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A. Tecavüzün Ref’i Davası

2. Davanın Konusu

Os liberais no pós-guerra se dividiram em duas correntes, a conservadora conhecida como liberalismo amarelo, que reunia a incipiente burguesia mercantil e usurária que em parte dominava a economia colonial e agora independente; e os liberais populares, que receberam o apoio de diversos setores da sociedade – desde pequenos proprietários e comerciantes urbanos vítimas das leis que favoreciam o capital mercantil, produtores rurais levados à bancarrota pela guerra, até escravos, servos, trabalhadores domésticos, indígenas, brancos da orla – cujos interesses foram excluídos da Constituição de 1830, documento que “afiançava a escravidão, protegia o latifúndio e restringia exorbitantemente a condição de

cidadania e participação democrática” (CALZADILLA, 2009, p.33). A disputa política entre estes dois setores, principalmente às vésperas da eleição de 1846, e na abundante imprensa popular na época, acirra a contradição entre o conservadorismo e os ideais de liberdade latente nos setores populares. Dessa contradição surgem diversas rebeliões locais, entre as quais se destaca o levantamento dos llaneros, camponeses da região rural de tradição pecuarista no centro-oeste do país liderados por Ezequiel Zamora, “branco de orla” e admirador da Guerra de Independência e dos ideais liberais. A revolta foi reprimida, porém despertou diversos outros levantamentos populares no país. Zamora foi um líder que: “Inventou os mecanismos de insurreição camponesa de 1846, para errar e reinventar a maneira de liderar a Revolução em 1858.” (CHÁVEZ, 2014, p.46).

A Guerra Federal de 1859-1864, liderada por Zamora, revive essa insatisfação popular com o liberalismo conservador que dominou a constituição, mobilizando negros, indígenas e camponeses em uma luta de extensões nacionais com as palavras de ordem: “Terra e homens livres. Eleição popular. Horror à oligarquia”. Diferentemente da Guerra de Independência, liderada por uma elite militar e branca, este conflito conhecido como A Guerra Longa ou Guerra dos Cinco Anos era predominantemente popular, com todas as raças e mestiçagens que caracterizam os trabalhadores pobres e tinha traços que, segundo a historiadora Rosanna Álvarez, a caracterizam como guerra de guerrilhas: batalhas com contingentes de no máximo 300 soldados; uma força constituída por civis enfrentando um exército melhor equipado e militarmente treinado; definitiva importância dos saberes populares, seu estilo de vida e conhecimento sobre o terreno como ferramentas estratégicas contra o inimigo (ÁLVAREZ, 2009, pp.44-45). Este foi o conflito mais duradouro para o povo venezuelano e mais custoso em quantidade de vidas, porém não conseguiu alterar a estrutura fundiária que compunha a economia do país.

No plano econômico, os resultados da Guerra de Independência foram principalmente a transferência dos latifúndios do setor vinculado à burocracia colonial a outro setor da oligarquia local, no caso, os liberais conservadores e militares que a eles se associaram depois da guerra, e a abertura completa do país ao mercado mundial. No entanto, a estrutura social e demográfica do país sofrera mudanças irreversíveis. Em todo o país, desde o início da campanha de independência, viram-se ocupações de terras por parte de negros e pardos que configurava uma nova classe de camponeses pobres e independentes, motivo de preocupação para tanto para realistas como para patriotas, pois reforçavam as pequenas revoltas localizadas contra o latifúndio, a servidão e a escravidão. Esta última deixava de ser rentável, principalmente depois da crise econômica de 1840-48, pois os preços das

exportações já não cobriam os custos de manutenção de força de trabalho escrava e sua abolição foi declarada em 1854 com direito a indenização para os proprietários, ainda que a escravidão tenha continuado a subsistir por muito tempo. O trabalho no campo venezuelano, que em 1891 ainda constituía 80% da força de trabalho (FIGUEROA, 1975, p.293), não se transforma tecnicamente, mas os escravos se transformam em camponeses com relações próximas às feudais: a indenização dos proprietários era declarada como dívidas que deveriam ser pagas pelos recém libertos com seu trabalho, os libertos recebiam lotes de terra improdutivas e pagavam uma parte em espécie aos proprietários ou eram contratados como peones (peões), trabalhadores livres que recebem pagamento em espécie ou em vales que só têm poder aquisitivo na plantação, o que implica endividamento progressivo do trabalhador e o fim de sua liberdade (FIGUEROA, 1978, p.391). Nas regiões urbanizadas, cuja força de trabalho constituía 19% em 1891 (FIGUEROA, 1975, p.293), os ex-escravos que dominavam ofícios reforçaram e desenvolviam o trabalho de artesanato, outros realizavam serviços doméstico e muitos foram constituir as multidões de indigentes e trabalhadores informais. Os latifundiários que compunham 1% da população total (idem), por sua vez, já não escapam dos intermediários que buscavam multiplicar o capital comercial e nem do capital usurário, de quem dependiam para financiar a produção. Durante um largo período de instabilidade e guerra, esse foi o principal capital a desenvolver-se na Venezuela e à medida que intensificavam os meios para se apropriar do dinheiro dos latifundiários, estes intensificavam a exploração sobre seus camponeses e escravos. Na segunda metade do século XIX, começou o desenvolvimento de pequenas “indústrias”, que eram na realidade oficinas de manufatura ou de trabalho artesanal, que somavam 354 em 1855; as principais atividades eram do setor têxtil, trabalho em madeira e couro (FIGUEROA, 1975, p.302); porém não puderam se desenvolver plenamente à indústria devido à predominância do latifúndio no país. Depois da Guerra Federal, grande parte do território pecuarista foi destruída, comprometendo o comércio e as exportações; o café cultivado nas regiões distantes do conflito começa a destacar-se como importante rubro no final do século.

O resultado das guerras se evidencia também no crescimento vegetativo da população na segunda metade do século XIX (FIGUEROA, 1975, p.310; 1978, p.401; RANGEL, 1971, p.18) e no censo de 1891, que aponta uma população economicamente ativa constituindo apenas 56% da população venezuelana, sendo que 34% do total eram menores de 14 anos (idem).