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2.1.1.3. Kişilik Kuramları

2.1.1.3.4. Ayırıcı Özellik Kuramları

No Maranhão, as brincadeiras33 de Bumba meu boi, em sua maioria,

relacionam-se a promessas feitas por devotos de São João e acontecem com a participação da maioria de sua população. Nessas brincadeiras encontramos conteúdo religioso e profundo envolvimento emocional e afetivo de seus participantes, expressos de maneira diversa e organizados em grande número de grupos (SAURA, 2008, p. 81).

Ainda uma vez, a diversidade desponta ao tratarmos do folguedo do Bumba meu boi, que no Maranhão apresenta-se em diferentes modalidades, que correspondem a estilos diversos. Variam os ritmos, as formas melódicas, os figurinos, personagens, formas coreográficas, organização social e regiões de origem. Tradicionalmente, os bois classificam-se nos sotaques de zabumba ou de Guimarães,

33 Brincadeira é um termo frequentemente usado no Maranhão para designar performances e grupos que executam apresentações de música, dança e teatro. Aplica-se não só aos Bumba-bois, mas também a grupos de quadrilha, tambor-de-crioula, dança portuguesa, dança cigana e do boiadeiro (presentes nas festas juninas do estado), de reis e pastor (típicas do Natal), e, ainda, de baralho e salameu (festejos carnavalescos), entre outras expressões culturais populares. (CARVALHO, 2005, p. 1)..

de matraca ou da Ilha, de pandeirões ou de Pindaré ou da Baixada, de costa-de-mão ou de Cururupu, e, finalmente, de orquestra.34 Segundo Carvalho (2005, p. 2),

Embora essas categorias sejam acionadas recorrentemente como indicadores de identidade, tanto por grupos quanto por indivíduos ligados ao boi, há diversas contestações da validade dessa forma de classificação. Há, ainda, muitos grupos que não se percebem ou não são percebidos como parte de qualquer dessas categorias, sendo vistos ou vendo-se como “exceções” à regra e permanecendo, nesse sentido, “inclassificáveis”.

O Boi, realizado pelo grupo Cupuaçu, enquanto espetáculo e nas festas, mistura os sotaques de Matraca com o de Pindaré. Alternando, em suas apresentações, o ritmo de um e outro. Assim também, os passos dos dançarinos acompanham estas mudanças. A indumentária, no entanto, no caso do Cupuaçu, apresenta mais identidade com o Boi de Matraca, com a presença das índias e do caboclo de penas35, confeccionados com penas de ema, típicos desse sotaque. Mas é possível também encontrar nas festas, no Morro do Querosene, a presença do Cazumbá, personagem mascarado e misterioso, característico do Boi de Pindaré.

O Grupo Gracinha, por sua vez, realiza o sotaque de Pindaré, e seus figurinos apresentam elementos da indumentária tanto do Boi de Matraca como do Boi de Pindaré maranhenses.

O Bumba meu boi no Maranhão36, desenvolve-se como um ciclo anual que se inicia no sábado de Aleluia com o Renascer e prossegue em junho com a festa do Batizado do Boi e termina com a Morte, que acontece entre julho e dezembro.

O Renascer é o primeiro ensaio de Boi no ano e, após essa data, a cada final de semana, os encontros vão ganhando maior presença de boieros37, novas toadas vão sendo apresentadas e cantadas e os passos reaprendidos e ensinados a novos integrantes. No Dossiê sobre o Bumba boi maranhense: Complexo Cultural do

Bumba-meu-boi do Maranhão, o Boi é considerado a mais importante manifestação

da cultura popular do Estado, tem seu ciclo festivo dividido em quatro etapas: os ensaios, o batismo, as apresentações públicas e a morte. Interessante notar que

34 Saura (2008) e Bueno (2001) apresentam em seus trabalhos descrições pormenorizadas dos sotaques principais.

35 O caboclo de pena é a representação do índio e usa um chapéu de penas de ema volumoso. Os passos de dança desse personagem mostram-se bastante específicos e ainda é comum vê-los nos momentos de cortejo, abrindo o caminho para o batalhão passar.

36 Para saber detalhes sobre o Boi no Maranhão consultar o Dossiê sobre o Bumba boi maranhense:

Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão. Dossiê do registro como Patrimônio Cultural

do Brasil (INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL, 2011). 37 Uma das formas como se autodenominam aqueles que fazem o Boi.

nesse documento insere-se uma nova etapa ao ciclo tradicional: as apresentações, que têm o seu apogeu entre 13 de junho, dia de Santo Antonio e 30 de junho, dia de São Marçal no calendário maranhense.

Seguindo o ciclo de festas, ainda no Maranhão, no dia 23 de junho, véspera do dia de São João, acontecem os Batizados dos Bois. Como dito acima, os Bois são oferecidos a São João, em paga a graças recebidas ou como compromissos herdados por pais e avós, que fizeram promessas ao santo. Os rituais acontecem nas comunidades e, depois de abençoados, os grupos, costumam circular durante toda a noite, apresentando-se em arraiais e em frentes da casa de particulares, que convidaram o Boi para brincar.

A última festa, que fecha o ciclo festivo é a Morte do Boi, que acontece num período mais estendido, entre julho e dezembro sem uma data definida e comum a todos os grupos.

Guardando a especificidade de cada grupo, podemos afirmar que existe uma sequência mais ou menos marcada de toadas e bailados durante as festas ou apresentações. Esta descrição se baseia em minha memória dos Bois que assisti nos arraiais de São Luís durante os festejos juninos.

Os bois iniciam com toadas de Guarnecê, momento que marca a chegada dos brincantes e o aquecimento dos instrumentos na fogueira. Passam, então, para as toadas de Lá vai; podem aí fazer um cortejo para adentrar ao espaço de apresentação, pois o Guarnecê muitas vezes acontece longe do olhar do público. Seguem-se as toadas de Licença, quando se pede permissão para o Boi dançar, e também os cantadores fazem as saudações, espécies de louvação ao Boi, ao dono do espaço de apresentação e à assistência38.

Quando há a encenação, o entrecho dramático39se inicia aqui, com a

interferência dos personagens em cenas curtas, entremeada por toadas, que

38 Assistência é um nome bastante usado no Maranhão para designar o público que assiste.

39 Entrecho dramático é o nome dado, como vimos acima, para a parte encenada da dança dramática, que concentraria o “núcleo temático básico”. Na literatura sobre o Bumba meu boi também encontramos o nome auto e matança. Carvalho traz uma interessante reflexão sobre esses termos, afirmando que não são sinônimos e, que “ao designar indiscriminadamente como autos ou matanças as representações cômicas que eventualmente ocorrem na brincadeira, diversos autores têm confundido os sentidos distintos que os termos denotam para os sujeitos sociais envolvidos no boi, ao mesmo tempo em que contribuem para o obscurecimento das formas de expressão que não correspondem àquela que tomam por tradicional” (CARVALHO, 2005, p. 16). Na presente pesquisa chamarei auto à parte dramática realizada pelos grupos Cupuaçu e Gracinha em seus espetáculos de Bumba meu boi, por ser assim também que os integrantes dos citados grupos se referem ao seu entrecho dramático.

podem versar sobre momentos da história: o desejo de Catirina, a fuga de Pai Francisco, a procura do Boi ou o Boi que morreu. À medida que a história se desenvolve, tanto a música como a cena convergem para o Boi morto e a busca de solução para sua morte. O Boi ressuscita seja pela ajuda do doutor, do pajé ou das crianças presentes e então todos cantam as toadas de Urrou, comemorando o renascimento do Boi e depois cantam-se as Despedidas. É comum, tanto no Maranhão como em São Paulo, que as toadas de Despedida ou Adeus sejam sempre mais que uma.

A respeito da variabilidade na estrutura e nos temas utilizados é significativo o texto do Dossiê:

Atualmente, algumas dessas etapas são suprimidas, inclusive a apresentação do auto. Nas saudações, são cantadas toadas de tema livre que podem abordar sentimentos, elogios a pessoas consideradas pelo grupo, ecologia, questões sociais e assuntos da atualidade, como crise na economia ou na política. Esse aspecto caracteriza o Bumba- meu-boi como uma revista, na qual são tratados, muitas vezes de forma jocosa, fatos atuais. (INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL, 2011, p. 8).

Não é nosso objetivo aprofundar o estudo sobre o Boi no Maranhão; outros trabalhos, já citados ao longo do texto, cumprem este percurso com propriedade. O que é importante reter é a enorme riqueza dessas expressões populares que impede de pensá-las em termos de estruturas muito rígidas.

Jandir Gonçalves, profundo conhecedor do Bumba meu boi maranhense e, hoje, funcionário do Museu Casa de Nhozinho, em São Luís do Maranhão, é bastante assertivo a esse respeito:

Existe uma infinidade de formas de fazer o Boi. Com outros instrumentos, outras indumentárias, outros personagens, que não estão em sotaque nenhum. Há Auto do Boi refeito, feito de outras maneiras, ou mesmo nunca mencionado. [...] Já vi Boi com violão e rabeca. Com girafa, cachorro e urubu. Seriam outros sotaques, mas não são estudados nem conhecidos. Há uma infinidade de outras coisas que muitos Bois fazem que não estão inclusas em nenhum destes sotaques. E arremata no final: Podemos afirmar que temos cinco sotaques conhecidos, mas, como você vê, existe uma infinidade de outras formas de realizar a brincadeira. Você pode até não citar, não querer falar deles, mas que existem, existem. (apud SAURA, 2008, p. 86).