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DEĞERLENDĠRME VE SONUÇ
Nem monstros nem heróis! Flaubert
A presença de personagens que tiveram bastante relevância dentro da narrativa por meio de seus atributos pode ser percebida em diversas obras.
Em quase todo o romance surge um personagem que se põe a refletir a cerca de suas próprias aspirações e convicções mais profundas a fim de superá-las. Este, dessa forma, pode ser marcado por um descrédito que o apresenta de forma dúbia, pois, representa a condição humana com toda a multiplicidade social, ética e psicológica; e ao mesmo tempo, buscará ultrapassar a sua própria condição, dando início ao que podemos chamar da caracterização que constitui a figura do herói.
O termo herói é de origem grega heros (nobre, semideus). E, segundo afirma Feijó (1984, p. 12): “foram os gregos que deram o nome a eles, como também foram os mitos gregos os que mais sobreviveram, que não se transformaram em religião nem desapareceram. O nascimento do herói, portanto se deu com o mito”.
Muito se confunde o mito como sendo uma inverdade; mas, ao contrário dessa concepção, concebe-se a terminologia como a crença de um povo, ou seja, uma verdade desse povo. Feijó (1984, p. 13-14) menciona que: “um mito sobrevive num povo não porque lhe explique a sua realidade, mas por refletir em aspecto real desse mesmo povo e até de todos nós: os mitos refletem sempre um medo de mudança. (…) O mito seria, então, um consolo contra a história. E o herói, um consolo contra a fraqueza humana”.
A figura do herói é caracterizada por atitudes que beneficiam e influenciam a sociedade, as pessoas e os pensamentos através de sua determinação, poder e inteligência. Em contrapartida existe também a figura do anti-herói que, ao contrário do que muitos pensam, não e o oposto do herói; e sim, alguém que é na verdade a representação de um ser humano comum, mortal. Podemos dizer que este possui características encontradas no cotidiano, capaz de vencer ou ser derrotado como qualquer um.
A palavra anti-herói também tem origem no grego (anti – oposição, contra /
heros – semideus, nobre, chefe). Levando-se em consideração a origem e o significado do termo, pode parecer que ao falar em anti-herói fazemos referência a um personagem completamente oposto ao herói. Na verdade, a oposição que ocupa é uma oposição ao modelo do herói clássico; visto que o seu surgimento é resultado de uma crescente humanização do herói.
Ao considerarmos a figura do herói e a do anti-herói, conceberemos a possibilidade de a história de um povo e o surgimento de um mito serem proposições diretamente relacionáveis. Mesmo que exista um hiato entre a história e o surgimento de um mito, não podemos deixar de pontuar que é a partir do mito que muitas histórias de deuses, heróis e também algumas sociedades primitivas são
relembradas através da releitura das narrativas. É a possibilidade de reconhecer e reencontrar o passado, permitindo a legitimação de valores sociais. O conceito de mito abrange uma realidade cultural extremamente complexa e ampla.
O surgimento do herói pode ser entendido como a associação do conceito de mito à inquietação, ou até mesmo a necessidade de obter respostas que abarquem questões referentes ao povo e sua história. Pode fazer referência às aspirações e desejos de uma sociedade, e também à procura de resoluções em torno do reconhecimento do papel de cada um dentro da sociedade. Segundo Jabouille, o homem concebe o conceito de mito como:
Uma resposta teológica para as suas [do homem] aspirações, uma compreensão mais vasta que o integre, de uma forma sacral, no macrocosmo a que pertence e, simultaneamente, um encontro consigo próprio e com a divindade, encontro que lhe traga a Paz e a Fé.
Mas também, uma integração social, uma personalização da sociedade circundante (…) uma generalização, uma socialização de seus problemas individuais, uma projeção do ego numa escala dimensionada cosmicamente, uma compreensão do Ser que não passa pela vida ontológica. (Jabouille, 1986, p. 180)
O conceito de mito e o de herói mítico ultrapassam os limites da imaginação ou do surgimento de um mundo que sobrevive aliado ao mundo real. Ou melhor, a partir do momento que concebemos a existência do mito e do herói, estabelecemos um elo entre o passado e o tempo original. Pode-se dizer que são mundos que admitem a possibilidade de comunicação, isso dentro de um universo fictício.
O herói é alguém que empreende uma jornada, quer seja física ou psicológica e que de alguma maneira rompe com tradições e conceitos estabelecidos, tentando encontrar a si mesmo e a sua devida posição no universo. É capaz de sofrer transformações para adaptar-se e moldar-se ao meio, às necessidades; e também às circunstâncias culturais, políticas e sociais. Sua existência é permeada de lutas e dificuldades como para qualquer outro; tendo ele a possibilidade de acertar ou não, vencer ou não.
Pode-se dizer que o que é capaz de converter o anti-herói em herói é exatamente a capacidade e a oportunidade de tentar transformar as situações nas quais se envolve. É esse empenho que o transforma em herói; é a perseverança em prol de suas necessidades que o faz assumir a posição de herói.
A aventura do herói nada mais é do que um processo de individualização. Ou seja, o herói tem vida própria e a obra existe soberanamente, não há a transmissão transbordante da subjetividade do autor. O herói abdica de sua vida para seguir em uma viagem perigosa, retornando ao seu mundo com resoluções, além de trazer a transformação interior, revelando assim a construção da própria identidade.
A existência do herói está diretamente ligada à restauração do equilíbrio do mundo real. O herói tradicional foi canonizado pela literatura; e, com o passar do tempo as figuras divinas, de sentimentos sublimes, perderam a sua representatividade. A configuração do herói ganhou outro enfoque e passou a ser inserida em um outro tempo.
A segunda metade do século XIX foi marcada por lutas sociais; e por consequência uma nova forma de retratar o mundo foi regida através de concepções distintas. Com isso, um dos pontos que muito se destacou foi a vida cotidiana em si e algumas de suas características tais como o egoísmo, o adultério e a vaidade. Os romances dessa época não mais mostravam a mulher como uma figura idealizada; e sim, exibiam os seus defeitos e qualidades com naturalidade.
A representação do herói desaparece, dando lugar ao anti-herói ou ao herói problemático. A sociedade burguesa do século XIX, regida pelas aparências e pela hipocrisia presente na sociedade, tem na protagonista do romance BS a representação de uma mulher livre e à frente de seu tempo.
Ela, em momento nenhum, permitiu que seu casamento, mesmo que sendo concebido como uma questão administrativa, servisse de prisão matrimonial.
A figura do herói / anti-herói surgidas nas narrativas no final do século XIX são o reflexo da sociedade da época. Caracterizam e problematizam a vida dos cidadãos e as questões sociais questionando os valores da sociedade.
Pretendem transmitir, através de sua representação, seus pensamentos e angústias, assim como o grotesco ou até mesmo o caricaturesco que se tornou o ser humano. Seu mundo inviabiliza uma construção humana baseada em moldes tradicionais. Muitas vezes, dentro da narrativa a figura do herói chega a confundir-se com a do anti-herói. No caso de Blanca, há uma representação do herói em suas atitudes, que, de certa forma, liberta as mulheres que se identificam com a conduta da personagem.
O herói é o próprio agente de transformação, derrubando regimes preestabelecidos e decadentes, propiciando a renovação da vida. Durante a leitura do romance, temos a impressão de a vida ter um valor medíocre e insípido; as cenas narradas são permeadas de ações covardes e enganosas, os personagens em sua maioria não são dignos de louvores. Vale ressaltar que a protagonista apesar de ser uma personagem de ficção do final do século XIX, tem grande apego à matéria e à carne que a tornaram moderna.
A protagonista do romance em questão pode não ter sido uma heroína corajosa, mas demonstrou muita coragem quando percebe que tudo estava mal em sua vida, e que precisava empreender um novo rumo em sua história. Ela é o retrato da heroína fracassada, porque termina por sofrer as consequências causadas por si própria. Podemos dizer também que é uma heroína contraditória; por ser vítima de
seus devaneios; levou toda a sua história de vida e não alcançou a lucidez necessária para uma vida pautada na realidade.
Segundo Massaud Moisés (1992, p. 272), “herói é um homem divinizado, filho ou descendente de deuses”; ou seja, um ser dotado de características nobres, o que em nada se aproxima da protagonista do romance.
Blanca Sol é um paradoxo de si mesma, pois encena a força de um herói com a determinação que possui, lutando para concretizar os seus interesses. Como também é uma heroína que está condenada à autodestruição e à negação na tentativa de realização de seus desejos. Perde totalmente a noção da realidade e declara a sua condenação após a falência do marido. Seu mundo inviabiliza uma construção humana baseada em moldes tradicionais. E, muitas vezes, dentro da narrativa, a figura do herói chega a confundir-se com a do anti-herói.
Blanca Sol é a representação da heroína, reflexo de uma sociedade sem moral; onde de, maneira velada, tudo é permitido e ninguém é punido. Ela apresenta condensados em si os atributos de uma heroína: a beleza, o dinamismo e a capacidade de intervenção; assim como também têm destaque algumas características de um anti-herói, tais como: a falta de virtudes morais e espirituais.
Assim podemos dizer que a protagonista se converte em heroína a partir do momento em que começa a enfrentar dificuldades em sua vida. Ela precisa acreditar, e também fazer com que acreditassem, que em sua decisão de tornar-se prostituta residia a virtude, levando-se em consideração sua necessidade de estabelecer-se financeiramente. Era uma manifestação de força, ação e palavra por parte dela; como também uma tentativa de reverter a sua falta de identificação e adequação com o mundo e com a vida.
Há na atitude de Blanca Sol uma relação contraditória com os ideais de um personagem heróico. Pois este normalmente é um ser que supera obstáculos e não se deixa corromper pelos vícios da sociedade; as atitudes dela estão, em sua maior parte, voltadas para as de um anti-herói. Ela reivindicou através de suas atitudes um espaço de liberdade que não era conferido às mulheres daquela época. Pode-se concluir que, para a sociedade do século XIX, ela foi uma anti-heroína por expressar-se através de suas condutas pouco aceitáveis. Mas, como uma representante do sujeito feminino, Blanca Sol reclamou o seu direito à diferença e também à aceitação dentro da sociedade.