4. TARTIġMA
4.1. Bireyler ve Yöntemin TartıĢılması
Juntando as óticas trabalhadas neste capítulo, pensemos no que pode significar o avanço de futebolistas entre as categorias com o correr da idade: a relação estabelecida entre estes e seu meio parece ser caracterizada por crescimento, mudança e
157
autoafirmação. Como podemos imaginar, futebolistas deste estágio têm seus corpos alterados muito rapidamente exatamente pela idade em que se encontram. Chamou-me a atenção, por exemplo, a diferença entre jogadores que vi no Campeonato Paulista sub 15 e, meses depois, no Sul-Americano da mesma categoria. Entre os atletas selecionados a força física exibida era muito maior, já que foram eleitos aqueles mais bem preparados do ponto de vista físico, também. Evidentemente, a esfera técnica foi levada em consideração.
Quando reencontrei Caio treinando em Penápolis, logo me lembrei do garoto franzino que carregava a bola com desenvoltura atípica para um jovem de quinze anos e que vestia a camisa 10 da seleção brasileira no Uruguai. Meses depois, mais maduro, havia crescido de tamanho, exibindo mais força e mais técnica quando em treinamento no CT de Itaguaí, defendendo o Vasco. E em 2014, mostrava-se já um adulto entre os profissionais do Penapolense: voz grossa, corpo torneado e dirigindo seu próprio automóvel. Não exibia espinhas no rosto, mas barba que já era feita, e as palavras de seu pai confirmavam que, àquela altura, o garoto havia se transformado substancialmente, num processo natural pelo qual, no limite, todos passamos.
Não é difícil imaginar que à medida que caminhamos pelos cenários observados, entre clubes e seleções, percebemos claras mudanças logo na aparência dos futebolistas acompanhados. Passou-se um tempo e quando retornei a Itaguaí, noutro exemplo, encontrei alguns garotos que logo reconheci, mas que pareciam diferentes. Estavam maiores, mais maduros, mais fortes, mais técnicos, mesmo poucos meses depois. É por isso que pretendo caracterizar a passagem deste tempo como um processo de crescimento dos futebolistas.
É como se víssemos a vida de um futebolista como uma folha em branco e que vai sendo preenchida ao longo do tempo, construída através de habilidades adquiridas e conhecimentos forjados. É história sendo escrita. De acordo com Guattari, “o saber é aquilo que é; não se pode passar sem ele para adquirir um mínimo de ‘tônus’, de consistência, face a um paciente ou face a uma instituição. Mas ele é feito essencialmente para ser desviado” (Guattari, 1992: 201). Um conhecimento adquirido representa um ganho, uma aquisição que soma ao todo, que cresce, um artefato que enriquece e torna mais robusta uma dada subjetividade. Segundo Ingold (2000):
158 “That is to say, they emerge [the forms of the artefacts] – like the forms of living beings – within
the relational contexts of the mutual involvement of people and their environments. Thus there is, in the final analysis, no absolute distinction between making and growing, since what we call ‘making things’ is, in reality, not a process of transcription at all but a process of growth119” (Idem: 88).
Tal crescimento ou conhecimento é integrado ao indivíduo a partir de suas movimentações: “for all of us, in reality, knowledge is not built up as we go across, but
rather grows as we go along120” (Ingold, 2007: 102). Como já apontado nesta tese, a vida de nossos interlocutores pode ser concebida a partir da noção ingoldiana de linhas, linhas estas que tem seu final em aberto:
“lines are open-ended, and it is this open-endedness – of lives, relationships, histories and
processes of thought – that I have wanted to celebrate (...) Indeed the line, like life, has no end. As in life, what matters is not the final destination, but all the interesting things that occur along the way. For wherever you are, there is somewhere further you can go121” (Ibidem: 169-170).
Temos, assim, aspectos objetivos e subjetivos que são medidos, esquadrinhados e, no limite, perseguidos pelos profissionais que acompanham futebolistas de base. Caso pensemos no tempo tomado pela etnografia realizada, durante os quase quatro anos não só os corpos dos jogadores sofreram mudanças como também o seu “jogar”: para o bem ou para o mal, melhorando ou piorando, subindo ou descendo de categoria, seguindo ou não dentro desse universo. Como são vários os personagens, estabelecemos um olhar mais distanciado e procuramos por fatores comuns: o que vemos é que todos crescem, agregando energia, força e diversos outros elementos a partir de distintas lógicas, não somente às que se relacionam ao que ocorre dentro de campo. Como um compósito, tais
119Em tradução livre: “Isso quer dizer, elas emergem [as formas dos artefatos] – como as formas dos seres vivos – dentro do contexto relacional do mútuo envolvimento de pessoas e seus meios. Então não há, no limite, distinção absoluta entre fazer e crescer, desde que o que chamamos ‘fazer coisas’ é, na verdade, não um processo de transcrição mas, sobretudo, um processo de crescimento”.
120 Em tradução livre: “para todos nós, na realidade, conhecimento não é construído de acordo com nossas idas por entre, mas ao invés, com nossas idas ao longo”.
121Em tradução livre: “Linhas tem seu final aberto, e esta característica – de vidas, relacionamentos, histórias e processos de pensamento – que eu gostaria de celebrar (...) De fato a linha, como a vida, não tem final. Como na vida, o que importa não é o destino final, mas todas as coisas interessantes que ocorrem ao longo do caminho. Não importa onde esteja, há algum lugar adiante que você pode ir”.
159
forças forjam seres humanos com o passar do tempo e que, ao menos em relação ao que lhes cabe como profissão, como atividade cotidiana, lhes definem como futebolistas, desde que consigam se manter dentro deste universo:
“humans beings are not naturally pre-equipped for any kind of life; rather, such equipament (our body) as they have comes into existence as they live their lives, through a process of development. And this process is none other than that by with they acquire the skills appropriate to the particular kind of life they lead. What each of us begins with, then, is a developmental system122” (Ingold, 2000: 379).
Desta maneira, o que trago aqui indica pensarmos que as mudanças pelas quais passam futebolistas à medida que caminham pelas categorias de base se dão sobre todo seu sistema. Sistema este que, à primeira vista, é visto e alocado em seus corpos. Como mostra este capítulo, é preciso estender tais mudanças ao todo que circunda estas vidas para que possamos captar melhor as influências que de fato concebem e moldam a formação de um jogador de futebol.