A preocupação com a capacitação para o mercado de trabalho sempre esteve na pauta das práticas que envolvem a inclusão dos surdos. Skliar (2005) diz que com o surgimento da industrialização, houve a necessidade de preparar os sujeitos para serem produtivos. A escola de surdos coloca entre seus objetivos o preparo da pessoa surda para o mercado de trabalho, a fim de evitar que ela se torne uma carga para a família e a sociedade. No Instituto Nacional de Jovens Surdos de Paris, os jovens eram treinados para habilidades profissionais de encadernação, artes plásticas, confecção, marcenaria e artes gráficas, bem como exercitados para o cumprimento das rotinas que deveriam enfrentar no trabalho dentro das fábricas. A educação para o trabalho era discutida durante seminários, onde se apresentavam projetos para a qualificação de surdos na área de marcenaria, cabeleireiro e cerâmica.
Reforça essa afirmação um trecho de uma carta mostrado no trabalho de Soares (1999). Essa carta, escrita por Tobias Leite, médico sergipano que exercia a função de diretor do Instituto Nacional de Jovens Surdos de Paris, era dirigida aos pais e integra um compêndio de mais de quatrocentas páginas que orientava os professores para o ensino de surdos:
Das artes e officios devem ser preferidos os que podem ser exercidos em qualquer parte, cidade, ou pequenos povoados. Sapateiro, alfaiate, correeiro, torneiro, oleiro, chapeleiro, tintureiro, impressor e encadernador, são industrias que muito lhe convém [...] nas fábricas de fiar, tecer, e outras congêneres, os surdos-mudos são muito apreciáveis, não tanto porque aprendem facilmente, mas porque são fidelissios executores das instruccções e ordem do patrão (LEITE, apud SOARES, 1999, p. 22-24).
Nos dias atuais ainda se percebe essas práticas de direcionamento de surdos para tarefas de exercício repetitivo, embora tenham sido ampliados os núcleos dentro de escolas, ONGs e instituições particulares que preparam o surdo para outras tarefas, como a administrativa, por exemplo. Ao serem contratados pelas empresas são designados para funções que não exigem o exercício da intelectualidade, atuam por vezes durante anos seguidos sem que nenhuma tarefa diferenciada lhe seja
atribuída. Nas agências bancárias são inúmeras as contratações de surdos graduados que atuam na compensação de cheques.
Essa prática, segundo Thoma (1998), é baseada no imaginário social que legitima ideias de que certos indivíduos são superiores aos outros, de acordo com os padrões sociais estabelecidos pela maioria, e que tem a mídia como principal divulgadora. A autora reproduz um quadro que mostra um levantamento de notícias divulgadas durante aproximadamente vinte anos sobre as funções que podem ser desempenhadas por pessoas surdas. O quadro apresenta treze profissões, sendo que nenhuma delas tem status social.
Não obstante a importância atribuída ao trabalho pela maioria dos cientistas sociais, constatou-se pela revisão bibliográfica que na área de administração de empresas poucos estudos foram efetuados com base na categoria de deficientes, menos ainda no que se refere a inclusão de pessoas surdas, sendo a maioria dos estudos realizados na área de educação, na qual foram encontradas oitenta e sete artigos produzidos para o Congresso Brasileiro de Educação Especial, realizado no município de São Carlos em São Paulo em 2013.
É certo que encontrar a forma mais adequada de inserir deficientes no mercado de trabalho tem sido um grande desafio. A falta de conhecimento do empregador com relação a vivência e necessidades dos deficientes, assim como a falta de capacitação profissional dos mesmos para o preenchimento de cargos, dificulta muito o processo de recrutamento e seleção (MACHADO, 2008).
Para que contratações sejam efetuadas, há necessidade de uma série de atividades sob a responsabilidade do setor de Administração de Recursos Humanos. Essas atividades compõem-se de três processos básicos: 1) o recrutamento, que deverá atrair candidatos qualificados e capazes de ocupar cargos na organização; 2) a orientação, que inclui o treinamento para que as pessoas possam inteirar-se do funcionamento da organização; e 3) a dotação de pessoal que analisa as capacidades, competências e conhecimentos que as pessoas devem ter para o preenchimento do cargo.
No que diz respeito a contratação de surdos, as dificuldades começam no processo seletivo e estendem-se durante toda a permanência do indivíduo na empresa. A barreira linguística existente entre surdos e ouvintes dificulta o recrutamento e a avaliação do candidato surdo. Após a contratação, a mesma
dificuldade se verifica nos processos de treinamento, avaliação e integração dos surdos.
Na área de Administração de Empresas encontramos uma recente dissertação de mestrado apresentada por Viana (2010) sobre a inserção das pessoas surdas no mercado de trabalho. O pesquisador critica a postura das empresas:
A falta de sensibilidade em relação a esta questão, apenas alimenta a frágil cultura empresarial de empregar por imposição legal, ou até mesmo por atitudes meramente caridosas, e não por acreditar na capacidade e competência (VIANA, 2010, p. 162).
Embora critique essa postura da empresa, o autor segue opinando que:
considerando as características peculiares dos sujeitos surdos – linguagem visual-motora, aguçamento de outros sentidos como a visão – valeria a pena arriscar em um estudo focado na capacidade do surdo em melhores resultados em cursos de natureza técnica e não tão teóricos (VIANA, 2010, p. 170).
Além de dissertar sobre as questões de surdez, as limitações na convivência com as pessoas ouvintes ocasionadas pelo estigma e questões de identidade, o autor também investiga as políticas públicas, a legislação e o mercado de trabalho para surdos. Conclui que a qualificação profissional das pessoas surdas é um forte agravante do processo de inclusão e ainda sugere um estudo focado na capacidade dos surdos em obter uma melhor formação profissional em cursos de natureza técnica e não tão teóricos, dadas as suas características peculiares de linguagem visual- motora e aguçamento de outros sentidos como a visão.
A sensação de sentir-se estrangeiro em seu próprio país também é apontada por Viana (2010), entre as quatro categorias identificadas na análise do discurso da pesquisa. De fato, percebem-se em narrativas surdas as constantes referências a um “mundo surdo”, como se vivendo num mesmo país que os ouvintes, esses sujeitos pertencessem a outro mundo que se constrói através das relações dentro das comunidades e se fortalecem numa cultura visual que gera atitudes comportamentais diferentes dos ouvintes. Tal fato se assemelha as condições dos estrangeiros que, fora de seu país de origem, sentem-se abandonados e desamparados. Nascidos, em sua maioria em famílias ouvintes, os surdos tendem a ter contato tardio com a língua de sinais.
A língua oral utilizada pela família não lhes fornece a significação necessária ao mapeamento do mundo em que vivem. O primeiro contato com a língua de sinais proporciona-lhes intenso prazer e identificação com seus pares, que não são seus familiares. Começam, a partir desse contato, as chamadas crises identitárias, uma vez que o conforto proporcionado pelo uso de uma língua com a qual se identificam não anula a socialização primária transmitida pelos pais, que na maioria das vezes são usuários de uma outra língua e inseridos em outra cultura. Mesmo que estejam presos por laços afetivos a família e a pátria, sentem uma sensação de não pertencimento, sentimento bem similar ao que se apodera dos estrangeiros, como no dizer de Silva (2007, p. 10): “o lugar materno (país de origem) não perde sua força, o lugar estrangeiro não o substitui, o sujeito não possui mais um lar que o contenha todo”.