D. VEKÂLET TÜRLERİ
II. DÂVA VEKÂLETİ
A denúncia da noção cotidiana de realidade como depauperamento da criação operada pela linguagem e a demonstração do caráter insustentável da pretensão realista, dada a impossibilidade radical da transposição, para o texto literário, de todos os possíveis do real, podem ser consideradas o projeto central de Nuovo commento. Toma-se, aqui, para análise, uma das narrativas em que isso se formula mais claramente. Trata-se da seção não titulada que encerra o livro, na qual se apresenta o relato de um jovem, cujos pais haviam aprendido a ler, nos elementos da natureza, a linguagem do universo. Introduzido nesse saber desde a infância, o filho do astrólogo começa a perceber a imperfeição e a fragmentaridade do conhecimento que lhe foi transmitido, e se propõe a construir um sistema geral de todas as interpretações. Seu objetivo é esclarecer os pressupostos de toda linguagem e formular uma lingüística comparada, pela qual se ofereceriam infinitos significados, esquivos a uma leitura ainda predominantemente “lexical”27, como a de seus pais. A percepção fundamental do filho do astrólogo é de que os “sinais do céu e da terra” são “proposições disjuntas” que devem ser restituídas na sua inteireza, ter fixada sua morfologia e definidos os seus recursos estilísticos e
25
“uma experiência intelectual inédita” (MANGANELLI. Il rumore sottile della prosa, p.101.)
26
“aspira a uma condição extrema” (MANGANELLI. Il rumore sottile della prosa, p.102.)
27
retóricos: “tutto doveva saldarsi in un unico discorso, senza lacune”28. Ele descobre que é a “disperata ambizione a conoscere ed usare di se medesimi come segno”29 que unifica as diferentes linguagens. Mesmo as proposições cotidianas deveriam ser despojadas de seu significado imediato e interpretadas segundo essa significância última. À luz da linguagem como sinal de si mesma, desvela-se o sentido:
Le parole casuali, i suoni discontinui, i ghiribizzi, i coaguli di polvere presero a perdere la loro sorda natura, e mi vennero incontro nella loro naturale veste di significati. Per la prima volta sottratti al loro arcaico, indecifrabile mormorio, mi si affollavano attorno [...]. I significati grondavano dalle pareti, le strade erano gremite di parole, spezzando il pane spalancavo un vocabolario.30
A história do filho do astrólogo é narrada, por um dos comentaristas, como demonstração de sua convicção quanto à possibilidade de a linguagem descrever o real. Concentra-se em torno de um “imperativo moral”31, supostamente incontestável, de que se continue a comentar o texto na esperança de assim desvendar-lhe o significado. A inesgotabilidade do texto deveria desafiar à insistência e não constituir-se em motivo de desistência. A capacidade de comentar seria, segundo tal perspectiva, uma faculdade “natural”, que não deve ser atenuada ou desviada de seu “natural êxito”32. Reproduz-se, sobre essas bases, a defesa da literatura socialmente engajada e comprometida com a verdade. Às avessas de tudo o que Manganelli propõe, essa parte do texto encarna “la procreazione e custodia dei significati” como objetivo de todo comentário, e condena, dessa maneira, aquele feito por diletantismo e “per il puro diletto del commentare”33. Entretanto, o discurso desse comentarista sofre uma inesperada mudança de direção quando se vê forçado a enfrentar o
28
“tudo devia soldar-se em um único discurso, sem lacunas” (MANGANELLI. Nuovo commento, p.138.)
29
“desesperada ambição de conhecer e usar de si mesmas como sinal” (MANGANELLI. Nuovo commento, p.138.)
30
“As palavras casuais, os sons descontínuos, os caprichos, os coágulos de pó começaram a perder a sua surda natureza e vieram ao meu encontro na sua natural veste de significados. Pela primeira vez subtraídos ao seu arcaico, indecifrável murmúrio, aglomeravam-se em torno a mim [...]. Os significados jorravam das paredes; as ruas eram apinhadas de palavras; partindo o pão, eu escancarava um vocabulário.” (MANGANELLI. Nuovo
commento, p.138.)
31
MANGANELLI. Nuovo commento, p.118.
32
MANGANELLI. Nuovo commento, p.119.
33
“a procriação e custódia dos significados” como objetivo de todo comentário, e condena, dessa maneira, aquele feito por diletantismo e “pelo puro prazer de comentar” (MANGANELLI. Nuovo commento, p.119.)
problema da existência do texto comentado, e não consegue refutar a idéia de que este pode não passar de uma hipótese. Toda a certeza que vinha sendo ostentada revela-se dependente de uma conjectura, e a pretensão realista é ironicamente apresentada como um esforço desesperado para que, por meio de tanto comentar, encontre-se, enfim, o texto.
Começa a ser delineada uma outra diferença fundamental entre os comentaristas e o narrador principal em Nuovo commento: a crença, difusa entre os primeiros, em um pressuposto metafísico, ao passo que, para o narrador, a descoberta da linguagem como condição do ser sepulta definitivamente a expectativa de um fundamento último, e revela toda realidade como texto falso, sobre o qual trabalham os comentadores: fraude, burla, escárnio, um nada maliciosamente auto-escolhido sob forma de texto34. Nesse sentido, o comentário não pressupõe a anterioridade ontológica do texto, mas, inversamente, o texto é gerado pelo comentário. Essa é a razão pela qual se forma uma constante nos diversos testemunhos inseridos como narrativas em Nuovo commento: parte-se do desejo de decifrar o texto e de encontrar um fio pelo qual se possa desemaranhá-lo, mas à medida que vão sendo postos os marcos conceituais e metodológicos que permitiriam o esclarecimento, vai se tornando patente a impossibilidade da tarefa. Comentar é sinônimo de escrever não como transposição das coisas em palavras, mas
[...] è coscientemente partecipare a questo grande gioco di scrivere sul foglio illimitato dell’apeiron, e insieme di scoprire in ogni scheggia o viscere l’indizio della parola implicita [...] e mostrare: « Vedi come è tutto scritto internamente » [...]. Ambizione, coerente e insensata, del commentatore esaurire un frammento minimo, deducendono tutto l’implicito discorso. Svolgere il mondo, gomitolo di costellazioni, e ridistenderlo nella pianura empia del dizionario.35
As numerosas metáforas de que se serve o narrador também apontam para a infinita disponibilidade e a simultânea inacessibilidade do texto. Na mesma proporção em que se
34
MANGANELLI. Nuovo commento, p.128.
35
“é conscientemente participar desse grande jogo de escrever sobre a folha ilimitada do ápeiron e, juntamente, de descobrir em cada estilhaço ou víscera o indício da palavra implícita [...] e mostrar: «Vejam como tudo é escrito por dentro» [...]. Ambição coerente e insensata do comentarista que pretende exaurir um fragmento mínimo, deduzindo dele todo o discurso implícito. Desenvolver o mundo, novelo de constelações, e reestendê-lo na planície ímpia do dicionário.” (MANGANELLI. Nuovo commento, p.50.)
mostram paradoxais, essas características mantêm uma relação de causalidade: o texto tudo dá a conhecer e, ipso facto, torna impossível sua penetração. Talvez a mais sugestiva dessas metáforas seja a peculiar retomada do mitologema urbano que identifica o texto com a cidade. As qualidades do texto, afirma o narrador, de modo algum são idênticas às qualidades urbanísticas encontradas “em espaços tipograficamente significantes”. A “habitual urbanística literária” possui limites certos, ruas que se insinuam entre as palavras, praças e paradas que permitem descanso entre as quadras de capítulos. Distintamente, o texto
è inabitabile affatto, centrale tutto, ovunque periferico, costantemente altrove, immobile e ignaro di tregua; non limite certo, non conforto di mappa, non segnaletica cordiale o amichevole toponomastica; carenza di servizi urbani, disperata elusività direzionale [...].36
Os infinitos pontos de fuga e a indeterminação tornam a cidade (assim como o texto) “semantica ed esistenzialmente intollerabile”37. Para expressar a pura potência de significação e a inexistência de determinações de sentidos, o narrador cria a imagem da cidade como uma virgem grávida de “fetos verbais”. A plena disponibilidade para a formação de novos sentidos parece ser o denominador comum entre a cidade e a linguagem, dada pela idéia da “prelapsária”38 cisão do “indivíduo verbal” em “grafofetos” e “fonofetos”39 ainda não encarnados nos vocabulários. A cidade é o emblema do interminável movimento de geração de sentidos pela linguagem. Como metrópole de dissonantes edifícios textuais, é imagem de um lugar multiestratificado em que cada estrato remete a todos os outros. É uma máquina que desvela desdobrando, e dobrando sela todos os indícios40.
36
“é absolutamente inabitável, todo central, em todo lugar periférico, constantemente alhures, imóvel e ignaro de trégua; não há limite certo, não há conforto de mapa, não há sinalética cordial ou amigável toponomástica; carência de serviços urbanos, desesperada elusividade direcional [...].” (MANGANELLI. Nuovo commento, p.17-18.)
37
“semântica e existencialmente intolerável.” (MANGANELLI. Nuovo commento, p.35.)
38
Esse termo indica o estado originário de inocência que, no mito adâmico, teria precedido o pecado. Designando como “prelapsária dicotomia” a potencialidade idealmente pura dos significantes, Manganelli deixa subentendido que o pecado (lapso) original da linguagem é a pretensão de atualizar esse virtus num significado unívoco e definitivo.
39
MANGANELLI. Nuovo commento, p.41.
40
A impermanência do ser qualifica o real como um texto in fieri – algo que vai se fazendo a partir do comentário, num permanente movimento de autoconstituição e imediato envelhecimento, como indica o narrador principal em sua única referência explícita ao título do livro:
«Nuovo», dunque, solo per questo pomeriggio, siffattamente effimero che, se oserai ruotare le disorientate orbite sulle poche carte già scorse, o con stizzosa impazienza compulserai le ulteriori, le vedrai fitte di subite rughe, un cascame di penduli, senili barbigli concettuali, parole desuete, grafie vacillanti, arcaici modi sintattici, citazioni di mezzi di trasporto e vestiari a tal punto obsoleti da ritrovarli solo in stinti affreschi del contado marchigiano.41
O destino de Nuovo commento é promover uma ação terrorista42 contra o sentido, contra a ordem do texto e o poder que o comentário se arroga de esgotar a realidade. Não é uma busca de um sentido último, mas uma disposição de inúmeros sinais que possam suscitar os mais diversos significados simultâneos, mesmo quando contraditórios e reciprocamente excludentes. A literatura deixa de ser uma reprodução de sentido e passa a ser um falar para nada dizer, falar quando não há o que dizer.