• Sonuç bulunamadı

Para falar sobre os saberes construídos no grupo de estudo em ensino de matemática recorremos a dinâmica de trabalho que foi empreendida no mesmo. Esta dinâmica está carregada das particularidades e especificidades de pessoas que se reuniram para estudar, aprender e crescer profissionalmente. Um crescimento que não se deu no vazio, mas na plenitude do caminhar junto, do compartilhar expectativas, perspectivas, desejos, angústias e aprendizagens. A reflexão da prática docente foi o olhar direcionador de todos os momentos, mas não um refletir aleatório e sim a partir do que estudávamos e discutíamos.

As professoras deste grupo de estudo possuem anos de magistério e trazem em seus arcabouços profissionais marcas deixadas por um processo de ser e se constituir professora. Um processo que se constrói na convivência de diversos

saberes e fazeres inerentes ao ato docente. Do que se constitui um ser profissional? Um profissional da educação é um sujeito que se faz a partir da junção dos saberes necessários para ensinar, para atuar no coletivo de professores, para participar nas questões técnico-administrativas da escola, para lidar com as questões relativas aos pais e comunidade em geral.

Estes saberes em seu conjunto formam o arcabouço do professor para atuar em sua profissão. Freire (2006) aponta exigências necessárias ao professor em sua atuação docente. Dentre estas exigências destacamos algumas que julgamos primordiais. São elas: ensinar exige pesquisa, ensinar exige reflexão crítica sobre a prática, ensinar exige a comunicação de que a mudança é possível, ensinar exige respeito aos saberes dos educandos e ensinar exige segurança, competência profissional e generosidade.

Ao elegermos dentre as diversas exigências citadas pelo educador Paulo Freire, estas que listamos, fazemos uma escolha embasada por critérios pessoais oriundos de nossa vivência enquanto professora e também pelas discussões e reflexões transcorridas no grupo de estudo em ensino de matemática.

Ao escolher que o ensinar exige pesquisa acreditamos que ao professor esta é uma condição natural: não há como dissociar a pesquisa do fazer cotidiano da sala de aula. É condição primeira para atuação profissional. A reflexão sobre a prática é necessária se esta se dá de forma crítica e inserida em um contexto maior que envolve o ser político, econômico e social. Seres que em união formam o ser professor.

Ensinar exige que o professor tenha a clara convicção de que a mudança de sua ação é possível. Não uma mudança sem necessidade, sem objetividade, mas mudar em uma perspectiva de ressignificar a prática docente buscando alternativas que viabilizem um outro fazer pedagógico, que priorize acima de tudo a aprendizagem dos alunos.

Os saberes dos educandos merecem toda a atenção e respeito por parte do professor. Neste sentido é uma exigência necessária saber considerar os saberes prévios dos alunos em seu planejamento e também ter a convicção de que estes são sujeitos dotados de saberes que precisam ser tidos como necessários na ação de aula, no diálogo educativo.

Para o professor atuar em sua profissão é preciso que este se sinta seguro de seus saberes, que tenha competência profissional, que lhe sejam proporcionadas

condições de ser e fazer-se professor e também que seja dotado de uma generosidade para compartilhar com o outro, acreditar no outro e saber-se capaz de conviver em um ambiente educativo, de partilhar e respeitar o outro com quem trabalha. Sabemos que isto nem sempre é possível de acontecer, mas vale insistir em tal direção.

Estas exigências profissionais se complementam e fazem da atuação docente um mister de relações permeadas pelo diálogo e dialeticidade em que ensinar e aprender são ações interdependentes. A ação docente só se completa no ato de aprender do aluno. Não há o que se considerar como ações separadas, mas sim ações que dependem uma da outra para haver um ato educativo.

Ao apontarmos estas exigências como necessárias ao professor nos remetemos ao grupo de estudo em ensino de matemática, pois nele pudemos vê-las em ebulição constante. As professoras participantes buscavam confrontar os estudos e as discussões do grupo com suas práticas em sala de aula e assim iam se constituindo profissionalmente, ressignificando e reelaborando saberes no ato de refletir a ação de ser professora e compartilhar saberes e fazeres trazidos destas práticas de sala de aula.

A esse respeito pudemos constatar na reflexão que a professora Rubi fez de sua ação em um dos encontros do grupo. Nesse dia estávamos discutindo o uso do ábaco como um dos recursos disponíveis para o trabalho com o sistema de numeração decimal e a professora assim se expressou: “eu achei fantástico trabalhar com o ábaco, pois cada aluno pode ter o seu, já que o nosso aluno não domina o SND. Vou passar o resto do ano trabalhando isso com meus alunos”.

Na fala da professora podemos perceber que ela parte de um dado observado em suas aulas: a grande dificuldade dos alunos em compreender as diversas etapas e regras do sistema de numeração decimal. É uma reflexão que faz partindo de sua prática, de sua vivência de sala de aula. Uma reflexão também possibilitada pelos estudos e discussões desenvolvidas no grupo de estudo em ensino de matemática. A professora se vê agora diante da possibilidade de uma nova estratégia para auxiliar seus alunos no processo de aprendizagem.

O olhar de descoberta diante do novo nos possibilita indagar: Qual o papel do grupo de estudo nesse processo? Como esse grupo se constituiu diante do universo profissional dessas professoras e de seus saberes? São indagações que a nosso ver o próprio caminhar do grupo suscita respostas possíveis.

O grupo de estudo, ao ser constituído por professoras que trabalham com matemática nos anos iniciais do ensino fundamental, teve em sua essência a discussão de temáticas relevantes para tal segmento de escolaridade e assim buscou desenvolver em seus encontros estudos que podiam contemplar os conteúdos necessários à prática docente das professoras.

Assim, a cada encontro, privilegiava-se contemplar o estar junto na procura de um caminho que favorecesse a partir do aporte teórico abordado, refletir sobre a prática docente. Uma reflexão que como coloca Freire (2006) se constrói com o outro, em que ambos aprendem em comunhão. É uma reflexão crítica sobre a prática que “[…] envolve o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer”. Também é um movimento que favorece a compreensão de que ao se pensar sobre a “[…] prática de hoje ou de ontem é que se pode melhorar a próxima prática”. (FREIRE, 2006 p. 39). Nesse processo dinâmico de refletir, estudar e refletir é que o grupo se constituiu como um grupo de estudo em ensino de matemática.

Nesse processo de convivência no grupo, os saberes das professoras foram sendo revistos, reavaliados e reelaborados. Uma reelaboração que não se deu no vazio e sim no próprio processo da reflexão com o outro. São saberes docentes que no entender de Fiorentini, Nacarato e Pinto (1999), são vistos com um novo olhar, o olhar da transitoriedade. Para estes autores o saber docente é:

[…] um saber reflexivo, plural e complexo porque histórico, provisório, contextual, afetivo, cultural, formando uma teia, mais ou menos coerente e imbricada, de saberes científicos oriundos das ciências da educação, dos saberes das disciplinas, dos currículos – e de saberes da experiência e da tradição pedagógica. (FIORENTINI;

NACARATO; PINTO, 1999, p. 55).

Diante da riqueza dos saberes docentes apontados pelos autores é fundamental acrescentar que concordamos com a pluralidade destes na ação do professor e pudemos observar no grupo de estudo a efervescência destes nos estudos e nas discussões trazidas pelas professoras.

A esse respeito podemos citar a fala da professora Esmeralda que ao discutir com suas colegas de grupo como encaminhava os conteúdos em suas aulas fez a seguinte ressalva: “Eu trabalhei tudo de multiplicação e vou entrar em divisão, mas não fico só nisso. Faço uma retomada de todas as operações trabalhadas para os alunos irem percebendo as ligações entre elas”. Esta fala demonstra que a

professora percebe a necessidade de retomar conteúdos até então trabalhados mesmo estando iniciando um novo. É uma demonstração de que os saberes disciplinares desta professora são revistos a partir de seus saberes experienciais que lhe dão um aporte para fazer escolhas na perspectiva de favorecer a aprendizagem dos alunos.

O olhar de descobertas das professoras no grupo é extremamente alargado em virtude das diversas relações construídas; sejam elas de estudo, de discussão, de troca e de cooperação. É um processo de construção constante para o grupo de professoras.