2. VERGİ UYUŞMAZLIKLARININ YARGI AŞAMASINDA
2.5. Vergi Uyuşmazlıklarının Davaya Dönüştürülmesi ve Dava Konusu
2.5.4. Davanın Konusu
Quando as palavras são escritas, tornam-se elas, naturalmente, parte do mundo visual. Como a maioria dos elementos do mundo visual, tornam-se coisas estáticas e perdem, como tal, o dinamismo que é tão característico do mundo da audição em geral e da palavra falada em particular. Perdem muito do elemento pessoal, no sentido de que a
palavra ouvida se dirige mais comumente a nós próprios, enquanto a palavra escrita muito comumente não, podendo ser lidas ou não, conforme nos dite o capricho. Perdem assim aqueles entretons emotivos e aquelas ênfases que foram descritas, por exemplo, por Monrad-Krohn. [...] Assim, em geral, as palavras, ao tornarem-se visíveis, juntam-se a um mundo de relativa indiferença para com o espectador – um mundo do qual se abstraiu o “poder” mágico da palavra. (McLUHAN, 1972, p. 36)
Uma característica observada nos leitores de tela é a monotonia com que a voz do sintetizador lê o conteúdo. Embora se permitam diferentes graduações (de velocidade e de tipo), os leitores de tela fazem uma leitura monotonal56. Os leitores de
tela não têm a capacidade de realizar uma “ação vocal”, ou seja, o aumento das possibilidades de movimento da voz. Um texto escrito ganharia e muito em sua interpretação se nele fosse realizada a ação vocal.
A ação vocal se dá também num plano invisível, mobilizando sensações, impressões. Desloca-se não apenas fisicamente, através de ondas sonoras, mas pelos sentidos e afetos [...]. Deve comunicar as nuanças mais impalpáveis do pensamento e dos sentidos. (GAYOTTO, 2002, p. 27)
E essa afirmação é sustentada por Jouvet (1994 apud ASLAN, apud GAYOTTO, 2002, p. 43):
Um texto é antes de mais nada uma respiração. A arte do comediante consiste em querer igualar-se ao poeta por um simulacro respiratório que, por alguns momentos, se identifica com o sopro criador. Logrei uma certeza maravilhada da importância respiratória de um texto quando chegamos ao Marrocos e obtive a permissão de ver as primeiras cópias do Corão da época da Hégira. Perguntei o que significavam, no meio das páginas cobertas de uma escrita em forma de aletria, de grandes e pequenas manchas amarelas semelhantes a girassóis que se reproduziam ao longo do manuscrito: “as manchas
grandes”, explicou o bibliotecário, “são a marca dos versículos, as pequenas são a marca das respirações. Logo que o senhor aprender isso, acrescentou ele, um texto não terá o mesmo significado nem a mesma eficácia se não for respirado como foi escrito”.
Cada texto tem uma intenção comunicativa, ou seja, uma combinação de propósitos. Spielman (apud DOOLEY & LEVINSOHN, 2007, p. 23) explica que “as pessoas não contam histórias (ou falam) simplesmente por falar. Elas estão oferecendo algo, de natureza intencional, que faz algo, como descrever ou explicar ou dar conta, de algum modo, das circunstâncias atuais”.
A intenção comunicativa leva em consideração, também, a classificação do texto. Textos narrativos devem ser lidos de uma maneira, poesias e poemas de outra, alguns gêneros têm a sua função bem determinada. No caso da literatura, Hadas (apud McLUHAN, 1972, p. 113) faz a seguinte consideração: “Toda literatura clássica, poder-se-ia dizer, é concebida como uma conversação com, ou dirigida a um auditório. [...] A poesia, em particular, mostra que todas as suas variedades se destinavam à apresentação oral”.
Voltando aos gregos, eles já sabiam da importância de se usar recursos vocais. Clément (1994 apud ASLAN, apud GAYOTTO, 2002, p. 41), diz o seguinte:
[...] os trágicos gregos sabiam alternadamente acelerar ou ralentar a elocução, aumentar ou diminuir o volume da voz, entrecortar as palavras, amenizar a expressão, tecer longamente a frase, numa respiração. Sua palavra traduzia sobressaltos, até mesmo signos, ela consentia, imitava, ria, caçoava, insultava.
O mesmo raciocínio seguiu Hopkins (apud McLUHAN, 1972, p. 110), ao comentar o seu poema Spelt from Sibyl’s Leaves:
Desse longo soneto, lembrai-vos acima de tudo que o fiz para ser recitado, como todos os meus versos, como deve ser com toda arte viva, e recitar não é ler com os olhos, mas dizer em voz alta, descansada, poética (não afetada), com longas pausas, longas acentuações na rima e outras sílabas tônicas etc. Este soneto deve ser cantado: o compasso está meticulosamente marcado em tempo rubato [...] Tome a respiração e leia com os ouvidos como sempre desejo que eu seja lido, e meus versos cairão bem.
A intenção na leitura de um texto é algo que não pode ser descartado. É necessário que se leve em consideração como o leitor de tela vai ler um texto literário, se conseguirá transmitir toda a emoção dos personagens e do narrador para o ouvinte.
Há de ser levado também em consideração que cada ledor tem o seu estilo individual, e isso acaba afetando a interpretação do texto, da mesma forma que a linguagem falada varia de acordo com o contexto. Um leitor de tela não conseguiria diferenciar essas especificidades.
Isso foi levado em consideração na produção das audioaulas Categorias e Estilos Literários. Sob a consultoria dos especialistas da rádio USP e de uma especialista em cegos, as audioaulas foram formatadas pensando exclusivamente em aliar a linguagem radiofônica com a deficiência da cegueira da seguinte maneira:
• cada programa tem aproximadamente cinco minutos de duração; • foi criado um fundo musical de acordo com cada programa;
• as vinhetas de abertura e encerramento explicam e contextualizam as séries;
• os trechos das obras literárias citadas foram interpretados para dar “quebra” ao ritmo de leitura;
• os termos usados durante a produção dos textos foram cuidadosamente pensados para que o cego não se sinta excluído – evitando-se palavras de conotação visual.
Muito embora tomada a tese de que o suposto órgão da linguagem seja idêntico e individual, vale notar que a linguagem, como fonte de experiência, especifica as possibilidades experienciais da pessoa cega. Desse modo, é importante que se saiba diagnosticar os níveis de linguagem, principalmente se o público em questão é de deficientes, nesse caso, cegos congênitos e adquiridos. A conhecida tese de Chomsky coloca que a língua é resultado de dois fatores – o estado inicial e o curso da experiência.
No estado inicial podemos imaginar como um “dispositivo de aquisição da língua” que toma a experiência como “dado de entrada” e fornece a língua como um “dado de saída”. Cada indivíduo tem a sua gramática gerativa, ou seja, cada expressão é um complexo de propriedades que fornecem “instruções” para os sistemas de desempenho [...] como o aparato articulatório, o modo de organizar os pensamentos, e assim por diante. (CHOMSKY, 1998, p. 19)
Dessa forma, e como já citado anteriormente, é necessário ter cuidado ao se dirigir a um cego, pois não há como saber antecipadamente sobre a gramática gerativa dele.
A gramática gerativa surgiu no contexto do que é frequentemente chamado de “a revolução cognitiva” dos anos 50 e foi um fator importante em seu desenvolvimento. [...] A “revolução cognitiva” renovou e reformulou muitos dos insights, das realizações e das incertezas do que podemos chamar “a primeira revolução cognitiva”, dos séculos XVII e XVIII. [...] Reconheceu-se naquela época que a linguagem envolve “o uso infinito de meios finitos”, na expressão de von Humboldt. (CHOMSKY, 1998, p. 21)
[...] tomando emprestada a terminologia da revolução cognitiva do século XVII, o que os sentidos veiculam dá à mente “uma ocasião de exercitar sua própria atividade” para construir “ideias inteligíveis e concepções de coisas a partir dela própria”, como “regras”, “padrões”, “exemplares” e “antecipações” que produzem propriedades gestálticas e outras, e “uma ideia abrangente do todo”.
O trabalho realizado por Saussure (2006), no final do século XIX, ia na mesma direção:
A língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza todos os seus efeitos; mas esta é necessária para que a língua se estabeleça; historicamente, o fato da fala vem sempre antes. [...] Por outro lado, é ouvindo os outros que aprendemos a língua materna; ela se deposita em nosso cérebro somente após inúmeras experiências. Enfim, é a fala que faz evoluir a língua: são as impressões recebidas ao ouvir os outros que modificam nossos hábitos linguísticos. Existe, pois, interdependência da língua e da fala; aquela é ao mesmo tempo o instrumento e o produto desta. Tudo isso, porém, não impede que sejam duas coisas absolutamente distintas. (SAUSSURE, 2006, p. 27)
As questões discutidas por Chomsky e Saussure devem ser levadas em consideração desde que sejam também direcionadas a uma reflexão, de como a língua se desenvolve em um cego. Valéry (apud TATIT, 2007, p. 252) afirma que “Compreender consiste na substituição mais ou menos rápida de um sistema de sonorização, de durações e de sinais por algo totalmente diferente que é, em suma, uma modificação ou uma reorganização interna da pessoa a quem se fala”.
Apesar de a cegueira ser uma deficiência visual e não auditiva, pesquisas mostram que cegos congênitos têm deficiências cognitivas, a saber: Simpkins e Stephens (apud AMIRALIAN, 1997, p. 43),
[...] propuseram-se a um estudo: [...] em uma bateria de provas de conservação, classificação lógica, memória, imagens mentais e operações formais, avaliaram 75 crianças cegas congênitas pareadas a 75 crianças videntes. [...] Concluíram, pelo resultado das avaliações,
[...] que as crianças cegas mostravam, de um modo geral, atraso de 4 a 8 anos em desenvolvimento cognitivo.
Isto posto, é necessário que se conheça sobre o mundo linguístico do cego para que se consiga atingir da melhor forma possível o que se deseja, sabendo que existem diversas condições cognitivas. “A compreensão intelectual depende não apenas da rapidez com que se passa pelas palavras, mas, sobretudo, da rapidez em que se processa a transformação do som em sentido abstrato.” (TATIT, 2007, p. 252).
Ainda se aposta que o audiolivro e o livro falado sejam as melhores ferramentas produzidas para um cego – são instrumentos que atendem a todas as necessidades auditivas, pois descrevem imagens, criam-se melodias para cada cena descrita e dá-se a devida ênfase para cada palavra lida.
Já o leitor de tela não atende a essas características, por não levar em consideração essas diferenças. O software aplica a mesma leitura, generalizando assim a escuta. A palavra falada sozinha “não tem a extensão e a amplificação da força visual requerida para os hábitos do individualismo e da intimidade” (McLUHAN, 2007, p. 97). Em outras palavras, é necessário fazer uma “dramatização da leitura, às vezes feita por mais de um locutor, na maioria dos casos atores, contando com sonoplastia (trilha sonora e efeitos especiais), ambientando a obra e orientando a interpretação que o diretor deseja que o público leitor atinja” (JESUS, 2011)57.
Diante do exposto, seria interessante que os leitores de tela conseguissem também atribuir às suas características a leitura interpretativa do texto.
Atualmente os leitores de tela possuem ferramentas que permitem alterar a velocidade da leitura e o tipo de voz do sintetizador. Não há, em princípio, limitações
57 JESUS, P. S. Livros sonoros: audiolivro, audiobook e livro falado. Disponível em: <http://www.bengalalegal.com/livros-sonoros>. Acesso em: 20/05/2012.
tecnológicas inviabilizando a criação de um leitor de tela que aplique as intenções do texto. A implementação de parâmetros que dessem à entoação das palavras propriedades mais ricas e com maior capacidade de agregar sentido ao texto do que mera leitura monotonal seria supostamente “objeto” do texto realizada pelos leitores de tela.
Alguns indícios, porém, precisam ser considerados, como explica Chomsky (1998, p. 22):
O objetivo de uma teoria da língua é trazer à luz alguns fatores que entram na habilidade de produzir e entender “expressões livres”. Somente alguns dos fatores, entretanto, em paralelo [...] como o estudo dos mecanismos computacionais, que claramente não consegue alcançar seu objetivo de captar a ideia do “uso infinito de meios finitos”, nem o de tratar das questões que eram fundamentais para a primeira revolução cognitiva.
Saussure faz uma série de apontamentos sobre as causas do desacordo entre a grafia e a pronúncia:
Em primeiro lugar, a língua evolui sem cessar, ao passo que a escrita tende a permanecer aquilo que deve representar. Uma notação, coerente num momento dado, será absurda um século mais tarde. Durante certo tempo, modifica-se o signo gráfico para conformá-lo às mudanças de pronúncia, mas depois se renuncia a isso. (SAUSSURE, 2006, p. 37)
Outro apontamento que merece atenção:
Outra causa de desacordo entre a grafia e a pronúncia: é quando um povo toma emprestado a outro seu alfabeto, acontece frequentemente que os recursos desse sistema gráfico não se prestam adequadamente à sua nova função; tem-se de recorrer a expedientes; por exemplo, utilizar-se-ão duas letras para designar um só som. [...] Seria demasiado extenso enumerar as incoerências da escrita. Uma das mais deploráveis é a multiplicidade de signos para representar um mesmo som. [...] O
que fixa a pronúncia de uma palavra não é sua ortografia, mas sua história. (Ibidem, p. 38, 39)
Merleau-Ponty (1974, p. 20) confirma da seguinte maneira:
Uma língua é para nós este aparelho fabuloso que permite exprimir um número indefinido de pensamentos ou de coisas com um número finito de sinais, porque foram escolhidos de maneira a recompor exatamente tudo o que se pode querer dizer de novo e a lhe comunicar a evidência das primeiras designações de coisas [...] Nossa língua reencontra no fundo das coisas uma palavra que as fez. Essas convicções só pertencem ao senso comum. Reinam sobre as ciências exatas (mas não, como veremos, sobre a linguística). Vai-se repetindo que a ciência é uma língua bem feita. É dizer também que a língua é começo de ciência, e que o algoritmo é a forma adulta da linguagem.
Linguisticamente, os apontamentos de Saussure e Merleau-Ponty são coerentes, indiscutíveis e perfeitamente aplicáveis ao banco de dados de algum sintetizador de voz. Por outro lado, se a possibilidade da existência de um leitor de tela que interprete a intenção do texto for considerada, há que se verificar, entretanto, se o ouvinte cego prefere que o texto seja lido com as devidas entonações e se a técnica envolvida (leitor de tela) não influencia na sua interpretação.