A interpretação mais popula r de John Wesley é a do evangelista e organizador do me- todismo nascente. O tema central dessa visão depende da perspectiva tomada: na ótica purita- na enfatiza-se o caminho da salvação e, na ótica pietista (hallense), a luta pelo arrependimento (Bußkampf) ou a conversão pessoal. Dependendo da ênfase puritana ou pietista, promove-se santificação (puritanismo) ou não (luteranos). Um exemplo dessa literatura é o livro de Arthur S. Wood interpretando Wesley como evangelista, motivado pelo seu “coração em chamas”.230 Concordamos com a descrição de Frank Baker que o autor “trata mais do método do que da teologia do evangelismo”.231 Certamente, trata-se de um desafio notório desse tipo de literatu- ra de propor modelos sem refleti-los.232 Já mencionamos que essa literatura aposta mais na fa- se central da vida de John Wesley, com forte ênfase na conversão de John Wesley como eve n- to. Fora disso, se aposta na discussão de modelos para a organização da igreja, atualmente, com ênfase nos pequenos grupos. Mas lembra-se também que esta interpretação converge com uma clássica interpretação de Wesley a partir da teologia da libertação no início de déca- da de oitenta: “Pergunto-me às vezes: e por que não brota [...] no coração deste ativismo, um saboroso e substancial alimento teológico? O administrador não chegou a devorar o pregador, mas parece ter impedido que o fogoso pregador tomasse consciência da teologia implicada em suas atitudes e práticas.”233 Mas, mesmo que não concordemos com a interpretação de Ass- mann que “Wesley parece estar profundamente convencido da força nutricional [...] de uma espiritualidade que se contenta com [...] enunciados básicos. Em outras palavras: uma fé e uma espiritualidade que não chega a tomar consciência da sua inelutável imersão [...] na ideo- logia”234, a sua pergunta continua sobre a mesa e precisa ser retomada mais à frente.
Quanto ao puritanismo, encontramos o diálogo com Jonathan Edwards e William Law.
230 Assim destaca já o título: Arthur Skevington WOOD. The burning heart: John Wesley, Evangelist. Grand Rapids, Michigan: Wm. B. Eerdmans, 1967.
231 Frank BAKER. Unfolding John Wesley: a survey of twenty year’s studies in Wesley’s thought. Quarterly Re-
view, n.1. Nashville, TN: The United Methodist Board of Higher Education, outono 1980, p. 51.
232 Uma ampla discussão sobre as diversas teologias de evangelização e suas implicações são raras no ambiente metodista. Uma das raras exceções desta regra, com ênfase na teologia, apresentou Walter KLAIBER. Call and
response: biblical foundations of a theology of evangelism. Tradução: Howard Perry-Trauthig e James A.
Dwyer. Nashville, TN: Abingdon Press, 1997.
233 Hugo ASSMANN. Basta a santidade social? Hipóteses de um católico romano sobre a fidelidade metodista.
Luta pela Vida e Evangelização. Piracicaba / São Paulo: Editora UNIMEP / Edições Paulinas, 1985, p. 200-201.
234 Hugo ASSMANN. Basta a santidade social? Hipóteses de um católico romano sobre a fidelidade metodista.
Wesley incluiu ambos autores na sua biblioteca cristã.235 Richard Steele descreve a contribui- ção de Edwards para o estilo de avivamento do metodismo nascente.236 O relatório de Ed- wards sobre o avivamento na Nova-Inglaterra impressionou John Wesley. Naturalmente, a re- lação entre Edwards e Wesley interessa mais à pesquisa anglo-saxônica, por exemplo, na compreensão da experiência.237
A discussão sobre os impulsos, tanto do puritanismo como do pietismo para Wesley leva-nos a concordar com a excelente introdução, sobre a relação entre o puritanismo inglês, o “pietismo” reformado (holandês), o pietismo alemão (Zinzendorf, Francke, Bengel) e o meto- dismo inglês, apresentada por F. Ernest Stoeffler.238 No momento em que o puritanismo in- glês tinha perdido muito da sua força formativa, são os contatos com pietismo alemão que a- judam a introduzir nova s ênfases e re-vitalizar aspectos do próprio puritanismo inglês. Essa direção é indicada também pelas investigações de Richard Steele sobre os empréstimos feitos por Wesley de Edwards, Whitefield e Zinzendorf quanto à práxis de avivamento.239 Além dis- so, verifica-se uma certa relação circular entre o puritanismo, pietismo e metodismo. Philipp Jakob Spener não leu somente Lutero e Joha nn Arndt, mas também o puritano Lewis Ba- yly.240 Francke tinha recebido de Oxford a primeira edição crítica do Novo Testamento usada por Bengel.241 Enquanto a pesquisa caiu, no passado, na armadilha da especialização, a pers- pectiva de Stoeffler visa mais as conexões entre os diversos ramos do puritanismo e do pie- tismo, sem desconsiderar a complexidade da herança anglicana. Conforme Gonzalez:
235 John WESLEY. The distinguishing marks of a work of the Spirit of God, (edição em parte) Jonathan Ed wards, 1744. Segundo Martin SCHMIDT. John Wesley: Das Lebenswerk John Wesleys (vol II). Gotthelf-Verlag: Zürich / Frankfurt am Main, 1966, p. 325, a literatura puritana formou o maior grupo na Biblioteca Cristã e incluiu os nomes de “...Joseph Alleine, Isaac Ambrose, Samuel Annesley, seu avô materno, Richard Baxter, Robert Bolton, John Brown, John Buyan, Edmund Calamy, Stephen Charnock, Nicholas Culverwell, William Dell, Thomas Goodwin, John Howe, Richard Lucas, Thomas Manton, John Owen, John Preston, Richasrd Sibbs, John Smith, John Worthington...”.
236 Richard B. STEELE. John Wesley’s synthesis of the revival practices of Jonathan Edwards, George White- field, Nicholas von Zinzendorf. Wesleyan Theological Journal, vol. 30, n. 1, primavera, 1995. Disponível em: < http://wesley.nnu.edu/wesleyan_theology/theojrnl/26-30/30-1-07.htm >. Acesso em: 26 maio 2004.
237 Robert Doyle SMITH. John Wesley and Jonathan Edwards on Religious Experience: A Comparative Analy- sis. Wesleyan Theological Journal, vol. 25, n. 1, primavera 1990. Disponível em: < http://wesley.nnu.edu /wesleyan_Theology/theojrnl/21-25/25-08.htm >. Acesso em: 4 maio 2004.
238 F. Ernest STOEFFLER. Religious roots of the early Moravian and Methodist movements. Methodist History, vol. 14, n. 3, Madison, NJ: Ge neral Commission on Archives and History of the UMC, abril 1986, p. 132-140. 239 Richard B. STEELE. John Wesley’s synthesis of the revival practices of Jonathan Edwards, George White- field, Nicholas von Zinzendorf. Wesleyan Theological Journal, vol. 30, n. 1, primavera, 1995. Disponível em: < http://wesley.nnu.edu/wesleyan_theology/theojrnl/26-30/30-1-07.htm >. Acesso em: 26 maio 2004.
240 Emmanuel SOTHOM. Golden Crown-Jewels of the Children of God. S.l.: s.a.; Bayly foi também editado e lido nos EUA e há uma tradução do seu livro para uma língua indigina. Lewis BAYLY. The practice of piety: d i- recting a Christian how to walk, that he may please God. Amplified by the aut’ : [One line from I Timothy]. Bos- ton in New-England: Reprinted by B. Green, for Benj. Eliot, and Daniel Henchman. Sold at their shops, 1718. 241 F. Ernest STOEFFLER. German pietism during the eighteenth century. Leiden: E. J. Brill, 1973, p. 98.
...Wesley é herdeiro dessa tradição reformada e puritana de ênfase na santi- dade, que logrou tanta proeminência na Inglaterra dos séculos dezessete e dezoito. Porém, por outro lado, Wesley sabia, por experiência própria, que essa ênfase na santidade, se não fosse acompanhada de outra ênfase ainda maior na graça [...] poderia ter conseqüências desastrosas.242
Dessa forma, a soteriologia é menos tentada a destacar somente certos momentos (ar- rependimento, conversão) da vida cristã como central. A soteriologia abre-se para um maior realismo, com a noção de que uma múltipla influência significa, normalmente, também ruptu- ras ou, no mínimo, viradas mais bruscas. No entanto, a re-consideração da contribuição do pu- ritanismo e pietismo culmina, certamente, no desafio de, por um lado, re-apreciar uma teolo- gia que parte predominantemente da vida, sem, por outro lado, projetar na linguagem puritana e pietista de Wesley o atual individualismo.
Wesley, como organizador do movimento metodista, é o outro grande tema nessa perspectiva, sendo que a ênfase maior está na revitalização das classes. As pesquisas são de David Lowes Watson243, e em português dos bispos Josué Adam Lazier244, Paulo Lock- mann245 e de Paulo Ayres246, como de Helmut Renders247. No Brasil, essa perspectiva relacio- na-se com a visão eclesiástica e missionária, em busca de compreender melhor o papel dos pequenos grupos no metodismo nascente. O interesse é pragmático porque parte da observa- ção do sucesso de programas de expansão eclesiástica, ou seja, o tema vem de fora e com uma perspectiva explícita. Descrevemos a diversidade de pequenos grupos no metodismo nascente e defendemos a tese de que a eclesiologia metodista, como eclesiologia soteriológica distin- gue mais entre “evangelismo” e “busca da santidade pessoal” do que se percebe hoje. Paulo
242 Justo L. GONZÁLEZ. Wesley para a América Latina hoje. São Bernardo do Campo: Editeo, 2003, p. 33. 243 David Lowes WATSON. Class leaders: recovering a tradition. Nashville, TN: Discipleship Resources, 1991; David Lowes WATSON. Covenant discipleship: Christian formation through mutual accountability. Nashville, TN: Discipleship Resources, 1991; David Lowes WATSON. Forming Christian disciples: the role of covenant discipleship and class leaders in the congregation. Nashville, TN: Discipleship Resources, 1991. David Lowes WATSON. God does not foreclose: the universal promise of salvation. Nashville, TN: Abingdon Press, 1990; David Lowes WATSON. God does not foreclose: the universal promise of salvation Nashville: Abingdon Press, 1990; David Lowes WATSON. Methodist Spirituality. Protestant Spiritual Traditions. SENN, Frank C. (ed.). Paulist Press: New York, 1986, p. 217-273; David Lowes WATSON. The early Methodist class meeting: its ori- gins and significance. Nashville, TN: Discipleship Resources, 1985; David Lowes WATSON. Accountable dis-
cipleship: handbook for covenant discipleship groups in the congregation. Nashville, TN: Discipleship Re-
sources, 1984; David Lowes WATSON. The origins and significance of the early Methodist class meeting. [Du- rham, N. C.]: Watson, 1978.
244 Josué Adam LAZIER. Aspectos bíblicos e conceituação do discipulado. São Paulo, SP: Cedro, 2004.
245 Paulo Tarso de Oliveira LOCKMANN. O caminho do discipulado: de Jesus a nos. Rio de Janeiro, RJ: s.e., 2000.
246 Paulo Ayres MATTOS. Wesley e os encontros de pequenos grupos. Caminhando, Ano VIII, n. 12, 2º semes- tre 2003, p. 144-160.
247 Helmut RENDERS. `Pequenos Grupos´ na tradição metodista: observações, análises e teses. Caminhando, São Bernardo do Campo: Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, ano VII, n. 10, 2.
Ayres dá continuidade à pesquisa através de uma análise teológica dos pequenos grupos. O Wesley “organizador”, “administrador” ou “criador” é o Wesley na promoção do desenvolvimento de pessoas promotoras da religião social. Um dos grandes problemas dessa perspectiva seria manter a dinâmica de um grupo sem cair na armadilha das padronizações de grupos, programas e, finalmente, da membresia. Para a soteriologia social, porém, o aspecto comunitário precisa ser traduzido numa dinâmica contínua.
1.6.2 Da descoberta de Wesley como teólogo à construção da sua imagem como “o úl- timo dos grandes reformadores” e “precursor ecumênico”
Segundo Melton, o rótulo de Wesley como teólogo aparece, pela primeira vez, em Cell248 em 1904.249 Mais recentemente, R. Maddox retomou essa perspectiva.250 O fenômeno não é isolado. Quase em toda introdução de um livro teológico sobre Wesley ou sobre a tradi- ção Wesleyana há hoje um discurso que enfatiza que Wesley teria sido não “somente um e- vangelista ou um organizador” mas – no mínimo também – um “teólogo”. Por um lado deve- se concordar com essa observação porque cada exercício de reflexão sobre a práxis na luz do evangelho é teologia. Por outro lado, precisa-se estudar melhor o que se quer passar quando se apresenta John Wesley como teólogo. Ra ndy Maddox, por exemplo, apresenta Wesley na primeira página da sua introdução da seguinte forma:
Wesley era um estudante sério de teologia, na verdade um dos estudantes com a melhor formação da sua época: ele cumpriu quase todos os créditos requeridos para o grau de bacharelo em divindade consideravelmente mais do que é necessário para um programa de um mestrado em divindade. (...) Ele não se limitou a doutrinas com implicações para a vida cristã. (...) Ele tratou também de assuntos tão especulativos como da natureza de animais no céu. (...) Talvez seja o aspecto mais surpreendente de estudos recentes qual grau de atenção seu modelo da atividade teológica começa a receber.251
A contribuição da herança puritana e pietista para a vida e obra de Wesley, Maddox deixa ao lado.252 O teólogo conceitual substitui o estudioso do aspecto dinâmico da fé que to-
sem. 2002, p. 68-95.
248 George Croft CELL. The rediscovery of John Wesley. Ne w York: Henry Holt and Co.1935.
249 J. Gordon MELTON. An annotated bibliography of publications about the life and work of John Wesley, 1791-1966. Methodist History, vol. 7, n. 4, Lake Junaluska, NC: Association of Methodist Historical Societies, jul. 1969, p. 45.
250 Randy L. MADDOX, Reading Wesley as theologian. Wesleyan Theological Journal, vol. 30, n. 1, primavera, 1995.
251 Randy L. MADDOX. Responsible grace: John Wesley’s practical theology. Nashville, TN: Kingswood Bo- oks, 1994, p. 15
252 Essa questão foi levantado por Rui de Souza JOSGRILBERG. A motivação originária da teologia wesleyana: o caminho da salvação. Caminhando, ano VIII, n. 12, 2º semestre 2003, p. 123-124.
ma a vida como o seu ponto de partida. O discurso não parte mais da centralidade de uma práxis salvífica ou do contato com a realidade, mas da cátedra do universitário. Theodore Runyon parte também da observação da importância do pano de fundo teológico em Wesley. “Eu logo descobri que o testemunho social não se sustenta por si mesmo. Ele está radicado e fundamentado numa teologia (compreensiva) que tem na soteriologia o seu ponto de partida, mas que vê a “grande salvação” – embora ela comece no indivíduo – como de alcance cósmi- co.”253 Mesmo assim, ele destaca a centralidade da vida pelo método de John Wesley:
Embora nunca tenha tido a ambição de ser um “teólogo sistemático”, no sentido atual, ele atuava a partir de uma abordagem teológica compreensiva e soteriologicamente centrada. (...) O que diferência a teologia de Wesley é sua capacidade de manter unidos, numa associação funcional, dois fatores absolutamente importantes na vida cristã (...):a renovação dessa relação (justificação) e a vivência dela (santificação), nenhuma das quais é possível sem a outra.254
John Cobb Jr. parte da noção de que “John Wesley deveria ser considerado o último grande reformador”255 com base em três comparações: aqueles reformadores não eram somen- te pensadores, mas organizadores; eles tinham uma cosmovisão parecida que não permitia sentir “...uma tensão significativa entre o mundo da Escritura e o pensamento tradicional cris- tão, por um lado, e a nova cosmovisão da ciência, por outro lado”; e eles tocam em assuntos teológicos com a mesma abrangência.256 Para Cobb ,“o foco central [para os reformadores] era “o caminho da salvação”257 e quem gostaria de destacar esse tema deveria, “certamente, retornar para Lutero, Calvino, Wesley e outras figuras do período da reforma, além de pensa- dores católicos romanos que debatem o assunto”.258 Como um bom reformador, ele parte da teologia paulina e da clássica distinção reformadora entre a salvação pela graça ou pelas o- bras. A comparação entre Wesley e os reformadores pode ter diversas razões. Por um lado, há preocupações context uais. Na Alemanha e na Escandiná via o diálogo entre luteranos e meto- distas é essencial e deve envolver, certamente, comparações dos seus fundadores “contra a própria vontade”. Na Suíça, no Alsácia (França), na Holanda e em outras partes do protestan-
253 Theodore RUNYON. A nova criação: a teologia de John Wesley hoje. São Bernardo do Campo, SP: Editeo, 2002, p. 11.
254 Id., ibid., p. 275.
255 John B. COBB, Jr. Grace and responsibility: a Wesleyan theology for today. Nashville, TN: Abingdon Press, 1995, p. 21.
256 Id., ibid., p. 25.
257 Id., ibid., p. 10, ele comenta a diferença enquanto processo entre “ordem da salvação” e “caminho da salva- ção” sem se dar conta que a ortodoxia do protestantismo preferia ordo salutis. “Caminho da salvação” é mais a linguagem pietista ou puritana.
tismo não-metodista e não-luterano, interessa o diálogo Wesley – Calvino ou arminianismo wesleyano – calvinismo. A questão é saber se essas comparações representam a referência central ou, no mínimo, um eixo essencial da produção teológica de John Wesley.
Certamente, Wesley usou ferramentas teológicas para desenvolver a sua missão. Uma mera perspectiva conceitual, porém, perde essa ênfase na práxis. Por exemplo, de Lutero, Wesley vai publicar duas vezes a sua biografia, mas não seus textos teológicos.259 Dunning vai ainda mais longe na sua análise dos conceitos predominantemente usados: a ênfase na teo- logia reformada, comum entre muitos teólogos conservadores metodistas, teria causado uma re-leitura deformadora da soteriologia de Wesley.260 Imagine-se que um teólogo formado na tradição reformada estuda o discurso puritano de Wesley! Qual será a sua compreensão? A leitura de Wesley, num país como Brasil, cujo protestantismo mais vital é predominantemente calvinista, exige ainda mais do que em outros contextos ser confirmada pela aná lise da teolo- gia peregrina de Wesley. Em termos conceituais, Wesley conhece a palavra “ecumênico” e in- terpreta-o, estritamente, segundo o sentido da palavra , como “universal”.261 Apesar disso, Wesley usa para expressar uma atitude respeitosa para com outras denominações e igrejas mais o conceito paralelo “católico”.
Combinou-se, a longo do tempo, à ênfase de Wesley como teólogo, o Wesley precur- sor do ecumenismo, que atende mais uma outra necessidade contemporânea: “...a Igreja E- vangélica-Metodista deve, a si mesma e aos seus interlocutores ecumênicos, uma informação mais precisa a respeito da sua teologia.”262
Os primeiros que interpretaram Wesley como um tipo de teólogo ecumênico, foram Martin Schmidt263, Colin Williams264 e Albert Outler265. Paralelamente, surgiu o discurso de um Wesley “equilibrado”. A pesquisa metodista participou aqui, provavelmente, das ciências humanas. Foi o funcionalismo que introduziu o conceito “equilíbrio” nas primeiras décadas
259 John WESLEY. Biblioteca Cristã, vol. 20, 1755 e AMJW, vol. 1, fev. 1778, p. 49-96.
260 H. Ray DUNNING. Systematic theology in a Wesleyan mode. Wesleyan Theological Journal, vol. 17, n. 1, primavera, 1982. Disponível em: < http://wesley.nnu.edu/wesleyan_theology/theojrnl/16-20/17-02.htm >. A- cesso em: 4 maio 2004.
261 EDJW, 1764, p. O R: “OECUMENICAL, universal.”
262 Veja pro exemplo, Walter KLAIBER; Manfred MARQUARDT. Viver a graça de Deus: um compêndio da teologia metodista. São Bernardo do Campo: Editeo, 1999, p. xvii.
263 Martin SCHMIDT começa o primeiro capítulo com a afirmação: “Ele [John Wesley] entendeu o mundo intei- ro como a sua paróquia; ele viveu e trabalhou como cristão ecumênico e sabia de deixar isso transparecer nas menores detalhes.” (Grifo deste autor). Martin SCHMIDT. John Wesley: Die Zeit vom 17. Juni 1703 bis zum 24 Mai 1738 (vol I). Gotthelf-Verlag: Zürich / Frankfurt am Main, 1953, p. 9.
264 Colin Wilbur WILLIAMS. John Wesley's theology today. New York: Abingdon Press, 1960.
265 Albert OUTLER. Methodist theological heritage: a study in perspective. Methodist destiny in an ecumenical age. MINUS, Paul (ed.). Nashville, TN: Abingdon, 1969, p. 49-66.
do século XX. Da sociologia e antropologia ele passou, nos anos sessenta, para a história e de lá para a teologia, inclusive a teologia metodista.
Williams e Outler apresentaram o equilíbrio teológico de Wesley como exemplo de uma teologia ecumênica. Outros os seguiram. Para Durnbaugh, o metodismo desenvolveu – em comparação com as grandes tradições cristãs – a eclesiologia mais equilibrada.266 William Hinson aplica o conceito de um equilíbrio dinâmico à teologia de Wesley (1962)267, Rack usa o conceito para construir uma biografia de John Wesley (1989)268 e Collins faz deste o concei- to central da doutrina metodista (2002).269 Mais fundamental ainda é que o conceito transpa- rece no quadrilátero, o método teológico metodista em uso desde 1972.270 Ele define a função dos elementos”Bíblia, tradição, experiência e razão” (e criação: quadrilátero brasileiro271) no trabalho teológico. Resultado de uma fusão de diferentes corpos eclesiásticos, o método quer garantir uma teologia dinâmica, porém também “sadia” e equilibrada.
Por um lado, a teologia tem essa tarefa “apologético-explicativa” de se entender como voz na sinfonia ecumênica; por outro lado, dificilmente isso pode ser considerado como a ta- refa chave da teologia do ponto de vista de John Wesley. Concordamos com Rui Josgrilberg e a sua alerta de que uma teologia predominantemente conceitual corre o risco de iniciar uma fase de neo-ortodoxia metodista, sendo que, no mínimo, Wesley não tinha se concentrado nessa tarefa. Bem diferente, ele disse que “…ortodoxia ou opiniões corretas representam, na melhor das hipóteses, uma parte insuficiente da religião, se podem ser aceitas como parte de- la.”272 Finalizando esse sub-capítulo : entre as três tipologias aqui apresentadas, a do Wesley evangelista deve ser a mais popular nas igrejas locais. Pode ser que essa identificação – que
266 Donald F. DURBAUGH. The believers´ church: The history and character of radical Protestantism. Scotdale – PA: Herald Press, 1985, 31. Confere também Donald W. DAYTON. “`Good News to the poor´: The methodist experience after Wesley”. MEEKS, Douglas (ed.) The portion of the poor: Good News to the poor in the Wesleyan tradition. Nashville –TN: Kingswood Books, 1995, p. 72.
267 William J. HINSON. A Dinâmica do Pensamento de Wesley. Quatro estudos sobre a Teologia de João Wes- ley. São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista, 1982. (Publicação de uma palestra de 1962).
268 Henry D. RACK. Reasonable Enthusiast: John Wesley and the Rise of Methodism. London: Epworth Press, 1989.
269 Scott J. JONES. United Methodist Doctrine: the extreme center. Nashville, TN: Abingdon Press, 2002. O títu-