A. DÂVA VEKİLİNİN BORÇLARI
2. Özen Borcu
Em meio ao “rumor da prosa” manganelliana, é inconfundível a presença de Schopenhauer, que se faz sentir por meio da concepção (platônica) de que o mundo da experiência é aparência e não a realidade; uma representação, incapaz de existência objetiva sem o concurso de um sujeito que o organize. Em Hilarotragoedia, a “vocação descitiva”, a “hadestinação”, a irracionalidade última e a enteléquia do cosmos e do humano mostram, em grande medida, o pessimismo com que o mundo é reduzido a vontade e representação.
Schopenhauer toma explicitamente, como ponto de partida, a distinção kantiana entre o objeto tal qual aparece ao sujeito (fenômeno) e o objeto em si mesmo (a coisa-em-si ou númeno). Para Kant, na relação de conhecimento, são impostas ao númeno as condições do intelecto que o conhece. Isso quer dizer que todo conhecimento reflete, necessariamente, as contingências epistêmicas às quais está subordinado o sujeito4. A partir disso, Schopenhauer conclui: “o mundo é minha representação”5 – uma síntese entre a consciência e a realidade exterior.
As condições kantianas que enformam a percepção da realidade são reduzidas, por Schopenhauer, ao tempo, ao espaço e à causalidade. Tais “condições formais do objeto” são designadas como “princípio da razão”. Afirma-se, com isso, que tudo que é conhecido como real é uma projeção dessas relações de determinação que o intelecto estabelece: uma realidade, portanto, “puramente relativa”. Assim como cada instante da duração “só existe com a condição de destruir o precedente que o engendrou”, o “mesmo nada” se encontra “em
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Kant explica o conhecimento a partir das formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e dos esquemas, juízos e categorias que constituem as condições determinantes da percepção humana da realidade. Citam-se aqui os esquemas e as respectivas categorias: quantidade (unidade, pluralidade, totalidade), qualidade (realidade, negação, limitação), relação (inerência e substância, causa e efeito, ação recíproca entre agente e paciente) e modalidade (possibilidade e impossibilidade, existência e não-ser, necessidade-contingência). Cf. KANT. Crítica da razão pura, p.109.
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todas as outras formas do princípio da razão”6. A realidade da representação reside na sua atividade de combinação – no jogo, diria Manganelli – com outras representações. Sublinha- se o dinamismo dessa ontologia vinculando a realidade à ação7.
Para Schopenhauer, o princípio da razão é, no entanto, apenas uma minúscula parte de uma realidade infinitamente mais ampla: “a consciência é a mera superfície de nossa mente, da qual, como da terra, não conhecemos o interior, mas apenas a crosta”8. Antecipando, assim, a psicanálise freudiana, Schopenhauer postula uma espécie de inconsciente, algo que está “fora do domínio do princípio da razão”9. A inteligência individual não é capaz de perceber o mundo como “forma objetiva da vontade única e indivisível”10. Ao contrário, o mundo que se vê é um engano:
o que se mostra [à inteligência], em vez da coisa em si, é só o fenômeno sob as condições do tempo e do espaço, do princípio de individuação e das outras formas do princípio da razão suficiente. E com esta inteligência assim limitada, ele não vê a essência das coisas, que é uma só, mas vê as suas aparências e vê-as [sic] distintas, divididas, inumeráveis, prodigiosamente variadas, mesmo opostas.11
Para expressar o caráter mediato de todo conhecimento, ele se serve de uma imagem que encontra na leitura dos Vedas e Puranas hindus – o véu de Maya: “Maya é o véu da ilusão, que, ao cobrir os olhos dos mortais, lhes faz ver um mundo que não se pode dizer se existe ou não existe, um mundo que se assemelha ao sonho, à radiação do sol sobre a areia”12. Pode-se perceber, desde já, uma semelhança entre Schopenhauer e Manganelli nessa afirmação de que o real não é captado, mas sim mediado pela razão. Esta condiciona e determina o real, ao invés de oferecê-lo univocamente. Ambos fazem, desse modo, uma identificação entre a realidade e o onírico, entre a racionalidade e o falseamento. Além disso, Schopenhauer e Manganelli se aproximam pela afirmação da preponderância do irracional.
6
SCHOPENHAUER. O mundo como vontade e representação, p.12-14.
7
Em alemão, a palavra realidade é expressa por Wirklichkeit, que provém do verbo wirken, agir. Cf. SCHOPENHAUER. O mundo como vontade e representação, p.15.
8
SCHOPENHAUER apud TORRES FILHO. Vida e obra. In Artur Schopenhauer, p.9.
9
SCHOPENHAUER. O mundo como vontade e representação, p.122.
10
SCHOPENHAUER. O mundo como vontade e representação, p.370.
11
SCHOPENHAUER. O mundo como vontade e representação, p.370.
12
Como já se deixa ver no texto citado acima, Schopenhauer, divergindo do criticismo kantiano, postula que o ser-em-si pode ser conhecido enquanto vontade: uma força cega, independente da representação e não submetida ao princípio da razão. A queda de uma pedra, o crescimento de uma planta ou o comportamento instintivo de um animal são, para Schopenhauer, objetivações da vontade; são tendências sob as quais se oculta uma vontade única, superior, de caráter metafísico13. Tudo encontra seu ponto de confluência nesse princípio irracional que unifica todas as coisas.
Além disso, há uma formulação schopenhaueriana que pode iluminar, de modo especial, os oxímoros e a coincidentia oppositorum tão peculiares na lógica manganelliana. Entre os princípios que condicionam o funciomento da razão, Schopenhauer nomeia o “princípio de individuação”. A razão (e, conseqüentemente, poder-se-ia acrescentar também a linguagem) dispõe o mundo em pares de conceitos opostos, “aquilo que é um só e semelhante na sua essência e no seu conceito nos aparece como diferente, como vários [sic], tanto na ordem da coexistência, como na da sucessão”14. Esse princípio de individuação tudo reduz a estreitas categorias binárias. É assim falseada que a realidade é intelectualmente apreendida. Por isso, comumente se percebe como diverso, descontínuo e oposto aquilo que é parte da mesma e única “vontade universal”. A situação de desamparo da razão que se esforça para impor um mínimo de ordem onde grassa o caos é expressa pela seguinte imagem:
Assim como no mar agitado, quando espumoso e uivante, se eleva e submerge [sic] montanhas de água, o marinheiro, sentado no banco, confia no seu escaler, do mesmo modo, no meio de um oceano de dores, senta-se tranqüilo o homem ainda no estado de indivíduo; abandona-se e confia no princípio de individuação, isto é, no aspecto que as coisas tomam aos olhos do indivíduo, no aspecto do fenômeno. O universo sem limites, cheio de uma dor inesgotável, com o seu passado infinito, o seu futuro infinito, este universo não é nada para ele. Não acredita nele mais do que num conto.15
13
Cf. TORRES FILHO. Vida e obra. In Artur Schopenhauer, p.9.
14
SCHOPENHAUER. O mundo como vontade e representação, p. 122.
15
As oposições percebidas no cotidiano são apenas ilusórias. Na realidade numênica – a vontade que tudo preside no universo e “existe em si em todo fenômeno”16 –, todas as polaridades se resolvem: “a verdade e o fundo das coisas é que cada um deve considerar como suas todas as dores que existem no universo, como reais todas as que são simplesmente possíveis”17. Fora dessa vontade, “toda sabedoria humana repousa sobre o mesmo terreno, um terreno minado”18. Segundo Schopenhauer, “é preciso abandonar o fio condutor do princípio da razão suficiente, subir acima deste conhecimento que se liga todo ao particular, elevar-se até a visão das idéias, furar de lado a lado o princípio de individuação”19. A vontade concebida como um querer irracional e inconsciente, algo sem finalidade, torna o sistema de Schopenhauer profundamente pessimista. Como raiz metafísica do mundo e da conduta humana, a vontade se transforma num “mal inerente à existência do homem”20, a fonte de todo sofrimento. Com a imagem do marinheiro e seu barco em meio ao mar revolto, Schopenhauer representa não só a situação periclitante da razão frente ao real, como também o terror de quem descobre a falência do princípio de individuação e constata a existência dessa irracionalidade maior, que tudo domina.
Essa mesma imagem é retomada e celebrizada por Nietzsche, no Nascimento da
tragédia21, livro incluído por Manganelli na lista de títulos indispensáveis, na série Cento libri
per due secoli di letteratura. No entanto, à experiência do terror descrita por Schopenhauer,
Nietzsche acrescenta também o êxtase, o “consolo metafísico” que a tragédia produz. A derrocada do principium individuationis dá lugar ao inebriamento, ao “superpotente sentimento de unidade”22 que reúne todas as coisas.
16
SCHOPENHAUER. O mundo como vontade e representação, p.372.
17
SCHOPENHAUER. O mundo como vontade e representação, p.371.
18
SCHOPENHAUER. O mundo como vontade e representação, p.371.
19
SCHOPENHAUER. O mundo como vontade e representação, p.371-372.
20
TORRES FILHO. Vida e obra. In Artur Schopenhauer, p.10.
21
NIETZSCHE. O nascimento da tragédia, p.30.
22