I. BÖLÜM: MENTORLÜĞÜN KAVRAMSAL ÇERÇEVESİ
1.5. MENTORLÜK SÜRECİ
1.5.1. Biçimsel ve Biçimsel Olmayan Mentorlük İlişkisi
Walter Benjamim, nesse ensaio de 1933, mas ainda atual, chamado “Experiência e Pobreza”, relata sua preocupação com o mundo moderno que desvincula nosso patrimônio cultural de nossas experiências; Para ele, o indivíduo moderno é pobre de experiência, pois não tem nada a contar. Os indivíduos são como os quadros de James Ensor, onde as metrópoles são tomadas por uma grande fantasmagoria de pessoas, estão condicionados a uma vivência triste e totalmente desprovida de sentido.
Pobreza de experiência: não se deve imaginar que os homens aspirem a novas experiências. Não, eles aspiram a libertar-se de toda experiência, aspiram a um mundo em que possam ostentar tão pura e tão claramente sua pobreza externa e interna, que algo de decente possa resultar disso. Nem sempre eles são ignorantes ou inexperientes. Muitas vezes, podemos afirmar o oposto: eles "devoraram" tudo, a "cultura" e os "homens", e ficaram saciados e exaustos. (BENJAMIM, 1987, p. 119)
Agamben (2000) também questiona a possibilidade de o homem moderno ser capaz de vivenciar verdadeiras experiências:
O homem contemporâneo, tal como foi privado da sua biografia, encontrou-se desapossando da sua experiência: talvez a incapacidade de efetuar e de transmitir
experiências seja um dos raros dados seguros que ele dispõe sobre a sua condição. [...] É essa impossibilidade de a traduzir em experiência que torna a nossa vida quotidiana insuportável, mais do que alguma vez foi. (AGAMBEN apud VILELA, 2010, p. 52)
Segundo Larrosa (2002), a experiência é cada vez mais rara nos dias de hoje, em primeiro lugar pelo excesso de informação. Separar o saber da experiência do saber das coisas, é fundamental. Vivemos numa sociedade da informação, onde os meios de comunicação nos atropelam o tempo todo com uma tempestade de informações que nos distanciam do conhecimento. “Como se o conhecimento se desse sob a forma de informação, e como se aprender não fosse outra coisa que não adquirir e processar informação” (LARROSA, 2002, p. 22). Não só os meios de comunicação, como o ensino está baseado na necessidade de estarmos informados sobre tudo. Saber de coisas que antes não sabíamos, não quer dizer que adquirimos conhecimento; pelo contrário, a informação pode nos enganar, nos direcionar para caminhos obscuros e falsos. Nesse aspecto, a informação elimina nossas possibilidades de experiências, de construção de saberes, de discursos críticos e reflexivos, ela pode me tirar da ignorância (superficialmente), mas não me traz conhecimento como ao vivenciar uma experiência.
Em segundo lugar, pelo excesso de opinião. A opinião é fabricada pela informação e muitas vezes manipulada por ela. Larrosa (2002) coloca que quando a informação e a opinião se sacralizam, não deixando espaço para o acontecer, o sujeito individual torna-se o suporte informado da opinião individual, e o sujeito coletivo, o suporte informado da opinião pública. Até mesmo dentro da ideia de “aprendizagem significativa”, o par informação/opinião pode causar certa confusão, deixando o sujeito ainda mais distante da experiência. Esse termo foi proposto pelo norte-americano David Paul Ausubel, em 1963, em contraposição às ideias behavioristas que predominavam na época. Para Ausubel, aprender significativamente “é ampliar e reconfigurar ideias já existentes na estrutura mental e com isso ser capaz de relacionar e acessar novos conteúdos. Quanto maior o número de links feitos, mais consolidado estará o conhecimento” (FERNANDES, 2011, p. 1). Ou seja, o processo de ensino precisa fazer sentido para o sujeito, e para isso, a informação recebida deverá interagir com os conceitos relevantes já existentes na estrutura cognitiva desse sujeito.
Dessa maneira, a “aprendizagem significativa” se reduz, ao longo de toda trajetória do sujeito pelos aparatos educacionais, a meras opiniões críticas e pessoais sobre qualquer assunto. O sujeito, informado sobre qualquer coisa, opina, não havendo espaço para acontecimentos. “A informação seria o objetivo, a opinião seria o subjetivo, ela seria nossa reação subjetiva ao objetivo” (LARROSA, 2002, p. 23). Essa reação tornou-se automática, às vezes obsessiva
porque a todo momento temos que ter um julgamento preparado sobre qualquer assunto. “Diga- me o que você sabe, diga-me com que informação conta e exponha, em continuação, a sua opinião: esse o dispositivo periodístico do saber e da aprendizagem, o dispositivo que torna impossível a experiência” (LARROSA, 2002, p. 23).
A experiência é cada vez mais rara, também por falta de tempo. A velocidade em que as coisas acontecem e a obsessão pelo novo, deixam o sujeito incapaz de silêncio; ele quer consumir notícias, novidades, está excitado o tempo todo e quer opinar, ser identificado, prever algo. E o acontecimento significa para o autor, exatamente o contrário, “o que não pode ser integrado, nem identificado, nem compreendido, nem previsto” (LARROSA, 2001, p. 282). Os acontecimentos, para os sujeitos incapazes de experiências, não têm conexão significativa, reduzem-se a estímulos fugazes e provocam falta de memória, já que a excitação momentânea é incapaz de deixar vestígios.
Esse sujeito da formação permanente e acelerada, da constante atualização, da reciclagem sem fim, é um sujeito que usa o tempo como um valor ou como uma mercadoria, um sujeito que não pode perder tempo, que tem sempre de aproveitar o tempo, que não pode protelar qualquer coisa, que tem de seguir o passo veloz do que se passa, que não pode ficar para trás, por isso mesmo, por essa obsessão por seguir o curso acelerado do tempo, este sujeito já não tem tempo. (LARROSA, 2002, p. 23)
E por fim, para Larrosa (2002), a experiência é cada vez mais rara por excesso de trabalho. Primeiro, é necessário relembrar que para o autor, experiência não tem a ver com prática ou ação, e sim com sentido, paixão. E o trabalho suscita essa ideia de que a partir dele se adquire experiência, que o saber vem da prática, tornando-se assim uma mercadoria de troca. Tudo é pretexto para o sujeito moderno entrar em atividade, produzir ou regular algo, independentemente de estar motivado ou não, se faz sentido ou não, se tem desejo ou não, sempre quer mudar algo. Isso não quer dizer que o trabalho não possa ser lugar da experiência, às vezes no trabalho algo nos atravessa sem ser intencional, algo nos expõe. Mas quando isso acontece, é porque a lógica da ação ou da prática está suspensa, e o sujeito, aberto, disponível, vulnerável (LARROSA, 2011).