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5. BAĞIMSIZ DENETİM YÖNETMELİĞİ

5.1. DENETİMİN ESASLARI

O Surrealismo sempre sugeriu certa atitude para com a vida, a arte e o mundo, que tinha como horizonte a emancipação total do homem. O motor de tal emancipação: a liberação dos sentidos, a exploração do sonho, enfim, a exaltação da surrealidade. A vanguarda de Breton propõe uma revolução interna por meio do contato com essa força que nos une a todos, o inconsciente. Neste conceito, que carrega em si a ideia da analogia, tudo conversa com tudo aqui mesmo. O inconsciente não está no plano transcendente. Se a constituição lógica mutilou o pensamento, para os surrealistas, trata-se de deixar falar o acaso objetivo. Deixar que ele responda aos direcionamentos e necessidades do inconsciente. Tomar como técnica e escrita automática. Tudo isso, é claro, dito de modo muito passadiço, pois não é nossa intenção aqui um estudo estrito sobre o Surrealismo. Observando o modo como conversam com o Surrealismo as poéticas do objeto do último Murilo Mendes e do estreante Francis Ponge, a primeira grande

encruzilhada está na questão da escrita automática e dessa liberação total do inconsciente. Cabe trazer um trecho da primeira proposição sobre o sonho que se encontra no Manifesto do

Surrealismo:

[...] dentro dos limites em que ele atua (permita-se-me dizer atuar), o sonho, ao que tudo indica, é contínuo e aparenta ser organizado. Somente a memória se arroga o direito de nele introduzir cortes, de não levar em conta as transições e de nos apresentar uma série de sonhos de preferência ao sonho. Da mesma forma, não temos, em qualquer momento que seja, senão uma noção distinta das realidades cuja coordenação só pode ser efetuada com a intervenção da vontade. O que importa notar é que nada nos autoriza a pressupor uma dissipação maior dos elementos constitutivos dos sonho. Lamento tratar disto usando de uma fórmula que, em princípio, exclui o sonho. Quando teremos lógicos e filósofos dormentes? Eu gostaria de dormir para poder entregar-me aos que dormem, do mesmo modo como me entrego aos que me leem, com os olhos bem abertos: para pôr cobro à prevalência, nesta matéria, do ritmo consciente de meu pensamento. (BRETON, 2001, p.25, grifo do autor).

Esse “novo olhar” apontado implica um ver de uma nova maneira com a ajuda da linguagem83. Vejamos como o sonho, enquanto deixa falar o inconsciente, o irracional, possuindo traços de organização, aparenta-se ao que fazem Murilo e Ponge. Para o francês, trata-se de trabalhar com o “irracional vindo do fundo de sua impregnação” lado a lado com o alfabeto. Nesse sentido, o que Ponge sempre desejou foi manter intactas as características de sua poesia, seu teor artesanal, de trabalho com a linguagem, de embate entre palavra e coisa. Características racionais, pois, procurar a palavra justa (« le mot juste ») nas coisas cotidianas, no real, demanda “organização”. Além disso, partindo tudo do eu-lírico, a figuração de uma nova realidade atende a uma “coordenação [que] é questão de vontade” desse mesmo sujeito lírico. Ora, o voltar-se para as coisas mesmas instaura uma outra realidade. Daí a marca de manifesto (contra o habitual, o gasto) que tem esses poemas do Le parti pris des choses (e os Proêmes). A vontade de « [...] faire

une révolution dans les sentiments de l’homme rien qu’en s’appliquant aux choses, qui diraient

aussitôt beaucoup plus que ce que les hommes ont accoutumé de leur faire signifier »84 (PONGE,

83 De fato, a relação entre Murilo Mendes e Francis Ponge com o Surrealismo (e com movimentos de vanguarda) é

profundamente mais complexa e mereceria quiçá uma dissertação dedicada ao assunto. No entanto, o que se deve reter como herança para os dois poetas é a desautomatização do olhar. Procedimento bem marcado nos manifestos surrealistas na vontade de ver de uma nova maneira, de ver com o consciente e o inconsciente.

84 “[…] fazer uma revolução nos sentimentos do homem tão somente se transferindo às coisas, que diriam sobretudo

2002, p.1034), pressupõe, tanto quanto a poética surrealista a mudança de uma ordem. Entre Francis Ponge e o Surrealismo,

[l]es affinités et les parentés d’attitude sont évidentes : un certain goût du

manifeste, mais qui se réfugie dans un ton et un style plus qu’il ne s’expose sur la scène sociale, le refus de la société contemporaine, la légitimation du désir, même si les mêmes mots ne couvrent pas nécessairement les mêmes réalités. Mais Ponge demeure hostile à la théorie du rêve et au privilège de l’image, au retour vers les formes traditionnelles que prônera plus tard Aragon, plus encore à l’écriture automatique qui lui paraît relever de l’imposture : « À l’encontre des surréalistes, il se trouve que les scrupules viennent en même temps que les

audaces et que j’hésite, que je rectifie au fur et à mesure mon expression. » La

rage de l’expression n’est aucunement un avatar de l’écriture automatique ; à

une certaine mythification de la poésie il oppose le caractère artisanal de son travail, et à leur activité spectaculaire une forme de repli et de discrétion

davantage apparentée au calvinisme ou à la vertu romaine.85

(BEUGNOT, 1999, xxiv-xxv, grifo do autor).

O que vale dizer é da relação entre as duas práticas literárias e de que modo dialogam. Um diálogo que, no plano literário, implique talvez muito mais uma diferença de forma que de fundo.

No que concerne a Murilo Mendes e o Surrealismo no Brasil, começamos com as palavras de José Paulo Paes (1985, p.99), em Gregos & baianos: “Do surrealismo literário no Brasil quase se poderia dizer o mesmo que da batalha de Itararé: não houve. E não houve, explica-o uma frase de espírito hoje em domínio público, porque desde sempre fomos um país surrealista, ao contrário da França [...]” Não houve. Todavia, como considerar uma poesia como a de Murilo Mendes? Consideramos modernista. O que temos nesta poética são simplesmente ecos do surrealismo. Não sendo surrealista, o poeta do Poliedro compartilha, sobretudo, a técnica. Mas, devem-se guardar certas proporções porque, embora compreenda a noção de “escritura automática”, o que se dá com a atmosfera de sonho, de acoplagens múltiplas, de elementos

85 “As afinidades e filiações de atitude são evidentes [entre Ponge e o Surrealismo]: um certo gosto do manifesto,

mas que se refugia num tom e num estilo, mas ao invés de se expor à cena social, a recusa da sociedade contemporânea, a legitimação do desejo, mesmo se as mesmas palavras não recobrem necessariamente as mesmas realidades. Mas Ponge continua hostil à teoria do sonho e ao privilégio da imagem, ao retorno às formas tradicionais que Aragon exaltará mais tarde; ainda mais hostil à teoria da escrita automática que lhe parecia revestida de impostura: ‘Contrariamente aos surrealistas, vê-se que os escrupulos vêm ao mesmo tempo que as audácias e que eu hesito, e retifico, ao fim e ao cabo, minha expressão.’ A fúria da expressão não é, de modo algum, um avatar da escrita automática; a uma certa mitificação da poesia ele opõe o caráter artesanal de seu trabalho, e à sua atividade espetacular uma forma de preservação e discrição mais ligada ao calvinismo ou à verdade romana.” (BEUGNOT, 1999, xxiv-xxv).

díspares e múltiplos planos, não é escrita automática. Como muito bem colocou Eliane Zagury (1972, p.ix, aspas do autor, grifo nosso), no prefácio de 1972 a Poliedro:

[o] fato é que o seu visionarismo [de Murilo Mendes] é de certa forma nivelador, sem preconceitos, e une o geral ao particular, o regional ao universal, o inefável ao grosseiramente concreto, percorre toda a gama de sinestesias e associações afetivo-sensoriais. As “dissonâncias” que se criam, entretanto, existem em função de uma nova ordem universal que, se não chega a propor uma nova hierarquia, vem a anular toda a existente. E aparecerão jogos antitéticos, os paradoxos, a conciliação dos contrários numa nova e absoluta unidade. O

importante é que liberando o subconsciente nestas imagens alucinatórias, o poeta não faz disto um fim, mas um meio para a expressão de todo um programa ideológico que pouco a pouco vai se clarificando. O caos que se

estabelece não é uma inconsequente fotografia da subconsciência.

Não seria demais lembrar a boa dose de ponderação, reflexão, intelectualidade que subjaz à acoplagem muriliana de elementos díspares, à sua imagem que emprega, enfim, a técnica que utiliza. Lembremos ainda o gosto do poeta pelo dicionário86, pela definição da palavra. Temos

uma acoplagem de elementos que se dá muito mais baudelarianamente falando, do que surrealistamente. Há, sem dúvida, um gosto pelo insólito e não-natural em Murilo Mendes que é muito típico do Surrealismo. Uma certa força que nasce mesmo da arbitrariedade da junção de elementos, mas cujo fim é outra que não essa avalanche do inconsciente. Basta voltar à primeira proposição sobre o sonho acima citada, para comprovar as semelhanças entre Murilo, Ponge e os surrealistas.

A abertura proporcionada pelo sonho, pelo inconsciente, e pela escrita automática dos surrealistas traz à tona aquilo que compartilhamos, que nos une como humanos. Estendendo tal liberação a outros aspectos da vida e da arte, o que os Surrealistas sempre desejaram foi a liberdade. Também Murilo Mendes e Francis Ponge. É notável o movimento de atração e negação que empreendem em relação à estética surrealista. Interessante é o fato de que, mesmo no olho do furacão, Francis Ponge recusa o espalhafato e barulho da vanguarda (seu aspecto social, de salão e de protesto) e mantém uma poesia de estrutura marcadamente contrária e pessoal – ainda que comungue veladamente com aqueles pressupostos. Há discrição e comedimento no protesto (muito embora sejam pequenas bombas), certa vontade solitária de

86 “Aimez-vous les dictionnaires? Perguntou Théophile Gautier a Baudelaire, apenas o conheceu”, no poema “O

trabalho com a palavra – é a calmaria de um sujeito que observa o cair da chuva e a ela dá lugar, dá voz (numa ilusão de que cedeu o posto).

Para Murilo Mendes, bem ao contrário, mesmo algumas décadas depois do furor vanguardista, o tom surrealista ainda permanece sob a forma de um ímpeto que tenta ser controlado pelo rigor formal. Verdade seja dita, o poesia muriliana é feita de uma tal teatralidade que se coaduna muito bem ao espírito da vanguarda. O seu sujeito lírico é um sujeito que se encena, se teatraliza, num panorama por ele mesmo criado e que mistura a um só tempo catolicismo e técnicas de vanguarda, que procede à união de contrariedades tão caras aos surrealistas. São duas posturas muito diferentes as de Murilo e de Ponge, mas que se fundamentam no caminho que a avant-garde abriu ou ia abrindo – mesmo que seja por vezes pela negação, no estabelecimento de pequenos manifestos contrários. Surrealistas no sentido ortodoxo do termo? Não. Surrealistas que se querem à distância, que ouviram os ecos e responderam cada um à sua maneira. Como diria o manifesto de Breton (2001, p.64): “Viver e deixar de viver é que são soluções imaginárias. A existência está em outra parte.”