• Sonuç bulunamadı

B. Fesih

1. Azil

Nosso percurso pela obra de Manganelli reuniu, sob o par de conceitos de metafísica

negativa e antinarratividade, a concepção manganelliana de literatura, seus pressupostos e

suas implicações filosóficas. Põe-se em crise a expectativa de conter, nos limites de rígidas definições, a inexaurível multiplicidade do real; expõe-se a hegemonia do irracional, oculto sob a aparente unicidade do sujeito; evidenciam-se a ilogicidade e a não-significação da linguagem, mostrando que somente o arbítrio permite o sentido. Esse ataque aos pilares da razão ocidental possibilita a proposição de textos literários menos preocupados com a consecutividade da narração do que com o articular-se da própria linguagem que os constitui. Na antinarrativa, exploram-se diversas formulações de um mesmo objeto, contrariando os princípios de identidade, de não-contradição, de irreversibilidade.

Uma vantagem heurística do uso dos dois conceitos que propusemos reside na percepção da recíproca dependência de teoria e ficção nos diversos gêneros da obra de Manganelli. Embora distintas quanto a seus fins, essas formas textuais elaboram uma concepção performática de texto, de autoria e de leitura, cujo centro é a dúvida sobre a relação do sujeito com o real e o papel desempenhado pela linguagem nesse jogo. Põe-se em questão, a partir disso, a própria possibilidade do fazer-se da narrativa senão como uma chiacchiera, uma tagarelice, um falar sem nada dizer.

Construindo nosso trajeto através das obras manganellianas, priorizamos os livros que permitem dar maior visibilidade aos aspectos mencionados acima. É imprescindível, num estudo sobre Manganelli, a leitura dos pseudotratados em que se formulam todos os problemas teóricos que, com variantes formais, são reiterados ou revistos nos textos posteriores. As formas textuais que designamos como dispersões narrativas são uma das mais fortes expressões da teoria e da literatura manganellianas. Cada uma delas poderia ser tomada como objeto de estudo em separado e o estudioso encontraria ali elementos suficientes para

refletir sobre os aspectos filosóficos e literários a que demos atenção nesta tese. A marcada presença da metalinguagem faz desses livros um discurso sobre a impossibilidade da narrativa. É postulada como igualmente impossível qualquer realidade que se pretenda paradigmática e independente dos jogos lingüísticos que a constituem.

Haveria razões formais suficientes para situar as centúrias no pólo oposto das dispersões. No entanto, a concisão das histórias e a própria presença da narração não invalidam os pressupostos antinarrativos e o tratamento em negativo dos temas de cada texto. As centúrias permitem perceber a maneira peculiar e transgressiva com que o presumidamente real é estilhaçado e agenciado no texto de modo a produzir sempre novos resultados semânticos. Esse procedimento não está ausente nem mesmo dos textos jornalísticos em que, supostamente, deve haver maior referencialidade, como é o caso dos

corsivi e da geocrítica.

Também a crítica literária manganelliana revela essa perspectiva oblíqua, que provoca deslocamentos e que reorganiza sempre de novo os textos lidos. Explicita-se, desse modo, o caráter transgressor da leitura como ato eversivo. O livro não é um objeto inerte, mas uma máquina que deve ser posta em funcionamento por aquele que a utiliza. É estranha, mas não incompreensível, neste contexto, a afirmação manganelliana de que todas as palavras de um livro são palavras mortas19. Poder-se-ia dizer que estão mortas até serem ativadas pela ação performática do leitor.

A onipresença dessas questões é uma das razões pelas quais os diversos gêneros textuais manganellianos se contaminam reciprocamente. Constituem formas transicionais no jogo de referir e de aludir. O específico da linguagem literária é, para Manganelli, a não- significação ou a simultânea presença de todos os significados que uma mesma palavra pode ter. Essa plurivocidade se ressalta pela imagem mitológica de Eco e Narciso:

19

Gli antichi sapevano che ogni parola ha un doppio, e che quel doppio aveva un destino diverso della parola. Eco è il doppio della parola, ed è anche ciò che rende testimonianza per la parola quando questa è andata oltre. Noi la leggiamo, ascoltiamo, pensiamo la parola, ma quello che rimane in noi è il doppio nella forma di Eco, è l'immagine della parola 'riflessa', ma il riflesso non ha riflesso. [...] Se ne deduce che è appunto l'Eco che consente alla parola di permanere ininterrotta, giacché se la parola non disponesse di quel doppio finirebbe come narcisso, in un innamoramento speculare, letale come ogni tentativo di possedere se stessi.20

A leitura, nos textos manganellianos, é entendida como uma ressonância desvinculante: o significado, mais ou menos preciso, que o uso cotidiano atribui a uma palavra é desligado dos sentidos, múltiplos ecos, que essa mesma palavra pode assumir no jogo do texto. A palavra é uma sombra inapreensível e que “non si lascia toccare da alcunché”21.

O fato de privilegiar essas questões determinou a preferência, nesta tese, pelos textos que cumprem, no corpus manganelliano, um papel de fundação de sua teoria. Vários outros, especialmente aqueles publicados postumamente, constituem campos de pesquisa promissores. Entre os gêneros textuais manganellianos não discutidos aqui, encontram-se seus trabalhos como crítico de arte22, o teatro23 e a recente coletânea das poesias24 escritas antes mesmo da publicação de sua obra inaugural. Vários outros textos de crítica literária têm sido publicados nos últimos anos, entre os quais destacam-se aqueles em que Mangangelli trata de autores e obras da literatura de língua inglesa.

Mesmo variada e numerosa, a obra de Manganelli parece bem descrita pelo paradoxo e pela ironia do termo que dá título ao seu primeiro livro, a Hilarotragoedia. Entendendo-se o trágico em um sentido schopenhaueriano, compreende-se também o sarcasmo frente aos

20

“Os antigos sabiam que toda palavra tem um duplo, e que aquele duplo tinha um destino diverso da palavra. Eco é o duplo da palavra, e é isso que também dá testemunho da palavra quando ela já se foi. Nós a lemos, escutamos, pensamos a palavra, mas aquilo que permanece em nós é o duplo na forma de Eco, é a imagem da palavra ‘refletida’, mas o reflexo não tem reflexo. [...] Disso se deduz que é, justamente, o Eco que consente à palavra permanecer ininterrupta, já que, se a palavra não dispusesse daquele duplo, acabaria como Narciso, em uma paixão especular, letal como toda tentativa de se possuir a si mesmo.” (MANGANELLI. Discorso

dell’ombra e dello stemma, p.97-98.)

21

“não se deixa tocar por quem quer que seja” (MANGANELLI. Discorso dell’ombra e dello stemma, p.99.)

22

Cf. MANGANELLI. Salons.

23

Foi publicada, recentemente, a coletânea dos textos teatrais do autor. Cf. MANGANELLI. Tragedie da leggere.

24

esforços de quem pretende dar, como verdadeiras, as precárias certezas – frágeis pontes lançadas sobre o caos. No coração da literatura, afirma Manganelli, está preso o riso adâmico, demente e conclusivo, aviltante e provocador: “Non c’è una leggenda extra canonica che parla di una gran risata di Adamo morente? Dio dové restare profondamente sconcertato.”25

25

“Não existe uma lenda extracanônica na qual se afirma que, ao morrer, Adão teria dado uma grande gargalhada? Deus deve ter ficado profundamente desconcertado.” MANGANELLI. Il rumore sottile della

Sintesi

Questa tesi analizza l’opera letteraria e critica dello scrittore italiano Giorgio Manganelli partendo da due nozioni-chiave: antinarrativa e

metafisica negativa. Con il termine antinarrativa si designano le

procedure di costruzione testuale che cercano di evitare la linearità e la teleologia del pensiero nelle opere letterarie di finzione. Tramite il predominio di figure come il paradosso, l’ossimoro e l’adunaton i libri di Manganelli sfruttano le fortuite determinazioni del reale e rendono esplicita l’impossibilità – ma anche la necessità – dell’esistenza, della conoscenza e del discorso. Il reale viene concepito come risultato dell’interpretazione ed è ritenuto impossibile senza la partecipazione del soggetto; l’impostazione epistemica come rigorosamente arbitraria e il linguaggio come radicalmente incongruente. Il modo in cui questi presupposti si compenetrano e si congiungono nell’opera di Manganelli è qui denominato come metafisica negativa – una metafisica che non si fonda sull’atto dell’essere, ma sui possibili dell’essere. La concezione letteraria che si basa su questi principi deontologizza autore, lettore e testo, i quali vengono ad essere percepiti come ruoli pragmatici di un gioco. In questa tesi l’antinarrativa e la metafisica negativa manganelliane sono associate ad una tradizione poetica e filosofica della Modernità contrassegnata dal rifiuto all’ottimismo poco critico della ragione post-illuminista e dalla valutazione del linguaggio nella costituzione e rappresentazione del reale. Si fa anche l’avvicinamento fra la concezione manganelliana della letteratura come performance e le formulazioni dell’Estetica della Ricezione, mettendo in risalto soprattutto nozioni come la trasgressione di frontiere [Grenzüberschreitung] e gli atti del simulare [Aktes des Fingierens], dell’antropologia letteraria di Wolfgang Iser.

Abstract

This thesis analyzes the Italian writer Giorgio Manganelli’s criticism and literary work from two key-notions: the antinarrativity and the negative metaphisics. By the term antinarrativity, the textual construction procedures are designated in order to avoid the linearity and the teleology of the thought in the fictional works. Because of the predominance of figures like the paradox, the oxymoron and the adynaton, Manganelli’s books explore the fortuit, simultaneous and contradictory determinations of the real, and explicit the impossibility (but, also, the need) of the existence, the knowledge and the speech. One conceives the real as resulting from diligences; the epistemic impostation as strictly arbitrary; and the language as radically incongruous. The way those presupposed cites interpose and join each other, thoughout Manganelli’s work, is named here as negative metaphisics – a kind of metaphysics which does not found itself on the being’s act, but on the beings best to do something. The literary conception, that is based at those principles, misontologies the autor, the reader and the text insofar as they become realized just like pragmatic roles during a game. In this thesis, the manganellian antinarrativity and negative metaphysics are associated with a poetic and philosophical tradition of the modernity characterized by the refusal to the little critical optimism of the post-Enlightenment and by the valorization of the language’s role in building and representing the real. An approach between the performing conception of the manganellian literature and the Aesthetic of the Reception formulations points out, especially, some notion like the transgression of the borders [Grenzüberschreitung] and the acts of pretending [Aktes des Fingierens] from Wolfgang Iser’s literaty anthropology.

Belgede İslâm Hukukunda Dâva Vekâleti (sayfa 117-120)