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Afinal, do que é feita a paisagem? O que existe nela que justificou, inclusive, um tipo específico de pintura já existente entre os romanos antigos, os chineses durante o primeiro milênio da era cristã, e tão apreciada na Modernidade, a chamada pintura de paisagens? Por que desperta para a contemplação, para o belo, sendo igualmente cenário de medo? Por que tem sido frequentemente confundida com natureza?

As respostas a estas perguntas estão no modo como os elementos e os fatores7 da paisagem são vividos, percebidos e concebidos.8

Os elementos e fatores da paisagem são, até certo ponto, os mesmos que se encontram na constituição do espaço; porém, na primeira os atributos estéticos se sobrepõem aos de área ou superfície, determinantes no segundo. Os fatores da paisagem são constituídos por elementos materiais, que são as formas ou objetos; e por elementos imateriais, que conferem conteúdo àqueles.

As contribuições de Santos ([1971] 2008; 1978; [1988] 2014) permitem propor uma análise da paisagem com base nas formas e conteúdos, inseridos nessa totalidade que é a estrutura: o espaço, mais a sociedade e a natureza. Para este autor,9 a sociedade modifica e

7 Elementos são definidos, a partir de pressupostos da Filosofia e da Química, como as partes (ou substâncias)

mais básicas das “coisas”, e essas são determinadas, mais além, por fatores que resultam do agrupamento de elementos (MICHAELIS, 2015).

8 O vivido (espaço de representação), percebido (espaço material) e concebido (representação do espaço) (Cf.

LEFEBVRE, [1974] 2007; HARVEY, [1990] 1992) não são categorias centrais do presente trabalho, porém estão sendo mencionadas porque a experiência humana para com a paisagem parte do espaço geográfico.

9

“Pour en revenir au problème de base, disons que la société produit le paysage, mais cela ne se fait pas sans

médiation. C'est pourquoi, à côte des formes et de la structure, nous devons tenir compte des fonctions et des

processus qui, par l'intermédiaire des fonctions, ont transformé l'énergie sociale dans les formes » (SANTOS, 1978, p. 73, grifos do autor).

produz a paisagem com a mediação das funções, que vão conduzir os processos, as formas e, como um todo, o espaço geográfico na condição de estrutura.

Não se pode omitir que estas considerações estão voltadas para uma interpretação do espaço socialmente produzido, enquanto a natureza, embora presente, não ocupa senão um papel secundário. Mesmo que se tenha em mente o papel crescente da ação humana sobre a natureza nos últimos milênios e, principalmente, nos últimos três séculos por conta da industrialização, aumento da urbanização e do crescimento populacional (GOUDIE, 1981), deve-se conferir o peso justo aos elementos e fatores naturais, os quais, sob graus diversos de alteração, possuem conteúdos próprios.

Assim, a análise da constituição da paisagem passa pela distinção entre os elementos ditos “naturais” e os “humanos”, a par da consideração dos impactos da ação antrópica sobre a natureza. Esta etapa é, dentro de uma abordagem sistêmica, um nível inicial de análise que antecede o entendimento da natureza terrestre como um conjunto integrado e complexo de elementos (KUGLER, 1976; TRICART, 1977; ABREU, 1985; ROSS, 2006).

Os elementos naturais são abióticos ou bióticos, ou, dito em outras palavras, biofísicos. Elos são, em sua gênese, independentes da ação humana, e em face de mudanças ocasionadas por esta tais elementos mantêm algumas de suas características originais e continuam sendo animados pelas forças telúricas internas, isto é, oriundas do interior da Terra – tectônica, vulcanismo, gravidade; ou por forças externas, que provêm de fora do planeta – interações com o sistema solar (Fig. 5).

Os fatores antrópicos, ao constituir um terceiro grupo de forças (atividades humanas) (Fig. 5), complexificam a análise da constituição e dinâmica da paisagem e, por conseguinte, do espaço geográfico.

As atividades humanas são, conforme destacam Tricart e KiewietdeJonge (1992), de uma “natureza diferente”, e resultam do uso de tecnologias inventadas no tempo histórico, o que ocorre de modo desigual espacialmente de acordo com o nível técnico e a organização sócio-política e econômica das sociedades humanas.10

Trata-se, conforme mencionado no item anterior, do que Santos (1996), Suertegaray (2000, 2002) e Ross (2006) discutem como a natureza artificial, tecnificada ou instrumental, ou ainda, de tecnosfera.

10

Do texto original, acima traduzido, foi substituída a categoria de superfície terrestre pela de espaço geográfico: “The third input, ‘human activities’, is of a different nature. It is a result of the technology invented during time

historical and which is used unequally on the Earth’s surface according to the technical level and socio- political and socio-political and economic organization of human societies” (TRICART; KIEWIETDEJONGE,

Figura 5 – O sistema terrestre natural: esquema de fluxos de matéria e energia.

Nota: as linhas de setas nas duas pontas indicam a recíproca interação entre dois fatores ou conjuntos de fatores; uma ponta apenas denota influência em uma única direção.

Fonte: Tricart e KiewietdeJonge (1992, modificado).

Coloca-se, então, a dificuldade de considerar o “natural” em face de um contexto ambiental, isto é, as relações sociedade/natureza, no qual praticamente todo o sistema terrestre já foi impactado de algum modo pela intervenção humana. Se a mediação entre a sociedade e o espaço-paisagem ocorre por meio das funções, que dão sentido e dinamizam as formas (SANTOS, 1978), a mediação para com a natureza e seus híbridos está, objetivamente,11 na utilização do trabalho e das técnicas, ocasionando um impacto ambiental. De acordo com Coelho (2000, p. 24-25),

Impacto ambiental é, portanto, o processo de mudanças sociais e ecológicas causado por perturbações (uma nova ocupação e/ou construção de um objeto novo: uma usina, uma estrada ou uma indústria) no ambiente. Diz respeito ainda à evolução conjunta das condições sociais e ecológicas estimulada pelos impulsos das relações entre forças externas e internas à unidade espacial e ecológica, histórica ou socialmente determinada. É a relação entre sociedade e natureza que se transforma diferencial e dinamicamente.

11

A mesma autora afirma que “No estágio de avanço da ocupação do mundo, torna-se cada vez mais difícil separar impacto biofísico de impacto social” (COELHO, 2000, p. 25), uma vez que, na produção dos impactos ambientais, as condições ecológicas alteram e são alteradas pelas condições culturais, sociais e históricas. Pode-se reconhecer aí um paralelo com Tricart e KiewietdeJonge (1992), na medida em que estes consideram as atividades humanas como um input de matéria e de energia do sistema natural terrestre (Fig. 5). Ross (2006, p. 54) sintetiza este aspecto: “Diante desses conhecimentos, as sociedades humanas não devem ser tratadas como elementos estranhos à natureza e aos ambientes onde vivem, mas precisam ser vistas como parte fundamental dessa dinâmica de fluxos energéticos que fazem funcionar o sistema”.

Neste ponto se coloca o questionamento de um estudioso da História Ambiental, Silva (1997), acerca da separação formal entre paisagens físicas e culturais, propondo uma análise em termos de continuum entre elas. Na busca de um viés holístico, sistêmico, que integre os processos naturais e os sociais, ele afirma que:

A distinção entre paisagem física e paisagem cultural, como feita na história, e que prevalece na geografia, deve ceder espaço para uma nova visão, cuja ênfase recaia nos resultados na ação do homem sobre o meio ambiente. Devemos entender a natureza, nesta visão, não mais como um dado externo e imóvel, mas como produto de uma prolongada ação humana […] (SILVA, 1997, p. 204).

Para este autor, a paisagem aparece como resultado dos fatores atuantes na transformação da natureza na longa duração:12 (1) os dados da geografia física; (2) os dados do direito; (3) a tecnologia disponível; (4) os dados da demografia, e; (5) os dados da sociologia. Apesar de serem válidas para uma análise integrada, de cunho ambiental, as considerações do autor limitam a geografia aos dados materiais determinados pelo contexto locacional: “A geografia apresenta-se, assim, como condição sensível inicial, mas incapaz de determinar qualquer processo linear de evolução” (SILVA, 1997, p. 212).

Outro historiador, Almeida (2011, p. 247),13 tem uma visão integradora semelhante à de Silva (1997):

12 Longa duração no estilo de Braudel ([1958] 2007), que a entende como a história ritmada por um tempo mais

lento, isto é, de transformações lentas.

13 Tanto a chamada História das Paisagens, à qual se alinha Silva (1997), quanto a História Ambiental, seguida

por Almeida (2011), são correntes que enfatizam as relações sociedade/natureza ao longo do tempo. Os referenciais, porém, são diferentes, uma vez que o primeiro autor citado tem como base a Antropologia e a Geografia, e o segundo, a Física (termodinâmica) e a Sociologia (marxismo).

Em nossa proposta, admitindo as alteridades, incertezas e procurando o diálogo, estamos compreendendo que estas partes, unidades retiradas de um todo, significam o grande conjunto conceitual histórico e ambiental: matéria, tempo, espaço, energia, cultura, política, constituindo-se em constelações de conceitos que nos possibilitam uma reflexão em história ambiental.

A proposta acima reescreve a anterior. Fez-se uma adaptação de ambas para entender os elementos naturais e humanos, materiais e imateriais, que constituem a paisagem (Fig. 6); e que permite, também, fazer a releitura do esquema geossistêmico apresentado anteriormente (Fig. 5). Tais elementos se combinam de modo diverso em formas e conteúdos que, tomados em conjunto desde uma determinada escala de observação, são a base dos fatores que caracterizam a paisagem e respondem por sua dinâmica, a exemplo dos rios, da vegetação, do relevo, do clima, das edificações, dos modos de produção e dos tipos de uso da terra.

Figura 6 – Esquema de compreensão dos elementos constituintes da paisagem. Fonte: elaborado pelo autor.

Espaço e tempo são as totalidades que determinam, em interação, as escalas de análise. Pode-se mesmo dizer que ambos possuem um princípio filosófico estruturador, colocado na Geografia desde o século XVIII com as ideias de Kant (THATAM, 1959) e assumindo, portanto, status de categorias.

O esquema proposto (Fig. 6) é, na sua essência, sistêmico, complexo e não linear. Nele consta um segundo conjunto de elementos: matéria e energia, que respondem pelos princípios físicos da constituição e da dinâmica da paisagem, que Tricart e KiewietdeJonge (1992),

FORMAS CONTEÚDOS PAISAGEM ESPAÇO TEMPO MATÉRIA ENERGIA ZOOLOGIA FITOLOGIA CULTURA POLÍTICA ECONOMIA

dentro de uma perspectiva geossistêmica, entendem numa estrutura de fluxos. As fontes principais de energia (forças) que animam o sistema terrestre são, conforme mostrado anteriormente (Fig. 5), oriundas de inputs extraterrestres, do interior da Terra e das atividades humanas, o que dá uma ideia das forças telúricas e artificiais atuando de modo contínuo e integrado na paisagem. Matéria é a própria natureza original ou artificializada. Todos os estratos genuinamente físico-terrestres estão representados neste nível: litosfera, hidrosfera, atmosfera e biosfera.

Os elementos mais genuinamente humanos ou sociais estão na cultura, economia e política, compondo um terceiro tipo de elementos, equivalente à noção de noosfera proposta por Vernadsky (1945). As sociabilidades; sistemas de signos; formas de uso do tempo; técnicas e tecnologias; instituições e organizações culturais, políticas e territoriais; e os modos de produção, de uso e de exploração dos recursos naturais são elementos importantes a serem considerados na análise da paisagem.

Por fim, entra em cena a vida, com as populações humanas e as não humanas, que têm ambos um papel muito distinto na configuração e dinâmica da paisagem.

Os grupamentos de animais não humanos (zoologia) e os vegetais (fitologia), em suas formas e funções, são originários das paisagens nativas e permanecem, com diferentes graus de transformação e estoques de vida alterados, nas paisagens antropizadas.

A ação humana, conforme já discutido, possui um papel central na dinâmica e na configuração da paisagem, dado o poder crescente das técnicas em intervir no ambiente e transformar a natureza. A própria concepção da paisagem é, essencialmente, produto do intelecto humano (EBERLE, 1980). Além da cultura, da política e da economia, possuem destaque, na consideração dos elementos humanos, o modo como os povoamentos rurais e urbanos estão distribuídos nos espaços/territórios.

Benzer Belgeler