1.9. İhracat Teşviklerinin Tarihsel Gelişimi
1.9.2. Cumhuriyet Sonrası 1923-1960 Dönemi
As sociedades, no interior ou acima de suas fronteiras visíveis, são dotadas de uma fixidez relativa. Segundo Fernando Azevedo, “as sociedades se misturam de todas as maneiras, penetram entre suas vizinhas ou são penetradas por elas, dilatam com imigrantes ou os enviam, mantendo-se em perpétua transformação” (pág. 13).
3.1.1. Os êxodos de massa entre o século XIX e XX
Imaginem o seguinte cenário para o Brasil na virada do século XX: fim da escravatura; renovação urbanística na cidade.
O Rio de Janeiro inspirava-se no modo de viver francês até mesmo no que dizia respeito à reorganização urbana, por outro lado o crescimento da classe burguesa fez com que surgisse tanto em Paris como no Rio de Janeiro a vinculação de classes laboriosas a classes perigosas, trabalhadores identificados como possíveis criminosos.
Paralelamente a Itália vivia um momento conturbado, com a expulsão dos anarquistas contrários ao projeto burguês de unificação, além dos excluídos da nova ordem social, trabalhadores e desempregados que simpatizavam com as teorias socialistas e anarquistas viram-se expulsos pelo governo italiano ou forçados a sair por serem perseguidos politicamente, muitas vezes sendo presos ou tendo seus companheiros mortos por terem se envolvido em manifestações ou protesto político, como presencia Severina, a última personagem, inacabada, de Ignazio Silone.
Deste modo, os imigrantes italianos que chegavam ao Rio de Janeiro na virada do século XIX para o XX encontravam-se mergulhados entre doutrinas anarco- socialistas, importantes para a conscientização e organização da nova classe, a classe trabalhadora, e a necessidade de sobreviver, ou melhor, a necessidade de concretizar o desejo que os fizeram transpor um inteiro oceano, o desejo de fare la merica.
Infelizmente, para a maioria dos italianos que aqui chegaram, o eldorado prometido revela-se uma imensa pedreira e não uma generosa mina de ouro. Poucos foram os Matarazzo e muitos os italianos simples, anônimos que fizeram a história nessa nova pátria. Nesse cenário chegam o avô de Vittorio que por seu percurso de vida em Barra poderia ser considerado um representante do primeiro gênero, ou seja um Matarazzo, e já no início do século XX o pai de Renato, representante do segundo gênero.
Os imigrantes que acabavam de chegar, sem ter como voltar, perceberam que se na Itália não se sentiam integrados, aqui não seria diferente. Parte que não está feliz segue em busca da felicidade, de um lugar melhor, onde possamos chamar de lar.
A sociedade do Rio de Janeiro na virada do século era uma sociedade em transformação, mas capitalista, com os mesmos valores burgueses dos países europeus e, portanto, com as mesmas conseqüências. Não é à toa que muitos italianos que não encontraram trabalho ou que eram considerados ideologicamente perigosos também foram expulsos do Brasil, por exemplo o primeiro anarquista a chegar no Brasil, em 1880, de nome José Saul que foi expulso de Pelotas pelas autoridades locais que temiam suas idéias sobre a doutrinação e organização de “Grupos Libertários”, Galileu Botti, diretor do jornal “Gli Schiavi Bianchi”, este foi expulso de São Paulo e do Brasil, V. Cordasco, alfaite de 52 anos, expulso em 1908; J. Caiazo, sapateiro, 35 anos, expulso em 1919, estes denominavam-se anarquistas e por encontrarem-se desempregados foram enquadrados como “vadios”, o que lhes valia expulsão do Brasil (Menezes, 1996, 106 e 108 apud Santos, 1999, 26).
Cabe ressaltar que o desenvolvimento da ideologia libertária no Brasil é fruto não somente do processo migratório, mas principalmente das contribuições sociais, políticas, econômicas vigentes no país, no início do século passado, e que o contingente de imigrantes italianos não se restringia aos grupos anarquiastas e socialistas, mas que em sua maioria era formado de pessoas comuns que por passarem dificuldades sociais nel suo paese vieram ao Brasil a procura de trabalho honesto, comida e casa. Porém, aqui chegando por vezes encontraram exploração e desemprego. Nesse cenário, não muito diferente na prática da Itália, nasce em 1854, da reunião de 34 italianos residentes no Rio de Janeiro, a Società Italiana di Beneficenza e Mutuo Soccorso que tinha como objetivo ajudar “os italianos de quaisquer dos vários Estados da Itália” (“gli italiani di
qualunque dei vari Stati dell‟Italia”; In Cenni, 1975:239 apud Santos 1999:29). A história da fundação da Società Italiana di Mutuo Soccorso, confunde-se com a própria história da imigração italiana na capital e serve como indício de que o Rio de Janeiro não foi apenas uma estação de transição para outros lugares do Brasil.
De diversas regiões da Itália vieram não somente pessoas comuns como também, religiosos, médicos e enfermeiros voluntários, mas com a chegada da princesa D. Teresa Cristina de Maria Borbone, ao casar-se com D. Pedro II em 1843, é que o processo imigratório toma propulsão. Com ela, além do irmão Príncipe d´Aquila vieram amigos da corte e empregados de confiança e abre-se o caminho da migração italiana para a capital do Brasil, ou seja para o Rio de Janeiro e posteriormente para as zonas cafeeiras do sul fluminense e São Paulo.
Segundo Rodrigues, começam a chegar os pequenos comerciantes e profissionais ou
especialistas em algum ofício “que conseguiam trabalho nas fábricas de tecidos, nas indústrias de vidros, nas fundições, na construção civil, nas pedreiras” (Rodrigues, 1984: 12) atrás, de esses, os aventureiros que vinham tentar a sorte na nova terra e os que por circunstâncias políticas ou econômicas adversas viram-se obrigados a abandonar sua terra natal.
Porém, muitos desses italianos não se fixaram na capital, foram para o interior do estado do Rio de Janeiro trabalhar como mascates, como no caso do avô de Vitório, ou em fazendas e praticar agricultura de subsistência em cidades como Resende, Porto Real, Petrópolis, Teresópolis, Friburgo, Valença. Como Santos teve a oportunidade de confirmar essa presença dos imigrantes italianos no sul do estado ao encontrar folhetim “I drammi delle colonie italiane del Brasile”, enredo ambientado em Porto Real (Santos, 1999, 30).
Em meados do século XIX, quando ao formarem-se dois povoados: São Benedito e Sant’Anna inicia-se a história de Barra do Piraí, cidade na qual encontra-se a colônia de italianos cujas histórias de vida são narradas nessa pesquisa, que seria elevada a município em 1890, que começara a se tornar importante em 1864 com a chegada da estrada de ferro de Dom Pedro II, mais tarde denominada Central do Brasil, cresceu tanto de modo a se tornar centro comercial da região cafeeira e em 1871, com a
construção de novos ramais na estrada, ligando São Paulo a Minas Gerais, tornou-se o maior entroncamento da América do Sul.
Atesta Menezes que em 1880 c.a. há um aumento da imigração e os italianos mais humildes que optam por permanecer na capital dedicam-se ao comércio ambulante, como o caso do pai de Renato que trabalhou como peixeiro por vários anos na capital, e exercem várias atividades consideradas menores como “engraxates, jornaleiros, amoladores, sapateiros, varredores de rua, pedreiros, alfaiates, barbeiros, marceneiros e jardineiros” (Menezes, 1996, 77).
Em meio a esse vai e vem de novos personagens, com música diversa em suas falas uma capital modernizada à força como cenário. Um Rio de Janeiro com ares parisienses que tentava se não arrancar, camuflar tudo o que lembrasse as raízes africanas e portuguesas, pois que lembravam o passado de colonização e escravidão. A partir de 1890, tendo sido a República nova forma de governo proclamada em 1889, novos traçados para um novo estilo de governo: planificação de morros, construções modernas seguidas do “Bota-abaixo” das moradias antigas, o que engendraria as primeiras favelas; vielas escuras e fétidas davam lugar a largas e arejadas avenidas numa higienização diferente da pregada por Oswaldo Cruz, pois que essa era de fato não uma metáfora de engenharia sob o comando de Pereira Passos.
A uma mudança de ambiente segue-se uma mudança de estilo de vida, portanto. Naquele momento o chic era voltar as costas para o passado, ordem do dia que infelizmente enraizou-se na alma brasileira. O comportamento da população passou a ser orientado pelo modelo francês. Segundo Menezes: “comportar-se à parisiense tornou-se a representação da nova era. Dos costumes às construções, dos lazeres ao vestuário, o chique era voltar as costas ao passado” (Menezes, 1996,31). A partir dessa época data o “quadrilátero” francês do centro da cidade, os belíssimos prédios em estilo eclético do Clube Naval, Museu de Belas Artes, antiga Faculdade de Belas Artes, a Biblioteca Nacional e o Teatro Municipal. Primoroso conjunto arquitetônico com ares europeus, mais precisamente, em meio ao novo passeio público a larga e ampla: Rio Branco, parisiense.
Infelizmente nem tudo são flores, a bela reforma não incluía o cidadão comum em seu planejamento. A população pobre que habitava o centro da cidade, com a diminuição das ofertas de casas o preço dos aluguéis subiram e os trabalhadores que
moravam no centro e foram despejados para que a construção da atual Presidente Vargas e Rio Branco fossem possíveis viram-se muitas vezes obrigados a dormirem em casas abandonadas na periferia ou mesmo ao relento.
A higienização incluía afastar todos os que pudessem atrapalhar a renovação dos hábitos da capital, principalmente, vadios, prostitutas e mendigos. Tudo em prol da construção de uma imagem “saudável”, afinal, por que se preocupar com que já vivia à margem da sociedade, com excluídos? O mínimo estudo histórico e preocupação social teriam evitado muitos dos atuais problemas do Rio de Janeiro atual.
Ao afastarem-se os trabalhadores do seu local de trabalho gerou-se a dependência desses pelos transportes coletivos e, desde aquela época o sistema de transportes mostrou-se precário. A alternativa a morar nas periferias era a de habitar os morros mais próximos. O que propiciou o encontro de pessoas provenientes de diversas áreas do Brasil e do mundo com os quilombolas, do maxixe, da polca e do choro com o jongo, um verdadeiro celeiro cultural, mas que ao longo das décadas foi inchando, sem infra-estrutura.
Nesse cenário de renovação e efervescência cultural, a Società ajudava aos italianos pobres que, obedecendo-se a nova ordem de exclusão, foram expulsos do centro da cidade para áreas periféricas.
Assim como os italianos foram se dirigindo para diversas áreas, as associações que tinham como base num sentimento de italianidade desenvolvido, multiplicam-se por todo Brasil, mesmo antes da unificação da Itália. Além do fato de tornarem-se italianos fora da Itália e antes mesmo que essa fosse unificada esses imigrantes por se comoverem e sentir-se culpados com as notícias que recebiam por cartas da Itália sobre a situação na qual seus entes queridos se encontravam, passaram a enviar as tão bem- vindas remessas de dinheiro. Não é estranho que décadas mais tardes, nos anos „50 uma das fórmulas do governo italiano para gerar o milagre econômico tenha sido a de estimular a emigração criando diversas peças publicitárias para que essa fosse estimulada.
No filme Cari F...amici (caros F.... amigos) o narrador começa descrevendo suas memórias na cidade de Florença durante a libertação da seguinte forma:
“Piazza Del Duomo”, Carmine - agosto 1944. Meu nome é Gino Martini e eu
tinha 20 anos na época. Lembro-me de tudo como se fosse hoje. Florença fora libertada pelos americanos que eram, em sua maioria ingleses (...) que sempre foram egoístas e arrogantes com os povos conquistados. De fato, em Florença não deram uma bolacha sequer, nem uma ervilha seca, por isso estávamos todos famintos. Fechados em casa por mais de quinze dias, sem luz, sem água e sem gás, comendo a palha das cadeiras”.
Pesquisar sobre a imigração italiana no Brasil por meio de depoimentos, de relatos pessoais é uma forma de conhecer um pouco a história de dois povos: o italiano e o brasileiro e descobrir particularidades de universos micros ao invés de somente se basear em fatos que se referem ao macro. Ao investigarmos o micro nos deparamos com pontos de vistas como o da personagem do filme relatado, posições que nem sempre seguem o politicamente correto por expressar sentimentos de seus declarantes.