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Ao iniciarmos esta parte é importante tecermos considerações relativas à nossa opção de pesquisa para acompanhar o percurso do grupo de estudo em ensino de matemática, mas antes de trazermos estas considerações é preciso que retomemos os objetivos traçados para este trabalho bem como a questão norteadora da pesquisa.

Neste sentido ao nos propormos a desenvolver esse trabalho traçamos como objetivo principal entender como o grupo de estudo e trabalho em ensino de matemática contribui para a reelaboração dos saberes docentes das professoras colaboradoras. De tal objetivo decorrem outros como discutir caminhos que auxiliem os professores na reflexão da prática docente e sistematizar processos de reelaboração dos saberes docentes. Como questão norteadora de pesquisa nos lançamos a compreender quais os saberes docentes são reelaboração pelas professoras a partir de um grupo de estudo e trabalho do tipo colaborativo.

A definição de uma opção de pesquisa para nortear um trabalho pressupõe leituras diversas, ponderação de valores e crenças que temos e principalmente convicção que a escolha feita no momento é a mais plausível para nos orientar em nossa busca de respostas para o objeto de estudo sobre o qual nos debruçamos e desejamos encontrar alento com nossas investigações. Trazer uma discussão sobre um tipo de pesquisa nos conduz a trazer possibilidades possíveis e orientadoras de um fazer investigativo que considere modos de pesquisar, procedimentos, instrumentos e certo rigor necessário ao ato de pesquisar. Pensamos que pela natureza do trabalho investigativo a que nos propomos teremos que nos nortear por pressupostos que considerem o professor e sua prática como lócus de reflexão e produção de saberes.

Assim, uma escolha possível do percurso metodológico há que considerar a reflexão da prática do professor e o processo de colaboração envolvido em tal processo. Assim encontramos na perspectiva interpretativa uma possibilidade de

vivenciarmos uma pesquisa que considere estes aspectos e que possamos enquanto investigadores também pensar a nossa prática a partir das possibilidades favorecidas no transcorrer da pesquisa.

A perspectiva interpretativa tem as suas bases no interacionismo simbólico e na colaboração. Ponte (2005) apresenta uma discussão a respeito dos paradigmas da pesquisa em educação e aponta que o interpretativo traz possibilidades plausíveis para o professor investigar a sua própria prática.

Na perspectiva interpretativa é possível o investigador fazer uma observação em que participa ativamente de todos os momentos; faz anotações sistemáticas através de instrumentos de coletas e gravações; faz também recolha de materiais diversos como, por exemplo, os produzidos pelos professores e de acordo com Moreira (2003):

[…] ocupa-se não de uma amostra no sentido quantitativo, mas de grupos ou de indivíduos em particular, de casos específicos, procurando escrutinar exaustivamente determinada instância tentando descobrir o que há de único nela e o que pode ser generalizado a situações similares (MOREIRA, 2003, p.24).

De acordo com este autor a perspectiva nos fornece a possibilidade de observar e estar imerso no lócus de pesquisa ao mesmo tempo em que podemos tecer observações com um olhar direcionado ao que objetivamos investigar com vistas a responder a nossa questão de pesquisa.

A questão de generalização é também abordada por este autor para se pensar que uma dada realidade pesquisada pode guardar similaridades com outra, mas cada uma possui suas particularidades a serem consideradas no processo. A atribuição de significados que o pesquisador fornece através das suas narrativas para a comunicação dos resultados a que chegou é o ponto chave de todo o processo investigativo, pois ele vai atribuindo os significados à medida que traz falas dos sujeitos participantes da pesquisa, recortes de notas de campo ou de documentos fornecidos pelos participantes, como também de suas próprias observações e inferências.

Para tanto, a narrativa construída pelo pesquisador vai delineando os diversos significados ao que foi investigado, ao mesmo tempo em que comunica os resultados encontrados. Neste caso da generalização devemos considerar as

especificidades de cada realidade em particular para tecermos considerações com vistas a encontrar possibilidades de comparação com uma outra realidade, que apesar de ter semelhanças, possui as suas particularidades e como tal devem ser levadas em conta quando se pensa em fazer generalizações com uma pesquisa de cunho interpretativo.

A perspectiva interpretativa nos favorece uma investigação em que se pretende considerar os sujeitos envolvidos em todo o processo, seja o pesquisador ou participantes da pesquisa, ou seja, toda a subjetividade que até então era considerada um mal à pesquisa, passa a ser visto como essencial e legítimo na consideração dos resultados (PONTE, 2005).

Na visão de Ponte (2005) há que se considerar algumas dificuldades que a perspectiva interpretativa apresenta no tocante ao que é verbalizado pelos participantes da pesquisa. Por esta perspectiva lidar diretamente com o discurso dos sujeitos traz em si a essência de que se é possível conhecer até certo ponto, pois são os discursos que dão o tom. Neste caso é que entra a ação do investigador ao não ser apenas um expectador, mas estar imerso no lócus de pesquisa, dela participar, propor possibilidades de intervenção e construir com os participantes uma relação de diálogo e cooperação na busca de alternativas para a realidade investigada.

A colaboração na perspectiva interpretativa tem papel essencial em virtude de considerar o diálogo como uma ferramenta da qual se pode dispor para estabelecer uma relação mais favorável para os participantes e o pesquisador. A esse respeito Ponte (2005) diz que a colaboração favorece um trabalho em que é necessário o trato com problemas e situações, em que é preciso a convivência de várias pessoas que tenham conhecimentos e competências diversificados e assim, ao se disporem a colaborar um com o outro, podem encontrar soluções mais adequadas aos problemas com os quais se deparem.

Ponte (2005) aponta ainda que a perspectiva interpretativa é um meio pelo qual se pode também olhar/investigar a própria prática em colaboração com o outro. Pesquisar a própria prática é considerar as particularidades que decorrem de uma situação em que os sujeitos olham para si, para o que fazem com um olhar investigativo refletindo e buscando soluções para os problemas que encontram e nesse processo a colaboração com o outro tem um papel essencial de ajudar a rever e repensar o que fazemos em nossa prática.

Após o exposto cabe-nos pensar que a escolha pela perspectiva interpretativa vem ao encontro da opção metodológica que buscamos como caminho para acompanhar o processo de investigar o grupo de estudo que organizamos. O diálogo e a colaboração são ferramentas lançadas a todo o momento no sentido de pensarmos sobre o caminhar do grupo. E ainda neste sentido acreditamos que em nosso trabalho fizemos a opção de uma perspectiva interpretativa de cunho qualitativo na qual fazemos o estudo de caso de um grupo que se dispôs a estudar o ensino da matemática nos anos iniciais.

2. 2 O grupo de estudo em matemática

Em nossa pesquisa organizamos um grupo de estudo que esperamos que se transforme em colaborativo, para estudar os conteúdos matemáticos — que são trabalhados no 2º ciclo do ensino fundamental — e o seu ensino. O grupo é composto por professoras que trabalham com matemática no 2º ciclo do Ensino Fundamental na Rede Pública Municipal da Cidade do Natal.

A nossa atuação como pesquisadora no grupo tem momentos distintos: em um dado momento somos uma integrante do grupo e como tal, estamos subordinadas à organização interna e regras que o próprio grupo estabelece; em outro, a atuação se dá como pesquisadora, com o olhar de alguém que busca investigar o nascimento, a organização e o crescimento do grupo e a reelaboração dos saberes docentes em ensino de matemática. Para que possamos atuar como pesquisadora teremos que ter bem definido os papéis que desempenhamos no grupo e ao mesmo tempo desenvolver ações objetivando alcançar os fins desejados.

O papel de pesquisadora junto ao grupo foi o de investigar quais saberes docentes foram reelaboração pelas professores que trabalham com matemática no 2º ciclo do ensino fundamental (5º ano de escolaridade), dentro de uma proposta de formação de grupo colaborativo.