagem mais efetiva do enunciador, um modo de se vestir e de circular na sociedade que possa contemplar o seu tom. Para Amoussy (2005: p. 125), tais representações são estereotipadas e
para serem reconhecidas pelo auditório, para parecerem legítimas, é preciso que sejam assumidas em uma doxa, isto é, que se indexem em representações partilhadas. É preciso que sejam relacionadas a modelos culturais pregnantes, mesmo se constestatórios (...) Na perspectiva argumentativa, o estereótipo permite designar modos de raciocínio próprios a um grupo e os conteúdos do setor da doxa na qual ele se situa.
Podemos confirmar, então, o corpo que o enunciador assume no discurso. Esse corpo toma uma existência que é partilhada por sua comunidade de co- enunciadores e que orienta modos de raciocinar típicos desse grupo, o que faz com que tais co-enunciadores possam aderir e incorporem tal imagem estereotipada.
Esse processo de incorporação passa por três registros indissociáveis (MAINGUENEAU, 2005: p. 99)
- a enunciação leva o co-enunciador a conferir um ethos ao seu fiador, ela lhe dá corpo;
- o co-enunciador incorpora, assimila, desse modo, um conjunto de esquemas que definem para um dado sujeito, seja a maneira de controlar o seu corpo, de habitá-lo, uma forma específica de se inscrever no mundo;
- essas duas primeiras incorporações permitem a constituição de um corpo, o da comunidade imaginária dos que comungam-na adesão de um mesmo discurso.
Assim, retomamos a centralidade da noção de adesão e de posicionamento. Como mencionamos, não se adere a uma ideia, mas a um ethos, um fiador, um maneira de ser e de estar no mundo, que carrega uma série de traços físicos e psicológicos, mas a percepção disso tudo está no nível de uma interação interdiscursiva e não de uma interação simplesmente linguística.