Inicio aqui e agora a apresentação das periodizações, segundo alguns estudiosos de Paulo Freire. A primeira periodização discutida diz respeito à percepção que o professor Moacir Gadotti apresentou em estudos biográficos e em livros que escreveu sobre a trajetória de Paulo Freire.
Inicialmente, Gadotti, um dos biógrafos de Freire, coordenou, juntamente com sua equipe, um dos mais completos registros sobre a vida e a obra do educador, além de sua intensa atuação na direção do Instituto Paulo Freire, ONG fundada com a participação de Freire em vida e onde se acha o maior acervo de livros pertencentes ao educador, incluindo sua biblioteca, formada antes do exílio, e a que se formou após seu retorno ao Brasil, bem como, manuscritos e registros bibliográficos de diversas ordens.
Em seus trabalhos, Gadotti tem divulgado o pensamento freiriano pelo Brasil e pelo mundo nos Fóruns Mundiais e demais espaços de participação popular, além de colaborar
para a manutenção de discussões contemporâneas a respeito das idéias de Freire, por meio de centenas de projetos sociais realizados em âmbito local, regional e nacional.
A abordagem de Gadotti define-se por possuir “dois momentos distintos, mas, complementares”, como ele próprio afirma: “O Paulo Freire latino-americano, das décadas de 60-70 e autor de Pedagogia do oprimido, e o Paulo Freire cidadão do mundo, das décadas de 80-90 e dos livros dialogados.” (GADOTTI, 1996, p. 74).
O “Paulo Freire latino-americano” é visto inicialmente dentro de uma proposta de educação popular como alternativa para organizações populares se fortalecerem coletivamente, tendo em vista a leitura de mundo como conquista da cidadania. Gadotti vê nessa configuração uma visão de solidariedade coletiva para empreender lutas populares contra a opressão, criando outro caminho possível diante do impossível caminho traçado pelos segmentos dominantes.
A educação popular passou por muitos momentos epistemológico-educativos e organizados desde a busca da conscientização até a defesa dos direitos humanos aniquilados pelas ditaduras militares, brutais e sangrentas, que custaram a vida de tantos militantes populares. [...] Desde a experiência das comunidades de base, que, lendo o mundo, lêem a palavra e recriam a religiosidade popular, até aqueles que buscam criar uma nova economia popular a partir das experiências de solidariedade comunitária.
(GADOTTI & TORRES, 1994, p. 8-9).
Gadotti escreve que a trajetória latino-americana de Freire percorreu um itinerário de resistência contra a opressão, tendo como bandeira combater “a cultura do silêncio”. Para Freire, uma alternativa de mudança objetiva seria a alfabetização crítica, a ser iniciada pela maneira como se via a educação pedagógica.
O trabalho que Freire desenvolveu vai além de alfabetizar, como Gadotti acentua. Sua atuação avança no sentido de desmistificar os sonhos do pedagogismo dos anos 1960, que sustentava a tese na América Latina de que a escola tudo podia. Em contrapartida, conseguiu superar o pessimismo dos anos 1970, segundo o qual a escola era um mero aparelho de manutenção do status-quo, de reprodução ao modelo de dominação. Para Gadotti, Freire foi um educador, um cientista interdisciplinar que interveio na realidade como ato político, como ato de conhecimento e como ato criador, no qual, a libertação é o fim da educação e se torna uma tarefa infindável.
Gadotti (1996, p. 81) explica que a caminhada latino-americana do “Andarilho da utopia” iniciou-se em Angicos, no Rio Grande do Norte, em 1963. No ano seguinte, Freire foi
convidado por Paulo de Tarso C. Santos, então Ministro da Educação, para repensar a alfabetização de adultos e articular a instalação de 20 mil Círculos de Cultura no Brasil, com objetivo de atingir a meta de 2 milhões de alfabetizados.
A história, porém, foi outra. Os militares e o golpe de 1964 fecharam as portas à sua presença em nosso país e Freire experimentou a dureza da prisão militar, sendo forçado pelas circunstâncias a se exilar na Bolívia por alguns dias e, daí, iniciando sua peregrinação latino- americana.
Sua permanência nesse país foi curta, pois, logo após a chegada, ocorreu um golpe de estado e Freire foi obrigado a se refugiar no Chile, convidado pelo governo democrata-cristão de Eduardo Frei para atuar em projetos educacionais da reforma agrária.
Foi no Chile que o educador pernambucano teve espaço para ampliar seu projeto e aprimorar a teoria do conhecimento que vinha tecendo (GADOTTI, 1996, p. 72). Mas houve reações da direita católica, que se sentiu incomodada com sua presença e com o teor de suas idéias, por discordar dos fundamentos da Pedagogia do oprimido, demasiadamente inclinados ao socialismo. Ao perceber que teria futuros problemas e considerando sua condição delicada de exilado político, ele e sua esposa pensaram que era hora de partir daquele país.
Coincidentemente, nessa época, Freire recebera dois convites de trabalho: o primeiro, para dar aulas na Universidade de Harvard, em Cambridge (EUA), e o segundo, para ser consultor no Conselho Mundial das Igrejas (CMI), em Genebra, na Suíça.
O casal decidiu que aquele era o sinal para seguirem. Primeiramente, foram para Harvard, onde Freire lecionou durante alguns meses de 1970. No fim do mesmo ano, optou por aceitar o convite de Genebra. É importante ressaltar que a ida para o CMI se deveu ao fato de que Freire viu a possibilidade de trabalhar em países africanos que passavam por experiências revolucionárias com as quais ele se identificava.
Nesse período do exílio, o casal adquiriu experiências em vários países e completou dezesseis anos fora do Brasil, sempre envolvido em trabalhos com educação. A passagem pela África trouxe à lembrança de Freire sua vida brasileira e é possível perceber um Freire africano que se sintoniza com o Freire pernambucano, o latino-americano que sempre se preocupou com os oprimidos inseridos em realidades de extrema desigualdade social, situações que ele próprio vivera na infância e na adolescência de menino pobre, sob o calor tropical do distante Pernambuco.
A partir de então, delineiam momentos de aprendizado impar na trajetória de Freire e Elza. Entre muitos episódios vividos, destacamos um que julguei significativo, por traduzir o valor do ato da palavra, uma palavra que é mais que linguagem, pois é ato de transformação, é palavração.
Próximo à chegada dos Freire à Guiné-Bissau, acontecera uma parada cívica de comemoração da independência do país africano. Freire (1978, p. 38) conta que “[...] ali estava um povo que conquistara o direito de ser.”. Durante o discurso do presidente africano, ocorreu que um dos militares em forma no pelotão perdeu os sentidos, vindo a desfalecer no grupamento em desfile. Ao perceber a cena, Elza fez um comentário preciso que, a meu ver, retrata a sutileza da ligação entre a palavra e o gesto que prioriza o sujeito. Conta-nos Freire o comentário de Elza sobre a atitude do presidente:
O Presidente pára o seu discurso. Olha fixo o militante que está sendo amparado por seus camaradas. A multidão percebe. Abre caminho a um carro que se aproxima e em que o soldado é conduzido ao hospital. O Presidente acompanha com o olhar o carro que parte e logo desaparece. Só então volta a falar. A meu lado, em voz baixa, disse Elza: ‘Este foi o momento mais bonito de nossa visita a este país. Temos realmente muito que aprender de um povo que vive tão intensamente a unidade entre a palavra e o gesto. O indivíduo aqui vale enquanto gente. A pessoa humana é algo concreto e não uma abstração.’ O Presidente prosseguia no seu discurso. Tudo nele era autêntico. Sua palavra ao povo como seu gesto coerente com sua palavra, diante do fato que ocorrera. (op. cit., p. 38-9) Importante ressaltar que o conhecimento construído em sua passagem pela América Latina ampliou-se nas experiências que teve em outras terras, consolidando sua visão crítica sobre a realidade dos povos marginalizados, em contextos distintos. Toda essa bagagem de experiências abriu-lhe novas oportunidades para a aplicação de seu projeto em solo africano e em países da América Central e Ásia, onde atuou com consultorias e implantou projetos de educação.
Gadotti defende a idéia de o Paulo Freire africano ter sido a experiência que o tornou um “cidadão do mundo”, pois muito do que viveu na África, somado ao que vivenciara nas Américas, deu uma dimensão planetária à sua teoria.
A latinidade de Freire permanece vigorosa na volta ao Brasil, em 1980. Ele declara, ao retornar, que era preciso “reaprender o Brasil”. Para Gadotti (1996), começava uma nova fase, entre os anos que se seguiram à sua volta. O educador trouxe a experiência plural de um cidadão do mundo: é um Paulo Freire internacional e transdisciplinar. É desse período a
autoria dos chamados “livros dialogados”, provenientes das conversas sobre temáticas socioeducativas com sociolingüistas, psicolingüistas, educadores, sociólogos e filósofos.
Sua experiência como “cidadão do mundo” e sua atuação como administrador público, nos anos 1990, na Secretaria de Educação da Prefeitura de São Paulo, tornaram-no um “intelectual inclassificável”. Gadotti afirma que Freire procurou esquivar-se dos padrões hegemônicos da academia, pois possuía uma visceral incompatibilidade com burocracias dos sistemas de ensino.
Para Gadotti (1998, p. 31, 33), sua linguagem é sempre poética e doce, um autêntico “guerreiro das palavras” e o reconhece com um habilidoso educador popular, “plantador de futuro”, que não queria ser repetido em seu projeto, pois sempre dizia que queria ser reinventado no esforço de criar uma educação transformadora.
O segundo momento da trajetória desse cidadão planetário se delineia na escrita, por meio de livros e artigos publicados de 1980 até sua morte, em maio de 1997. Esse segundo momento é complementar ao primeiro, que tem na latinidade uma característica basilar. Nesse momento, vê-se um Paulo Freire que quer reaprender o Brasil, cada vez mais embebido na linguagem característica das elaborações de seu pensamento libertário, conforme transparece no diálogo com o psicolingüista Donald Macedo que Freire diz:
Há certa relação entre pensamento e linguagem como expressão do processo real de pensar e da concretude da realidade daquele que fala, daquele que pensa e fala. Podia-se até inventar um novo verbo, “falar-pensar” ou “ pensar- falar. (FREIRE, 1990, p. 123).
Gadotti será enfático quanto à importância do diálogo na obra freiriana por privilegiar a relação horizontal entre educando e educador. Essa característica não hierarquizada na fala, que se estabelece na dialogicidade aberta de Freire, me lembra o significante e seu trânsito plural que, assim, sinaliza uma peculiaridade que o acompanha durante toda a sua obra. Freire atribuiu ao diálogo a tarefa de criar um saber que se reconstrói em contato com o outro – (significante novo). Por isso, vai produzindo com os pensadores com quem conviveu as experiências dos livros falados, dando à liberdade da voz sua potencialidade associativa ou dissociativa, segundo a posição do sujeito.
Outro aspecto muito importante de fazer um livro falado é que o diálogo é, em si, criativo e re-criativo [...] você está recriando no diálogo de forma mais ampla do que quando você escreve, solitário, em seu escritório ou em sua biblioteca. (FREIRE, 1986, p. 13).
Em nenhuma de suas falas, Freire permite-se acomodar a um tipo de pensamento ou prática estanque. Sempre afirmando a importância de reconhecer a sua incompletude, ele se diz nunca pronto nem acabado, um inconcluso e se autoclassifica um incansável perseguidor do novo, da criação como resposta ao impossível.
O Freire latino-americano, na visão de Gadotti (2001, p. 82), é o estruturador de um “método” de alfabetização inédito, porque se distancia do tecnicismo, que se soma ao outro Freire, que volta do exílio “cidadão do mundo”, autor de livros dialogados, perfaz as características singulares da trajetória do educador pernambucano que volta a seu país para reaprendê-lo – uma tarefa infindável, como a educação.