• Sonuç bulunamadı

4. TARTIġMA

4.2. Bulguların TartıĢılması

A primeira história traz o meio campo Caio, que iniciou no Vasco da Gama e quem pude acompanhar desde 2011. Como vimos, o jovem esteve presente na seleção brasileira de base desde a categoria infantil. Em seu clube sempre foi visto como alguém de grande capacidade e futuro promissor. Todos no Vasco esperavam que Caio cumprisse as etapas, degrau por degrau, categoria por categoria, e um dia chegasse ao profissional e defendesse as cores do clube de São Januário. Mas problemas extracampo impediram que o garoto seguisse no clube considerado sua “casa” desde que tinha sete anos, quando foi levado pelo pai para jogar futsal. Entre o final de 2013 e início de 2014 Caio rompeu com o Vasco e seguiu rumo ao interior de São Paulo, para bem próximo da cidade onde eu vivia e desenvolvia a pesquisa. O garoto que sempre viveu no Rio de Janeiro com a família passou a morar em Penápolis, no centro-norte paulista, junto do pai e da mãe, que o acompanharam.

Foi através de um litígio jurídico, causado pela falta de pagamentos, que o atleta e os que o rodeiam decidiram por ir-se do Vasco. E foi por acaso que descobri seu paradeiro simplesmente porque já havia considerado que a pesquisa de campo no clube carioca havia acabado. Acompanhava de longe e lia notícias via imprensa especializada; um tanto surpreso, descobri que ele estava defendendo o Clube Atlético Penapolense (CAP), que à época fazia grande campanha no Campeonato Paulista 2014 – estava classificado para as quartas de final e preparava-se para disputar uma partida eliminatória contra o São Paulo.

Cheguei ao Centro de Treinamentos do CAP por volta das 9h30 de uma terça- feira em abril. O local fica no quilômetro dois da “Estrada do Mineiro” e se parecia a uma chácara que um dia estava distante da cidade e possivelmente servia para criação de animais e outras culturas agrícolas mas que, com a urbanização já se encontrava quase que dentro do perímetro urbano e estava rigorosamente adaptada ao propósito de se fazer futebol: campos desenhados, alojamentos e refeitórios construídos, estacionamento para carros e muitas sombras que serviam para abrigar-se do calor que faz em Penápolis na maior parte do ano. Enquanto explicava ao segurança do local e tentava contatar o diretor de futebol, Paulo Carvalho, que havia me assegurado a

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permissão para estar ali, vejo o pai de Caio sentado sob a sombra de um grande quiosque lendo o diário esportivo “Lance!”. Ao aproximar-me e começar a falar, ele logo pareceu arredio e um tanto surpreso, algo já comum em minhas abordagens a familiares de jovens futebolistas. Parecia perguntar-se “Mas o que será que este tipo quer comigo? Por que está falando sobre o meu filho?”, enquanto eu lhe dizia que já havia estado no Uruguai (2011), Itaguaí (2012), Argentina (2013) e Itu (2013), sempre acompanhando o futebol jogado por Caio.

Figura 27: Após uma partida da seleção brasileira no sul-americano sub 15, Caio (de chuteiras laranjas) caminha até o alambrado para conversar com o pai (sentado, de branco, em primeiro plano). Outros

atletas também conversam com familiares. Rivera, Uruguai, 2011

Após oinício um tanto reticente de tentativa de diálogo não demorou muito para que Valinhos, como é conhecido, começasse a falar com mais tranquilidade. Passou a me contar histórias e mais histórias sobre a vida de Caio, do Vasco, do futebol carioca e das seleções brasileiras de base. Levou o filho ao Vasco, seu clube de coração, quando ele tinha sete anos de idade. Quando viram o futebol jogado pelo garoto não o deixaram mais sair. Jogou pelo clube cruz-maltino até quase completar a maioridade e constantemente foi convocado para a seleção brasileira: em meados de 2013, por exemplo, Caio havia disputado mais partidas defendendo a seleção juvenil do que seu próprio clube. Eram dezesseis jogos com a camisa amarela e treze com a vascaína. Os números mostram que se tratava de um atleta promissor. No entanto, com salários atrasados e outras dívidas a serem pagas pelo clube ao atleta, o pai de Caio se viu obrigado a consultar advogados e entrou com uma ação na justiça para o desligamento legal do filho com o clube. Até aquele momento o caso havia passado por instâncias,

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sujeito a inúmeros recursos favoráveis e desfavoráveis e o resultado final ainda não havia sido divulgado, mas o garoto seguia sua vida no interior paulista.

Valinhos disse que seu filho não tinha nenhuma intenção de regressar à antiga casa. Esta declaração era parte sua, parte do garoto: “Aquilo é uma zona. O Caio já falou que não volta mais pro Vasco. Se a justiça nos der ganho de causa, ele segue a vida dele. Agora se der vitória pro Vasco, vai ter que indenizar. Aí a gente indeniza e segue a vida. Mas ele não volta pro Vasco, não!”. Em seguida, explicita sobre os direitos federativos de seu filho: quando da assinatura do primeiro contrato profissional com o clube carioca, estabeleceu-se que o Vasco deteria 60% dos valores em uma possível transação; o DIS, do grupo empresarial Sonda, teria 15% e o próprio atleta ficaria com os 25% restantes. Vejamos que, neste caso, os deslocamentos do jovem futebolista pelo mundo do futebol foram todos pautados pela esfera legal: a partir do não cumprimento do contrato estabelecido entre clube e jogador, é dizer, após o clube ferir um acordo legal, o garoto e seu staff decidiram deixar o ambiente que, até aquele momento, era visto como sua casa.

Desde novembro de 2013 Valinhos estava em Penápolis. Alugou uma casa, paga pelo clube e desfrutava da vida interiorana no estado de São Paulo ao lado da mulher e do filho. A rotina era definida pelos horários de treinamentos e jogos impostos a Caio pelo CAP. Geralmente, acordava cedo para assistir ao treinamento que durava até próximo do meio-dia; às vezes almoçavam no CT do clube, às vezes a mãe de Caio os esperava em casa com o almoço pronto; havendo treinamento no período da tarde, retornava com o filho para o local; e viajava quando das partidas pelo Paulistão 2014. Sua rede de contatos no mercado do futebol foi o que levou a família até ali. Os R$ 10 mil mensais que o Vasco tinha de pagar ao garoto não vinham sendo pagos, assim como as “luvas” de cerca de R$ 300 mil prometidos quando assinaram contrato. Na negociação, o pai pediu que o valor fosse pago em dez parcelas de R$ 30 mil; diante da recusa do clube, aceitou receber quinze parcelas de R$ 20 mil. Acionou a justiça exatamente por não receber o acordado.

Caio acabara de completar dezoito anos. Ainda não tinha habilitação para dirigir, mas deixou o CT do CAP naquele fim de manhã, pós-treino, dirigindo um Hyundai Veloster branco, recém-comprado. O pai saiu logo atrás, num surrado VW Gol preto, acompanhando o filho a alguns metros de distância. Valinhos contou que o garoto

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comprou o carro, vaticinando que “dessa vida nada se leva, vamo tudo para o pó, né?, tem que aproveitar um pouco também, mas com responsabilidade”.

O treinamento daquela manhã havia terminado havia cerca de uma hora. Durante aquele intervalo de tempo, ficamos conversando eu, o garoto e o pai até que em dado momento Caio não mais aguentou e se retirou para dentro do veículo – minha conversa com Valinhos teve início assim que cheguei, pela manhã, enquanto Caio treinava no gramado. Na tentativa de apressar a volta para casa, ligou o carro e pôs-se a escutar música em alto volume, como que demonstrando que já era hora de partir. Valinhos não parava de falar, falar e falar, até que, enfim, deixou-me, despedindo-se educadamente, e tomou a direção do seu carro. Esperou até que o filho passasse pela área do estacionamento onde havia deixado seu veículo e só então o seguiu.

Atentemo-nos à peculiaridade da cena: o carrão fora comprado com o dinheiro ganho pelo filho, jogando futebol. O pai, que parece administrar quase tudo, toma o “devido” cuidado para que o filho não cometa exageros, ao mesmo tempo que solta um pouco as rédeas para que o jovem possa aproveitar os dividendos surgidos a partir do que veem como um dom recebido (seguindo Mauss, 2009).

O relato de Valinhos descrevia Caio para além das qualidades técnicas como futebolista, forjando a imagem de “um garoto abençoado, calmo, tranquilo. O Caio é bem tranquilo” e asseverava que ele nunca iria arrumar confusão ou andar com pessoas erradas. Ilustrou uma situação hilária para comprovar tal comportamento e que foi vivenciada por mim, coincidentemente, durante o Campeonato Sul-Americano sub 15 (Uruguai, 2011): alguns garotos da equipe subiram em cinco, de uma só vez, ao elevador do hotel em que estavam em Trinidad, durante a fase final do torneio. Havia uma recomendação expressa nas portas dos ascensores para que somente duas pessoas por vez os utilizassem. Ficaram presos e foi preciso chamar profissionais especializados para fazerem a retirada dos jovens futebolistas que, naquela noite, disputariam o jogo final e definiriam o título para o Brasil. No episódio, o meio campista Vinícius (Fluminense) teve um mal súbito e chegou a desmaiar.

Após a confusão ser desfeita e os garotos retirados cogitou-se, entre a comissão técnica, não escalar os jogadores envolvidos no pequeno ato de indisciplina. Valinhos disse que temeu pelo título se isso acontecesse, afinal, tratava-se de quase a metade do time titular. Flagrei a preocupação de alguns dos pais de atletas que estavam no Uruguai

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naquela oportunidade, discutindo as possíveis consequências do tal ato de indisciplina na praça em frente ao hotel da equipe. Caio estava em seu quarto, descansando ao lado do amigo e atacante Valdir, e não participou. Ao escutar o pai contando a história, gargalhou com muito gosto.

Na sequência, Valinhos citou o caso de alguns outros atletas que não deram continuidade à carreira por problemas extracampo. Valinhos falou sobre o atacante Daniel Pessoa, que “vivia nas ruas de Manaus roubando e comprando drogas” e do também atacante Thales, que frequentava “todas as bocas de fumo que ficam em volta de São Januário”. Quando citei nome por nome a equipe juvenil titular do Vasco em 2012, numa das vezes que estive em Itaguaí, contou-me sobre o estado atual de todos eles: a maioria não estava mais no clube ou nem jogava mais futebol com vistas a atingir o profissionalismo.

Outro detalhe interessante abordado na conversa foi sobre a instabilidade do futebol de base. Em 2012 Caio havia acabado de retornar de uma excursão ao exterior com a seleção brasileira juvenil. Dois companheiros de clube, os acima citados Daniel e Thales, viviam momentos diferentes: o primeiro era o artilheiro da equipe no torneio disputado e era muito elogiado por todos no clube. Já o segundo era menos badalado e todos ali não esperavam que poderia se tratar, de fato, de um jogador de futuro. Menos de três anos depois e Daniel seguia nas categorias de base, disputando sua última Copa São Paulo, em 2015. Já Thales, com passagens pela equipe profissional – inclusive marcando gols e atuando como titular da equipe – figurava no grupo da seleção brasileira sub 20 que disputou o sul-americano da categoria no Uruguai (em janeiro de 2015). E Caio? De jogador de seleção desde os quinze, tentava, com muita dificuldade, um espaço entre os profissionais do Penapolense aos dezoito. Praticamente não atuou naquele ano, mas seguia treinando com afinco buscando seu espaço. Assim me contava seu pai.

Seguimos falando de outros atletas, como Vinícius, meio campo do Fluminense e também nosso personagem desde 2011. Ao exaltar o bom comportamento do filho Caio, Valinhos contou que o outrora parceiro de seleção sub 15 e sub 17 envolveu-se em um acidente automobilístico durante o carnaval de 2014, em Rio das Ostras-RJ. Internado no hospital àquela altura, o pai de Caio não estava seguro quanto à recuperação do talentoso meio campista, antigo companheiro e amigo de seu filho. Um

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treinador das seleções de base do Brasil já havia exposto sua opinião sobre os problemas extracampo apresentados por Vinícius. Temos aqui sua reprodução:

“O Vinícius é o tipo de jogador que não joga mais comigo. É tecnicamente muito bom, no sub 15 ele resolvia, mas aqui no sub 17, não. Às vezes ele arrebenta no primeiro tempo e depois anda no segundo. É porque ganha muito dinheiro, aí a mãe é muito chata, o garoto se acha e não vinga”.

Mais uma vez vê-se que, com o passar do tempo, o quadro pode ser alterado por influência de diversos fatores que, como estamos tentando demonstrar, às vezes fogem da alçada dos que estão envolvidos diretamente com a produção e maximização dos talentos no contexto do futebol de base e aqui a esfera da produção desses atletas (mais do que uma metáfora econômica) esbarra na produção da vida que, alheia aos preceitos da evolução e do progresso técnico e moral unilaterais, tal como adverte Lévi-Strauss ao equacionar o progresso das culturas, impõem dilemas e circunstâncias mais complexas na condução das carreiras esportivas desses jovens.

Em 2011, então no sub 15, Vinícius fez um excelente campeonato sul-americano defendendo a seleção brasileira. Vestia a camisa 10 e foi muito elogiado pelos que acompanharam aquele torneio. Trazemos aqui um pequeno relato de campo quando desta competição, etnografada por este trabalho:

“É impressionante, por exemplo, a facilidade de domínio, controle e condução de bola e drible de Vinícius. Nesta partida contra os bolivianos (Brasil 6 x 1 Bolívia, dia 24/11/2011) ele fez uma jogada espetacular que arrancou aplausos da pequena torcida que via o jogo. Preso junto a linha lateral e marcado de perto pelo adversário, ele tentou lhe jogar a bola por cima, num lance de difícil execução, conhecido como “chapéu”, em um espaço curtíssimo e com a parte de fora do calcanhar direito. Já havia deixado o adversário para trás, mas a cobertura chegou a tempo de colocar a bola em escanteio. O mesmo pode se dizer do meio campo Caio: forte fisicamente, tem excelente controle de bola com o pé esquerdo e boa visão de jogo. Durante o Campeonato Paulista sub-15, como mote de comparação com os cariocas da seleção, não vi nenhum jogador com capacidade parecida. Acredito que a maior dificuldade do técnico brasileiro é tentar fazer com que esses jovens atletas utilizem toda essa qualidade técnica em prol do time. Eles insistem em jogadas individuais, dribles sem muita efetividade, mas, mesmo assim, lances muito ousados e um tanto plásticos. O excerto a seguir, publicado em um website especializado em futebol de

173 base, demonstra a grande capacidade para jogar futebol apresentada precocemente pelo meio campo Vinícius:

“[Campeão carioca sub-17 e vice-campeão carioca sub-15. O ótimo retrospecto do Fluminense em nível estadual passa, e muito, pelo bom futebol de Vinícius, desde o último ano apontado como a grande estrela da base tricolor. Seja pelo juvenil ou pelo infantil, o filho pródigo de São Gonçalo fez a diferença nas duas competições, ainda que tenha perdido a decisão do Sub-15. Nascido em 1996, Vinícius foi promovido para a categoria juvenil com um objetivo claro: enfrentar rivais mais fortes, propor novos desafios para a carreira e evoluir de forma mais rápida. O resultado dessa espécie de plano de carreira é aparentemente acertado, mas ele ainda precisa provar sua evolução em território internacional: ao lado principalmente do trio vascaíno Danilo-Caio-Valdir, é o nome a ser observado na seleção brasileira no próximo Sul-Americano Sub-15 – a estreia do Brasil é na sexta-feira. Por enquanto, Vinícius já tem provado que merece os comentários positivos. Promovido para o time sub-17 no Campeonato Carioca, conseguiu ser titular e obter destaque ao longo de boa parte do torneio. Se ainda falta aprimorar o envolvimento com o jogo e a finalização, o meia-atacante progrediu de forma natural mesmo contra garotos dois anos mais velhos. O drible fácil, a velocidade e a técnica apurada contribuíram para que o Flu chegasse até a decisão. Mas foi aí que, para tentar equilibrar forças contra o badalado time sub-15 do Vasco, que Vinícius voltou para a final infantil. No fim das contas, os vascaínos confirmaram o título com placar apertado, mas um dos melhores em campo, na finalíssima, foi ele mais uma vez. Apesar de não levantar a taça, Vinícius deixou os dois estaduais com a sensação do dever cumprido e a sensação de que, em 2012, pode se aproximar de sua primeira chance no grupo principal, possivelmente na temporada seguinte. Agenciado pela Traffic, Vinícius já é tratado como joia rara dentro do Fluminense. Em sua última lesão, segundo pessoas próximas, ele quebrou o protocolo e, em vez de se recuperar em Xerém, foi conduzido até as Laranjeiras para que pudesse contar com melhor estrutura. O Peter Siemsen, que costuma citá-lo como um dos grandes ativos econômicos do Flu para o futuro, já até lhe convidou para acompanhar as partidas em seu camarote no Engenhão. Mimos e luxos à parte, o ponto mais importante no que diz respeito a Vinícius é sua evolução especialmente a partir da convivência com o treinador Caio Couto. Ex-comandante da categoria sub-15, ele foi promovido para os juvenis no início do ano e foi quem, durante a temporada, auxiliou no crescimento da grande joia de Xerém. A meta é manter a curva ascendente, o que recomeça no Sul-Americano do Uruguai]125”.

Em 2013, no sul-americano seguinte (já sub 17), Vinícius pouco atuou, entrando quase sempre no decorrer dos jogos. Perdera a posição de titular incontestável. Na sequência, não foi convocado para o período de treinamento e preparação da equipe que disputou o Mundial da categoria, em novembro. À parte o mau momento vivido dentro de campo, temos ainda o acidente automobilístico que, segundo contou-me Valinhos,

125 Coluna do jornalista Dassler Marques no website http://www.olheiros.net. O site é especializado em futebol de base no Brasil e no mundo. O texto foi publicado no dia 15/11/2011, pouco antes do início da competição.

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fez com que sua entourage já não depositasse tanta confiança em seu futuro como profissional da bola.

Valinhos emocionou-se e quase conseguiu segurar as lágrimas quando se pôs a falar sobre as dificuldades na busca pelo sonho do filho tornar-se futebolista profissional. Para levar Caio até São Januário eram necessários dois ônibus e mais uma caminhada de cerca de vinte minutos. Era preciso cruzar uma favela e Valinhos contou que chegava a tapar os olhos do filho para que não visse a violência das ruas da capital fluminense: eram corpos sendo carregados em carriolas, a serem desovados no rio que cortava o lugar. Com os olhos molhados e prestes a derramar lágrimas, afirmou: “É, eu já gastei sola de sapato com esse moleque”.

Pai e filho passaram a impressão de estarem bem adaptados à cidade de Penápolis. Caio se disse feliz por disputar a primeira divisão do Campeonato Paulista e Valinhos via com bons olhos que o filho tinha um bom lugar para trabalhar, treinar, manter a forma física e receber em dia. Disse também que ficou bastante surpreso quando conheceu a estrutura do CAP e deixou escapar que sua passagem pela pacata cidade do centro paulista é estritamente temporária. Como já visto, parecia manipular a ideia de projeto: “O Caio tá aqui dando um tempo, né. Enquanto isso vão aparecendo algumas coisas”, disse sobre o interesse de clubes brasileiros e estrangeiros no futebol do jovem atleta. Segundo o segurança do CT, Rubão, que assistia a todos os treinamentos diários e foi quem introduziu a conversa com o pai de Caio, o garoto iria para o FC Porto assim que o Campeonato Paulista terminasse, algo que poderia ocorrer já na semana seguinte àquela visita, quando a fase final começaria a ser disputada e, havendo uma derrota, encerrar-se-ia a participação do clube tricolor – o CAP tem três cores na camisa (azul, vermelho e branco). Valinhos confirmou-me ter ido ao norte de Portugal, havia pouco tempo, para ouvir propostas e conhecer as intenções do clube azul e branco no futebol de seu filho. Junto da mulher, também acompanhou o garoto quando Caio foi convidado para treinar no Arsenal FC, de Londres. Foram quinze dias passando frio, segundo confidenciou-me, e o retorno ao Brasil sem a aprovação buscada.

Valinhos não via com bons olhos os dirigentes de futebol: “como eu posso concordar com uma diretoria que tem um garoto muito bom, pronto para estourar, e não

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paga R$ 10 mil de salário? E vai lá e contrata o Douglas e paga R$ 400 mil126? Eu é que