O memorial foi uma estratégia metodológica usada para trazermos as memórias de cada participante acerca de suas aprendizagens e ensino da matemática. Trabalhar com as memórias segundo Stano (2001) é uma atividade que permite:
Recuperar o passado e as lembranças, supõe a relevância do tempo sentido, vivido que não nega o presente. Ao contrário, investe-se do presente, nas ações, nos rituais do cotidiano, de seus símbolos, das
relações estabelecidas a fim de re-significar o vivido, na busca de outros olhares e de outros tempos (STANO, 2001, p.26).
A escrita de memórias permite reconstruir momentos que foram vividos no passado, mas que estão guardados na memória à espera de um momento para vir à tona e se constituir como narrativas e testemunhos de uma vida marcada por etapas de construção pessoal e profissional. Tal escrita possibilita “[...] ressignificar a própria vida e a experiência docente. Entregues às rememorações, recriam, por meio da escrita, um tempo já desaparecido” (MIGNOT, 2003, p.147). É um momento de realizar um balanço de sua vida, de analisar sua formação, de reviver passagens marcantes e atribuírem novos sentidos ao vivido.
Neste sentido propusemos uma atividade que se constituiu de três momentos: no primeiro, cada professora fez um relato de sua aprendizagem escolar em matemática a partir das séries iniciais até a graduação — métodos utilizados por professores; relação de gosto/desgosto da matemática e dificuldades como aluna nessa disciplina. O segundo momento se deu através da reflexão sobre o ensinar matemática como professora, considerando: proposta de trabalho, carga horária semanal destinada, materiais utilizados, tipos de atividades propostas aos alunos, conteúdos que gosta e não gosta de ensinar e quais conteúdos não dá tempo de ensinar dentro da carga horária prevista. O terceiro e último momento constou de um desenho em que cada professora fez uma representação do que era a matemática para si.
A idéia de propormos uma atividade desse tipo foi encaminhar uma reflexão a partir do convívio e das relações estabelecidas por estas professoras com a matemática ao longo de suas vidas, e compreender o percurso que esta área de conhecimento teve neste processo. Para tanto elaboramos quadros-sínteses com as respostas dadas pelas professoras, que estão como apêndice neste trabalho.
2. 5. 3 O diário
Ao diário individual estamos denominando o relato que cada professora fizera ao final dos encontros. Inicialmente pedimos que as professoras escrevessem o que foi discutido/estudado, as contribuições para a prática docente, as dificuldades
encontradas na resolução das atividades e a sua participação no encontro. O relato possibilitou a cada professora refletir sobre o encontro, os conteúdos estudados e as contribuições para a sua prática e à medida que iam fazendo, relatavam não apenas o encontro, mas também refletiam e comparavam com suas práticas a partir dos conteúdos estudados e as discussões do grupo. Warschauer (2001) aponta que escrever um diário se constitui em um momento de introversão, é um chamado à criação para relatar o que aconteceu e refletir sobre o ocorrido; é um encontro consigo mesmo.
Foi acordado no grupo que o caderno seria recolhido ao término dos encontros do grupo de estudo. Vale ressaltar que enquanto pesquisadora, também dispusemos de um caderno em que fizemos registros após cada encontro.
Zabalza (2004) aponta que o diário é um procedimento de pesquisa muito rico na formação de professores. Este autor faz referência ao ato de escrever do professor como um processo de aprendizagem:
O próprio fato de escrever, de escrever sobre a própria prática, leva o professor a aprender por sua narração. Ao narrar sua experiência recente não só a constrói lingüisticamente como a reconstrói como discurso prático e como atividade profissional (ZABALZA, 2004, p. 44).
A nossa intenção ao propormos o uso do diário como um instrumento de pesquisa recai na crença de que este se constituiu em um recurso de reflexão da vivência das professoras no grupo de estudo, extremamente valioso.
2.5.4 A entrevista
A entrevista coletiva teve a finalidade de estabelecer o diálogo coletivo entre as participantes do grupo. Kramer (2002) destaca que a entrevista coletiva possibilita uma situação dialógica rica, com análises profundas da prática de cada participante. A entrevista coletiva se constituiu como um momento em que as participantes expuseram suas opiniões, suas dificuldades, seus acertos, seus erros e escutaram o outro que também se expôs. Kramer (2002) explicita como objetivos da entrevista coletiva:
i) Identificar pontos de vista dos entrevistados; ii) Reconhecer aspectos polêmicos;
iii) Provocar o debate entre os participantes;
iv) Estimular as pessoas a tomarem consciência de sua situação e condição e pensarem criticamente sobre elas.
A partir desses objetivos propostos pela autora, acreditamos que a entrevista coletiva teve a finalidade de discussão/ confrontação/ análise/ reflexão da prática. Além disso, com a entrevista coletiva pudemos clarificar aspectos que eventualmente não foram tão bem contemplados nas discussões dos conteúdos abordados anteriormente.
Para a aplicação da entrevista coletiva foi necessário um planejamento detalhado de todo o processo, esclarecendo às participantes o procedimento adotado para que pudesse haver uma interação e se atingir a finalidade desejada. Trabalhamos com os passos a seguir: apresentação de cada professora, opinião sobre o que estava sendo estudado no grupo, sua participação, dificuldades, aprendizagem, contribuições para a prática. Durante todo o processo, a pesquisadora teve o papel de anotar, gravar, observar detalhes de cada participante bem como relatar suas participações no grupo. A entrevista foi gravada em áudio para que se constituísse em material de análise e escrita dos relatos da pesquisa. Fizemos uma entrevista coletiva envolvendo todas as professoras.
A análise dos dados fornecidos pelos instrumentos consta na terceira e quarta parte deste texto juntamente com o arcabouço dos saberes das professoras do grupo.