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4. BULGULAR ve YORUMLAR

4.4. Dördüncü Alt Probleme Yönelik Bulgular

Neste capítulo, procuraremos analisar a noção deleuziana de “sociedades de controle”, inspirada na obra de Burroughs. Neste sentido, o presente capítulo tem por objetivo a exposição da noção de sociedades de controle desenvolvida por Gilles Deleuze, tomando como modelo paradigmático o pensamento do controle enunciado inicialmente por Burroughs. Desse modo, buscaremos apontar para alguns dispositivos que parecem indicar que já nos encontramos em uma sociedade cujos mecanismos de controle estão cada vez mais disseminados, todos remetendo a mais alta perfeição da dominação.

“O doutor Benway fora nomeado conselheiro da República de Liberlândia, uma terra dedicada ao amor livre e aos banhos constantes. Seus cidadãos são bem ajustados, cooperativos, honestos, tolerantes e, acima de tudo, limpos. Mas a convocação de Benway sinaliza que nem tudo vai bem por trás dessa fachada higiênica: Benway é um manipulador, um coordenador de sistemas simbólicos, um especialista em todas as etapas de interrogatórios, lavagens cerebrais e formas de controle. Eu não falava com Benway desde sua saída precipitada de Anéxia, onde estivera encarregado do processo de D. T. (Desmoralização Total). Lembro que o primeiro ato de Benway foi abolir os campos de concentração, as prisões em massa e, exceto em circunstâncias delimitadas e especiais, o uso de tortura.” – Almoço Nu.

Deleuze desenvolveu, num post-scriptum intitulado “Sobre as sociedades de controle”, do ano de 1990, uma noção que traduz com perfeição o pensamento do controle enunciado inicialmente por Burroughs, ponto culminante de sua obra: a noção de “sociedades de controle”. Sociedade de controle foi o termo desenvolvido por Deleuze para caracterizar o tipo de sociedade que emergiu após a Segunda Guerra Mundial. O totalitarismo desapareceria dando lugar a novos modos de dominação e, segundo Deleuze, “(...) em favor de novas forças que se instalavam lentamente e que se precipitariam depois da Segunda Guerra mundial: sociedades disciplinares é o que já não éramos mais, o que deixávamos de ser”.209 Deleuze propõe uma nova organização social, para além da sociedade disciplinar, que implica em várias considerações conceituais.

Nesse artigo, Deleuze explica que Michel Foucault, anteriormente, analisara dois tipos de sociedade: as sociedades de soberania e as sociedades disciplinares.210 O trânsito da sociedade de soberania para a sociedade disciplinar, segundo Foucault, teria sido operado pelo Império de Napoleão. As sociedades de disciplina, ainda segundo as análises de Foucault, definiam-se pela formação de grandes meios de confinamento: prisões, escolas, fábricas, hospitais, etc. Mas, ao que tudo indica, Foucault jamais pensara que as sociedades de disciplina fossem durar para sempre. Ao contrário, ele pensava que entraríamos num outro tipo de sociedade. Numa conferência pronunciada no Japão, por exemplo, Foucault se refere a uma crise das sociedades disciplinares, mas não chega a formular nenhuma hipótese sobre o futuro. Diz Foucault:

A disciplina, que era eficaz para manter o poder, perdeu uma parte de sua eficácia. Nos países industrializados, as disciplinas entram em crise. (...) Nesses últimos anos, a sociedade mudou e os indivíduos também; eles são cada vez mais diversos, diferentes e independentes. Há cada vez mais categorias de pessoas que não estão submetidas à disciplina, de tal forma que somos obrigados a pensar o desenvolvimento de uma sociedade sem disciplina. A classe dirigente continua impregnada da antiga técnica. Mas é evidente que devemos nos separar, no futuro, da sociedade de disciplina de hoje.211

Na verdade, Foucault considerava que o poder exercido pelas instituições disciplinares não se limitava apenas ao interior de seus edifícios, mas possuía uma certa tendência a se “desinstitucionalizar”, a se dissolver no campo social, convertendo-se em processos flexíveis de controle:

(...) enquanto por um lado os estabelecimentos de disciplina se multiplicam, seus mecanismos têm uma certa tendência a se desinstitucionalizar, a sair das fortalezas fechadas onde funcionavam e a circular em estado “livre”; as disciplinas maciças e compactas se decompõem em processos flexíveis de controle, que se pode transferir e adaptar.212

Entendido desse modo, os mecanismos disciplinares se difundiriam em todas as direções, como uma função contínua e livre, ou seja, independente dos meios de confinamento e da presença física de uma autoridade disciplinar. (Neste sentido, as

210 Em outra parte, mais exatamente em seu livro sobre Foucault, Deleuze dirá: “Vigiar e Punir analisa o diagrama disciplinar como sendo o que substitui os efeitos da antiga soberania por um enquadramento imanente ao campo social. (...) Nossas sociedades disciplinares passam por categorias de poder (ações sobre as ações) que podem ser definidas assim: impor uma tarefa qualquer ou produzir um efeito útil, controlar uma população qualquer ou gerir a vida. Mas as antigas sociedades de soberania se definiam por outras categorias igualmente diagramáticas: confiscar (ação de se apropriar de ações ou produtos, força de confiscar forças) e decidir a morte (‘causar a morte ou deixar viver’, o que é bem diferente de gerir a vida)” (DELEUZE, 2006b, p. 91).

211 FOUCAULT, 2006, p. 268. 212 FOUCAULT, 2009, p. 199.

sociedades de controle talvez pudessem ser entendidas como uma função derivada da sociedade industrial com seu anonimato de gestão e desaparecimento do poder pessoal.213) Neste ponto, torna-se quase impossível acertar a localização pontual dos mecanismos disciplinares, dissolvidos em todo o campo social, enquanto uma função (de relação) contínua e livre. Instala-se uma espécie de experiência “incorpórea” do poder disciplinar, um tipo de prisão que não se pode ver nem tocar, que remete a uma forma de exterioridade.

A prisão enquanto segmentaridade rígida (celular) remete a uma função flexível e móvel, a uma circulação controlada, a toda uma rede que atravessa também os meios livres e pode aprender a sobreviver sem a prisão. Parece um pouco com a “prorrogação indefinida” de Kafka, que já não necessita de detenção nem de condenação.214

Neste sentido, Deleuze parece propor uma extensão dos mecanismos disciplinares para além dos próprios meios de confinamento, ou seja, uma espécie de sublime desenvolvimento do poder disciplinar chegado ao ponto de prescindir dos próprios estabelecimentos de disciplina. Consciente dessa mutação, Deleuze proporá a noção de sociedades de controle enquanto uma espécie de desdobramento das sociedades disciplinares, isto é, como uma função derivada das sociedades disciplinares. Assim, o procedimento de Deleuze consistiu em acrescentar às sociedades de soberania e de disciplina, analisadas anteriormente por Foucault, uma terceira sociedade, as sociedades de controle, termo que ele toma emprestado da obra de Burroughs. “São as sociedades de controle que estão substituindo as sociedades disciplinares. ‘Controle’ é o nome que Burroughs propõe para designar o novo monstro, e que Foucault reconhece como nosso futuro próximo”.215 Segundo Deleuze, foi Burroughs quem começou a análise dessa situação, descrevendo a passagem das sociedades disciplinares para as sociedades de controle. Como veremos a seguir, o livro de Burroughs está repleto de indicações nesse sentido, sobretudo as chamadas formas de controle ao ar livre. Todavia, antes de avançarmos na análise de tais trechos, convém respondermos às seguintes questões: como estão organizadas essas duas sociedades, quais são as suas principais características? Nas sociedades disciplinares, segundo Deleuze, eram destacados os aspectos institucionais, nos quais “o indivíduo não cessa

213 A propósito, eis o que dizem Deleuze & Guattari, invocando Freud: “De acordo com uma sugestão de Freud, a sociedade americana, a sociedade industrial com anonimato de gestão e desaparecimento do poder pessoal, etc., nos é apresentada como um ressurgimento da ‘sociedade sem pais’”. (DELEUZE e GUATTARI, 2004, p. 84).

214 DELEUZE, 2006b, p. 52. 215 DELEUZE, 1992, p. 220.

de passar de um espaço fechado a outro, cada um com suas leis: primeiro a família, depois a escola, depois a caserna, depois a fábrica, de vez em quando o hospital, eventualmente a prisão, que é o meio de confinamento por excelência”.216 Porém, nas sociedades de controle é levada a cabo a demolição desses limites institucionais, e a vida passa a ser organizada no campo social; a lógica das instituições não se encontrará mais restrita apenas a seu interior, mas se dissolverá na vida social. Neste sentido, pode- se afirmar que a sociedade disciplinar tinha como clara desvantagem o fato de não lidar com o indivíduo no próprio campo social, mas apenas dentro dos espaços fechados das instituições, com seus regulamentos internos, numa população pouco numerosa, num espaço limitado ou pouco extenso. Com as sociedades de controle, os dispositivos de captura passavam a funcionar de acordo com uma nova dinâmica: os indivíduos passam a ser controlados num espaço extenso ou aberto. Curiosamente, nas sociedades de controle os processos de subjetivação também não estão mais relacionados com alguma prática institucional, ou seja, o sujeito foi destituído das antigas referências que moldavam os processos de subjetivação: a linearidade dos processos de subjetivação na modernidade parece ter sido substituída por uma pluralidade de elementos que integram a subjetividade. A herança transcendental do sujeito universal kantiano, capaz de ser o centro das certezas e verdades do mundo, é completamente abandonada. Em seu lugar, surge um sujeito modulado, marcado pela indeterminação, sem posição no mundo, como o sujeito das incertezas e da insegurança em relação ao mundo e a si mesmo. (Acreditamos que este elemento de indeterminação se prende àquilo que denominamos anteriormente como a perda das identidades discerníveis).

Em todo o caso, a disciplina do controle não se restringe mais aos espaços disciplinares, mas submete os indivíduos a uma vigilância generalizada; formas de controle ao ar livre substituem as antigas disciplinas que operavam na duração de um sistema fechado. De certo modo, os mecanismos de controle são mais sutis porque não são meramente “mecânicos” e, portanto, não atuam diretamente sobre o corpo do indivíduo. Mas isso não que dizer que a disciplina do controle não tenha o objetivo de atingir esses indivíduos, apenas utiliza-se de mecanismos mais sutis e amenos para atingir esse fim. Foi talvez pensando nisso que Deleuze afirma que essas novas forças que emergiram com o fim da Segunda Guerra “passaram a integrar mecanismos de controle que rivalizam com os mais duros confinamentos”.217 Esses mecanismos não

216 DELEUZE, 1992, p. 219. 217 DELEUZE, 1992, p. 220.

operam mais através de sistemas fechados, como aqueles operados num campo de concentração, numa prisão ou numa fábrica. Mas o novo regime não é por isso mais suave; é como se o sistema do terror substituísse o da crueldade. “Face às formas próximas de um controle incessante em meio aberto, é possível que os confinamentos mais duros nos pareçam pertencer a um passado delicioso e benevolente”.218

Neste ponto, busquemos comparar as análises de Deleuze sobre as sociedades de controle com os modelos burroughsianos de controle social, sobretudo no que tange ao predomínio dos espaços abertos, as formas de controle ao ar livre. Acreditarmos ser essa a primeira característica importante das sociedades de controle, característica esta apresentada inicialmente por Burroughs. Como a Cidade de Anéxia... “Todo cidadão de Anéxia era obrigado a solicitar do governo uma pasta abarrotada de documentos, que deveria carregar sempre consigo. Os cidadãos estavam sujeitos a serem detidos na rua a qualquer momento”.219 A cidade foi organizada de modo a manter seus habitantes sob vigilância constante; foram suprimidos todos os espaços de convivência, como praças e parques: “Removeram-se todos os bancos das praças da cidade, as fontes foram desativadas e as flores e árvores foram todas destruídas”.220

Imensas sirenes elétricas instaladas no topo de cada edifício de apartamentos (todos viviam em apartamentos) soavam a cada quarto de hora. Tamanha vibração costumava atirar as pessoas para fora da cama. Holofotes passavam a noite inteira esquadrinhando a cidade (ninguém tinha permissão para usar persianas, cortinas, venezianas e reposteiros).221

E ainda:

Nenhuma pessoa olhava para a outra, por medo de infringir alguma das leis rígidas que proibiam importunar qualquer indivíduo, verbalmente ou não, não importava por qual motivo, fosse sexual ou de qualquer natureza. Todos os cafés e bares foram fechados.222

Também não eram permitidas trancas nas portas: “Ninguém tinha permissão para colocar ferrolhos nas portas e a polícia tinha chaves mestras capazes de abrir todos os cômodos da cidade”.223 Agentes policiais invadiam de forma repentina os apartamentos em busca de qualquer coisa suspeita, acompanhados de seres telepatas que tinham como tarefa guiar “os policias até qualquer coisa que o indivíduo estivesse 218 DELEUZE, 1992, p. 216. 219 BURROUGHS, 2005a, p. 30. 220 BURROUGHS, 2005a, p. 31. 221 BURROUGHS, 2005a, p. 31. 222 BURROUGHS, 2005a, p. 31. 223 BURROUGHS, 2005a, p. 32.

tentando esconder: um tubo de vaselina, um enema, um lenço sujo de esperma, uma arma ou bebidas alcoólicas ilegais”.224 Segundo o narrador, apenas algum tempo vivendo sob essas condições era “suficiente para que os cidadãos começassem a se esgueirar pelos cantos, como se fossem gatos”.225

Em todos estes trechos, como foi possível observar, Burroughs descreve sobretudo o declínio das disciplinas, ou seja, o desaparecimento dos grandes meios de confinamento característicos das sociedades disciplinares, ao mesmo tempo em que fornece a primeira característica importante das sociedades de controle: as formas de controle ao ar livre. Na verdade, o livro de Burroughs ainda está na fronteira, na articulação das duas sociedades, a disciplinar e de controle, e, como diz Deleuze, Burroughs foi um dos primeiros a tomar consciência dessa mudança de paradigma histórico. Neste sentido, é evidente que algumas das características aventadas por Burroughs se aproximam ainda das sociedades disciplinares descritas por Foucault, sobretudo o esquema do Panóptico, cuja essência reside na centralidade da situação da inspeção, ou na construção de uma espécie de “inspetor geral”, onipotente, onipresente e onividente, o que daria margem a um mundo de paranóia e insegurança.226 Todo o Panóptico, em realidade, é estruturado como uma ficção, pois é precisamente a aparente onipresença do inspetor que sustenta a disciplina do Panóptico, ao controlar todos os movimentos dos internos. E é neste sentido, portanto, que se pode dizer que os modelos burroughsianos de controle social se aproximam ainda das descrições de Foucault sobre as sociedades disciplinares; a diferença talvez se encontre no privilégio dado por Burroughs aos espaços extensos ou abertos, bem como ao clima geral de paranóia, resultantes do declínio das disciplinas...

Por também prescindir de violência direta contra seus cidadãos, a cidade de Liberlândia é outra representação burroughsiana desse modelo de controle civil, “uma terra dedicada ao amor livre e aos banhos constantes. Seus cidadãos são bem ajustados,

224 BURROUGHS, 2005a, p. 32. 225 BURROUGHS, 2005a, p. 32.

226 “O Panóptico (...) tem seu princípio não tanto numa pessoa quanto numa certa distribuição concertada dos corpos, das superfícies, das luzes, dos olhares: numa aparelhagem cujos mecanismos internos produzem a relação na qual se encontram presos os indivíduos. As cerimônias, os rituais, as marcas pelas quais se manifesta no soberano o mais-poder são inúteis. (...) Pouco importa, consequentemente, quem exerce o poder. Um indivíduo qualquer, quase tomado ao acaso, pode fazer funcionar a máquina: na falta do diretor, sua família, os que o cercam, seus amigos, suas visitas, até seus criados. (...) Quanto mais numerosos esses observadores anônimos e passageiros, tanto mais aumentam para o prisioneiro o risco de ser surpreendido e a consciência inquieta de ser observado. O Panóptico é uma máquina maravilhosa que, a partir dos desejos mais diversos, fabrica efeitos homogêneos de poder” (FOUCAULT, 2009, p. 191- 192).

cooperativos, honestos, tolerantes e, acima de tudo, limpos”.227 Pela sua própria natureza benevolente, esse tipo de sociedade, fundada sobre o conceito de bem-estar social, suprime qualquer ato de rebeldia, exatamente como Liberlândia: “Liberlândia era um estado de bem estar social. Se um cidadão desejasse qualquer coisa, de osso moído a um parceiro sexual, encontraria alguma repartição pronta a lhe prestar auxílio. Essa benevolência trazia consigo certa ameaça explícita que sufocava o conceito de revolta...”.228 Os dois modelos burroughsianos de controle social possuem, sem dúvida, parentesco com as formas de organização e controle social analisadas por Deleuze, em especial no predomínio dos espaços abertos, as formas de controle ao ar livre.

Neste ponto, porém, termina qualquer relação possível entre Burroughs e Deleuze, sobretudo no que tange à outra característica importante das sociedades de controle, conforme desenvolvida por Deleuze: a idéia de comunicação, pois, para Deleuze, a sociedade de controle é também a sociedade da comunicação.

A comunicação instantânea seria, portanto, esta outra característica importante das sociedades de controle, característica esta que nos leva a acreditar que já nos encontramos em uma sociedade cujos mecanismos de controle estão cada vez mais disseminados: a sociedade de controle é a sociedade da comunicação. Sem dúvida, a comunicabilidade e a produção de informação passaram a constituir as formas de trabalho e das relações sociais. Atingimos a capacidade de transmitir para qualquer parte do planeta, por meio digital, qualquer informação ou acontecimento em “tempo real”. Segundo Deleuze, “é fácil fazer corresponder a cada sociedade certos tipos de máquina, não porque as máquinas sejam determinantes, mas porque elas exprimem as formas sócias capazes de lhes darem nascimento e utilizá-las”.229 Nas antigas sociedades de soberania, explica Deleuze, manejavam-se máquinas simples como alavancas, roldanas, relógios; nas sociedades disciplinares as máquinas correspondentes à disciplina eram energéticas, e operadas por meios mecânicos; às sociedades de controle correspondem as máquinas de informática. Instaura-se a relação do homem com a cibernética, com máquinas que produzem e transmitem informação, isto é, computadores. “As sociedades de controle operam por máquinas de uma terceira espécie, máquinas de informática e computadores, cujo perigo passivo é a interferência, e o ativo, a pirataria e a introdução de vírus. Não é uma evolução tecnológica sem ser,

227 BURROUGHS, 2005a, p. 29. 228 BURROUGHS, 2005a, p. 193. 229 DELEUZE, 1992, p. 223.

mais profundamente, uma mutação do capitalismo”.230 Busquemos, neste sentido, citar alguns exemplos dessa transformação, em especial os ligados à chamada “comunicação instantânea”.

Em se tratando de meios de comunicação, a televisão, é bem verdade, com suas incontáveis séries policiais televisivas, elas próprias formas de controle social – o que acaba por revelar a natureza ubíqua da televisão – apontava já nessa direção. Mas, é claro, isso tudo é incrivelmente primitivo se comparado às maravilhas da tecnologia de computadores por volta do ano 2000, em especial à Internet, uma criação que promete controle social numa escala com que os grandes tiranos do século XX nem sequer sonhavam.231 Recordemos ainda, nesse sentido, as inúmeras novidades tecnológicas que surgem a cada dia. Podemos citar como exemplos a proliferação das câmeras de vídeo de “segurança” e dos transponders232, bem como de todos os meios capazes de registro e monitoramento, tais como celulares, cartões magnéticos, correias eletrônicas, etc.233 Todas essas indicações nos levam a acreditar que já nos encontramos em uma sociedade cujos mecanismos de controle ao ar livre estão cada vez mais disseminados, todos remetendo a mais alta perfeição da dominação.

Portanto, das sociedades disciplinares à de controle passamos do confinamento ao “controle contínuo e comunicação instantânea”, os quais permitem que se exerça uma ação sobre os indivíduos que prescinda dos muros que os mantinha confinados (a fábrica, a escola, a prisão) bem como da existência física de uma autoridade disciplinar (o patrão, o professor, o inspetor). A antiga disciplina, que operava na duração de um sistema fechado, é substituída neste ponto por formas de controle ao ar livre – uma disciplina do controle independente, capaz de ultrapassar todos os limites e fronteiras, surpreendentemente amena, como uma força invisível, vislumbres de uma nova ordem... Como bem observa o Dr. Benway: “O futuro é nosso. É claro que usaremos algumas partes da máquina de Paul durante o período de transição

230 DELEUZE, 1992, p. 223.

231 Nestes novos tempos, a ação direta acontecerá principalmente na Internet (a exemplo de Julian Assange, LulzSec, Anonymous, etc.)? Na verdade, com a importância da web nos dias que correm, todos os movimentos deverão estar na vanguarda da cultura da Internet.

232 Os transponders são um misto de chip e antena, do tamanho de um grão de arroz, capaz de transmitir informações contidas nesse chip para qualquer outro banco de dados. Pode-se utilizar um transponder em qualquer coisa que se queira monitorar: corpos, mercadorias, documentos, carros, etc.

233 Neste sentido, vale recordarmos o sistema de monitoramento eletrônico de pessoas condenadas por crimes de pequeno potencial adotado em vários países do mundo, inclusive pelo Brasil. O monitoramento é realizado por meio de tornozeleiras ou pulseiras eletrônicas capazes de acertar a localização pontual da