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As transformações ocorridas resultam também em vários efeitos sobre o espaço urbano- metropolitano – enquanto “espaço morfológico” onde se assentam os processos sócio- produtivos produzidos no “espaço material” da cidade-região. A consideração de um “espaço material” se refere a uma dimensão maiorque inclui o alastramento – real ou virtual – dos processos sócio-produtivos pelo espaço urbano-regional, enquanto o “espaço morfológico”, objeto de análise desse item, inclui a forma urbana e as espacialidades produzidas a partir e para sustentar tais processos86.

Os processos sócio-produtivos discutidos no espaço da “cidade material” forjam uma série de novas espacialidades aos espaços da metrópole pós-fordista, de tal modo que a antiga imagem da metrópole, espalhada como “mancha de óleo” já não traduz mais o fenômeno urbano-metropolitano que se constitui no contexto metropolitano atual mais propenso à forma do “arquipélago urbano” (MOURA, 2009. p.40). Buscando outra analogia, pode-se dizer que a imagem da cidade como um mosaico dá lugar à imagem como um caleidoscópio – que permite a organização de infinitos arranjos, mas que podem ser mudados tão rapidamente que já estivessem preparados para lidar com um mercado instável e com um consumo efêmero.

Nesse sentido, a “volta da metrópole”, discutida no Capítulo 1, acontece, também, por uma série de novas espacialidades que surgem nesses locais, sobretudo em suas periferias, como resultado da imbricada relação entre os processos sócio-produtivos discutidos e os processos espaciais, fato que sinaliza para “a vez da periferia” na “volta da metrópole”.

A dualidade centro-periferia, utilizada para descrever a cidade fordista, e a expansão de sua malha urbana sobre o campo, já não é mais suficiente para incorporar a realidade difusa, dispersa, fragmentada e multipolarizada da cidade pós-fordista. Desse modo, às primeiras sínteses que dão conta de descrever o alastramento da malha urbana – notadamente o urban

sprawl norte-americano que possui contornos próprios – acrescentam-se, agora, outras como: a

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Mongin (2009) destaca que a metrópole pós-fordista estrutura um território articulador de diferentes fatos metropolitanos, que se constituem em diferentes escalas. Nas palavras de Borja e Castells (1997), os diversos atores públicos e privados e as múltiplas escalas que influenciam o território metropolitano dão origem a “geografias variáveis”.

da “cidade dispersa” (MONCLÚS, 1998), “cidade difusa” (INDOVINA, 2004), “edge city” (GARREAU, 1997), “metápolis” (ASCHER, 1995), “exópolis” (SOJA, 2000), entre outras. Essas mudanças não suplantam necessariamente a relação centro-periferia, mas são suficientes para configurar várias novas centralidades, acolhedoras de funções e serviços diversos como os serviços avançados, que redefinem as relações centro-periferia e, principalmente, das periferias com os seus espaços periférico-regionais mais amplos. Limonad (2005) também se refere ao processo como urbanização dispersa, nas palavras da autora:

Antes o que tínhamos era a expansão de uma malha contínua a se espraiar e estender a partir do que conhecíamos enquanto cidade sobre o espaço “natural”; hoje essa disseminação dá-se de forma difusa e segmentada sem que haja necessariamente uma continuidade e contigüidade física entre os aglomerados e emerge em diversos pontos e manchas (LIMONAD, 2005. p. 5). Vários autores, entre eles Davis (1990) e Soja (2000), discutem as espacialidades da cidade pós-fordista norte-americana, tendo Los Angeles como um caso particular. Soja aponta que as transformações espaciais sugerem a extensão à metrópole moderna de uma nova, e ainda incompleta, metamorfose que será compreendida em outro nível – o da pós-metrópole. O autor propõe seis discursos para abordar essas transformações: os dois primeiros trazem suas causas primárias – a metrópole industrial pós-fordista e a cosmópolis – e os quatro últimos enfocam as consequências sobre a forma espacial, as quais ele caracteriza como anatomia geográfica do capitalismo – a exópolis, a cidade fractal (que aborda o multiculturalismo); a cidade carceral (que aborda a vida cotidiana) e as simcities, (que abordam os simulacros de cidades)87.

Soja (2000) utiliza o termo “edge city” para retratar os espaços e as cidades inteiras que estão nas periferias metropolitanas. Segundo ele, essas áreas, que eram definidas como a negação da cidade, são reconhecidas agora como partes vitais para a cidade contemporânea. O autor define a “edge city” como a cidade que está nos limites e “no limite”; a cidade em que a fronteira não mais a delimita, mas a atravessa e a constitui. Desse modo, ele defende que a “edge city” se superpõe à “outer city” – terminologia utilizada para retratar o fenômeno inicial de urbanização do subúrbio norte-americano.

Soja propõe o termo “exópolis” para sintetizar essa forma de cidade que se volta para seu exterior, que explode e se espalha em múltiplos fragmentos sobre seu espaço regional mais amplo – a cidade que se vira ao avesso. Segundo ele, o prefixo “ex” possui uma dupla significação:o de incluir a cidade exterior, ou seja, orientada para um crescimento “exterior”, e o da cidade que faz uma ruptura com um ciclo anterior, a “ex-cidade”.

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O autor cita que essa nova conjuntura internaliza vários pós, o primeiro e principal é o pós-moderno, além disso, têm-se: o pós-urbano, o pós-industrial (embora questionado por Stoper), etc., que representam algo significativamente novo e diferente. Por outro lado, existem vários “des” e “res”: desconstrução, desindustrialização, desterritorialização e reconstrução, reindustrialização, reterritorialização, associados ao desmonte das situações existentes e à consequente emergência de novas condições.

No que se refere ao conteúdo social dessas espacialidades, Soja propõe o termo “cidade fractal” para descrever a estrutura social fragmentada do espaço urbano e regional da metrópole pós-fordista, em que vários guetos étnicos e sociais segregam o espaço em diferentes “clusters” sociais – dos “yuppies” aos migrantes, dos espaços da pobreza aos espaços exclusivos da riqueza. Ademais, a ideia da “cidade carceral”, proposta por ele, retrata os espaços fechados exclusivos (“enclaves fortificados”) que abrigam os espaços de residência, trabalho, lazer e serviços das populações de média e alta renda.

Paralelamente, vários trabalhos brasileiros vêm sendo implementados para analisar como essas espacialidades da cidade contemporânea se produzem no caso nacional, com destaque para os estudos de Caldeira (1997), Limonad (2010), Magalhães et al. (2006), Meyer et al. (2004), Reis Filho (2009), dentre outros88.

Desse modo, as periferias metropolitanas brasileiras – espaços tradicionalmente vinculados aos locais de habitação da população de baixa renda e das funções industriais – passam a receber, nas últimas décadas, uma série de novos usos e novas funções, que fornece a esses espaços uma complexidade ainda maior.

Algumas espacialidades mais comuns nas cidades brasileiras mostram que esses espaços congregam: os grandes eixos viários, responsáveis também por abrir e conectar essas “novas localizações”; os grandes empreendimentos âncoras, conduzidos pelo capital público e/ou privado (tais como, Centros Administrativos, Centros Empresariais, aparelhados com os serviços do terciário superior, Centros de Pesquisa e Ensino, polos e parques científicos e tecnológicos, shoppings centers, hipermercados, centros de distribuição e de logística industrial, mega-lojas de materiais de construção, bricolagem, decoração, etc.); condomínios fechados; loteamentos de segunda residência e sítios de recreios; áreas de uso agrícola, “ilhas de ruralidade” (resistentes às rodadas de modernização do espaço); unidades de conservação, etc.

Geralmente, a implantação desses empreendimentos de grande porte (âncoras) é acompanhada pela proliferação de espaços de moradia exclusivos das populações de média e alta renda, materializados na forma de “loteamentos fechados”. Alguns empreendimentos, pensados contraditoriamente como unidades autônomas (“autossuficientes”), envolvem uma série de impactos ainda maiores ao ambiente natural e construído que lhes dão suporte.

Esses espaços, aparelhados com uma parnafenalha eletrônica, resguardados pelo ideário de violência (“ecologia do medo”, Davis, 1998) embutem não apenas uma noção de negação da cidade, mediante a privatização dos espaços públicos, mas também de mudanças na noção de sociedade já que implicam em relações de distinção e indistinção, como, por exemplo, retratadas através de “síndromes” como “cada um no seu lugar” (“not-in-my-freeway-lane”) e

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Através do Seminário Internacional sobre Urbanização Dispersa e novas formas de tecido urbano, realizado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e da publicação de mesmo nome.

“não no meu quintal” (“not-in-my-back-yard”). Caldeira (1997) aponta o surgimento desses empreendimentos associam-se ao contexto de pobreza urbana, experimentado no país nos anos 1980 e às espacialidades pós-modernas que surgem como novo produto imobiliário89.

Magalhães (2008) coloca que:

Essa auto-segregação se torna, através da produção social destes espaços, um símbolo de status e de distinção dentre determinados grupos das classes mais altas (nos termos de Pierre Bourdieu), o que pode ser evidenciado nos anúncios, que ‘não só revelam um novo código de distinção social, mas também tratam explicitamente a separação, o isolamento e a segurança como questões de status’. (MAGALHÃES, 2008. p.41).

Essas espacialidades assumem, no contexto atual, uma complexidade maior em função da maior competitividade e flexibilidade no direcionamento dos investimentos pelo espaço; na disseminação de novos produtos imobiliários, nos quais o espaço fica sujeito às preferências do capital em sua necessidade de reprodução ampliada (representando, quase sempre, no acréscimo de novas áreas ao tecido urbano, colocando em xeque os princípios da reforma urbana); mediante a extração de “rendas fundiárias” diferenciais, na qual a manipulação “estratégica” do urbano vira fonte de lucro para o capital90, em alguns casos, com vínculo entre o imobiliário e o financeiro, conforme analisado por Fix (2012). As diversas dimensões de impactos – políticos, institucionais, econômico-fundiários, arquitetônico-urbanísticos, socioambientais – desses processos são analisados ao longo da tese, sobretudo na parte empírica, tendo como referência a metodologia de análise de grandes projetos elaboradas por Vainer et al. (2006, 2012).

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Na crescente literatura sobre globalização, muitos autores têm enfatizado o aparente desencaixe (disembedding) das relações sociais, econômicas e políticas de suas precondições territoriais locais. Argumenta-se, por exemplo, que o “espaço de fluxos” está suplantando o “espaço de lugares” (Castells, 1999, 1996 citado em Brenner, 2010).

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Soja (1993) aponta que na atual fase da acumulação flexível, o capital financeiro está profundamente implicado na manipulação do ambiente construído, na extração da renda urbana, no estabelecimento dos valores da terra e na organização do espaço urbano para consumo coletivo.

Benzer Belgeler