2.1.2. İş Doyumu
2.1.2.3. İş Doyumunu Etkileyen Faktörler
2.1.2.3.1. Bireysel Faktörler
No decorrer destes anos, as festas do Boi, no Morro do Querosene, apresentaram aprimoramento significativo da parte material e das competências artísticas. Entenda-se, como material, a melhora na qualidade e diversidade dos figurinos e a aquisição e construção de novos instrumentos. E, como competências artísticas adquiridas, a formação de mais tocadores e dançarinos, que alcançaram maior domínio dos ritmos, passos de dança e coreografias. Houve também a formação de integrantes do Grupo Cupuaçu aptos a integrar o auto, encenando seus personagens principais.
O domínio dos passos, coreografias, ritmos e convenções musicais, a resistência física para brincar de Boi por doze horas seguidas são conquistas que requerem tempo e são alcançadas através dos ensaios semanais ao longo do ano. Este aprendizado também se dá pelo observar e fazer junto, pela convivência com pessoas mais experientes e se completa na vivência das festas do ciclo do Boi.
A preparação dos personagens valeu-se, no entanto, muito mais da experiência das apresentações, em que, através do improviso, os textos e interpretações iam ganhando mais qualidade. Em alguns ensaios, assisti Graça Reis e Tião Carvalho interpretarem o casal do auto, para mostrarem as possibilidades da atuação para os atores iniciantes.
Educadores, artistas, estudiosos, maranhenses morando em São Paulo, universitários, crianças e idosos, ao lado de parte da população do bairro,
acompanham, há anos, os festejos, que acabaram por se constituir numa tradição53. As festas do Boi são objetos de trabalhos de pesquisa e inspiração para propostas de arte-educação, desenvolvidas, tanto por integrantes do grupo quanto por pessoas próximas, que acompanham as festas. Tião Carvalho, além disso, reconhece alguns grupos “filhotes” desta experiência e de suas oficinas, como relata:
A festa também foi muito importante para que outros grupos surgissem, “as pessoas vinham, conheciam e levavam para outros lugares não só de São Paulo, mas outros estados e fundavam lá, outros grupos”. Os grupos Saia Rodada, em Campinas, a Flor de Babaçu, em Brasília; o grupo Retrato da Cultura Popular em Londrina (PR); o Maracá, em Maringá (PR); e em Mogi das Cruzes (SP), o grupo Jabuti Caqui, são originados do Cupuaçu. (apud FERREIRA, 2009, p. 65).
Pelas diversas atividades que se desenvolveram a partir destes eventos, percebe-se que coexistem várias motivações para frequentar o ciclo festivo do Boi no Morro do Querosene. Pode ser a vontade de desenvolver as habilidades artísticas, na dança, música e teatro, a busca de experiências coletivas e espirituais, ou ainda o compromisso religioso e devocional. Além disso, podemos colocar nessa lista de motivações o simples desejo de brincar, espontâneo e descomprometido de qualquer desempenho profissional, como nos diz Brandão (1987, p. 5): “Também se faz festa por ‘brincar’, por ‘folgar’, por ‘pular’, por ‘farrear’, nomes e desejos tão brasileiros”. Podemos ainda perceber graus diferentes de envolvimento das pessoas com o festejo do Boi, com sua religiosidade e suas formas de expressão artística. Seja no Grupo Cupuaçu ou nas festas.
As festas do Bumba meu boi acontecem há mais de 20 anos no Morro do Querosene, em São Paulo. Quando encerra o ciclo anual, na Morte do Boi, logo se abre, para os integrantes do grupo, novo processo, em que começam a projetar o próximo ano. É uma festa viva, que reinventa a manifestação maranhense do Boi, com a participação de seus idealizadores, integrantes do Cupuaçu e das pessoas que, todos os anos, acompanham estes festejos.
53 Utilizo aqui o termo tradição para designar a consolidação de uma prática festiva que a cada ano
se repete e também se renova. É pertinente aproximar um trecho de Giddens, que apresenta um pouco dos atuais questionamentos sobre esse termo: “A ideia de que a tradição é impermeável à mudança é um mito. As tradições evoluem ao longo do tempo, mas podem também ser alteradas ou transformadas de maneira bastante repentina. Se posso me expressar assim, elas são inventadas e reinventadas”. (GIDDENS, 2007, p. 51).
Crianças nasceram e cresceram neste contexto, filhos de integrantes do grupo ou de amigos próximos. Alguns destes jovens e adolescentes já são conhecedores de boa parte deste fazer. Tocam, dançam, cantam e conhecem muitas histórias do Bumba meu boi.
O festejo do Boi, no Morro do Querosene, apesar de sua referência direta com os Bumba-bois do Maranhão, no decorrer dos anos, desenvolveu características próprias, influência natural da cidade de São Paulo e dos integrantes do Grupo Cupuaçu, com suas origens variadas. Os componentes maranhenses mobilizaram suas memórias e lembranças que, trazidas e propostas no Cupuaçu, foram se adaptando à realidade da metrópole. Vemos a marca de uma identidade própria do Boi do Morro do Querosene, expressa na organização do calendário do ciclo, nos motivos dos bordados e nos temas das toadas, entre outros pontos. As toadas paulistanas falam dessa especificidade:
Na Vila Pirajussara antigamente iluminavam os lampiões.
Hoje, Morro do Querosene, as lamparinas iluminam os corações. E, eu, que ouvia boatos de pessoas falando,
que São Paulo é só trabalho. Aqui, na praça do povo, a festança de junho, já começa mês de maio.
(Toada de Ana Maria Carvalho e Henrique Menezes, compositores do Cupuaçu).54
Vários integrantes do Cupuaçu atuam como arte-educadores em ONGs e escolas. No entanto, reconheço nas festas do Boi, também, uma ação educativa, cultural e social importante, ao propagar saberes artísticos e culturais, num espaço público, popular e gratuito, como a rua.
As vivências das festas do Boi contemplam, em seu interior, diversos ciclos, que se complementam: o ciclo do dia de cada festa, o anual, que concentra os três encontros; o ciclo de vida de cada participante; e, finalmente, um ciclo coletivo, em que se reconhecem as várias gerações que convivem nesta experiência: a criança, o jovem, o adulto e o velho.
O ciclo do dia de cada festa tem seu início repleto de preparações, o meio, com as apresentações e encontros, e o fim, quando amanhece o dia e silenciam os
54 Faixa 1 do CD Todo Canto Dança, do Grupo Cupuaçu, lançado em 2008. Produção independente do grupo Cupuaçu realizado com apoio do Programa de Ação Cultural (PAC) da Secretaria de Estado da Cultura.
tambores. No ciclo anual, o Boi renasce, é batizado e por fim morre. Assim também, ao vivenciar estes três momentos, cada participante experimenta a seu modo, estes estados de transformação.
Cada pessoa também acrescenta o seu próprio ciclo de vida neste contexto, ao trazer para a festa suas próprias e específicas experiências, que a cada ano se mostram diferentes. Por fim, no ciclo coletivo, as percepções e ações de crianças, jovens, adultos e velhos se encontram, numa convivência possível e necessária. Nesses momentos, observa-se que as pessoas presentes, convidados e integrantes do grupo, são envolvidas pelo sentimento circular do mito do Boi, quando suas emoções e desejos podem se identificar com o boneco animado no meio da roda, que renasce, é batizado e por fim morre, para renascer.
Cada qual, se indagado, contará uma história diferente da mesma festa. Porém, não deixam por isso, de levar consigo um sentimento de cumplicidade. Cúmplices na vivência de cada ciclo, de cada ritual, em que se reconhecem conhecedores, ainda que de formas próprias, de um mesmo saber, de um mesmo sentimento, de uma mesma sensação.