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Como ficou patente nas discussões teóricas sobre o comportamento inovadores dos países europeus, outros fatores além da boa governança poderiam, em tese, explicar porque um determinado município tornou-se pioneiro em termos de inovação. Assim, com o intuito de validar a tese de que o PSMV ademais de adotar um viés pró-inovação, também mede a governança no nível municipal, é prudente realizar uma revisão de estudos que tratam desta temática.
Durante o processo de discussão dos critérios e mecanismos para a implantação do ICMS Socioambiental por parte do Governo do Estado do Ceará, Girão (2010) realizou pesquisa sobre a possível adoção do Índice de Sustentabilidade Ambiental (ISA) como critério de redistribuição da quota-parte do tributo, uma vez que na sua concepção o indicador poderia ser considerado como instrumento operacional do desenvolvimento sustentável. (GIRÃO, 2010).
Para defender a proposição de que o ISA seria capaz de retratar o compromisso dos governos locais com a sustentabilidade, o autor considerou todas as variáveis analisadas do PSMV frente às premissas do desenvolvimento sustentável, procurando estabelecer uma relação entre as variáveis adotadas pelo programa com aquilo que ele considerou as dimensões da sustentabilidade (FIGURA 9).
Figura 9 – Classificação dos indicadores do PSMV com base nas dimensões de sustentabilidade
Fonte: Girão, 2010.
A partir desta proposição inicial, o autor analisou a metodologia de aplicação de tais indicadores e concluiu afirmando que a operacionalização do desenvolvimento sustentável desejado, requer características e dimensões político- institucional, social, tecnológica, ecológica, ética, cultural e global e que o Índice de Sustentabilidade Ambiental (ISA) atende a tais características e dimensões (GIRÃO, 2010):
a) por apresentar um arranjo criado a partir da instituição legal de dois grupos, compostos por 21 instituições de vários setores do governo e da sociedade civil, configurando uma forma inovadora para a elaboração de políticas públicas;
b) por envolver a sociedade civil levando-a, entre outras coisas, a participar da gestão ambiental municipal por meio dos COMDEMAs;
c) por divulgar boas práticas e estimular a utilização de meios produtivos mais sustentáveis;
d) por estimular as práticas agroecológicas, visando atender a capacidade de suporte do ambiente local, além de introduzir nos municípios a ideia da gestão ambiental como responsabilidade não só do poder público, mas também dos munícipes, estimulando uma mudança de comportamento em relação à natureza, ao patrimônio histórico-cultural e ao próximo; e,
e) por reconhecer e estimular as manifestações culturais tradicionais locais.
Em síntese, Girão (2010) não apenas estabelece a potencial relação entre o ISA e o PSMV com os princípios do desenvolvimento sustentável como também infere que este processo de certificação deve estar associado à iniciativas voltadas para a capacitação dos vários atores locais importantes para a consolidação de uma forma inovadora para a elaboração de políticas públicas. (GIRÃO, 2000).
Para Braga (2012, p. 76), o PSMV seria “uma ferramenta eficiente no auxilio da Gestão Ambiental municipal no Ceará” tendo por base estudos em que comparava o desempenho dos municípios certificados pelo Programa com o daqueles que não haviam recebido a certificação no ano de 2009, considerando um indicador de gestão por ela concebido, o Índice Municipal de Gestão Ambiental (IMGA).
De acordo com o trabalho do Braga, (2012, p. 54), a “gestão ambiental nos municípios cearenses foi avaliada a partir de um Índice Municipal de Gestão Ambiental (IMGA), composto por indicadores agrupados em três dimensões: Gestão Urbana, Empreendimentos e Meio Ambiente” e cada uma dessas dimensões foi analisada a partir da construção de três sub-índices agregados: o Índice de Gestão Urbana, o Índice de Empreendimentos e o Índice de Meio Ambiente, “sendo o IMGA a média aritmética destes três sub-índices”. (BRAGA, 2012, p. 55).
Ao cotejar o desempenho dos municípios certificados pelo PSMV em relação ao IGMA com o desempenho dos municípios não certificados, Braga (2012, p. 70) calcula que o Índice Municipal de Gestão Ambiental dos municípios certificado no ano de 2009 foi maior que o dos não certificados, permitindo afirmar que “esse resultado mostra que o programa está contribuindo no auxilio a Gestão Ambiental dos municípios por ele certificado” lembrando adicionalmente que a “associação entre
certificação e o IGMA foi confirmada pelo índice de correlação utilizado no trabalho. Ou seja, o fato do município ser certificado, ou não, foi relevante para a gestão ambiental no ano de 2009” segundo Braga (2012, p.76) o que permitiu considerar que o PSMV teria se mostrado “uma ferramenta eficiente, neste sentido”. (BRAGA, 2012, p.71).
Para reforçar suas conclusões a autora avança na análise da possível “associação entre o município participar do PSMV, ter certificação, e o Índice Municipal de Gestão Ambiental”, levando-a a constatar que a “existência de associação entre o fato do município ser certificado pelo Programa Selo Município Verde e o nível de Gestão Municipal”, observando adicionalmente que esta “associação é mais forte quando considera-se o Índice Municipal de Gestão Ambiental” o que, ao seu ver, “corrobora a importância do programa com uma ferramenta na promoção de uma gestão ambiental municipal eficiente. O que implica na relevância referido programa para a promoção de boas práticas voltadas para conservação ambiental no Ceará”. (BRAGA, 2012, p. 75). Por fim, afirma que
“Os critérios de avaliação do Programa Selo Município Verde reforçam a importância de políticas públicas voltadas ao meio ambiente, e incentivam os municípios a se mobilizarem no intuito de obter a esta certificação. O processo para obtenção do PSMV contribui na gestão ambiental. Então, após a exposição de todas as análises e resultados obtidos nesta pesquisa é possível constatar que todos os objetivos foram concluídos e que os mesmos reforçam a importância do Programa Selo Município Verde como uma ferramenta eficiente na Gestão Ambiental dos municípios cearenses”. (BRAGA, 2012, p.76).
Ademais de tal conclusão, outro aspecto que Braga (2012) aponta e que merece ser mencionado por ter relação com a compreensão do PSMV como ferramenta de capacitação institucional e com o papel que os gestores municipais desempenham neste processo. De acordo com a autora
“Ao analisar os municípios certificados foi verificados, no decorrer do processo de outorga do programa, que os gestores dos municípios de maior IMGA foram os participativos e interessados pelo processo de certificação do PSMV, apesar de nem todos os municípios de melhor índice serem certificados, porém grande parte dos mesmos participou dos seminários regionais. O programa pode ser visto como uma ferramenta eficiente na gestão ambiental dos municípios cearenses já que além dos municípios certificados, os municípios que participaram do processo de certificação, no que diz respeito aos seminários regionais (...) apresentaram melhores índices de gestão ambiental. (BRAGA, 2012, p. 73).
“um facilitador da gestão ambiental, já que os municípios ao se mobilizarem para participar do processo, e serem certificados, os gestores se mobilizam de maneira a se adaptar as normas do PSMV. Esta mobilização causa uma maior conscientização da função dos gestores na elaboração de leis e fiscalização das ações voltadas ao meio ambiente” ratificando o papel do programa como ferramenta para a capacitação municipal. (BRAGA, 2012, p. 76).
Adotando uma perspectiva diferente, Rodrigues (2014, p. 17) parte da hipótese de que “o PSMV é um excelente instrumento de gestão ambiental” e que para promover a boa governança para o desenvolvimento sustentável, “o Programa deve melhorar seus indicadores em relação aos seis princípios da boa governança adaptando- os conforme a realidade cearense” (RODRIGUES, 2014, p.17), mostrando seu alinhamento com os princípios da governança defendidos por Kaufman, Kraay e Zoído- Lobatón (1999).
Ainda conforme a autora, seu trabalho teria “como principal objetivo analisar o nível de implementação dos princípios da boa governança nas políticas públicas para o desenvolvimento sustentável no estado do Ceará com uma visão a partir do Programa Selo Município Verde. (RODRIGUES, 2014, p. 17). Ainda de acordo com Rodrigues (2014)
“Após 11 anos de implementação do Programa Selo Município Verde no estado do Ceará (PSMV), essa pesquisa constatou que esse Programa pode ser considerado uma ferramenta que possibilita a boa governança para o desenvolvimento sustentável no território cearense, pois, segundo os entrevistados, os cinquenta e quatro indicadores direcionados aos seis princípios da boa governança propostos pelo Banco Mundial, estão sendo postos em prática no PSMV”. (RODRIGUES, 2014, p.173).
Neste sentido, apoiada no trabalho de Mayorga, Rodrigues é categórica ao afirmar que “verifica-se que o PSMV é uma ferramenta importante para a implantação da governança para o desenvolvimento sustentável no estado do Ceará, pois (...) este Programa pretende, além de incentivar as municipalidades a implementarem políticas ambientais, servir de canal por onde passa os anseios de participação da sociedade nas definições de suas necessidades e no estabelecimento de suas prioridades. (RODRIGUES, 2014, p.118)
Ou seja, para a autora, não haveria o que discutir quanto ao papel do PSMV como instrumento para a capacitação dos governos municipais para o aprimoramento da governança para o desenvolvimento local em bases sustentável, cabendo averiguar, conforme objetivo inicialmente explicitado, se os indicadores, parâmetros e metodologias adotadas pelo Programa respeitam os princípios da boa governança sugeridos pelos autores do Banco Mundial. Ademais, ao analisar os indicadores
relacionados com os princípios da boa governança e aqueles adotados pelo PSMV a autora reconhece que “o PSMV apresentou um nível regular para a boa governança para o desenvolvimento sustentável no território cearense”. (RODRIGUES, 2014, p.118).
Importante para a presente discussão, ademais da demonstração, por parte da autora quanto a existência de inter-relações entre o Programa e os princípios da boa governança, está a constatação do fato de que todas as dimensões são passíveis de investimentos na sua melhoria, constatação que ficou mais evidente, ainda conforme Rodrigues (2014), quando da análise dos indicadores relacionados ao princípio da Eficácia Governamental. Nesta seara a sua pesquisa
“constatou bons resultados no nível de implementação dos indicadores voltados para a competência, motivação e dedicação das pessoas que trabalham com o PSMV. Porém, para alcançar a eficácia governamental, deve-se investir em um número maior de pessoas que executam suas atividades, na sua capacitação/qualificação e na infraestrutura destinada ao referido Programa na tentativa de melhorar a qualidade dos serviços públicos prestados e, em decorrência, proporcionar, possivelmente, uma maior credibilidade do PSMV e da instituição. (RODRIGUES, 2014, p. 174 e 175).
Esta breve, mais importante revisão de trabalhos recentemente desenvolvidos relacionando o PSMV com a gestão ambiental e a boa governança do desenvolvimento sustentável, permite afirmar, conforme proposto por Girão (2010) que o indicadores do PSMV, especialmente o ISA, levam em consideração as dimensões do desenvolvimento sustentável, mostrando a pertinência entre o programa e tais objetivos. Braga (2012) demonstrou que o PSMV é uma eficiente ferramenta no apoio à gestão ambiental dos governos municipais. Por fim, Rodrigues (2014) concluiu que embora os municípios ainda precisem de maiores investimentos na sua capacitação, o Programa na sua concepção e implementação trabalha em consonância com os princípios da boa governança definidos por Kaufman, Kraay e Zoído-Lobatón (1999) e disseminados pelo Banco Mundial.