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Ensina o professor Fábio Nusdeo51 que a aplicação do chamado figurino liberal por 150 anos trouxe à tona a produção de resultados distanciados do esperado, haja vista que a sua operacionalidade estava na dependência de diversos pressupostos que a estrutura legal própria do liberalismo não havia abordado. Nesse sentido, o mencionado jurista menciona as seis principais falhas do mercado. São elas:

a) Quanto à mobilidade de fatores;

b) Quanto à transparência ou acesso à informação; c) Quanto à concentração econômica;

d) Quanto aos efeitos externos ou externalidades; e) Quanto ao suprimento de bens coletivos;

f) Quanto à falha analítica quando os custos de transação são desconsiderados. O mencionado jurista assinala que a identificação de tais falhas evidencia que a mecânica operacional do mercado corresponde mais a um modelo simplificado do que à realidade que se verifica concretamente. Tal modelo ideal é denominado de concorrência perfeita.

A concorrência perfeita teria palco diante de: a) ampla mobilidade de fatores; b) pleno acesso a informações; c) ausência de economias de escalas, assegurando a presença de grande número quer de vendedores, quer de compradores em cada mercado (a chamada atomização); d) ausência de economias externas (positivas ou negativas); e) exclusividade de todos os bens52.

Uma vez que as falhas de mercado ensejam situações em que os pressupostos de funcionamento deste não se fazem presentes, resta abalada a sua operacionalidade. Neste contexto, o temor liberal de que o Estado seria o responsável por ceifar a liberdade é posto

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NUSDEO, Fábio. Op. cit., p. 139.

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em xeque, haja vista que tal ameaça à liberdade pode ser provocada pela própria imperfeição do mercado53.

Assim é que Fábio Nusdeo ilustra a situação em testilha com a seguinte comparação: “À liberdade do poluidor de poluir, corresponde a falta de liberdade da população de respirar ar puro ou de adquirir alimentos não contaminados”. Ou ainda: “O poder do monopolista de provocar a escassez e fixar preços significa a compulsória entrega a ele de parcela extra da renda do consumidor e o tolhimento da liberdade de iniciativa de seus concorrentes menos poderosos”54.

O Estado é, então, convidado a desenvolver ações, por meio de normas legais e regulamentares, que visam à correção de tais falhas, começando-se a falar em atuação do Estado no domínio econômico, com o fim de reduzir as distorções do sistema55.

Portanto, verifica-se que o Estado evolui de um interventor distante para um agente incumbido de apoiar os setores da economia que são insuscetíveis de equacionamento pelo mercado. O Estado agirá em harmonia com o mercado, suprindo-lhe as deficiências, sem lhe tolher as condições de funcionamento. Promoverá, assim, condições de operacionalidade e viabilidade56.

Analisando essa reformulação de paradigmas, Luís Eduardo Schoueri57 pondera que o Estado intervencionista, longe de constituir repulsa à concepção liberal, figura como evolução deste, haja vista que ambos acreditam no mecanismo de mercado.

Ao abordar a problemática da mobilidade de fatores, sustenta que a premissa de que a oferta e a demanda sempre se ajustam num equilíbrio não se confirma, pois produtores e consumidores podem deixar de se mover na direção indicada pela lógica do mecanismo de mercado. Nesta toada, distingue as formas imediatas e mediatas por meio das quais o Estado pode equalizar as imperfeições do mercado, notadamente no que tange à mobilidade de fatores58:

Do ponto de vista da intervenção estatal, surge ela no sentido de dar a necessária velocidade aos movimentos de crescimento ou redução de oferta e demanda, o que pode dar-se seja pela atuação direta do Estado, como vultoso produtor ou comprador, seja pela sua atuação mediata, quando se cogita de o Estado conduzir os agentes do mercado ao

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NUSDEO, Fábio. Op. cit., p. 168.

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Id., loc. cit.

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Id., loc. cit.

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Id., loc. cit..

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SCHOUERI, Luís Eduardo. Op. cit., p. 73.

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comportamento esperado. À guisa de exemplo, citam-se as tarifas aduaneiras, pelas quais se veiculam normas tributárias indutoras que podem servir de estímulo à mudança de comportamento de produtores ou compradores.

Nesta altura, cumpre avançar na identificação dos fundamentos para a atuação estatal, chamando atenção para o fato de que, a par da atuação corretiva dos mecanismos de mercado pelo Estado, há aquela voltada a concretizar os objetivos da política econômica.

Note-se que as mencionadas atuações irão deter, na classificação de Fábio Nusdeo, caráter negativo (a primeira) e positivo (a segunda), consoante se verifica das primorosas lições abaixo transcritas59:

A primeira dessas duas motivações pode ser vista como de caráter negativo, por ter como finalidade reparar um mau funcionamento operacional. A segunda já se apresenta como uma motivação positiva, almejando implantar novos resultados, melhores ou mais desejáveis, do que seria de se esperar do desempenho normal do sistema, ainda quando corrigidas as suas inoperacionalidades maiores. Assim, a presença do Poder Público na economia deixa de ter apenas por justificação as falhas do mercado. Uma segunda e extremamente poderosa motivação acoplou- se à primeira. Decorre das preferências políticas quanto ao desempenho

tout court do sistema, levando o Estado não apenas a complementá-lo,

mas a direcioná-lo deliberadamente em função de fins específicos.

Neste cenário, resta translúcido que, além de uma atuação de caráter negativo, voltada apenas à correção das disfunções do mercado, o Estado se faz presente no sistema econômico, de forma positiva, para cumprir metas e objetivos traçados pela sociedade (mediante órgãos de representação política), garantindo assim o melhor resultado possível.

Vale salientar que, uma vez fixados os alicerces do sistema econômico, cabe traçar direcionamentos, estipulando-se certos fins, para que se construa um padrão de desempenho. Surge aí a política econômica, que corresponde “ao estudo das relações entre certas variáveis sob a ótica de que umas serão meios ou instrumentos para que as outras assumam um determinado valor ou posição”60.

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NUSDEO, Fábio. Op. cit., p. 168-169.

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Deveras, na elaboração de sua política econômica, o Estado pode valer-se de vários meios e instrumentos, tais como: finanças públicas; instrumentos monetários ou creditícios; instrumentos cambiais; meios de controle direto etc.

Interessa a este estudo a análise dos instrumentos de finanças públicas, notadamente os de cunho fiscal, por intermédio dos quais o Estado buscará influir no comportamento do mercado, criando alterações quantitativas, que irão afetar os preços, tendo como escopo interferir nas decisões dos contribuintes em prol da proteção ambiental.

Com efeito, ao diminuir ou aumentar o custo de produção ou comercialização por meio da utilização desse instrumental, o Estado atua de forma indireta na economia, pois, longe de proibir ou exercer, ele próprio, determinada atividade de forma direta, estará provocando comportamentos dos particulares, tanto no sentido de inibir uma conduta indesejada quanto no de fomentar uma conduta desejada.

De tudo quanto foi exposto no presente item, constata-se que os fundamentos para que o Estado atue no sistema econômico pautam-se pela necessidade de tal ente: i) contornar falhas do mercado e ii) direcionar o mercado em busca de melhores resultados, considerando-se os objetivos traçados pela sociedade.

As considerações até aqui firmadas permitem que se examine, na sequência, a atuação do Estado no manejo de instrumentos econômicos voltados à correção de falhas do mercado – externalidades – e à estruturação de políticas públicas calcadas no princípio da ordem econômica que determina a defesa do meio ambiente.

1.6.3. A defesa do meio ambiente como princípio da ordem econômica concretizador